EDIÇÃO ESPECIAL Caderno de Temas Existenciais

 

TRABALHOS de UNIVERSITÁRIOS

 

Trabalho de Alunas da Universidade Celso Lisboa
Professora: Célia Pessoa
Alunos: Diva Cristina de Paula Portella, Carla
Cristine Vicente, Milza Vivina Vicente, Gizelia Souza,
Maria de Lourdes dos Santos, Rosangela Silveira, Déia
Parê dos Santos
Data: 2º Semestre de 2000 

Tema: Existencialismo

 

1. Introdução

A existência é a forma singular que dá a essência à oportunidade de ser.

J.P.Sartre.

 

O existencialismo se constitui numa das mais expressivas vertentes do pensamento filosófico do século XX, ainda que criticada por conta de sua pouca consistência teórica. Trata-se do movimento que maior penetração popular teve na contemporaneidade. Movidos por ideais de liberdade, seus adeptos engajaram-se em lutas de diversos tipos, como a revolução dos costumes, a revolução sexual, o movimento feminista, o movimento estudantil, e o combate a diversas formas de opressão, particularmente nas décadas de 50 a 70, como revisão crítica do pensamento moderno.

O movimento foi tão difundido que ‘ser existencialista’ chegou a ser moda: vestir-se displicentemente, não tomar banho, desprezar a tecnologia, burlar convenções e ir ao encontro da natureza, foram alguns atitudes existencialistas, que fizeram com que alguns de seus principais pensadores desprezassem o rótulo de existencialista, preferindo classificar suas idéias como ‘filosofia existencial’.

O existencialismo é uma orientação que abrange diversas doutrinas. Seus adeptos assumem posições diferentes, e até mesmo divergentes, mas partem todos de denominadores comuns, como por exemplo, o de que a existência não é algo entregue já pronta e acabada ao homem, mas que vai fazendo a si mesma através das escolhas e decisões relacionadas com o ‘sentido da vida’.

O propósito deste trabalho foi o de apresentar um histórico conciso, os principais autores e temas do existencialismo ou filosofia existencial, como um dos modos específicos de compreender a formação e constante reconstrução da personalidade, e sua terapêutica psicológica. Utilizamos também entrevistas com dois psicólogos existenciais, que serviu para ampliar a compreensão prática da filosófica e da psicológica existencial.

Nas conclusões são descritas algumas considerações sobre a teoria e a prática do existencialismo como vertente de pensamento psicológico, além de serem expressas as reflexões do grupo sobre todo o material levantado.

 

2. O EXISTENCIALISMO

Logo após o término da Segunda Guerra Mundial, numa Europa mergulhada nas seqüelas do conflito, sufocada numa crise geral (política, social, econômica, moral, financeira, etc.) irradia-se do continente europeu, espalhando-se por todo o mundo, o movimento filosófico existencialista. A experiência traumática da guerra gerou um ambiente de desânimo e desespero, sentimentos que atingiram particularmente a juventude, descrente dos valores burgueses e da capacidade de o homem solucionar racionalmente as contradições da sociedade.

O existencialismo surge e se desenvolve justamente em meio a essa crise, repercutindo a medida que suas teses correspondiam e esclareciam o momento histórico sobrevindo à guerra. Daí, certamente, o motivo por que o movimento se propagou tão rapidamente. Sua repercussão não se limitou às discussões acadêmicas nem aos debates nas publicações especializadas. Tanto quanto uma doutrina filosófica, o existencialismo passou também a ser identificado como um estilo de vida, uma forma de comportamento, a designar toda atitude excêntrica, que os meios de comunicação divulgavam com estardalhaço, criando uma autêntica mitologia em torno do movimento e seus adeptos. A imaginação popular caricaturava a figura do existencialista; aparência descuidada, cabelos abundantes e desgrenhados; brusco nas maneiras; mal asseado; avesso às normas estabelecidas; amoral, sobretudo, pois o existencialista típico, inimigo da hipocrisia, recusava a moral tradicional; depravado e promíscuo, promovia orgias, entregando-se aos prazeres mais degradantes.

Os existencialistas eram acusados de pregar idéias dissolventes. Sua reflexão filosófica, dizia-se, era mórbida, sombria, amarga, preocupada em explorar o lado sórdido da existência humana, fixando-se nas exceções da vida. Corruptos, amorais, degradadores, perniciosos, pregoeiros do desespero a se comprazerem no tédio e na melancolia. Enfim, uma torrente de injúrias cobria os existencialistas. Estes, em réplica, afirmavam que seu comportamento não podia ser julgado mediante os padrões vigentes, pois tinham como projeto justamente lançar as bases de uma nova moral.

O interesse de que o existencialismo se tornou alvo espalhou-se até mesmo em manifestações genuinamente populares, como o carnaval brasileiro. Em início dos anos cinqüenta, seguindo a tradição típica do repertório carnavalesco de satirizar acontecimentos da atualidade, uma marchinha fez enorme sucesso abordando o assunto. A letra da música exaltava a figura de uma mulher que só aceitava cobrir-se com uma casca de banana nanica, pois se tratava de uma “existencialista, com toda razão, só faz o que manda o seu coração”.

A idéia popularmente divulgada do existencialismo, se distorcida, tinha uma nota de ironia e humor que possivelmente irritasse menos os líderes do movimento. No Brasil, o pensador Tristão de Athayde escrevia: “Sartre, sem dúvida, é detestável”. E o papa Pio XII, na encíclica que dedicou às correntes filosóficas modernas, destacou o existencialismo como uma das doutrinas que mais ameaçavam os fundamentos da fé cristã.

Mas, afinal, o que é existencialismo?

Segundo o crítico francês Jean Beaufret, num ensaio dedicado ao tema, salienta que, ao pronunciarmos a palavra existencialismo, o que primeiro se escuta é existência. O sufixo indicaria tratar-se de uma doutrina. Existência, por sua vez, logo evoca sua contraparte: essência.

Historicamente a palavra essência é anterior. Essentia forma latina, deriva do verbo esse, ser. Quando os latinos se entregavam à meditação filosófica, a pensar aquilo que é, diziam estar pensando na essência da coisa. Só muito mais tarde surgiria em latim a palavra existentia, existência, derivada de existere, que significa sair de uma casa, um domínio, um esconderijo. Mais precisamente: existência é sinônimo de mostrar-se, exibir-se, movimento para fora. Daí denominar-se existencialista toda filosofia que trata diretamente da existência humana. O existencialismo, conseqüentemente, é a doutrina filosófica que centra sua reflexão sobre a existência humana considerada em seu aspecto particular, individual e concreto.

