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| Psicóloga Gabriela
Bessa |
A questão mais anterior e
fundamental que vai permear toda a relação pais e
filhos e que será colocada em cheque no momento da
separação, é o amor entre pais e filhos. Parece algo
simples, amor entre pais e filhos é visceral, natural,
inquestionável. Contudo a realidade de como as
relações se constroem mostra um outro quadro, muitas
vezes evidenciada pela situação da separação do
casal.
Pais têm diversas atitudes para com seus filhos
que, às vezes, passam por atitudes amorosas mas que na
verdade mostram insegurança, dúvida, ambiguidade,
obrigação. Isso ocorre principalmente porque a
sociedade nos educa com fortes paradigmas que estão
arraigados tanto por uma educação socialmente
constituída, quanto pela educação familiar que, por
conseguinte, reproduzimos nas nossas relações pessoais.
O principal paradigma que está sempre presente e
que rege as relações é que: Todo pai/mãe ama seu
filho/filha e vice-versa, ou seja, que: Todo filho/filha
ama seu/sua pai/mãe. Parece uma verdade inquestionável.
É um amor instituído, quer queira, quer não.
Ao vir ao mundo a criança já chega com esse
dever e os pais, uma vez tendo escolhido desempenhar essa
função social, passam a ter essa mesma obrigação, mas
com um roteiro a seguir: amar, cuidar, educar (ensinar o
que é certo, o que se deve ou não deve fazer) e
encaminhar seus filhos na vida, sabendo o que é melhor
para eles.
Esse script parece muito lógico enquanto a
priori, mas a vida das pessoas não acontece tão
rigidamente, como receita de bolo, ou como produção em
série de uma fábrica. Quando se trata de pessoas, de
relacionamento humano, o que se apresenta é exatamente o
que é mais característico da humanidade, isto é, a
particularidade, o singular, a imprevisibilidade, as
infinitas motivações para realizar uma vida, o desejo.
Considerando a perspectiva acima, o ser humano é
um eterno devir, ou seja, vai se construindo e
construindo sua relação com o outro na vivência, na
experiência do cotidiano. Ainda que se faça planos,
trace metas, não há garantia de que os planos ocorram
exatamente como teorizados, possivelmente não
acontecerão exatamente como idealizados. Porque a todo
momento se está mudando de idéia, se está mudando de
sentimento, tanto em relação a si próprio quanto em
relação aos outros e isto acontece na relação com o
outro, já que o ser humano é especialmente passível de
transformação. Então não é possível saber-se pais
antes de sê-lo. Parte-se do zero, pais são tão somente
pessoas que tiveram filhos.
A nova função, pais, ocorre em meio a uma
mistura de relações e sentimentos. Cada um traz as suas
referências da figura de pai e mãe de sua família de
origem, as suas expectativas de como deseja constituir
esse novo papel, da forma como acha que deve ser, o tipo
de educação, as motivações para esse novo passo, o
sentimento envolvido em relação ao cônjuge, etc. Todos
esses aspectos se interrelacionam considerando ainda os
paradigmas citados mais acima. Então, a todo momento os
pais são testados entre o que desejam como pais e o que
realmente são.
Quando permanecem referenciados no paradigma,
Todo pai/mãe ama seu filho/filha que, no caso de haver
mais filhos, costuma se estender para: Todo pai/mãe deve
amar seus filhos da mesma forma, o conflito entre seguir
essas leis e seguir o que se sente é enorme. Aparece a
insegurança, a cobrança, as dúvidas, os sentimentos
ambíguos e, principalmente se houver uma situação
penosa como a separação para incrementar a dificuldade,
muitas vezes, os pais confundem amar seus filhos com
atitudes amorosas compensatórias. Essa confusão se
torna mais evidente e mais utilizada com o advento da
separação.
