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Psicóloga
Gabriela Bessa
Estamos entrando em um novo século, vivemos as mazelas de um fim de
ciclo e com isso, é comum o ser humano fazer uma avaliação de si e
do mundo. Ao fazer um curta metragem, na nossa tela mental, do que
o ser humano tem passado neste século e como está chegando ao final,
devemos considerar mudanças significativas e aceleradas de acordo
com o ritmo dessa nossa época: um grande desenvolvimento tecnológico,
um grande tumulto político-social (duas grandes guerras, diversas
outras espalhadas pelo mundo, a queda do comunismo e a hegemonia do
capitalismo, globalização, etc.), a consolidação da ciência, a ampliação
e, de uma certa forma, a modernização da religião, o direito de falar,
expressar e o poder que isso confere, grandes pensadores do mundo
moderno tentando entender e traduzir o que acontece e também criar
conhecimentos novos a partir daí, a humanidade vivendo em meio a muitos
paradoxos, conflitos interiores e exteriores.
Ou seja, ao mesmo tempo que se tem o homem a serviço de um interesse
em particular, formando opiniões de acordo com uma ideologia restrita
ao benefício próprio ou de uma minoria, chegamos ao fim do século
XX também com o homem que defende uma ideologia ampla, ocupado da
ecologia como meio de sobrevivência do próprio ser humano.
Assim, este homem é bastante empreendedor, criativo, dinâmico tanto
para construir-se quanto para destruir-se. Chegamos no fim do século,
com grandes realizações mas também com um ser humano conturbado com
tantas mudanças, principalmente mudanças de referencial, de valores,
de critérios, de ética, de forma tão acelerada que muitas vezes não
há tempo para digerir e adaptar todos esses eventos à vida cotidiana
de cada cultura, de cada povo, de cada família, de cada indivíduo.
As pessoas vivem imersas na cotidianidade ora anestesiadas no meio
dessa confusão, ora angustiadas buscando algum sentido, alguma maneira
de viver melhor consigo e com os outros. Uma forma de busca dessa
qualidade de vida acontece quando a pessoa entra em contato consigo
mesma, ampliando sua forma de ver a si, de redefinir o sentido das
coisas do mundo em relação a si e consequentemente da mudança de como
se trata e se relaciona com as outras pessoas. Para que tudo isso
seja possível, é necessário um processo de grande reflexão, de mergulho
dentro de si mesmo, para tanto a psicoterapia é o serviço que visa
promover esse processo.
O psicoterapeuta é o profissional mais indicado para auxiliar o outro
que está com algum sofrimento, angustiado, confuso em relação a si
ou quando envolve outras pessoas. Pode ser uma criança que não esteja
se relacionando bem com os colegas, e seus pais não estão conseguindo
lidar com isso sozinhos; pode ser um adolescente que está em pleno
conflito pelo momento que está passando que é construir-se como um
futuro adulto, questionar valores, formar opinião; ou um adulto que
está descobrindo, por exemplo, que não está feliz com a vida que está
levando, sente necessidade de mudar algo, mas não sabe o que e nem
como mudar. Esses são apenas alguns dentre milhares de exemplos que
poderiam ser citados levando em conta o tipo de vida que a humanidade
tem vivido.
Quanto ao psicoterapeuta, este estuda diversas formas de ver o homem
considerando que ele está no mundo inserido na história que já foi
explicitada no início deste artigo. Isto significa que ele escolhe
a forma de ver o homem e consequentemente como irá trabalhar na sua
prática de consultório.
O profissional que considera o ser humano como um indivíduo que possui
sua singularidade na forma de ser e de estar no mundo e que portanto
este ser, sofre, se angustia, que está no mundo da forma que pode
no momento, mesmo que insatisfeito, que sente solidão, que não se
apropria das suas escolhas na vida, que se mostra sem sentido, tem
uma orientação em seu trabalho chamada de Psicoterapia Existencial.
Esta abordagem trabalha a fim de que o cliente se revele, em primeiro
lugar, para si mesmo descobrindo como é e a partir daí, poder ver
como está se relacionando com o mundo, para se apropriar de como tem
escolhido ser e estar consigo e com os outros, responsabilizar-se
por sua vida. Isto significa olhar para dentro de si, reconhecer-se,
assumir para modificar-se caso considere que é devido, ou seja, buscar
um sentido mais próprio para sua vida. Constitui em uma investigação
que auxilia o cliente a encontrar o próprio caminho, buscando compreendê-lo
com todo seu sofrimento, alegria, temor, levando em conta suas crenças
sem julgá-lo, sem criticá-lo.
A Psicoterapia Existencial ocupa-se com as mais diversas demandas
que uma pessoa possa ter ao chegar ao consultório. Tudo aquilo que
é próprio do ser como indivíduo que está no mundo é interesse do psicoterapeuta
existencial. Assim, cabe tanto a busca do auto conhecimento quanto
a queixa de um sofrimento específico daquele cliente, seja adulto,
adolescente ou criança.
Por exemplo, a criança chega no consultório com queixas dos pais e/ou
da escola sobre comportamento agressivo, ou inadequado para a idade
(muito infantilizada), ou porque adoece muito, sem grandes motivos.
Dessa forma, todos os sintomas aparecem como alarmes de que algo não
está indo bem. Na perspectiva existencial, os sintomas revelam-se
como o único modo de existir possível para aquela criança no momento.
A criança é atendida pela ludoterapia, isto é, uma forma de psicoterapia
através do brinquedo, que na abordagem existencial tem como objetivo
que a criança possa expressar melhor seus sentimentos, seu jeito de
ser, sua forma de se perceber e de perceber o mundo, através das relações
que estabelece consigo mesmo, com o psicoterapeuta, com as outras
crianças, com sua família, com a escola, enfim, com todos que fazem
parte de sua vida.
A ludoterapia na abordagem existencial pretende que a criança costrua
uma forma mais atuante, mais responsável, enfim, mais autêntica de
estar no mundo. Os sintomas podem, a partir daí, ceder, pois quando
a criança pode estar de uma forma melhor para ela interagindo com
o mundo, não precisa mais adoecer tanto, por exemplo. Ou ainda, não
se trata de simplesmente explicar a ela que não se deve bater nos
colegas, mas sim de compreender o que está acontecendo para ela escolher
essa forma de estar se relacionando com as pessoas.
Esta abordagem de psicoterapia privilegia o olhar sobre o cliente
como um ser humano que está sentindo e interagindo com o mundo de
uma forma particular e que, com o processo psicoterápico ampliará
o leque de possibilidades de ser e estar no mundo, de existir de forma
mais plena podendo ser uma pessoa mais feliz e aí tocar o mundo, imprimir
sua marca de uma forma melhor.
Agosto de 1999.
Psicóloga Gabriela Bessa
Psicoterapeuta Existencial,
Professora Assistente e Diretora de
Marketing Institucional da SAEP.
gabriela.bessa@openlink.com.br
http://www.existencialismo.org.br/psicoterapeuta/gabriela.html
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