 

3. TEÓRICOS DO EXISTENCIALISMO

Muitos foram os contribuintes teóricos do existencialismo, entre os que mais se sobressaíram devido à relevância de suas idéias estão:

 

3.1.- Sóren Aabye Kierkegaard (1813 - 1855)

 

Nasceu em Copenhagen (Dinamarca). Foi educado segundo os mais austeros princípios do protestantismo. Três fatos marcantes influenciaram sua vida e marcaram profundamente seu pensamento filosófico e teológico:

As relações com o pai;

A ruptura do noivado com Regina Olsen e;

A polêmica com a igreja protestante.

De personalidade melancólica, teve pela parte do pai uma triste visão do mundo, imbuída da idéia de pecado e castigo divino.

Ingressou na Universidade de Copenhagen em 1830. Seus escritos não têm forma ordenada ou sistematizada. Ele expôs seus pensamentos em forma de poesia, tratados de filosofia, de teologia, artigos, ensaios, discursos edificantes e, particularmente, o diário. Seus estudiosos costumam classificar sua obra literária em três fases: o ciclo estético, o ciclo filosófico e o ciclo religioso.

Não é fácil falar das origens do existencialismo Kierkegaardiano. No fundo só existe uma origem que é a realidade existencial de Kierkegaard, cuja subjetividade e individualidade, são superiormente marcante.

Formulou seu pensamento e desenvolvimento filosófico, sobretudo através de um profundo e persistente exame da sua própria personalidade. Toda sua obra gira em torno dele mesmo.

Para kierkegaard cabe ao indivíduo encontrar um sentido para sua existência e isso não seria possível sem o auxílio da verdade. A grande questão é “encontrar uma verdade, mas uma verdade para mim, encontrar a idéia para qual quero viver e morrer”, diz Kierkegaard em seu diário. A verdade é a própria vida que a exprime: é a vida em ato, a verdade é a própria existência. Essa deve ser a base para um existencialismo coerente.

O homem constrói a sua existência conhecendo a si mesmo e moldando pôr um determinismo existencial. Kierkegaard fala ainda das escolhas, ou opções que o indivíduo está sempre fazendo durante toda a sua existência. Da angústia e desespero humano e da conquista da liberdade, todos os sentimentos que confere a existência.

“Dever-se-ia dizer, mais exatamente ainda, que existir é escolher-se, porque , de fato, a opção recai unicamente sobre nós mesmos. Qualquer opção “externa” é função de uma opção interior, de uma opção pela qual me realizo. O eu que me foi dado nunca é um eu completamente feito, uma essência: eu sou, de certo modo, o artífice de minha própria essência e existo na medida em que completo essa essência.”

Assim, entendemos que Kierkegaard procurou apresentar um modo de pensar, um método de vida para se construir a existência, através do qual possamos entender e apreender o valor e o sentido do singular, do individual, da existência dentro do campo onde se desenvolve.

 

3.2. Gabriel Marcel: Existencialista Religioso (1889-1973)

Nasceu em Paris e as viagens para acompanhar seu pai embaixador, lhe conferiram educação universal e contatos com artistas e intelectuais de muitos países. Laureou-se em filosofia, defendendo tese sobre o pensamento de Coleridge, em 1908. Ensinou filosofia, mas dedicou-se, sobretudo, a atividade literária: artigos filosóficos, peças teatrais, crítica literária e musical para revistas e jornais. Durante a primeira guerra mundial, dirigiu um órgão da cruz vermelha para busca de desaparecidos. Após a guerra, participou efusivamente das famosas discussões na Sociedade de Filosofia de Paris.

Em 1929, recebeu uma carta de seu amigo Mauriac, convidando-o para converter-se ao catolicismo, convite aceito por Marcel como o próprio chamado de Deus. Ao receber o batismo, compreendeu que “fé é essencialmente fidelidade”. Após a segunda guerra, viveu o período de maior notoriedade e grande expansão intelectual, proferindo conferencias em muitos países e recebendo muitos prêmios de literatura.

Sua obra pode ser dividida em duas fases: a primeira de formação do pensamento e a segunda de crítica moral. Na fase de formação do pensamento existencialista, organizou a filosofia do existir ou a “experiência existencial” que é ilimitada, individual e concreta. Porém é ao mesmo tempo se “estar no mundo”. Não é possível isolar a consciência individual dentro de si mesma, uma vez que a existência pessoal é concomitantemente pertença do mundo.

No período de crítica moral, tratou de esclarecer a “existência de Deus” e a “imortalidade da alma”. Declarou o espírito e o corpo como uma única realidade e simultaneamente, da alma com o resto do mundo (o estar no mundo).

Marcel recebeu influência de Kierkegaard, Bérgson, Royce e da fenomenologia, mas acima de tudo foi pensador independente e assistemático. Combateu o idealismo, embora tivesse convicção no valor da transcendência divina.

Considerado o iniciador do existencialismo francês, introduziu os termos “existencialismo” e “filosofia existencial” na literatura francesa. Para Marcel, a existência não é um predicado, mas presença absoluta e imediata, anterior a distinção sujeito-objeto e suprimindo o dualismo alma x corpo. Esta distinção, para Marcel, é mais que um problema é um mistério, que em âmbito existencial, não faz sentido.

O pensamento existencial marceliano é uma reflexão sobre as vivências da consciência, enquanto pensa os dados ou fenômenos da existência concreta. Para isto aplicou o método fenomenológico da forma livre.

 

3.3. Jean Paul Sartre (1905-1980)

Jean Paul Sartre nasceu em Paris, passou a infância com a mãe e os avós maternos em Meudeon, no interior da França. Desde muito tempo, já apreciava a literatura. Com o casamento da mãe, em 1916, sua adolescência transformou-se na pior época de sua vida, por causa do temperamento hostil do padrasto. Em 1920, saiu de casa para estudar, sendo que só ingressou no curso de filosofia em 1924. Em 1929, conheceu Simone de Beauvoir, talvez a figura mais importante em sua vida e companheira até a morte.