É muito comum dificuldades com limite, com a
diferença entre o que se pode ou não deixar os filhos
fazerem de suas vidas. A diferença essencial nesse
aspecto, em que os pais imersos em seus conflitos não
articulam muitas vezes, é que amar seus filhos significa
deixar que façam o que querem com responsabilidade, ou
seja, nem sempre se pode fazer o que quer, existem
limites que precisam ser considerados. Este comportamento
é uma forma de cuidado e atenção imprescindível para
a criança. Assim é possível liberdade com
responsabilidade como forma de amar. Diferentemente de
deixar a criança fazer o que quer sem levar em conta a
segurança da criança, ou seja, tanto a integridade
física quanto a psíquica, no que se refere ao mundo que
ela irá enfrentar. (aparente liberdade)
Como a criança vê a separação dos pais?
A criança, assim como o adulto, também convive
com paradigmas, principalmente diante de situações
novas, desconhecidas e conflitivas como a separação.
Abaixo estão alguns fantasmas que as crianças vivem com
a nova situação de sua família que são de suma
importância para os pais entenderem como as crianças
imaginam, pensam e sentem sobre tudo o que está
ocorrendo:
"Se papai e mamãe não se amam mais, então podem
deixar de me amar a qualquer momento."
A criança demora a entender que os pais se
separaram mas não perderam os pais, eles deixaram de ser
marido e mulher mas não deixaram de ter o sentimento de
amor de pais. Para a criança os papéis: marido, mulher,
pai e mãe são indissociáveis. Então quando acontece a
separação, leva algum tempo para a criança entender
que não perdeu seus pais.
Muitas vezes os próprios pais contribuem para
que a criança sinta como se estivesse perdendo um ou
outro. Ex: Quando se pergunta para uma criança: Quem ela
escolhe? ( ficar com a mamãe ou com o papai?) De quem
ela gosta mais, do papai ou da mamãe? Cria-se uma
situação altamente ansiogênica para a criança. Esta
sente que deve escolher entre um e outro exclusivamente,
como se ao escolher ficar com um, não ficará mais com o
outro não só em relação a morar, mas também quanto a
abdicar da relação pai/filho ou mãe/filho, do
sentimento, da intimidade, do amor. É como se fosse algo
definitivo.
Para os pais também não é muito diferente,
quando a criança fica com um ou com o outro, o cônjuge
que não mora mais na mesma casa, se afasta como se algo
tivesse quebrado. Nesse momento a relação entre o
cônjuge que está distante fisicamente e o filho está a
prova, ou seja, será que esse afastamento é somente
circunstancial ou será que a relação estava
fragilmente calcada na determinação do papel social
onde o que prevalece é tão somente o paradigma: Todo
pai/mãe deve amar seu filho?
"Se eles brigaram e não querem mais viver juntos,
é por minha causa, pois aposto que discutiram sobre
mim."
A criança acha que tudo gira ao seu redor,
portanto todas as brigas tem a ver com ela. Às vezes os
pais realmente brigam por causa da criança, isto é, por
divergências na educação, nos cuidados, nas
obrigações, mas descuidam quando discutem na frente da
criança. Não que se deva esconder tudo o que acontece,
mas é necessário que se escolha o momento e a forma
adequada de passar para a criança o que está ocorrendo,
como um filtro, dando condições, considerando sua
idade, para que ela possa entender e participar do que
houve.
"Papai (mamãe) não mora mais aqui, não tem
porque vir aqui, não liga mais pra mim."
A distância física algumas vezes é
justificativa para muitos comportamentos dos pais tanto
os que se distanciam quanto aqueles que passam a ser mais
presentes do que quando moravam juntos.
Por todas as desavenças de marido/mulher, por
tudo o que a casa lembra daquele relacionamento, o
cônjuge que vai para uma outra casa, tem muitos motivos
para não querer aparecer na antiga casa e, às vezes,
mistura os papéis deixando de ir lá, perdendo a
frequência de ver os filhos que também moram naquela
casa. Mesmo quando alguns pais fazem questão de ser
presentes, por não habitarem mais a mesma casa, já
imprime uma grande diferença de rotina para as crianças
que sentem com os dias e horas a menos de convivência.
E a separação para os pais?
Para os pais é tão difícil quanto para as
crianças, porque a situação da separação, seja
amigável ou não, de qualquer forma implica em perdas
para ambos, e dependendo de como foi sua relação, isto
é, o papel que cada um ocupava antes do rompimento, vai
afetar diretamente as relações posteriores. Por
exemplo: Se o pai já não era muito presente, se torna
totalmente ausente. Se a mãe já era protetora, do tipo
que resolve tudo, vira super mãe. Se o pai era apegado
aos filhos, se torna pegajoso etc.
