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Você
conquista o meu respeito e a minha admiração pelo simples fato de
se mostrar humano.
Humano como você é. Do jeito que você é.
Humano como todos nós somos.
Humano com todos os seus sentimentos e pensamentos.
Humano do mesmo modo que nós existencialistas pregamos
em nossos discursos teóricos, mas que nem sempre conseguimos mostrar,
em nossas atitudes. Pois nós existencialistas pregamos a liberdade
como um dos valores mais importantes. Mas nem sempre conseguimos nos
libertar de nós mesmos, a ponto de aceitar a liberdade e a libertação
do outro.
Humano como me sinto em meu consultório, quando me
lembro das diversas vezes em que constatei que havia ajudado meu cliente
a conquistar uma liberdade que eu mesmo almejava, mas que ainda não
possuía.
Humano quando penso que a esperança que sempre me moveu a
continuar atendendo meus clientes foi acreditar que, se eles hoje
podem, também eu poderei um dia!
Humano
do mesmo modo que nos ensinou Fernando Pessoa em seu Poema em Linha
Reta:
Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.
Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...
Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,
Arre, estou farto de semi-deuses!
Onde é que há gente no mundo?
Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?
Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído.
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que tenho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.
Fernando Pessoa
in Obra Poética
Companhia Aguilar Editora
Portanto, prezado leitor, seja bem vindo ao miserável
mundo dos humanos, onde estamos miseravelmente sós.
E, se você já leu Heidegger, sabe muito bem que podemos
interpretar esta solidão tanto como abandono quanto como liberdade.
A escolha é, e sempre será sua.
E para isso você não pode esperar garantias de ninguém!
Afinal todos nós humanos habitamos o mesmo território da dúvida.
Mas seja qual for a sua decisão, conte com o meu
respeito e a minha admiração pelo simples fato de você ser humano
como eu sou.
Humano, simplesmente humano.
Psicólogo
Jadir Lessa
Psicoterapeuta Existencial
Autor dos livros Solidão e Liberdade e A
Construção do Poder Pessoal
Autor
dos seguintes artigos publicados no Jornal Existencial:
A
Ética Como Estética da Existência
A
Origem da Psicoterapia Existencial
Solidão
e Liberdade
Humano,
Simplesmente Humano
A
Felicidade como Possibilidade Existencial
e.mail:
jadirlessa@easyline.com.br
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