Tema:
Existencialismo
Entrevistadoras:
Cristiana
Henriques
Flávia Amélia C. de Freitas
Miriam S. Santos
Vanessa Ribeiro Mussi]
Vanusa F. Chaves Barbosa
Entrevista realizada em 23/03/2001 com o Psicólogo Jadir
Machado Lessa, CRP 05/3021, Preside a Sociedade de Análise Existencial
e Psicomaiêtica - SAEP, Coordenador dos Cursos de Formação de Psicoterapeutas
Existenciais da SAEP, Exerce a psicoterapia individual e de grupo
na Rua Nascimento Silva, em Ipanema e na Praça Saens Peña na Tijuca
-Tel. 264-8615 e 3813-9612.
Pergunta: Qual o objetivo do trabalho terapêutico?
Resposta: Muitas pessoas se colocam diante de outras como se estivessem
vendadas e, no escuro, começam a imaginar como o outro deveria ser,
como elas querem que o outro seja, como elas gostariam que o outro
se transformasse. As pessoas não têm o hábito de se relacionarem
com as outras do jeito que as outras são. Como fica isso para o
Psicólogo? Ele precisa conhecer pessoas, estar com pessoas e estar
com a sua sensibilidade aberta para captar dessas pessoas o que
elas são, isso é uma atitude fenomenológica, ou seja, significa
você colocar entre parênteses, colocar em suspensão, todos os seus
valores, conceitos e teorias. Quando você faz isso, não acaba, porém
diminui, a interferência de sua subjetividade para que possa captar
o que de fato revela a outra pessoa.
Pergunta: Você se torna neutro?
Jadir Lessa: Não. Torna-se um percebedor atuante
ativo e não um imaginador. ( como Lacan dizia, na psicanálise, "
o psicanalista neutro ocupa o lugar do morto" essa é a diferença
vital) É para colocar-se no lugar do vivo que está percebendo e
não do vivo que está imaginando.
Pergunta: O que é Fenomenologia?
Jadir Lessa: É uma forma de estudar, é um método
mais adequado às ciências humanas. Nós temos o método cartesiano,
aplicado nas ciências naturais e na Física Mecânica. Ele vê o mundo
com se fosse uma máquina, as partes que compõem o mundo como se
fossem engrenagens ou mecanismos. Essa visão mecanicista é uma visão
que nem a Física se interessa mais, para ela agora temos um novo
paradigma que é a Física Quântica. Quando foi definida a fórmula
da relatividade E=mc2, foi desfeito todo imaginário que a humanidade
tinha com relação, como por exemplo, à dualidade corpo e mente.
O que existe é um paralelismo psicofísico, como nos ensinava Espinosa.
A coisa mais radical que foi destruída com essa fórmula foi a idéia
do mecanismo, para ela esta significa, em última instância, que
energia é igual a matéria, ou seja, a matéria que nós conhecemos
densa e completa, é nada mais nada menos que energia condensada
da mesma forma que a água no estado sólido vira gelo, por exemplo,
nós somos Energia/Luz condensada, não existe diferença entre matéria
e a luz que nos ilumina, isso tudo foi uma revolução no mundo da
física . Essa revolução extraordinária chegou de uma forma global
nas outras Ciências, de uma forma impactante. Essa revolução na
Psicologia chega através da fenomenologia. O Existencialismo está
para a Psicologia Clássica, na mesma relação que a Física Quântica
está para a Mecânica. Enquanto a Psicologia se preocupava, até então,
em conhecer o seu objeto de estudo, que é o homem, para prever e
controlar, o existencialismo não considerava o homem como um objeto,
porque quando você tem uma atitude científica, uma atitude fenomenológica
tendo o foco naquilo que você entende como objeto, na realidade
você está coisificando aquilo sobre o qual se está estudando.
Coisificar é transformar em coisa, objeto é uma coisa, chamar de
objeto o teclado do computador é apropriado, mas chamar o ser humano
de coisa, de objeto não é ético, não é apropriado. A psicologia
durante anos sistematizou os constructos teóricos hipotéticos, criou
perfis de personalidade, modelos patológicos, categorias para adequar
e categorizar o homem, ou seja, ela já tinha um modelo pronto, espécimes
avulsos que apareciam no consultório, eram inseridos nesse catálogo.
