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EDIÇÃO ESPECIAL Caderno de Arte e Literatura

 

ARTIGO

 

Fé Enquanto Ausência de Vontade
 

Adriana Santos Neto

Já dizia Nietsche: "(...) A crença é sempre com a máxima ávidez desejada, e mais urgentemente necessária onde falta vontade. Pois é a vontade, como emoção de mando, o sinal distintivo de autodomínio e força. Isto é, quanto menos alguém sabe mandar, mais ávidamente deseja alguém que mande, e com rigor, um Deus, um dogma...".

Por muito tempo tornou-se confortável essa postura de abrir mão do próprio destino, delegar a um Ser Revelado a missão de conduzir-nos ao paraíso, como se o inferno fosse aqui, e a isso os cristãos chamam de fé ou crença.

Medo de que todos os preceitos religiosos foram criados por nós mesmos, visando uma convivência pacífica do homem com ele mesmo e com o outro, ao mesmo tempo que, para sermos mais eficazes utilizamos uma vigilância invisível, que não age diretamente, mas nos torna profundamente culpados por atos "humanos, demasiadamente humanos", nos divide entre bons e maus, cristãos e ateus, como se tudo se ressumisse a duas polaridades.

O homem, eternamente, equilibra-se entre o céu e ao abismo, cultua verdades absolutas que não são necessáriamente suas, abre mão de suas próprias convicções e nega de forma obstinada seu livre arbítrio. Deus o deu, é claro !!! Porém não se deve usá-lo! Esse livre arbítrio foi apenas uma forma de generosidade divina, se de alguma forma for transgredido, só restará a danação eterna!!!

Estarrecedor ! Pois onde há ausência de vontade, gana pela vida, impera a fé, o absoluto, o irracional, a mesquinhez...Incluem-se os fracos, excluem-se os fortes, a vida enquanto potência....

Quando a humanidade poderá, enfim, compeender que seu destino está em aberto, e pode e deve ser por ela traçado, sem "muletas"? que não é necessário fé irracional para ter "preceitos cristãos"? que não sendo a verdade absoluta, não significa que tudo está irremediávelmente perdido, e estamos condenados ao inferno ?

No limbo já nos encontramos, nunca estivemos vazios. Mesmo a despeito de toda fé, não podemos ser aniquilados pela paixão, força criadora, mas somos aniquilados pelo tédio, caminhamos, qual rebanho em direção ao matadouro sem, ao menos saber se o paraíso realmente existe. Perdemos enfim uma vida...

Ao nos escondermos atrás de deuses, mais específicamente de um Deus Onipotente, perdemos toda a certeza, e nos entregamos ao "se", continuando porém, a ser parte do todo, preservando nossa sobrevivência e sanidade.
Insano é aquele que ousa ter vontade de querer, que "perde a fé", pois essa vontade é uma forma de liberdade que afronta o mundo, e que, no fundo, não deixa de ser um outro tipo de fé, porém uma fé criadora, vivênciada, que crê sermos capazes de nos autoconduzir, de termos generosidade para com o outro e com a vida, que torna a "escravidão" desnecessária. Coloca o homem no centro do universo, e faz com que as suas angústias possam ser minimizadas entre os seus e não mais entre seres invisíveis, tal crianças com medo do escuro, que refugiam-se em sua imaginação.

Sem essa ausência de vontade, talvez essa fé irracional pereça, e assim possamos trilhar o caminho da libertação, não mais em um Ser Revelado, mas em um ser amadurecido e generoso, com uma fé conhecida e experimentada. O próprio Homem!


Adriana Santos Neto
Acadêmica de Direito
Uiversidade de Barra Mansa


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