Sartre publicou vários livros entre eles estão: A transcendência do ego, A imaginação, A náusea; O muro; O ser e o Nada; A idade da razão; Com a morte na alma; O Existencialismo é Um Humanismo, entre outros.

Para Sartre, o homem primeiramente nada é, não havendo um Deus para conceber a natureza humana, o homem será aquilo que ele mesmo fizer de si: “o homem não é mais que o que ele se faz”. Nisto consiste a subjetividade, entendida por Sartre não como uma forma de subjetivismo, mas como um modo de valorização do próprio homem. Por isso, o existencialismo é um humanismo, já que defende que o homem deve Ter liberdade para realizar sem cerceamentos o seu projeto de vida.

O homem é um ser de projeto; nele, nada existe antes deste projeto. Inicialmente, ele é lançado no mundo e, quando escolhe o que irá fazer de si mesmo, só então determina o que será. Quando Sartre fala de escolha, ele não fala das escolhas menores, tais como, a que partido político aderir ou qual carreira seguir; ele se refere a uma escolha fundamental, que atinge todas as outras escolhas particulares. Entre estas escolhas fundamentais está a opção por valores morais fundamentais (estilo de vida) como, por exemplo, a de ser bandido ou santo, fiel, ou traidor. As decisões menores serão sempre orientadas por esta opção primordial. Esta escolha fundamental é possível porque, antes de mais nada, o homem é um ser livre.

Ser existencialista é entregar-se a um libertinismo sem fronteiras. O fato de o homem ser lançado no mundo por acaso e Ter que se decidir pelo seu projeto existencial - liberdade absoluta - tem como conseqüência a angústia.

Angustiar-se é a mais radical de todas as experiências humanas. Ela está ligada ap fato de o homem Ter que escolher e, além de escolher, colocar-se como legislador de toda a humanidade. Por isso, a liberdade é acompanhada da responsabilidade. Não existindo uma natureza (essência) comum a todos os homens, na opção por um determinado estilo de vida, o indivíduo não escolhe somente sua própria essência, mas também um modelo ideal de essência para toda a humanidade. Assim, para Sartre, a angústia é um componente ontológico de um ser que deve administrar sua existência livre com responsabilidade.

Sartre também falou de ser-para-si e de ser-em-si. O ser-para-si é próprio do homem. Somente ele pode estabelecer uma relação com o em-si. Num certo sentido o ser-para-si é um ser de relação, pois, não pode, ser puro pensamento; ele está necessariamente voltado para um pólo fora de si. Na relação com este pólo, ele se fundamenta, sempre como consciência de alguma coisa.

Daí que consiste seu lado trágico, já que enquanto tam consciência, é o verme do ser. Ter consciência significa criar expectativas; a não-realização de uma expectativa coloca o homem diretamente em contato com o nada. A experiência do nada, por sua vez, arrasta-o para uma irremediável angústia.

Sendo assim, Para Sartre a existência é um jogo gratuito, no qual a única alternativa para a autenticidade é aceitá-la com todo seu apavorante absurdo, sem refugiar-se na ciência, na moral ou na religião e sem poder esperar que o outro faça algo.

 

3.4. Martin Heidegger (1889-1976)

Este filósofo alemão foi considerado um dos criadores da filosofia existencial do nosso século e foi também um fenomenólogo na qual a fenomenologia desempenhou um papel importante na história da psicologia.

Para atingir a verdade absoluta do ser e descrever a existência humana, usava o método fenomenológico. Definindo o homem como “ser no mundo”, e sua existência, como “relação com outro”. A existência humana é caracterizada, ainda, pelos fenômenos da morte, temporalidade, angústia, preocupação, consciência e liberdade. Criou uma terminologia nova e variada, que torna sua filosofia de difícil compreensão.

Um estudo excepcional do homem foi realizado por ele, dele resultou que o homem é essencialmente Dasein: um ser-aqui, um ser sistematicamente na existência, ou seja, na transcendência. Ademais, por essa dissolução da essência humana na existência (que já comporta a exclusão da interpretação tradicional da pessoa em termos de substância), a antropologia de Heidegger caracteriza-se pela superação da oposição entre sujeito e objeto: o homem não é um sujeito que se acha diante de um mundo de objetos, mas um Eu, e é precisamente enquanto Eu que ele torna possível o constituir-se a dualidade sujeito-objeto. Para ele, o Eu, a pessoa, tem um valor antológico primordial graças à relação singular que ele tem com o Ser: é o artífice do seu aparecer, do seu fenomenolizar-se, e isso acontece na medida em que o homem toma consciência das suas possibilidades e as traduz em ato, inclusive a sua última possibilidade, a morte.

Para ele, o homem só é na medida em que está dentro da evidência do sentido do ser.

A exterioridade do corpo é figura concentrada de poder. Nele a vontade se isola e se individualiza e por ele faço a experiência do que me pertence. É o único corpo que não é somente corpo, mas meu corpo. Fora dele nada alcanço. Nele está o ponto de partida em direção ao que devo ser, nele se desenrola o drama do personalizar-se de cada indivíduo.

Heidegger concluiu que a Personalidade do homem significa que : O homem deve transformar em história o ser, que lhe abre e manifesta, e dar-lhe a si mesmo, no esforço assim aberto, consistência.

 

3.5. Nietzsche (1844-1900)

Filosofo alemão muito importante para o século XX, pois reagiu à Filosofia de Hegel e ao historicismo’ alemão que dela resultou. Ele atribuía a Hegel e a seus sucessores um interesse anêmico pela historia e confrontava este interesse com a própria vida e com sua conhecida reivindicação de “revalorização de todos os valores”, sobretudo da moral cristã, que ele chamava de “moral escrava”, para que o curso da vida dos fortes não fosse mais obstruído pelos fracos. Para ele, o cristianismo e a tradição filosófica tinham se afastado do mundo e se voltado para o “céu” ou para o “mundo das idéias” esses dois últimos teriam se transformado no “verdadeiro mundo” e, na verdade, não passavam de aparência “Sedes fiéis a Terra”, ele dizia, “e não acreditais naqueles que vos falam de esperanças além deste mundo!”.

No Século XIX Nietzsche empreende uma crítica radical á moral em diversas obras, como em “sobre a genealogia da moral” “para além de bem e mal” e “crepúsculo dos ídolos”, faz em estilo apaixonado e mordaz e análise histórica da moral e afirma a incompatibilidade entre a moral e a vida em outras palavras, o homem, sob o domínio da moral e afirma a incompatibilidade entre a moral e a vida em outras palavras, o homem, sob o domínio da moral, se enfraquece tomando-se doentio e culpado.

