EU VI... NO METRÔ DE SÃO
PAULO
Era uma segunda feira de abril. 08:00 horas. Embarco na Estação Jabaquara, no metrô de São Paulo. Destino: Estação Consolação.
Estou feliz. Apesar de ser uma segunda feira, consegui um lugar para sentar.
Antes de
baixar os olhos no livro, que trago entre mãos, varro o ambiente em minha volta. Um
livro é um companheiro com quem conversamos
Junto à porta, ao meu lado, surpreende-me o comportamento de um jovem casal. Miram-se, abraçam-se, esmagam-se. Beijam-se com paixão. São beijos estalados. Ignoram os demais passageiros. Julgo-os e condeno-os, sumariamente. Alego falta de pudor, falta de respeito,...
Mas, volto atrás. Absolvo-os. Têm atenuantes. São os novos tempos. Tempos modernos.
Agito-me. Olho com discrição, para as pessoas postadas ao lado do casal moderno. Vejo constrangimento em seus rostos. Volvo os olhos para o livro. Sugiro-lhes a leitura. Não me obedecem. Olhos bisbilhoteiros!
Volto-me para a direita. Vejo no banco ao lado, após a porta, uma mãe disfarçando o choro. Olhos vermelhos. Olhar distante. No colo traz um filho aparentando três anos. Aspecto doentio, tez amarelada, estômago dilatado, olhos embaciados, mãos inchadas. Baixei os olhos para o livro. Não li. Viajei. Pensei naquela mãe infeliz. Que esperanças teria, com relação à saúde do seu filho? Estaria indo para o Hospital das Clínicas? Tentaria talvez, uma vaga para a fila de transplante de fígado. Pensei em minhas três filhas - saudáveis. Rejubilei-me. Agradeci a Deus.
Na Estação São Judas, observo um casal que embarca. Cegos. Portam bengalas retráteis. Uma cena comum no metrô de São Paulo, não fosse a mulher trazer junto a si, uma criança. Uma filha, que não teria mais que dois anos. Ocupam um banco cinza, reservado para pessoas especiais. Acomodam-se com desenvoltura. A mãe com precisão retira da mochila uma mamadeira, que oferece à filha. Esses movimentos são acompanhados e aprovados pelo pai, que, sorridente, tem a mão entrelaçada à da mãe, apreciando a criança sugar o leite, apalpando-lhe o rosto. A criança retribui o carinho com um sorriso. Sente-se segura. O pai de óculos escuros. Não vemos seus olhos. A mãe tem olhos perfeitos, que se volvem, como a procurar algo. Miram sempre o horizonte.
Esqueci o casal liberal e a mãe chorosa. Também esqueci o livro. Apurei todos os meus sentidos nos movimentos do casal cego.
- Próxima estação: Vila Mariana. - Anuncia o operador do trem. Ouvindo o anúncio, o marido volve a cabeça. Apura os ouvidos, à espera de uma confirmação. Torna-se sério, de repente. Incontinente, abraça e beija, mulher e filha, Demonstra ansiedade. Levanta-se. Pega a bengala. Desarticula-a. O trem parou. Aguarda a porta abrir. Sai. A bengala é sua guia. Encosta-se à amurada da estação. Acena para a mulher e filha. Estas retribuem seu gesto. É um ritual combinado. O trem parte.
Não perco de vista as duas criaturas, que continuam a bordo. A mãe volve de repente a cabeça para trás. Agora os olhos miram o alto. Movem-se com maior rapidez.Emite um som, como um gemido. Abraça forte a filha e assim se mantém.
Estação Ana Rosa. Devo desembarcar. Demoro-me vendo aquele gesto da mãe. Não posso continuar ali. Tenho horário a cumprir. A campainha toca. A porta vai fechar. Apresso-me. Desembarco.
Dia seguinte, de volta ao trabalho, como de costume, paro em frente à banca de revistas, Super News, na estação Jabaquara do Metrô. Leio as manchetes dos jornais. Volto os olhos para aquela maior, do “São Paulo Agora”: Leio: HOMEM CEGO É ATROPELADO E MORTO, AO SAIR DE ESTAÇÃO DO METRÔ. Ao lado está a foto da vítima. É aquele marido e pai, que ontem eu havia observado a bordo do metrô.
Autor: Francisco Paiva Salviano
São Paulo/Capital.