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EDIÇÃO ESPECIAL Página atualizada em 29 de agosto de 2000

 

ARTIGO

 

Clínica Pediátrica: o Perfil de uma Internação Acompanhada no Hospital Estadual Carlos Chagas
 
Psicóloga Flávia Cristina Santos de Souza e outros

Composição física e funcional

No quadro de localização das clínicas nos corredores do hospital, a Pediatria é identificada por um sol.
Nos espaços utilizados pela clínica pediátrica as paredes e os tetos são pintados a mão com cenas familiares e infantis.
Ao chegarmos na clínica pediátrica encontramos 3 enfermarias interligadas (201, 202 e 203) onde ficam as crianças menores e os bebês. Mais adiante, na enfermaria 205 encontramos as crianças maiores, esta enfermaria, assim como as anteriores tem 4 leitos que atendem a crianças de ambos os sexos, sendo esta subdividida por uma divisória que separa seus leitos, a fim de evitar constrangimentos entre esses adolescentes.
O isolamento é uma enfermaria específica para pacientes com doenças infecto-contagiosas com apenas dois leitos.
As duas unidades intensivas (Uis) ainda estão inativas por estarem em fase de estruturação.

A enfermaria 206 recebe casos de traumato-ortopedia que, em sua grande maioria, são crianças mais velhas. Como esta enfermaria não possui divisória tem-se observado em alguns pacientes uma certa dificuldade na hora da higiene, causada pela inibição em relação a seu corpo e o olhar do outro, o que se exacerba frente ao sexo oposto.

A enfermaria 204 é utilizada como sala de recreação, contendo uma TV, duas mesinhas cada qual com 4 cadeirinhas e algumas poltroninhas que são utilizadas, tanto pelas crianças que estão podendo sair dos seus leitos quanto por seus acompanhantes.

O posto de enfermagem é constituído por dois espaços: um onde ficam prontuários, medicações, fraldas e tudo mais relativo ao atendimento dos pacientes, e uma sala destinada a equipe de enfermagem que se compõe de seis pessoas; sendo uma enfermeira e cinco auxiliares de enfermagem que se revezam a cada plantão de 12 por 60 h.

A sala da chefia médica é a sala dos pediatras que também é utilizada por profissionais envolvidos no tratamento destes pacientes.

O refeitório é uma criação recente, localizado no antigo lactário que foi desativado por falta de uso. E como o hospital fornece refeições aos acompanhantes e estes comiam, praticamente, nos leitos das crianças, esse espaço ganhou maior utilidade transformando-se num refeitório que é usado sempre que possível.

O banheiro dos acompanhantes é também utilizado pelas crianças quando estas tem a possibilidade de se locomover e por seus acompanhantes, na realização da sua assepsia.

Características Singulares

A clínica pediátrica recebe crianças de 0 a 15 anos, com as mais diversas patologias; constatamos que nas de 0 a 2 anos existe uma grande incidência de pneumonia e bronqueolite.
Como esta clínica tem uma grande rotatividade nosso trabalho está enfocado nos sentimentos de abandono, dependência, rejeição, solidão e fantasias de morte gerados pela perda do domínio sobre o próprio corpo, além da separação do seu meio familiar e social, enfim, na angústia proveniente da dor, da doença e do tratamento da criança e do acompanhante hospitalizados.

Na maioria dos casos quem acompanha a criança é a mãe, tendo em vista que ao pai é vetada a permanência nestas enfermarias durante a noite.
Somente quando não é possível a permanência da mãe ou de outro familiar do sexo feminino é permitido ao pai acompanhar a criança durante o dia.
Na medida em que o acompanhante fala pelo paciente e se interna com ele, misturam-se os papéis quando lhes é cobrado o auxílio nos cuidados com a higiene, o soro e outras funções que deveriam ficar a cargo da enfermagem, confundindo acompanhamento com responsabilidade no tratamento da criança. Quando o ideal seria que aos acompanhantes coubesse apenas o lugar de par-ciente do "suporte afetivo" que se faz tão necessário frente a internação, entretanto, o que observamos é um despreparo principalmente quando as mães são menores de idade e ainda tem pouco claro o papel que começam a desempenhar neste momento.

Outra característica singular é que os pacientes pediátricos não ficam restritos ao espaço reservado a eles, o que aumenta a angústia frente a internação. Por exemplo, a criança queimada, que vai para o isolamento da clínica de cirurgia plástica junto com adultos.

Nas internações de longa duração, a partir de duas semanas, que para a pediatria podem ser consideradas longas, observamos um certo desgaste no acompanhante expresso através de conflitos localizados no relacionamento deste com a enfermagem e com outros acompanhantes. Onde procuramos ressaltar o sofrimento materno como ponto comum e através disso buscar um maior entendimento para esses conflitos que a internação prolongada gera pelo distanciamento da melhora e consequentemente da volta para casa.

A alta hospitalar não está implicada unicamente com a recuperação da criança, mas também no seu reconhecimento enquanto cidadão, na medida em que, ele só poderá sair do hospital com a apresentação da certidão de nascimento. Isso se faz necessário, não só do ponto de vista legal, mas no que se refere a conscientização dos pais da importância da identidade da criança.

