Nesta
edição o JORNAL EXISTENCIAL publica uma entrevista feita pelo presidente
da SAEP, psicólogo Jadir Lessa, com um dos mais respeitados representantes
do Existencialismo no Brasil, o filósofo, professor e doutor Gerd
Bornheim. Intitula-se um pesquisador. Ler e escrever são as atividades
que mais o agradam. Possui vários livros publicados, quase todos
esgotados, além de muitos artigos e capítulos editados em obras
coletivas. Leciona regularmente filosofia na UERJ e é muito solicitado
para ministrar palestras em congressos e outros eventos no Brasil
e no exterior.
Jadir
Lessa: Como surgiu o seu interesse pelo Existencialismo?
Gerd Bornheim: Era a época! Uma época que veio da 2ª Guerra
Mundial em que o indivíduo não existia. Conturbada depois por
ditaduras de diversas ordens, um totalitarismo político que fez com
que os valores do indivíduo fossem ressaltados. Então ele fica mais
desperto. Não só o indivíduo em primeiríssimo lugar, mas a situação
histórica fantástica que é o individualismo. E nós presenciamos hoje
a crise do individualismo, a crise de nós mesmos, em última análise.
Este indivíduo tem a presença muito forte, mas de certa maneira crítica,
existencialmente crítica. E em segundo lugar exatamente este aspecto
é que o indivíduo, por contingências históricas das mais diversas,
a começar pela política, se tornou crítico. Ele quer questionar a
realidade e não a aceita mais passivamente. Por exemplo: se fala hoje
que há uma manipulação muito grande da realidade humana. Manipulação
fantástica havia na Idade Média, quando foi disseminado, contra a
conquista árabe, o culto à virgem Maria. Isso era feito em nome do
absoluto, que na verdade não é absoluto. É autoritário, dogmático.
Mas havia aí uma manipulação sobre o conceito mesmo da mulher que
era fantástico, extraordinário. Hoje as coisas se tornaram críticas
justamente porque a manipulação é questionada. Todo mundo fala que
o homem é manipulado e por aí vai. Eu acho que esse pensamento existencial,
essa postura mais crítica é que justifica a presença da própria psicologia
e principalmente da filosofia nesse tipo de atividade. A consciência
crítica leva a questionar o conceito de manipulação.
JL:
Como o senhor vê a situação do Existencialismo hoje no Brasil e no
mundo?
GB: O Existencialismo é um movimento que atingiu o seu apogeu
na metade do século. Os grandes mestres praticamente desapareceram.
O problema é que as questões colocadas pelo pensamento existencialista
dizem respeito a própria realidade humana em toda a sua extensão.
E a partir daí o Existencialismo continua tendo uma repercussão teórica
e prática crescente. É impressionante como no campo da Psicologia
e da Psicanálise, no Brasil e no mundo, se busca discutir as teses
do Existencialismo clássico, que continuam tendo uma vitalidade muito
grande, já que o pensamento subsequente se compraz muito em reduzir
tudo à categoria do objeto, ao cientificismo, e tende a esquecer a
realidade humana. Quando de fato essa realidade humana é que
tem que ser pensada, meditada, questionada. E o Existencialismo é
a doutrina que coloca as categorias básicas para se repensar a realidade
humana. É como Freud, também do início do século. Mas afinal de contas,
o Existencialismo continua tendo uma presença em nosso tempo de fato
extraordinária.
JL:
Dentre os temas existencialistas quais aqueles que mais o interessam?
GB: Os clássicos, são os temas que ficam. Aquilo que Heidegger
falava de inquietação, de angústia, existência autêntica e inautêntica,
o ser para a morte, bem entendida a coisa toda, evidentemente, a questão
da liberdade, da responsabilidade sartreanamente colocadas. São questões
que ainda não encontraram um equacionamento muito amplo, porque uma
grande lacuna do nosso tempo, que justifica tudo que falamos aqui,
é o fato de que ainda não existe uma ética, uma moral adequada a esse
mesmo tempo. Então o homem fica um pouco à deriva, instável. Ele não
tem normas e não se trata das normas. Ele tem que desenvolver o senso
de responsabilidade, de liberdade para chegar de fato a equacionar
essas coisas de modo adulto e maduro. E isso se faz em larga medida
com a colaboração da psicoterapia.
JL:
E por falar em psicoterapia, o que o senhor pensa sobre os currículos
dos cursos de Psicologia das faculdades do Rio de Janeiro?
GB: Não sou psicólogo e não conheço esses currículos. Sei que
há uma diversidade muito grande de cursos e consequentemente de orientações.
Acho que uma coisa mais ou menos universal em toda essa atividade,
que é extraordinária, é que há um interesse muito grande pelas discussões
de ordem filosófica. As doutrinas filosóficas têm uma atualidade extraordinárias
e me pergunto até se certas opiniões são esquecidas, como por exemplo
Jaspers, que tem uma ligação com a Psiquiatria tão fundamental,
ou Gabriel Marcel e tantos outros. Porque há uma abertura hoje,
do ponto de vista psicológico, para a vida filosófica, para a atividade
filosófica, de fato, excepcional.
JL:
Quantos livros o senhor já publicou e quais são eles?
GB: Livros, eu tenho mais ou menos uma dúzia. Agora tenho muita
coisa em obras coletivas, como por exemplo a série toda da Companhia
das Letras, Ética, Tempo e História, Arte e Pensamento, O Olhar, O
Desejo e o último chama-se A Crise da Razão. Os meus livros, eu tenho
bastante mas está quase tudo esgotado. Porque eles se esgotam e os
editores não se interessam em fazer novas edições, eu não entendo
bem porquê. Agora estou preocupado em começar um processo de reeditar
meus livros que, modestia à parte, têm um sucesso interessante: oito,
doze edições. Acho que esse ostracismo não se justifica.
JL:
Gostaria que o senhor falasse sobre a tradução do Ser e Nada
de Sartre para o português?
GB: Ela corre muito bem. A tradução é muito bem feita. Na primeira
edição houve uma série de falhas técnicas apontadas pelo próprio tradutor.
Falhas das origens das mais diversas que, segundo ele, nas edições
subseqüentes seriam sanadas. Mas eu fiquei espantado com o sucesso
dessa tradução. Já são diversas edições que se acumulam. É um sucesso,
um best-seller no mercado. Acho que o público leitor brasileiro está
de parabéns por ter tanto interesse por obra difícil, pensada na base
do Sartre. Agora nós temos dois livros fundamentais o Ser e
Tempo, de Heidegger e o Ser e Nada, de Sartre, traduzidos
para o português. Isso é um evento da maior significação.
JL:
E a tradução de Ser e Tempo?
GB: Eu faço algumas reservas de ordem técnica, mas a tradução
é muito boa. Com certas palavras e expressões eu não concordo, mas
é uma questão técnica. No Ser e Tempo a tradução corre
muito bem, se lê de fato com facilidade. Mas de repente traduzir dasein(ser
aí) por presença, eu não concordo, isso para dar apenas
um exemplo.
http://www.existencialismo.org.br
http://www.existencialismo.org.br/jornalexistencial
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