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EDIÇÃO ESPECIAL Página atualizada em 01 de dezembro de 2000

 

ARTIGO

 

Cicatriz
Adriane Medina Celli

Um medo intenso... como fantasmas habitados nas cavernas escuras, inconscientes.
Toda fragilidade despencou terra abaixo, a casca de menina desmanchou.
Os disfarces e as amarguras.
Rir ou chorar?
De toda forma, a expressão não poderia morrer em sua face, tão clara!
Olhos esverdeados, como o limo de um riacho.
bem verdade que tratamento de impacto não afrouxa as resistências.
Tantos anos represando a dor em sentimentos do passado.

Assim estava, com os seus modestos movimentos, ainda bastante desconfortável, na poltrona do consultório.
Uma jovem mulher.
Semblante tenso, apático.
Reflexo das marcas em expressões visíveis, na face de poucos sorrisos despidos em sua precocidade. Mocidade roubada perante as exigências que não soube evitar.
Nem sabia direito o que queria dizer, nem tão pouco precisava falar.

As pupilas dilatadas arregalavam suas pálpebras, amedrontada com o meu olhar. Um grito de socorro. Terrível angústia!
Um sufoco apertava a corrente de vida que pulsava em seu corpo. Vinha por caminhos tortuosos, à cerca dos olhares malévolos, na intriga sádica da natureza de espíritos mal amados. O mundo dos corpos esquecidos. Um estado paralisado.

A espontaneidade que deixou ir embora sem se despedir.
Represada em todo o corpo, o peso cervical, uma muralha atravancando a passagem. Desconfiança, medo e tristeza, quanto mal estar em um só momento!

Era visível seu descontrole.
O incômodo com as perdas vividas... suas desilusões.
Nos braços, uma explosão muscular de tecidos nervosos, correndo como um pelotão de soldados em combate.
Uma bomba armada internamente, o limiar da loucura.
Que desespero!

Um pesadelo rondando os seus sonhos parecendo marcha fúnebre no enterro dos tormentos mais profundos.
A busca pelo alívio estremecido em dia exaustivo.
Não suportou segurar.
O forte choro enfim, descarregou-se numa onda apavorante... Liberta a angústia. Esse torpedo estagnado que inibe a pulsação... Sem chances para o prazer.
Até quando o outro será o comando da sua liberdade?
Essa fraqueza que designa poder à vontade do outro com sendo sua.

A lacuna existencial; o buraco que amplia o medo de viver regido pela própria inspiração.
Humilhante inércia, justificando a pouca coragem para atravessar o deserto.
Aquela areia quente que faz transpirar os poros fechados por tantos cremes. As máscaras de uma vitalidade falsificada. Miserável condição humana que renuncia o entusiasmo em troca de poucos elogios. Apegos enamorados nos arredores da praia. Quem dera o seu bronzeado fosse a verdade dos seus sonhos? Tantas formas malhadas e sorridentes poderiam se vangloriar na satisfação da plenitude.

Presa em seu castelo de sonho, já não crê no que constrói em sua mente.
O mundo revela suas mazelas nos noticiários... Quantas culturas massacradas pelas crueldades que a paralisam!
Ainda sofre com a culpa. Por que esse mundo é assim?
Prende, mata, fere, derruba, destrói... Morre plantas sensíveis expostas ao calor intenso, amostra da ignorância que abandona o olhar tão precioso de um recém-nascido. Pequeno ser.
O desafio de conseguir ser quem é e, não temer mostrar, algum dia, as convicções veladas de si mesma.
Revelar o corpo, a arte e a imaginação. Sair da couraça e remover os resíduos putrefatos.

Persistente desgosto, a alma precisa reeducar-se dos erros passados. Transformar o orgulho, poder ser o personagem da própria trajetória.
Infeliz daqueles que não lutam contra seus próprios medos, transmutando as sombras que perseguem seus passos. Pois um dia, não dará mais tempo de fazer coisa alguma. A vida passa rapidamente, mesmo que se tenha a favor um ciclo vital de algumas décadas.

É inevitável!
Quando se enxerga o sentido da vida, muitas perdas já marcaram esta jornada e pouca força ainda resta, no corpo debilitado, exaurido dos grandes desgastes.
Surpreendentemente, alguns corpos envelhecidos, conscientes, recuperam a sua juventude.
Sobreviventes da avalanche foram capazes de expurgar das entranhas e deixar derramar os seus lamentos.
Permitiram se libertar da corrente, guilhotina da subserviência de dogmas ultrapassados.

Mentes sãs. Subsistem na batalha de vários setênios, críticos, cruzando as fronteiras da idade, para obter a humilde ascensão em dimensões mais elevadas.
Corpos sem idade. Essência ao permanecer na pureza da alma.
É bonito apreciar esse momento de viver... De poucos, guerreiros e libertos da rotina caótica.
Corações purificados e abençoados pela suave energia da luz.
O olhar incessante na proteção que lhe conduz ao Alto.
Seus sofrimentos desfalecem nos patamares... Subindo vagarosamente.

A leveza do andar... Em desapego,
Livra-se dos calçados, extensas andanças.
A sutileza dos movimentos transparece a nudez... Simplesmente, elevam-se,
Mirando-se a luminosidade.
O corpo abandona a densa couraça.
A harmonia de uma orquestra sagrada... Em contentamento.
Na passagem da vida, a morte liberta a dor.

Ela estava ligeiramente em transe. No fundo dos olhos esverdeados, à vontade de manifestar alguma alegria de viver.
Pude estar bem próximo. Tolerante ao acompanhar seu estado.
Suavemente, toquei-lhe nas mãos. Uma oferta paciente, que tanto carecia.
Na moringa de louça, busquei um copo cheio de água.
Água da fonte, mineral.
Peregrina e milagrosa, renova sempre as forças.
A sêde do bem estar para aprender a ser... Simplesmente, ser.

Adriane Medina Celli
Primavera, 1997.


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