De paciente a indivíduo

Paciente: é aquele que tem paciência, que é passivo, que recebe a ação praticada por um agente, no caso do hospital, de um profissional de saúde.
Indivíduo: pessoa com capacidade para ser sujeito ativo ou passivo de uma ação ou um estado, exercendo ou adquirindo direitos.
Num hospital todos que estão internados são reconhecidos como pacientes e identificados por sua doença ou pelo número do leito que ocupam. Entretanto, cada um compõe essa coletividade com sua singularidade, sua história, seu ser uno.
Etimologicamente, hospital quer dizer uma casa onde se recebe hóspedes. A criança ao chegar no hospital estranha e se assusta com um ambiente, apesar de bem cuidado, muito diferente daquele que esta acostumada a freqüentar, como sua casa, a de seus familiares, amigos e sua escola.
Separada de seus familiares, num lugar desconhecido por um período de tempo indeterminado, ela se vê junto a pessoas desconhecidas que, na maioria das vezes, em que manuseiam seu corpo terminam por causar-lhe dor, incômodo e constrangimento, além disso é unicamente nestes momentos que estas pessoas tem um mínimo contato verbal e por vezes afetivo com a criança.
Seja real ou não, esta dor soma-se à dor da doença e das medidas hospitalares tais como a inatividade física, regime alimentar e o isolamento.
A internação se apresenta para a criança como uma dupla agressão, interna e externa a ela, na medida em que a doença é um mal físico de origem interna e o exame médico assim como os procedimentos utilizados para o tratamento são sentidos como uma agressão de origem externa.
Parece-nos muito difícil para a criança compreender que tomar injeções, ficar com soro intravenoso, estar longe de sua casa, da sua vida social, das pessoas que ama é algo temporário e de que tudo o que a machuca naquele momento tem como objetivo sua melhora clínica.
Costumamos dizer aos pais que não convence alegar que a dor é para o seu bem. Pois, a criança não tem como acreditar que a dor (causada pelas injeções ou pelos exames) possa ter algo de positivo.
Podemos perceber esse ponto com a fala de uma criança de 3 anos que disse: - "Estou muito zangada com minha mãe porque ela esta deixando a moça me furar." Esta frase reforça o quanto é importante orientar o acompanhante para que esclareça a criança de que ela não está ali para ser castigada.
Há uma tendência muito grande de associarmos a dor ao castigo e isso é algo que não concordamos que seja atribuído a criança diante da hospitalização.
A doença é um mal físico, é um acontecimento real que incide sobre o corpo biológico, porém, enquanto indissociado do psíquico vem despertar fantasias de fragmentação, mutilação e aniquilação.

Quando a angústia gerada por essas fantasias não transtorna o curso do desenvolvimento psico-afetivo da criança ela consegue remediar a situação que se encontra, lidando bem com seus efeitos. No entanto, caso a situação seja inversa o mal da doença pode ser relacionada por ela a um "mal" que tenha praticado e pelo qual estaria sendo punida.
Por exemplo: menino que mentiu para a mãe dizendo que estava com dor de barriga para não ir à escola e quando sua mãe saiu para trabalhar ele foi jogar bola, caiu, quebrou o braço e entendeu que estava sendo punido.
Ou ainda, o entendimento das medidas hospitalares, como dietas alimentares e os vários tipos de isolamento que podem ser entendidos por algumas crianças como uma forma de punição que se asemelham aos castigos dados pelos pais.
Quando uma criança está doente, os pais necessitam que o médico lhes dê um diagnóstico, que a doença tenha um nome, um tratamento e, principalmente, uma garantia de cura.
A doença age nas crianças como uma agressão tal como nos pais, reativando seus problemas pessoais e induzindo na busca de um culpado. Essa busca pode ser traduzida por uma auto-acusação ou pela distribuição de culpa aos outros, por exemplo, a criança doente, um outro membro da família, a linhagem, o destino, Deus ou o próprio médico. Tudo se passa como se o pai ou a mãe se identificasse com o filho cujo corpo seria a base da doença física, ao passo que, o pai ou a mãe seria a base do sofrimento psíquico.
Pensando nisso, reconhecemos a necessidade de pacientes e acompanhantes encontrarem uma forma de expressar seus sentimentos frente a essa nova situação e de se sentirem ouvidos, pois quando se calam o silêncio da angústia faz um ruído ensurdecedor e essa dor sem palavras desgasta e consome.
Colocando em ação o pensamento psicossomático onde as partes compõem o todo e, exatamente por isso, o todo só poderá existir se inteiro, promovemos uma articulação na comunicação entre as crianças, os acompanhantes e a equipe multidisciplinar no sentido de interligar todos que circulam o paciente.
A atuação psicossomática nos propõe uma ação por todos os sítios onde o lugar e a função de cada profissional surgem da demanda do paciente, promovendo uma mudança na sua condição de ser paciente possibilitando sua individualização. E, na medida em que se torna indivíduo ele passa a ser acompanhado pelos profissionais que compartilham o lugar do saber, rompendo as distâncias tornando-as eqüidistantes e eqüivalendo entre eles sua importância e verdade.
Doutor e paciente passam a ter nome, cada um do seu lugar com seu instrumental e possibilidades, formando um corpo que interdisciplinarmente envolvidos visam a mesma finalidade.
Quem disse que o paciente/indivíduo não pode ser agente de seu processo de cura compartilhada?

Psicóloga Flávia Cristina Santos de Souza
Psicóloga Fernanda de Azeredo
Psicóloga Solange Mello Ferreira
Trabalho apresentado no Fórum de Psicossomática da U.G.F. - Setembro/99

Psicóloga Flávia Cristina Santos de Souza
Aluna da 9ª turma do Curso de Formação de
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