Nietzsche privilegia a Grécia Homérica do tempo das epopéias e das tragédias, considerando-a o momento em que predominaram os verdadeiros valores aristocráticos quando a virtude, residindo na força e na potência, era a virtude do guerreiro belo e bom, amado dos deuses.

Nesse sentido, o inimigo não é mau: “Em Homero, tanto o grego quanto o troiano são bons. Não passa por mau aquele que nos inflige algum dano, mas aquele que é desprezível”.

A moral de senhores é positiva porque baseada no “sim” à vida, e se configura sob o signo da plenitude, do acréscimo. Por isso essa moral esta fundada na capacidade de criação de invenção. E o resultado é a alegria, conseqüência da afirmação da potência. O homem que consegue superar-se é o super-homem (Übermensch, expressão alemã que significa “além do homem”, “sobre-humano” que transpõe os limites do humano)”.

A moral aristocrática moral de senhores, que é sadia e voltada para os instintos da vida, Nietzsche contrapõe o pensamento socrático-platônico (que provoca a ruptura entre o trágico e o racional) e a tradição da religião judaico-cristã. A moral que deriva dai é a “moral de escravos”, moral decadente porque baseava na tentativa de subjugação dos instintos pela razão. O homem-fera, animal de rapina, é transformado em animal doméstico ou cordeiro. Essa moral plebéia estabelece um sistema de juízos que considera o bem e o mal, valores metafísicos transcendentes isto é, independentes da situação concreta vivida pelo homem.

A moral de escravos visa a negação dos valores vitais e resulta na passividade na procura da paz e do repouso. Isso inibe o homem, que se torna enfraquecido aquecido e diminuído em sua potência. A alegria é transformada em ódio à vida, o ódio dos impotentes. A conduta humana é marcada pelo ressentimento pela má-consciência e pelo ideal ascético.

O ressentimento nasce da fraqueza e e nocivo ao fraco, Pa a o homem nobre, esquecer é uma das condições de manter-se saudável, pois sabe “digerir” suas experiências O homem ressentido incapaz de esquecer, e como o despótico que fica “envenenado” pela sua inveja e impotência de vingança.

A má consciência ou sentimento de culpa é o ressentimento voltado contra si mesmo, dai fazendo nascer o recado.

O ideal ascético nega a alegria da vida e coloca a mortificação como meio para alcançar uma outra vida num mundo superior, do alem.

Assim, as práticas de altruísmo destroem o amor de si, domesticando os instintos e produzindo gerações de fracos,

É por isso que contra o enfraquecimento do homem, contra a transformação de fortes em fracos - tema constante da reflexão nietzschiana - é necessário assumir uma perspectiva alem de bem e mal, isto é, além da moral. Mas, por outro lado, para além de bem e mal não significa para além de bom e mau. A dimensão das forças, dos instintos, da vontade de potência, permanece fundamental. O que é bom? Tudo que intensifica no homem o sentimento de potência a vontade de potência, a própria potência. O que é mau? Tudo que provem da fraqueza.

 

3.6. Rollo May

Ele acreditava que toda pessoa existente é centrada em si mesma, e qualquer ameaça, é uma ameaça a própria existência.

Toda pessoa existente tem o caráter de auto-afirmação, necessidade de preservar sua centralidade.

O estado de um ser em conflito com o não ser, causa ansiedade.

Rollo May concorda com Sartre quando este dizia que “Nós somos nossa escolha”, “as essências não devem ser rejeitadas, elas não são dependentes de nenhuma decisão ou caprichos individuais”.

A existência sim, ela pode ser modificada, dentro dos nossos limites no mundo. Todos nós lutamos através de estágios de crescimento o melhor que podemos, e finalmente morremos, e o que pensamos sobre isso não mudará esses fatos. Mudará sim, como dirigimos nossa vida.

 

3.7. Ludwig Binswanger e Medard Boss

Ludwig Binswanger e Medard Boss foram dois Psiquiatras Suíços que permanecem muito próximos das fontes de pensamento existencial europeu. Sua identificação com o existencialismo é muito significativa.

Binswanger nasceu em Kruzlingen, Suíça, a 13 de abril de 1881, e formou-se em medicina na Universidade de Zurique, em 1907. Estudou com Eugen Bleuler e com Jung. Foi um dos primeiros seguidores suíços de Freud e sua amizade perdurou por toda a vida. Sucedeu a seu pai (e a seu avô) na direção médica do Sanatório Bellevue em Kreuzlingen. Morreu em 1966.

No início da década de vinte foi um dos primeiro a trazer a aplicação da Fenomenologia à psiquiatria. Tornou-se um analista existencial 10 anos mais tarde. Define a análise existencial como a análise fenomenológica da existência humana real, que tem como objetivo a reconstrução do mundo interno da experiência. Binswanger teve como maior influência Heidegger, mas também introduziu idéias derivadas de Martin Buber (1958).

A psicologia existencial representada por Binswanger assim como para Medard Boss, é que se opõe à aplicação do conceito de causalidade das ciências naturais à Psicologia. Não existe relação de causa - efeito na existência humana. No máximo, existem apenas seqüências de comportamentos. Algo que acontece a uma criança não é causa de seu comportamento no futuro como adulto. Assim como existencialismo rejeita a causalidade, ele rejeita também o positivismo, o determinismo e o materialismo. A psicologia deve seguir seu próprio método, a Fenomenologia, e seus próprios conceitos, “ser-no-mundo”, modos de existência, liberdade, responsabilidade, “vir-a-ser”, transcendência, espacialidade, temporalidade e muitos outros, todos derivados da ontologia de Heidegger.

Para Binswanger, o psicólogo existencial substituiu o conceito de causalidade pelo de motivação.

Apesar de ser treinado na psicanálise e ter se servido dela, consegui despojar-se de forma a ser uma experiência libertadora, tanto para ele como para Boss.

Na estrutura da existência - “ser-no-mundo” (Dasein), o mundo em que o homem tem sua existência tem 3 regiões para Binswanger:

Os arredores físicos ou biológicos, ou paisagem (Umwel);

O ambiente humano (Mitwell); e

A pessoa e seu Eu, incluindo o corpo (Eingenwelt).

