| Psicóloga Tereza Camasmie

Trabalhar
com crianças é sobretudo estar em contato com as suas emoções e, também,
com as nossas o tempo todo. Por isso o trabalho de psicoterapia infantil
é um dos que mais exige do terapeuta, pois estar com essa disponibilidade
afetiva constantemente, não é tarefa fácil. Vamos então falar um pouco
dessas emoções.
Emoção = ex + movere = mover-se para fora. Então,
quem se emociona faz um movimento de dentro para fora. É um revelar-se.
É um modo pelo qual eu quero que algo seja. É a maneira de eu me comunicar
com o mundo. Desta maneira, quero dizer que o emocionar-se, o sentir,
é intencional. Tem um para quê. Quando eu não posso ou não quero tomar
consciência do que sinto ou estou fazendo dos meus sentimentos (isto
é intencional), modifico meu comportamento, "bloqueio" minha
autenticidade, passo a agir conforme o outro espera de mim, e não
me acredito ser alguém com merecimento e possibilidade de ser o que
eu sou. Desta maneira, não posso sentir o que eu sinto, pensar o que
eu penso e assim por diante, que em síntese seria, eu não posso existir
neste mundo. Será tarefa do terapeuta auxiliar nesse processo de comunicação
da criança consigo mesma, restaurar essas pontes que ligam a criança
à ela mesma, através do reconhecimento e da aceitação daquilo que
sente, sem julgamentos, conceitos ou diagnósticos. Para que ela possa
se sentir respeitada como ser que é e que pode vir-a-ser se quiser,
e se responsabilizar por isso. A partir daí a comunicação da criança
com o mundo será um processo inevitável e natural.
Em vista disso, quando a criança é trazida ao consultório
por um comportamento inadequado, é preciso estar atento para perceber
que é a maneira de a criança dizer para nós: "olha, esta é a
maneira que eu estou tentando para sobreviver neste mundo. É o melhor
que eu posso fazer, neste momento, para suportar as dificuldades que
eu tenho tido na minha vida". Pergunto então para você: cabe
algum rótulo para isso? Cabe dizer que a criança está doente? Cabe
dizer que esta criança é uma criança problema, ou criança agressiva,
ou criança com distúrbio de comportamento e etc...? Ou cabe crer que
esta criança é muito corajosa de estar pelo menos tentando, do seu
jeito, ser-no-mundo? Ver a criança tal como ela se apresenta, tal
como ela está diante de você, e auxiliá-la no processo de encontrar-se
consigo mesma, esta é a finalidade da ludoterapia infantil.
Mas continuando o assunto do sentir, temos aqui então
dois aspectos do sentir:
1º) O aspecto regressivo do sentimento = tem a ver com o passado,
com causas. O terapeuta investiga a infância, a gestação, o desejo
da família, a relação anterior da criança com o mundo. São as razões
pelas quais a criança hoje age desta ou daquela maneira. Nesse estágio,
o terapeuta investiga os porquês.
2º) O aspecto progressivo do sentimento = tem a ver com o futuro.
São aspectos que se iniciam no presente e apontam para o futuro. O
terapeuta vai investigar aqui os propósitos pelos quais a criança
é no mundo desta ou daquela maneira. Nesse estágio, o terapeuta vai
investigar o para quê. Ë a indagação da finalidade.
No primeiro aspecto há um determinismo. Isso causa
isto e aquilo. No segundo aspecto estamos lidando com a possibilidade
de novas experiências, logo, com a liberdade do ser. É a visão existencialista.
A liberdade com que a criança precisa entrar em contato para que possa
fazer transformações internas, através da conscientização de suas
escolhas e o conseqüente responsabilizar-se por elas. Ela precisa
sentir-se livre para escolher-se, para ser aquilo o que é, para abrir
mão dos sintomas e expressar-se de forma natural e consciente. Readiquirir
seu estado natural criativo e de autorespeito por aquilo que sente,
pensa, intui e percebe.
Segundo Rollo May:
"O ser participa da formação do seu futuro, em virtude da sua
capacidade de conceber e reagir a novas possibilidades e trazê-las
para fora da imaginação, experimentando-as na realidade". (Amor
e Vontade - Ed. Vozes)
Bibliografia Sugerida para Trabalho com Crianças:
O frio pode ser quente? (Jandira Mansur - Ed. Atica); Maria vai-com-as-outras
(Sylvia Orthof - Ed. Atica); O equilibrista (Fernanda Lopes de Almeida
- Ed. Atica); Coisas da lua (Álvaro Ottoni de Menezes - Ed. Nórdica);
Mãe é mulher do pai (Werner Zotz - Ed. Nórdica); O dicionário de Serafina
( Cristina Porto - Ed. Atica); Eu e meu corpo (David Evans - Ed. Atica);
Papai, mamãe e eu (Marta Suplicy - Ed. FDT); O chapeuzinho amarelo
(Chico Buarque de Holanda - José Olímpio Editora); A cadeira do dentista
e outras crônicas (Carlos Eduardo Novaes - Ed. Atica); Quem roubou
o meu futuro? (Sylvia Orthof - Ed. Atual); Coleção Assim é se lhe
parece (Sylvia Orthof - Ediouro); Mais-que-perfeita adolescente (Sylvia
Orthof - Ediouro); Papos de anjo (contos para adolescentes, Sylvia
Orthof - Ed. Record); Eu sou mais eu! (Sylvia Orthof - Ed. Moderna);
Se as coisas fossem mães (Sylvia Orthof - Ed. Nova Fronteira); Descobrindo
crianças (Para o terapeuta, Violet Oaklander - Summus Editorial).
Psicóloga Ana Tereza Camasmie
Psicoterapeuta Existencial formada pela SAEP
http://www.existencialismo.org.br/jornalexistencial
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