Antes dele entrar no consultório era uma pessoa, depois que entrava
tornava-se um paciente, um psicótico, um neurótico, etc. O sujeito
era coisificado, catalogado, classificado e isso era usar a imaginação
e não a percepção. Não existe o neurótico, o deprimido, isso tudo
é uma abstração, as pessoas que andam na rua não são nada disso.
Elas possuem características. Ora se parecem com um dos modelos,
ora se parecem com outro. Não existe modelo puro que a categorização
nos fornece. Para construção de um modelo tem que se livrar de uma
coisa que o existencialismo considerava fundamental, que são as
diferenças individuais. Para esses teóricos o que tinha importância
não eram as diferenças e sim as igualdades individuais: tudo o que
o indivíduo tem de igual daquela ou outra categoria. Então, na realidade
ele ficava pesquisando a pessoa para ver em que categoria ela pode
ser enquadrada e não para compreender a pessoa.
O psicoterapeuta existencialista põe as teorias em suspensão, usando
o método fenomenológico, para trabalhar o indivíduo usando ele próprio
como referência e não os modelos teóricos. Isso causa no cliente
uma diferença fundamental, porque ele se sente legitimado, reconhecido,
ele se sente considerado enquanto pessoa. Isso é uma coisa muito
boa no processo de construção da saúde do indivíduo.
Quando você pega esse sujeito e o categoriza, ele passa a fazer
parte de um grupo, deixa de ser ele, perde sua individualidade e
passa a fazer parte de um grupo maior, daqueles que pertencem àquela
categoria. O existencialista olha para ele como sendo único. Ninguém
no mundo é igual a você, por mais parecido que seja com grupos categorizados.
Você é a única pessoa a quem coube a tarefa de ser você mesmo, e
é tão original que as diferenças para outros indivíduos são tão
grandes que, mesmo que você tenha diversas semelhanças com outros,
jamais será outra pessoa. Portanto é impossível você ser outra pessoa
além de você mesmo.
Para fazer com que você se desenvolva a Psicoterapia Existencial
se propõe a reconhecer, legitimar e estimular a auto expressão e
auto realização do cliente. Ou seja, a primeira coisa é você reconhecer
que você é você mesmo, e que você tem o direito à liberdade, uma
coisa que a sociedade se esforça em tirar das pessoas. Nós existencialistas
trabalhamos o processo de individualização, que consiste em retirar
o indivíduo da identificação com as categorias genéricas para identificar-se
consigo mesmo, no sentido de descobrir ou construir a sua própria
individualidade, porque ele é uma pessoa única. Trabalha a liberdade
e a libertação das categorias, das cobranças e das expectativas
do outro. Não que o outro vá deixar de pressionar, pode até continuar,
mas você é livre para atender ou não. Você tem a responsabilidade
pelas suas atitudes. A vida passa a ter um outro sentido. As pessoas,
a princípio, se assustam com a própria idéia de liberdade, mas depois
de experimentar a liberdade nunca mais conseguem viver sem ela.
Pergunta: Qual é o papel do psicoterapeuta?
Jadir Lessa: Ele é um libertador.
Pergunta: Qual o conceito que sustenta a prática?
Jadir Lessa: Liberdade, autonomia, autenticidade,
vontade própria, auto-estima, aceitação dos nossos limites.
Pergunta: O que é Psicomaiêutica?
Jadir Lessa: Maiêutica é o nome que Sócrates deu
ao seu método dialógico. Seu objetivo é fazer o indivíduo pensar
por si mesmo. Psicomaiêutica é uma subespecialização do existencialismo,
criada pelo método Miguel Callile Júnior, o qual ele obteve sua
especialização. É a utilização do método Socrático na Psicoterapia
Existencial, ou seja, aplicação da fenomenologia usando a técnica
que Sócrates utilizava com seus discípulos, sendo um perguntador,
dando uma direção a essas perguntas (a associação com a fenomenologia
é muito interessante porque dá uma direção e um sentido a essas
perguntas. Vai do geral para o particular, do sentido da categorização
para o sentido da individualização).
Outros
artigos publicados no Jornal Existencial:
A
Origem da Psicoterapia Existencial
Solidão
e Liberdade
Humano,
Simplesmente Humano
A
Felicidade como Possibilidade Existencial
Inscreva-se
nos Cursos à Distância da SAEP:
Curso
de Introdução ao Existencialismo
Curso
Diálogo Maiêutico e Psicoterapia Existencial
Estude
sem sair de casa
LIVROS
RECOMENDADOS