 

Para Binswanger a análise existencial aborda a existência humana apenas com a consideração de que o homem é no mundo, tem um mundo e deseja ultrapassar o mundo. Ser “além-do-mundo” não significa o outro mundo (céu), mas expressa as múltiplas possibilidades que o homem tem de transcender o mundo que habita e entrar num novo mundo. Pois o homem pode realizar todas as possibilidades do seu ser. Atualizando suas possibilidades ele pode viver uma vida autêntica, quando nega ou restringe as possibilidades ou quando deixa dominar pelo outros está vivendo uma existência inautêntica. O homem é livre para escolher uma ou outra alternativa ser autêntico ou inautêntico.

Abordou também que o campo existencial é uma das limitações do homem tornar-se livremente, que dependendo da forma como ele se vê no mundo, pode tornar-se autêntico ou inautêntico, resultando nisso um enfraquecimento existencial, dependendo das suas escolhas, pois o homem tem muitas possibilidades para fazer escolhas.

Usa o termo modelo-de-mundo para o padrão que engloba todos os aspectos do modo-de-ser-no-mundo do indivíduo. O modelo de mundo de uma pessoa determina como ela reagirá em situações específicas e que tipo de traços de caráter e sintomas ela desenvolve.

No modo dual Binswanger diz que é atingido para duas pessoas que estão se amando, o “EU” e “VOCÊ” tornou-se “NÓS”. Este é o modo autêntico de ser humano. O modo plural também foi descrito por ele como sendo um de relações formais, de competição e de luta. O indivíduo que vive para si mesmo escolheu o modo singular de existência, enquanto que se encerra numa multidão escolheu o do anonimato. Normalmente uma pessoa tem não um, mas vários modos de existência.

Para Binswanger a maior angústia do homem é o medo, o pavor do NADA.

Por ter sido psicanalista antes de se tornar psiquiatra existencial, as inferência que fazem a partir de suas investigações fenomenologicamente orientadas são freqüentemente comparadas com as que a psicanálise teria feito a partir dessas mesmas investigações, como por exemplo o traço de caráter.

Também usou em sua terapia existencial o estudo de casos na análise existencial de seus pacientes para formular a existência do paciente, ou modos de “ser-no-mundo”.

Medard Boss nasceu em St. Gallen, Suiça, a 04 de outubro de 1903. Quando tinha dois anos de idade seus pais mudaram-se para Zurique onde Boss reside desde então. Após tentar sem sucesso tornar-se um artista, Boss decidiu estudar medicina. Formou-se em medicina na Universidade de Zurique em 1928. Antes de graduar-se estudou em Paris e viena e foi analisado por Sigmund Freud. De 1928 a 1932, Boss foi assistentes de Eugen Bleuler, o famoso Diretor do Hospital Psiquiátrico Burgholzli em Zurique. Depois disso, durante dois anos Boss submeteu-se a um treinamento psicanalítico mais profundo em Londres e na Alemanha com eminentes psicanalistas como Ernest Jones, Karen Horney, Otto Fenichel, Hanns Sachs e Wilhelm Reich. Na Alemanha ele trabalhou ainda com Kurt Goldstein.

O ano de 1946 causou uma reviravolta na vida intelectual de Boss. Tornou-se amigo de Martin Heidegger. Através desse relacionamento foi criada a Dasein análise, uma forma de psicologia e de Psicoterapia, que significa “ser-no-mundo”. Sendo que Boss teve suas perspectivas também influenciadas pela sabedoria da Índia.

Assim como Binswanger, Boss opõe-se á aplicação do conceito de causalidade das ciências naturais à psicologia.

Para o psicólogo existencial o conceito de causalidade foi substituído pelo conceito de motivação. A motivação e compreensão são o que opera uma análise existencial do comportamento.

O objetivo da psicologia existencial, segundo Boss, é tornar transparente a estrutura articulada do ser humano. A liberdade do ser humano também é um de seus temas, ele diz assim “A liberdade, não é alguma coisa que o homem tem, é algo que ele é”.

A psicologia existencial não tem na sua base somente otimismo e esperança com relação ao homem. A psicologia existencial está tão preocupada com a vida quanto com a morte. O horror está tão presente quanto o amor.

A estrutura da existência - “ser-no-mundo” (Dasein) formulada por Binswanger e Boss, este último refere-se ao termo Dasein análise, como um cuidadoso esclarecimento da natureza específica da existência humana, ou ser-no-mundo, segundo Boss o homem revela o mundo. Podemos concluir que na análise existencial ou do Dasein, para Boss, é ver o que está na experiência e descrevê-lo tão precisamente quanto a linguagem o permita.

O Ser-além-do-mundo para Boss é simplesmente que a existência apenas consiste de nossas possibilidades de relacionamento com o que encontramos. Escreve que “o homem existe sempre e somente com uma miríade de possibilidade de relacionar-se e de desvendar os seres vivos e as coisas que ele encontra”. Em outras palavras o próprio Boss afirma “o homem deve aceitar todas as suas possibilidades de vida, apropriar-se delas e reuni-las para criação de um eu autêntico e livre”.

Boss não fala de modos-de-ser-no-mundo no mesmo sentido de Binswanger, ele fala das características que está em toda existência humana. Essas características chamam-se existenciais. Entre as mais importantes estão a espacialidade, temporalidade, corporalidade, existência num mundo compartilhado, e o estado de ânimo ou sintonia.

Um dos grandes dilemas para o homem, segundo Boss é a culpa, pois ela é uma característica fundamental do Dasein. Pois o homem não se sente, inteiramente livre, sempre carregará um débito em sua vida, desde o nascimento.

Para Boss habitar no mundo sempre significa habitar no passado, presente e futuro simultaneamente. Também diz que o conhecimento da morte não deixa ao homem outra escolha do que viver permanentemente em relação com a morte. A mortalidade é um existencial como ele mesmo diz conseqüentemente o fim inevitável do ser-no-mundo confere ao homem a responsabilidade de tirar o máximo e de realizar sua existência.

Boss também utilizou a Dasein análise nos sonhos, como existencialista rejeita o conceito do simbolismo, pois o sonho é outro modo de ser-no-mundo. Formulou 03 questões básicas a respeito de um sonho:

O Dasein do sonhador está aberto a que? Durante o sonho, isto é, que fenômeno (pessoas, animais, objetos) aparecem no sonho?

