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Um medo intenso... como fantasmas
habitados nas cavernas escuras, inconscientes.
Toda fragilidade despencou terra abaixo, a casca de
menina desmanchou.
Os disfarces e as amarguras.
Rir ou chorar?
De toda forma, a expressão não poderia morrer em sua
face, tão clara!
Olhos esverdeados, como o limo de um riacho.
bem verdade que tratamento de impacto não afrouxa as
resistências.
Tantos anos represando a dor em sentimentos do passado.
Assim estava, com os seus modestos movimentos, ainda
bastante desconfortável, na poltrona do consultório.
Uma jovem mulher.
Semblante tenso, apático.
Reflexo das marcas em expressões visíveis, na face de
poucos sorrisos despidos em sua precocidade. Mocidade
roubada perante as exigências que não soube evitar.
Nem sabia direito o que queria dizer, nem tão pouco
precisava falar.
As pupilas dilatadas arregalavam suas
pálpebras, amedrontada com o meu olhar. Um grito de
socorro. Terrível angústia!
Um sufoco apertava a corrente de vida que pulsava em seu
corpo. Vinha por caminhos tortuosos, à cerca dos olhares
malévolos, na intriga sádica da natureza de espíritos
mal amados. O mundo dos corpos esquecidos. Um estado
paralisado.
A espontaneidade que deixou ir embora
sem se despedir.
Represada em todo o corpo, o peso cervical, uma muralha
atravancando a passagem. Desconfiança, medo e tristeza,
quanto mal estar em um só momento!
Era visível seu descontrole.
O incômodo com as perdas vividas... suas desilusões.
Nos braços, uma explosão muscular de tecidos nervosos,
correndo como um pelotão de soldados em combate.
Uma bomba armada internamente, o limiar da loucura.
Que desespero!
Um pesadelo rondando os seus sonhos
parecendo marcha fúnebre no enterro dos tormentos mais
profundos.
A busca pelo alívio estremecido em dia exaustivo.
Não suportou segurar.
O forte choro enfim, descarregou-se numa onda
apavorante... Liberta a angústia. Esse torpedo estagnado
que inibe a pulsação... Sem chances para o prazer.
Até quando o outro será o comando da sua liberdade?
Essa fraqueza que designa poder à vontade do outro com
sendo sua.
A lacuna existencial; o buraco que
amplia o medo de viver regido pela própria inspiração.
Humilhante inércia, justificando a pouca coragem para
atravessar o deserto.
Aquela areia quente que faz transpirar os poros fechados
por tantos cremes. As máscaras de uma vitalidade
falsificada. Miserável condição humana que renuncia o
entusiasmo em troca de poucos elogios. Apegos enamorados
nos arredores da praia. Quem dera o seu bronzeado fosse a
verdade dos seus sonhos? Tantas formas malhadas e
sorridentes poderiam se vangloriar na satisfação da
plenitude.
Presa em seu castelo de sonho, já não
crê no que constrói em sua mente.
O mundo revela suas mazelas nos noticiários... Quantas
culturas massacradas pelas crueldades que a paralisam!
Ainda sofre com a culpa. Por que esse mundo é assim?
Prende, mata, fere, derruba, destrói... Morre plantas
sensíveis expostas ao calor intenso, amostra da
ignorância que abandona o olhar tão precioso de um
recém-nascido. Pequeno ser.
O desafio de conseguir ser quem é e, não temer mostrar,
algum dia, as convicções veladas de si mesma.
Revelar o corpo, a arte e a imaginação. Sair da
couraça e remover os resíduos putrefatos.
Persistente desgosto, a alma precisa
reeducar-se dos erros passados. Transformar o orgulho,
poder ser o personagem da própria trajetória.
Infeliz daqueles que não lutam contra seus próprios
medos, transmutando as sombras que perseguem seus passos.
Pois um dia, não dará mais tempo de fazer coisa alguma.
A vida passa rapidamente, mesmo que se tenha a favor um
ciclo vital de algumas décadas.
É inevitável!
Quando se enxerga o sentido da vida, muitas perdas já
marcaram esta jornada e pouca força ainda resta, no
corpo debilitado, exaurido dos grandes desgastes.
Surpreendentemente, alguns corpos envelhecidos,
conscientes, recuperam a sua juventude.
Sobreviventes da avalanche foram capazes de expurgar das
entranhas e deixar derramar os seus lamentos.
Permitiram se libertar da corrente, guilhotina da
subserviência de dogmas ultrapassados.
Mentes sãs. Subsistem na batalha de
vários setênios, críticos, cruzando as fronteiras da
idade, para obter a humilde ascensão em dimensões mais
elevadas.
Corpos sem idade. Essência ao permanecer na pureza da
alma.
É bonito apreciar esse momento de viver... De poucos,
guerreiros e libertos da rotina caótica.
Corações purificados e abençoados pela suave energia
da luz.
O olhar incessante na proteção que lhe conduz ao Alto.
Seus sofrimentos desfalecem nos patamares... Subindo
vagarosamente.
A leveza do andar... Em desapego,
Livra-se dos calçados, extensas andanças.
A sutileza dos movimentos transparece a nudez...
Simplesmente, elevam-se,
Mirando-se a luminosidade.
O corpo abandona a densa couraça.
A harmonia de uma orquestra sagrada... Em contentamento.
Na passagem da vida, a morte liberta a dor.
Ela estava ligeiramente em transe. No fundo dos olhos
esverdeados, à vontade de manifestar alguma alegria de
viver.
Pude estar bem próximo. Tolerante ao acompanhar seu
estado.
Suavemente, toquei-lhe nas mãos. Uma oferta paciente,
que tanto carecia.
Na moringa de louça, busquei um copo cheio de água.
Água da fonte, mineral.
Peregrina e milagrosa, renova sempre as forças.
A sêde do bem estar para aprender a ser... Simplesmente,
ser.
Adriane Medina
Celli
Primavera, 1997.
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