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| Psicóloga Flávia
Cristina Santos de Souza e outros |
Composição física e
funcional
No quadro de localização das clínicas nos
corredores do hospital, a Pediatria é identificada por
um sol.
Nos espaços utilizados pela clínica pediátrica as
paredes e os tetos são pintados a mão com cenas
familiares e infantis.
Ao chegarmos na clínica pediátrica encontramos 3
enfermarias interligadas (201, 202 e 203) onde ficam as
crianças menores e os bebês. Mais adiante, na
enfermaria 205 encontramos as crianças maiores, esta
enfermaria, assim como as anteriores tem 4 leitos que
atendem a crianças de ambos os sexos, sendo esta
subdividida por uma divisória que separa seus leitos, a
fim de evitar constrangimentos entre esses adolescentes.
O isolamento é uma enfermaria específica para pacientes
com doenças infecto-contagiosas com apenas dois leitos.
As duas unidades intensivas (Uis) ainda estão inativas
por estarem em fase de estruturação.
A
enfermaria 206 recebe casos de traumato-ortopedia que, em
sua grande maioria, são crianças mais velhas. Como esta
enfermaria não possui divisória tem-se observado em
alguns pacientes uma certa dificuldade na hora da
higiene, causada pela inibição em relação a seu corpo
e o olhar do outro, o que se exacerba frente ao sexo
oposto.
A
enfermaria 204 é utilizada como sala de recreação,
contendo uma TV, duas mesinhas cada qual com 4
cadeirinhas e algumas poltroninhas que são utilizadas,
tanto pelas crianças que estão podendo sair dos seus
leitos quanto por seus acompanhantes.
O
posto de enfermagem é constituído por dois espaços: um
onde ficam prontuários, medicações, fraldas e tudo
mais relativo ao atendimento dos pacientes, e uma sala
destinada a equipe de enfermagem que se compõe de seis
pessoas; sendo uma enfermeira e cinco auxiliares de
enfermagem que se revezam a cada plantão de 12 por 60 h.
A
sala da chefia médica é a sala dos pediatras que
também é utilizada por profissionais envolvidos no
tratamento destes pacientes.
O
refeitório é uma criação recente, localizado no
antigo lactário que foi desativado por falta de uso. E
como o hospital fornece refeições aos acompanhantes e
estes comiam, praticamente, nos leitos das crianças,
esse espaço ganhou maior utilidade transformando-se num
refeitório que é usado sempre que possível.
O
banheiro dos acompanhantes é também utilizado pelas
crianças quando estas tem a possibilidade de se
locomover e por seus acompanhantes, na realização da
sua assepsia.
Características Singulares
A clínica pediátrica recebe crianças de 0 a 15
anos, com as mais diversas patologias; constatamos que
nas de 0 a 2 anos existe uma grande incidência de
pneumonia e bronqueolite.
Como esta clínica tem uma grande rotatividade nosso
trabalho está enfocado nos sentimentos de abandono,
dependência, rejeição, solidão e fantasias de morte
gerados pela perda do domínio sobre o próprio corpo,
além da separação do seu meio familiar e social,
enfim, na angústia proveniente da dor, da doença e do
tratamento da criança e do acompanhante hospitalizados.
Na
maioria dos casos quem acompanha a criança é a mãe,
tendo em vista que ao pai é vetada a permanência nestas
enfermarias durante a noite.
Somente quando não é possível a permanência da mãe
ou de outro familiar do sexo feminino é permitido ao pai
acompanhar a criança durante o dia.
Na medida em que o acompanhante fala pelo
paciente e se interna com ele, misturam-se os papéis
quando lhes é cobrado o auxílio nos cuidados com a
higiene, o soro e outras funções que deveriam ficar a
cargo da enfermagem, confundindo acompanhamento com
responsabilidade no tratamento da criança. Quando o
ideal seria que aos acompanhantes coubesse apenas o lugar
de par-ciente do "suporte afetivo" que se faz
tão necessário frente a internação, entretanto, o que
observamos é um despreparo principalmente quando as
mães são menores de idade e ainda tem pouco claro o
papel que começam a desempenhar neste momento.
Outra
característica singular é que os pacientes pediátricos
não ficam restritos ao espaço reservado a eles, o que
aumenta a angústia frente a internação. Por exemplo, a
criança queimada, que vai para o isolamento da clínica
de cirurgia plástica junto com adultos.
Nas
internações de longa duração, a partir de duas
semanas, que para a pediatria podem ser consideradas
longas, observamos um certo desgaste no acompanhante
expresso através de conflitos localizados no
relacionamento deste com a enfermagem e com outros
acompanhantes. Onde procuramos ressaltar o sofrimento
materno como ponto comum e através disso buscar um maior
entendimento para esses conflitos que a internação
prolongada gera pelo distanciamento da melhora e
consequentemente da volta para casa.
A
alta hospitalar não está implicada unicamente com a
recuperação da criança, mas também no seu
reconhecimento enquanto cidadão, na medida em que, ele
só poderá sair do hospital com a apresentação da
certidão de nascimento. Isso se faz necessário, não
só do ponto de vista legal, mas no que se refere a
conscientização dos pais da importância da identidade
da criança.
De paciente a indivíduo
Paciente: é aquele que tem paciência, que é
passivo, que recebe a ação praticada por um agente, no
caso do hospital, de um profissional de saúde.
Indivíduo: pessoa com capacidade para ser
sujeito ativo ou passivo de uma ação ou um estado,
exercendo ou adquirindo direitos.