Como os fenômenos afetam o sonhador? Ele está amedrontado? Com raiva? Feliz? Triste? Indiferente?

Como o sonhador responde aos fenômenos no sonho? Foge deles? Ataca-os? Abraça-os?

As respostas a estas questões fornecem a base para a análise existencial do sonho.

Segundo Boss, os sonhos são revelações da existência e não disfarces. Seu significado existencial manifesta-se e não deve ser procurado em algum conteúdo latente ou elaboração onírica por trás da cena.

4. A PSICOTERAPIA EXISTENCIAL

A Abordagem existencial valoriza a busca pela particularidade do ser. É por acreditar na singularidade e na incompletude do homem que ela existe, oferecendo através da investigação fenomenológica e da maiêutica a possibilidade do ser construir-se a cada momento de suas escolhas.

Normalmente, o sujeito que procura auxílio psicoterápico, o faz a partir de crises existenciais, inevitáveis na vida de qualquer pessoa e não pelo simples desejo de crescimento interior.

Momentos de crise são aqueles de tomada de decisão, questionamento de valores e dificuldades frente às situações que se impõe. As pessoas freqüentemente anseiam por uma vida sob controle, organizada, planejada, conhecida. Mas a vida não uma constante. Pelo contrario, é o processo continuo de mudanças incessantes, que melhor caracteriza a existência. A morte é compreendida como possibilidade real a cada momento, por isto, a psicoterapia existencial recomenda o não adiamento dos projetos e o viver o presente, o aqui e agora.

Outra fonte de busca de apoio psicoterápico é que se chama de vazio existencial. Vivencia o vazio existencial o individuo que se torna incapaz de apropriar-se de suas escolhas e ser responsável por sua própria vida. Quase sempre culpa as circunstâncias por seus afortunios. O momento terapêutico é, então, de enfrentamento de medos, dor, doença, angústia, numa relação amorosa e compreensiva, que pode tornar possível à integração de todos aspectos paradoxais do ser humano.

A psicoterapia existencial é um processo cuidadoso, e em geral lento, em que o cliente recebe auxílio para seu autoconhecimento, reconstrução de uma auto-imagem verdadeira, exercício de poder pessoal de escolhas e decisões que dêem a vida um sentido satisfatório.

O momento de encontro cliente-psicoterapeuta existencial se traduz em um pequeno laboratório de relacionamento, onde o cliente poderá mostrar sua maneira pessoal de experimentar a vida.

A filosofia existencial e a supervisão ajudarão o psicoterapeuta a conduzir o atendimento, com maior embasamento teórico. A forma existencial de clinicar é também uma investigação constante da existência humana, e assim sendo, mais do que qualquer técnica, para ser um bom psicoterapeuta, há que se investir em si próprio a fim de humanizar-se. Para tal, o psicoterapeuta precisa também fazer sua terapia e vivencia a experiência única do encontro, capaz de transmitir a certeza de que poderá auxiliar seus clientes, posto que o próprio já foi ajudado pela psicoterapia.

Ser psicoterapeuta é ter uma grande responsabilidade e poder nas mãos. É preciso estar atento para não ocupar o lugar daquele que detém o conhecimento, como se já soubesse o que o cliente deve ou não trazer para a sessão de psicoterapia. Por outro lado o cliente muitas vezes vem em busca de respostas prontas e solução para os seus problemas. Mas o existencialismo ensina que não há respostas prontas (boas ou más), a única resposta que realmente serve ao indivíduo é aquela que ele próprio é capaz de formular. E o psicoterapeuta vai utilizar o método fenomenológico e o diálogo psicoterápico para conseguir seu intento de dinamizar a capacidade de seu cliente tornar-se mais livre, autentico, e, portanto mais feliz.

A psicoterapia existencial tem ainda o propósito de ajudar o cliente na construção e reconstrução de seu projeto de vida e na compreensão de que: a) aceitar a morte é ampliar possibilidades de vida; b) conviver positivamente com a solidão é libertar-se da necessidade do outro e começar a amá-lo e aceita-lo, e principalmente encontrar prazer em sua própria companhia; c) a angústia não é algo ruim, a ser evitado, e sim um grande impulso para a auto-realização; d) a liberdade implica em responsabilidade pelas próprias escolhas e pelos resultados destas; e) para ser autentico é preciso saber cada um constrói a todo o momento sua própria realidade, e que a coragem de se ser quem se é, cria o gosto pela vida.

 

4.1. O Método Fenomenológico

O filosofo alemão Edmund Husserl (1859 - 1938) e seus seguidores, sistematizaram um método, o qual chamaram fenomenologia, caracterizado principalmente pela abordagem dos problemas filosóficos numa pretensão de buscar à volta as mesmas coisa, isto é uma tentativa de reencontrar a vontade nos dados originários da experiência.

O homem acredita que o mundo corresponde exatamente ao que percebe e ao que pensa ele, mas, segundo husserl, ao observamos o mundo atribuímos a ele um sentido, um significado particular que explica o porquê de diferentes pessoas terem visões diversas do mesmo mundo e dos seus eventos.

Para Husserl, a fenomenologia é a ciência dos fenômenos, ou seja, aquilo que é imediatamente dado à consciência é sempre consciência de alguma coisa. Somente temas acesso ao mundo mediado pela consciência que lhe dá um significado. Assim, o método fenomenológico se propõe a buscar a essência do fenômeno, captada por meio de uma visão imediata ou intuitiva. Como atitude metodológica, a fenomenologia almeja que se desvele, em sus plenitude, a vivência da consciência, isto é, o fenômeno. Para isto, sugere o epoché, também chamada de redução fenomenológica, por tratar-se da preparação de um ambiente adequado na consciência para o florescer da intuição das essências das coisas, através da suspensão de julgamentos, crenças e valores prévios, que se colocam entre a pessoa e o mundo impedindo a captação do seu sentido para o individuo. Muito embora seja impossível remover completamente estes pré-conceitos, a epoché é fundamental para o processo de compreensão do cliente.

Suspendendo os valores, o psicoterapeuta poderá perceber e compreender as situações de forma completamente nova e assim, ressignificar percepções e sentimentos, operando transformações em sua vida.

