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Olhando para essas
folhas em branco, não resisti a preenchê-la! No entanto
o que escrever ? Minha vida e tão medíocre que não
sei.
Isso! Por que não refletir sobre a mediocridade ? A
vida, como todas as pessoas, é medíocre. Os próprios
escritores o são. Se Sartre e Nietzsche não tivessem
tido vidas ordinárias, por que o pessimismo ? Soren
Kierkegaard nem quis ficar com sua noiva... - Sua!
Perdão, ninguém é de ninguém. - E a história da
literatura universal; muitos começam com uma vida
medíocre, depois vulgar, e que depois torna a ser
medíocre; e nos últimos minutos de quase todas as
histórias de vidas, temos um final absurdo... Será que
a historia medíocre de um personagem não reflete a
mediocridade da vida de seu autor ? Será que uma obra
envolvente não mascara o que é o autor em sua vida ?
Romeu e Julieta tiveram uma história emocionante, mas e
William Shakespeare ? - William é um belo nome e não me
perdoaria por escrever somente Shakespeare - ele não
teria escrito a vida que gostaria de ter e não teve ? E
quanto ao Sr. Dostoievski ?!
São perguntas que não sei responder. Talvez tantos
pontos de interrogação sejam o reflexo da minha
mediocridade e da minha inutilidade...
Não! Isso seria desvalorizá-los ! São interessantes os
pontos de interrogação. Se eles nunca vêm sozinhos,
você já imaginou o tempo que estou perdendo escrevendo
só para que você perca o seu lendo ?
Tudo isso e uma grande bobagem ! Portanto, se for sua
vontade, não continue lendo-a. Sou um inútil que lhe
escreve e você é um inútil que me lê. Se contínuo
escrevendo é porque concordo com João Cabral de Melo
Neto:
"Fazer o que seja e inútil.
Não fazer nada e inútil.
Mas entre fazer e não fazer
Mas vale o inútil do fazer."
Por que as reticências ? Porque eu interrompi meu
pensamento. Pensar cansa, então parei para descansar.
Contudo, se por algum tempo eu parei de escrever este
texto, não tenho dúvidas de que você não parou de o
ler e, ser for um bom leitor, atento a minúcias - se é
que isso é ser um bom leitor; não sei o que é ler bem,
nem sei porque escrevi isso - deve ter me criticado por
repetir muitas vezes a palavra medíocre. Ora! Se minha
vida assim é e se é exatamente disso que agora escrevo,
por que negar minha mediocridade escrevendo um texto mais
coeso ?
Não sou astuto como Machado para escrever sobre a
mediocridade. Ele é sincero, realista e se o pode ser é
porque se vale de um narrador onisciente e... defunto.
Ainda estou vivo e, sendo assim, não sou tão franco
quanto gostaria. A realidade sem hipocrisia, dita sem
intenção moralista, choca. Por isso se eu lhe
escrevesse, caro leitor, sobre o mundo como é e não
como gostaríamos que fosse, simplesmente não seria
lida.
Alguns, já descrentes de que a vida pode ser bela ou ter
momentos felizes, ler-me-iam pela simples crença de que
se o mundo não pode mudar, alguém teve a audácia de
descreve-lo tal como é (ou por outro motivo qualquer). A
maioria, porém, preferiria fechar os olhos para a
podridão do mundo e rasgaria o papel em pedacinhos.
Sinceramente, eu não me importaria, pois nada iria
mudar. Nadamos num lado de águas límpidas, em cujo
fundo há muita lama. Todos pisamos nela e a sentimos.
Nem todos, porém, olhamos para ela. Poucos são os que
não ficam parados e, nadando, buscam a superfície para
não ficarem presos à lama.
Ter tido a iniciativa de preencher esta folha em branco
não é o motivo para me considerar diferente. Todos
lemos uma folha em branco que, seja com palavras,
desenhos ou qualquer outra coisa, uma hora vamos
preencher.
Não há como resistir e, se houver, com o tempo a folha
irá se amarelar ou amassar. Não há folhas perfeitas.
Ainda que nunca se amasse, a poeira virá com o tempo e
mudará sua aparência. Como você está vendo, leitor
amigo, o que fazemos ou deixamos de fazer não nos faz
diferentes dos outros. Se deixarmos de fazer algo, outro
fará em nosso lugar - se melhor ou pior, sinceramente eu
não sei lhe dizer. Isso só depende de você.
Chega ! Pense agora o que quiser sobre a mediocridade e,
se preferir, não pense na sua; aproveite este meu texto
para pensar na minha, se é que ela está clara. A
escolha é sua: ser medíocre ou ser medíocre e
ingênuo.
Donizeti A. de
Paula
Executivo de Marketing
Gestor do Conhecimento
Editor do Caderno de Inteligência Competitiva do Jornal
Existencial
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