Num hospital todos que estão internados são
reconhecidos como pacientes e identificados por sua
doença ou pelo número do leito que ocupam. Entretanto,
cada um compõe essa coletividade com sua singularidade,
sua história, seu ser uno.
Etimologicamente, hospital quer dizer uma casa
onde se recebe hóspedes. A criança ao chegar no
hospital estranha e se assusta com um ambiente, apesar de
bem cuidado, muito diferente daquele que esta acostumada
a freqüentar, como sua casa, a de seus familiares,
amigos e sua escola.
Separada de seus familiares, num lugar desconhecido por
um período de tempo indeterminado, ela se vê junto a
pessoas desconhecidas que, na maioria das vezes, em que
manuseiam seu corpo terminam por causar-lhe dor, incômodo
e constrangimento, além disso é unicamente nestes
momentos que estas pessoas tem um mínimo contato verbal
e por vezes afetivo com a criança.
Seja real ou não, esta dor soma-se à dor da
doença e das medidas hospitalares tais como a
inatividade física, regime alimentar e o isolamento.
A internação se apresenta para a criança como
uma dupla agressão, interna e externa a ela, na medida
em que a doença é um mal físico de origem interna e o
exame médico assim como os procedimentos utilizados para
o tratamento são sentidos como uma agressão de origem
externa.
Parece-nos muito difícil para a criança
compreender que tomar injeções, ficar com soro
intravenoso, estar longe de sua casa, da sua vida social,
das pessoas que ama é algo temporário e de que tudo o
que a machuca naquele momento tem como objetivo sua
melhora clínica.
Costumamos dizer aos pais que não convence
alegar que a dor é para o seu bem. Pois, a criança não
tem como acreditar que a dor (causada pelas injeções ou
pelos exames) possa ter algo de positivo.
Podemos perceber esse ponto com a fala de uma
criança de 3 anos que disse: - "Estou muito zangada
com minha mãe porque ela esta deixando a moça me
furar." Esta frase reforça o quanto é importante
orientar o acompanhante para que esclareça a criança de
que ela não está ali para ser castigada.
Há uma tendência muito grande de associarmos a dor ao
castigo e isso é algo que não concordamos que seja
atribuído a criança diante da hospitalização.
A doença é um mal físico, é um acontecimento
real que incide sobre o corpo biológico, porém,
enquanto indissociado do psíquico vem despertar
fantasias de fragmentação, mutilação e aniquilação.
Quando
a angústia gerada por essas fantasias não transtorna o
curso do desenvolvimento psico-afetivo da criança ela
consegue remediar a situação que se encontra, lidando
bem com seus efeitos. No entanto, caso a situação seja
inversa o mal da doença pode ser relacionada por ela a
um "mal" que tenha praticado e pelo qual
estaria sendo punida.
Por exemplo: menino que mentiu para a mãe
dizendo que estava com dor de barriga para não ir à
escola e quando sua mãe saiu para trabalhar ele foi
jogar bola, caiu, quebrou o braço e entendeu que estava
sendo punido.
Ou ainda, o entendimento das medidas
hospitalares, como dietas alimentares e os vários tipos
de isolamento que podem ser entendidos por algumas
crianças como uma forma de punição que se asemelham
aos castigos dados pelos pais.
Quando uma criança está doente, os pais
necessitam que o médico lhes dê um diagnóstico, que a
doença tenha um nome, um tratamento e, principalmente,
uma garantia de cura.
A doença age nas crianças como uma agressão
tal como nos pais, reativando seus problemas pessoais e
induzindo na busca de um culpado. Essa busca pode ser
traduzida por uma auto-acusação ou pela distribuição
de culpa aos outros, por exemplo, a criança doente, um
outro membro da família, a linhagem, o destino, Deus ou
o próprio médico. Tudo se passa como se o pai ou a mãe
se identificasse com o filho cujo corpo seria a base da
doença física, ao passo que, o pai ou a mãe seria a
base do sofrimento psíquico.
Pensando nisso, reconhecemos a necessidade de
pacientes e acompanhantes encontrarem uma forma de
expressar seus sentimentos frente a essa nova situação
e de se sentirem ouvidos, pois quando se calam o
silêncio da angústia faz um ruído ensurdecedor e essa
dor sem palavras desgasta e consome.
Colocando em ação o pensamento psicossomático
onde as partes compõem o todo e, exatamente por isso, o
todo só poderá existir se inteiro, promovemos uma
articulação na comunicação entre as crianças, os
acompanhantes e a equipe multidisciplinar no sentido de
interligar todos que circulam o paciente.
A atuação psicossomática nos propõe uma
ação por todos os sítios onde o lugar e a função de
cada profissional surgem da demanda do paciente,
promovendo uma mudança na sua condição de ser paciente
possibilitando sua individualização. E, na medida em
que se torna indivíduo ele passa a ser acompanhado pelos
profissionais que compartilham o lugar do saber, rompendo
as distâncias tornando-as eqüidistantes e eqüivalendo
entre eles sua importância e verdade.
Doutor e paciente passam a ter nome, cada um do
seu lugar com seu instrumental e possibilidades, formando
um corpo que interdisciplinarmente envolvidos visam a
mesma finalidade.
Quem disse que o paciente/indivíduo não pode ser agente
de seu processo de cura compartilhada?
Psicóloga Flávia Cristina Santos de Souza
Psicóloga Fernanda de Azeredo
Psicóloga Solange Mello Ferreira
Trabalho apresentado no Fórum de Psicossomática da
U.G.F. - Setembro/99
Psicóloga
Flávia Cristina Santos de Souza
Aluna da 9ª turma do Curso de Formação de
Psicoterapeutas Existenciais da SAEP.
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