 

4.2. O diálogo

A tentação de dar um caminho pronto para o cliente trilhar é grande, afinal é ele mesmo quem julga que isso é possível, alimentando assim a presunção e arrogância do terapeuta. Logo, a primeira missão deste é tirar do cliente a ilusão de que o psicólogo detém um conhecimento prévio acerca do assunto que estão tratando, assumindo perante ele uma postura de ignorância tal que lhe facilite o revelar-se. Para isto, a técnica utilizada pelo psicoterapeuta é o diálogo psicoterápico, que tem por base a maiêutica, como foi apresentada por Sócrates.

Definida por Franz Vitor Rúdio, “maiêutica” é a arte de fazer a criança nascer, vir à luz. Para Sócrates, significa fazer a verdade nascer: é a arte de ajudar o interlocutor a buscar e descobrir a verdade que se encontra dentro dele. O diálogo é assim, uma forma da verdade revelar-se, pois através de perguntas bem feitas, o sujeito poderá se expor. Desta maneira, cabe ao psicoterapeuta, muito mais perguntar e ouvir, do que responder e falar. Se ao fazer as perguntas certas e ouvir com atenção as respostas do cliente, o psicoterapeuta conseguir que ele se sinta aceito e compreendido, nasce entre eles confiança base para a formação de um vínculo estreito capaz de levar o individuo e se expressar livremente no discurso, dando assim o primeiro passo para expressar-se livremente na vida. Além disto, conta muito o afeto do psicoterapeuta para der-lhe suporte durante o processo de tornar-se independente. É com este afeto que o cliente conta quando tudo parece dar errado e a angústia se torna difícil de suportar. Portanto, o psicoterapeuta é um ser disponível para relacionar-se com seu cliente da maneira mais autentica possível.

 

4.3. O Contrato e o Consultório

A marcação da consulta se dá normalmente no atendimento telefônico, onde se inicia o primeiro contato. É proveitoso que se marque a primeira consulta para o mais breve possível, ou seja, não adiar o primeiro encontro para muito tempo depois do contato telefônico.

É preciso ter cuidado para que o contato telefônico não se transforme em entrevista, pois o cliente às vezes está muito ansioso e prefere falar com alguém que não o conhece, evitando assim o encontro pessoal.

Dizer o preço por telefone é critério pessoal, mas é importante lembrar que muitas pessoas utilizam a desculpa dos altos custos para não iniciar a psicoterapia.

A consulta deve ser marcada em horários livre para no caso de continuidade do processo, o horário poder estar disponível. É importantes que o cliente também esteja com este horário desimpedido, a fim de evitar atrasos e falta.

A duração dos encontros pode variar de 40 minutos a 1 hora. O terapeuta escolhe o tempo de acordo com suas características e disponibilidade interna do cliente.

O contrato é feito na primeira entrevista. Nesse momento cliente e psicoterapeuta se encontram cheios de expectativas, dúvidas e medos. O cliente pode chegar assustado, inseguro, com medo, carente e às vezes até desesperado. Freqüentemente busca intensamente ser compreendido. Muitas vezes deposita todas suas esperanças na mão do psicoterapeuta e espera que este possa aliviar a dor que não suporta mais.

Além da dor o cliente também pode trazer a desconfiança, teme que o psicoterapeuta não seja um bom profissional, sente vergonha de se expor e teme ser julgado ou decepcionar-se se algo não sair conforme o esperado. Mas muitas podem ser as causas de busca psicoterápica, não se pode esquecer que cada pessoa é uma pessoa diferente, com problemas específicos que não podem ser generalizados.

O terapeuta deve então, procurar ouvir seu novo cliente e lhe dar atenção. É importantes que leve em consideração todos os sentimentos, angustias e medos que o cliente traz sem julga-lo ou diagnosticá-lo. O terapeuta sabe que não é sua função curar, salvar, dar respostas prontas e caminhos para o cliente. Faze-se necessário esclarecer e falar a verdade ao cliente. No contrato devem ficar claros os papeis do cliente e do terapeuta no processo psicoterápico.

Após o primeiro contato é hora de estabelecer o contrato de forma objetiva. Este diz respeito à freqüência, preços, horários, procedimentos diversos que serão tomados em situações específicas, como por exemplo, em caso de falta à sessão etc. O contrato é firmado verbalmente e não no papel. Isso faz com que a palavra do cliente tenha um peso maior que a assinatura. No entanto, compromisso, contrato e responsabilidades não devem servir para pressionar o cliente que muitas vezes está frágil e inseguro. O ideal é dividir responsabilidades e firmar a parceria.

O contrato é o começo do vínculo, onde o afeto começa a nascer. E um contrato bem estabelecido, com regras claras e com o compromisso de ambos se engajarem, segundo possibilidades, é importante para:

- Iniciar o processo psicoterapeutico;

- Evitar distorções na comunicação entre ambos e

- Criar condições favoráveis para que o vínculo se estabeleça.

O consultório ou espaço externo do terapeuta por vazes reflete seu espaço interno. O espaço deve ser organizado livremente de acordo com o jeito de ser do psicoterapeuta e os objetivos da tarefa. Criar um ambiente físico agradável, aconchegante, é parte de um conjunto de atitudes do psicoterapeuta que deseja estar preparado para atender. Não há regras para esta construção, mas é importante que permita liberdade e proximidade do cliente. As limitações no espaço físico poderão ser superadas com criatividade, mobiliário e principalmente com a boa execução da tarefa do psicoterapeuta.

 

4.4. Os Mandamentos dos Psicoterapeutas Existenciais

Ana Maria Lopes Calvo de Feijoo, listou itens recomendados por Kierkegaard na obra Meu Ponto de Vista (1846), acerca da arte de ajudar o outro. A autora chamou de “Mandamentos do Psicoterapeuta Existencial”, uma referencia ao aspecto religioso muito presente na vida de Kierkegaard. São eles:

1o) Pela impossibilidade de destruir uma ilusão por via direta, deve-se então fazê-lo por meios indiretos. Só assim a ilusão pode ser arrancada pela raiz.

2o) O método indireto organiza-se dialeticamente para em seguida retirar-se, timidamente. Desta forma, aquele que ajuda não presencia o reconhecimento que o homem faz de si mesmo, por ter vivido uma ilusão.

3o) Quando se pretende ajudar o outro, deve-se promover a aproximação, permanecendo na situação de acompanhar aquele que está sob a ilusão. Só desta forma haverá a possibilidade de tirarmos o homem de sua ilusão. Sabendo-se desde o início que é uma tarefa difícil em qualquer caso.