É como se colocasse uma "lente de
aumento" movida pelas inseguranças, dores,
ressentimentos que a nova situação (separados) lançou
cada ex-cônjuge. Desencadeia uma necessidade de
compensar aquilo tudo o que foi perdido. É como se
alguém tivesse morrido e as pessoas ainda estivessem de
luto, muito presas a esse passado, ainda não vislumbram
o que ganharam estão apenas olhando para o que perderam,
então tentam compensar a si e aos outros.
Ao se deparar com o fato de que aquela relação
morreu e que com ela foi junto todo um conjunto de
trocas, sejam afetivas, financeiras, responsabilidades, e
outras, independente de terem sido agradáveis ou não,
cada ex-cônjuge experiencia uma nova rotina que modifica
toda a dinâmica familiar. Com isso, a vida dos filhos
muda inevitavelmente no que diz respeito a esse novo
ex-casal. Este herda a relação com os filhos mais a
relação com o ex-cônjuge.
Muitas dúvidas, incertezas, sentimentos,
ressentimentos perpassam essa nova família. Assim como a
criança, sente culpa pela separação dos pais, estes
também sentem-se culpados em relação aos filhos por
causa da separação. Daí várias atitudes
compensatórias por parte dos pais após o rompimento.
Essa culpa existe porque a vida da criança, bem
como a dos adultos, irão sofrer mudanças às quais se
remetem à decisão dos pais se separarem. Como por
exemplo, a privação da convivência diária com o pai
ou a mãe que não mora mais na casa. Aquele que ficou
sente-se culpado pela tal falta que o outro fará na vida
da criança. E aquele que foi para uma outra casa
sente-se culpado por estar distante. Este pode até
achar-se totalmente dispensável na vida da criança, se
afastando por achar que não tem direito, nem lugar nessa
nova forma de viver. Isso acontece porque a separação,
amigável ou não, é vista como um fracasso familiar do
qual os cônjuges são seus algozes resultando em uma
visão simplista e punitiva de que: "Se não sou
capaz de manter meu casamento, consequentemente não
tenho competência para exercer o meu papel nessa
família."
A consequência dessa visão distorcida é a
eliminação dos dois papéis: o de parceiro(a) e o de
pai/mãe. Há uma enorme insegurança quanto a
competência de cada um nesses papéis que se denuncia em
situações compensatórias com os filhos, como por
exemplo: no presentear demais os filhos; ao sugerir que a
criança escolha com quem quer ficar e, consequentemente,
quer saber quem ela ama mais; ao proteger o filho ao
máximo possível para que ele escolha estar sempre
junto, etc.
Além da insegurança em relação a competência
tem também a questão de achar que seus filhos estão
marcados por um desfavorecimento no mundo em relação
às outras crianças que têm seus pais convivendo
juntos.
Essa confusão dura algum tempo e vai perdurar ou
não dependendo de como essa nova família vai se
estruturar e assumir a nova realidade. Portanto, os
ex-cônjuges são responsáveis pela separação e não
culpados dela, como se fosse um erro irreparável do erro
de terem um dia se escolhido.
A responsabilidade da separação e suas
consequências não determinam prejuízo para os filhos
mas, a culpa dos pais, esta sim, torna-se um peso para a
criança pois esta percebe e sente a insatisfação e a
confusão que seus pais estão imersos e, assim, a culpa
dos filhos acaba por ser alimentada.
Após o período de luto, de confusão, quando a
realidade supera os fantasmas, pode surgir a
possibilidade de organização de uma nova família a
partir da inserção de um novo membro - o marido da mãe
ou a nova esposa do pai.
Psicóloga Gabriela Bessa
Psicoterapeuta Existencial,
Professora Assistente e Diretora de
Marketing Institucional da SAEP.
Autora dos seguintes artigos
publicados no Jornal existencial On Line:
gabriela.bessa@openlink.com.br
http://www.existencialismo.org.br/psicoterapeuta/gabriela.html
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