Laís
Alcantara
Às
dezoito horas em ponto respirei aliviado, como de hábito,
depois do fim do dia de intenso trabalho. Era quarta-feira e estar
no meio da semana fazia-me sentir totalmente simples e terreno,
com pensamentos tangíveis e sem grandes aspirações.
De forma racional, revia mecanicamente todas as ações
do dia e as tarefas pendentes para a manhã seguinte. E assim,
desde que deixei o prédio estava tão compenetrado
em meus afazeres que só me dei conta do quanto havia andado
quando já estava na estação de metrô,
muitos minutos depois.
Tomei mais uma vez o vagão lotado, mas nem sequer me dava
ao direito de irritar-me. Simplesmente sentia que seguia o fluxo
do dia, cumprindo o meu papel como qualquer outro mortal trabalhador
da metrópole. Era definitivamente um dia comum, sem alegrias
nem tristezas, esperando por findar-se. Daí então
viria quinta-feira, prelúdio do fim-de-semana, e então
enfim me apossaria de mim mesmo e sem dúvida estaria mais
vivo. Mas naquele instante, entre tantas pessoas, sentia como se
todos estivessem em qualquer outro lugar. Só eu estava sentado,
de corpo e alma, na poltrona azul, às seis e vinte seis da
tarde.
Não fiz nenhum plano para a noite, apesar de saber que hoje
provavelmente estaria sozinho em casa. Esperava apenas cumprir o
ritual diário de comer qualquer coisa, tomar um banho quente
demorado, assistir um pouco de televisão e ir para a cama.
O tempo se arrastou em frente à tv, o telefone tocou duas
vezes. Um telefonema era minha filha Alice e no outro minha mulher,
dizendo que realmente não poderia chegar hoje, porque em
Chicago chovia muito e seu vôo havia sido cancelado. A casa
silenciosa parecia muito maior, agravando a minha solidão.
À meia-noite, após o entediante programa de entrevistas,
acabei adormecendo no sofá da sala, ao lado do cachorro.
Quando já estava em um estado um pouco inconsciente, quase
adormecendo e entregue a pensamentos desconexos, de súbito
ouvi uma batida na porta. Não esperava que hoje ninguém
viesse me encontrar, de modo que o som abafado fez cortar a suave
inspiração como uma lâmina. Depressa e um pouco
ofegante, procurei tateando o interruptor que ficava um pouco distante
do sofá e fui atender a porta.
A figura pálida com que me deparei me fez gelar a espinha.
Fazia tantos anos. Mas seu semblante e os traços marcantes
eram inconfundíveis. Assim que ela chegou nos entreolhamos
por um longo minuto sem nada dizer. Ao me cumprimentar com um sorriso
tímido, mas decidido, passou os dedos nos meus cabelos demoradamente,
como sempre fazia. Também chovia muito em São Paulo
e a sua roupa estava encharcada, os cabelos molhados. Num misto
de surpresa e alegria fiz com que entrasse e ofereci-lhe uma taça
de vinho, ainda de pijama. Havia no ar a antiga cumplicidade ainda
intacta. Quinze anos depois e ela continuava linda, os cabelos ondulados
eram agora ruivos, mas mantivera-se a mesma. Mantinha ainda o mesmo
andar e os mesmos trejeitos infantis.
Sua repentina presença me remeteu ao passado de forma tão
abrupta e involuntária que ela já me parecia tão
familiar e constante que reconhecia até mesmo seu cheiro.
Alguma parte involuntária dentro de mim, há muito
adormecida, me fugia ao controle. Ainda a amava e aos poucos fui
me deixando entorpecer pelo vinho, por ela. Seu sorriso me cativava
e sua própria voz era embriagante.
Mas como ela saberia que eu ia estar sozinho aquela noite? Sabia
que eu era casado, que tinha uma filha adolescente. A cena me parecia
inverossímil, sequer nos falávamos havia muito, e
não tínhamos mais amigos em comum. Há muito
tempo não escutava qualquer notícia a seu respeito.
Assim, quase a apagara da minha memória cotidiana.
Não houve um diálogo formal entre nós, enquanto
estávamos esparramados no chão, entre as almofadas
da sala. Nos sentimos por demais íntimos ainda para mantermos
uma conversação amena sobre nossas vidas práticas,
relacionamentos, filhos ou trabalho. Falávamos meramente
sobre nós dois, sobre nossas opiniões e abstrações.
Na verdade, nunca tivemos um diálogo muito convencional,
juntos éramos aéreos e nos dávamos o direito
de nos sentirmos superiores, mais especiais e mais predestinados
que qualquer outro casal. E até hoje nada disso mudara. E
ela continuava silenciosa, mantinha o ar enigmático e a malícia
disfarçada na voz macia.
À aquela altura não conseguia mais me convencer da
razão pela qual tínhamos rompido um dia. Qualquer
motivo me parecia pequeno, irrelevante. Mas mesmo enquanto conversávamos
descontraídos, nos deixando levar por uma alegria quase pueril,
sentia de vez em quando um arrepio quente no estômago. Era
a lembrança de Lídia, pairando como um peso asfixiante
na nossa harmonia. Mas, apesar de tudo, nada conseguiria aplacar
o que sentia: naquele momento estava pleno.
Não consegui entender o por quê, mas aquela noite ela
estava visivelmente abatida. Não podia deixar de me envolver,
percebia o quanto estava desolada, embora não quisesse explicitar
claramente o que a atormentava. Falava coisas vagas e soltas, entre
suspiros e muxoxos. Ainda assim, muito menos conseguiria trair a
mim mesmo, ao desejo incandescente que aos poucos me tomava. E daí
então, por mais que a lembrança da minha esposa fosse
doce e intensa e me tomasse inteiro, não conseguiria lutar
contra o encantamento daquela noite.
Após alguns instantes me aproximei e beijei-a levemente nos
lábios, me afastando logo em seguida. Logo depois toquei
seus cabelos, e o rosto. Ela me mirava com um olhar penetrante,
de uma cumplicidade comprometedora. Não poderia resistir,
este sim seria o pecado capital.
Naquele momento senti o irreversível estalo. Descobri nela
novamente o que um dia fui, imaturo, impulsivo, mas também
leve, alegre e realmente vivo. Queria agarrar esta sensação
de maneira voraz e imediata. Me vi esquecido de mim há muito
tempo. Considerava-me feliz, mas não podia mais continuar,
tudo agora estava perdido, no fundo eu sabia. Nela despertei para
sempre. Vi que não teria como me enganar por mais nenhum
minuto, ela sempre fora uma verdade para mim. Não consegui
fugir do meu destino.
Algumas horas depois ela se foi, ainda não havia sequer amanhecido.
Se foi de maneira repentina, assim como chegou, sem dizer nem mesmo
seu paradeiro. Mas depois daquela quarta-feira, minha vida jamais
foi a mesma.
Desde então nos encontramos com relativa freqüência.
Hoje sinto-me mais verdadeiro e mais alegre, e aos poucos vou aprendendo
que o amor tem diferentes formas e intensidades. Á medida
que cultivo esse sentimento, consigo fazê-lo reproduzir-se.
E mesmo após muitos anos, em momento algum, ao me lembrar
daquela noite, associo nosso reencontro à palavra traição.
Nem em voz ou tão pouco em pensamento. Certos momentos são
tão especiais e a presença de uma vontade divina se
faz notar tão fortemente que ninguém jamais deveria
ousar julgá-los.