4o) Aquele que vive na ilusão,em maior parte, vivencia a categoria estético-ética. A fim de atacar com disposição a ilusão, deve-se chegar até ele, para então poderem caminhar juntos. O escritor religioso, para entrar em contato com os homens, deve começar com obras estéticas. Esta é a estratégia.

5o) É importante ter paciência, pois com impaciência pode-se acabar fortalecendo a ilusão. Faz-se necessário ser cuidadoso para poder dissipar a tal ilusão.

6o) Para levar um homem ao seu centro é preciso chegar onde ele se encontra e começar por aí. Este é o segredo da arte de ajudar os demais.

7o) Para se ajudar o outro deve-se entender mais do que ele entende, mas antes de tudo deve-se entender o que ele entende. Se assim não for, a ajuda nada lhe valerá. Tudo começa quando se pode entender o que o outro entende e a forma como entende.

8o) Se orgulhoso do meu conhecimento, antes de ajudar o outro, o que desejo é que me admirem. O autêntico esforço para ajudar começa com uma atitude de humildade. O que ajuda deve-se colocar como desconhecendo mais do que aquela a quem ajuda.

9o) Ajudar não significa ser soberano, e sim criado. Ajudar não significa ser ambicioso, e sim paciente. Ajudar ter que resistir, no futuro, à imputação de que se está equivocado e, portanto, não se entende o que o outro entende.

10o) Apenas se chega até aquele que está equivocado, mostrando-se um ouvinte complacente e atento.

11o) Aquele que está disposto a ajudar carrega consigo a responsabilidade e também deve despender todo o esforço, porém sabendo que tudo isto só vai ter relação ao resultado obtido.

12o) As interpretações poéticas, muitas vezes, ajudam aquele que fala do seu sofrimento, sem que ele saiba que não se compartilha de sua paixão e, sim, que se quer livra-lo dela.

13o) Deve-se ser um ouvinte que senta e escuta o que o outro encontra mais prazer em contar, sem assombro.

14o) Apresentar-se com o tipo de paixão do outro homem: alegre para os alegres, em tom menor para os melancólicos, facilita a aproximação.

15o) Não temer fazer tudo isto, mesmo que na verdade não se possa fazer sem medo e temor.

16o) Chegar a ser o que se é consiste em chegar a interioridade através de reflexão, ou ainda significa desembaraçar-se dos laços da própria ilusão, o que também é uma modificação reflexiva.

17o) Quando um homem não quer ser conduzido, resta ainda obrigálo a dar-se conta do ponto em que ele está.

 

5. ALGUNS TEMAS EXISTENCIAIS

 

Dentre os principais temas tratados pelos existencialistas estão a angústia, autenticidade, desespero, morte, escolhas liberdade, maturidade, sentido da vida, poder pessoal, projeto de vida, vazio existencial, entre outros. Comentaremos a seguir alguns deles:

 

5.1. Autenticidade

A nossa existência se desenvolve segundo o modo como pensamos e como sentimos. O indivíduo pode escolher viver autenticamente, pensando e sentindo verdadeiramente sua realidade, ou escolher viver sua expressão não autentica.

A maioria das pessoas que procuram terapia está vivendo de forma inautêntica. Mas o que significa ser inautêntico? Significa não saber diferenciar os valores que possui, daqueles que lhe foram impostos. E assim, passivamente vão dando continuidade a sua história. Fazem seus relatos na terceira pessoa, como se os fatos não fizessem parte de si; são impessoais e superficiais. Quando conseguem fazer uma colocação mais pessoal, o que é raro, o fazem como um mecanismo para manutenção de sua reduzida auto-estima.

O indivíduo inautêntico não sente seu mundo interno como seu, por isso, também não percebe o mundo do outro, tendo assim, dificuldade em estabelecer relação afetiva. Suas experiências, sentido de mundo e identidade ficam comprometidas por sua visão condicionada de idéias racionais aprendidas anteriormente.

Ser autentico, segundo o psicólogo Jadir Lessa, é tudo aquilo que cada um pode ser em relação a si mesmo, independentemente do outro. Se é autentico quando se escolhe a si mesmo, quando se decide encontrar-se e compreender-se, quando faz-se escolhas próprias, quando corre riscos e os assume, quando encontra amparo e segurança em si mesmo, quando procura conhecer-se em profundidade, quando assume total responsabilidade pela própria existência e quando se prima pela liberdade, autonomia e autodeterminação.

 

5.2. Poder Pessoal

 

A verdadeira liberdade é poder saber tudo sobre si mesmo.

Michel Montaigne

 

O poder está relacionado com muitos sentimentos compartilhados. O poder envolve conquista, busca, escolha, conhecimento de si e do outro e liberdade.

Existe duas formas de poder: saber-se diferente e aceitar as diferenças. O poder pessoal advém da interiorização profunda, de olhar para dentro de si mesmo e de se conhecer. Só o poder político é que é buscado fora de si mesmo, na sociedade. E o poder sobre os outros, não é poder é ditadura e deveria ser responsabilidade e compromisso.

De todas as formas de poder, talvez o “poder ser”, seja a mais interessante para o ser humano. Independentemente de dinheiro, posição social ou política, o poder ser lhe confere integridade. O indivíduo quando busca poder ser ele mesmo, de uma forma autentica, traz para si muitas conquistas pessoais que irão enriquecer suas experiências existenciais, tornando-os o que são e o que querem ser, a partir do melhor uso de sua liberdade.

 

5.3. Escolhas

Cada pessoa é seu ditador absoluto, seu provedor particular de glórias ou catástrofes; o governante da própria vida, sua recompensa e sua punição.

Mabel Collens.

 

A todo o momento somos solicitados a fazer escolhas. Escolhas estas que vão das questões mais simples como o que comer, vestir, para onde ir... Há também, questões mais complexas, como viver, buscar o sentido da vida, optar por ser você mesmo, fazer escolhas, inclusive a de ser feliz.

Escolher implica em correr riscos e ser responsável pelas escolhas. Escolher também gera angústia, pois não há garantias nas escolhas. Escolha é incerteza. Apesar disto, angústia não é algo sempre negativo, ela é parte do processo de escolher e decidir e aguardar os resultados, pois cada escolha encaminha novos processos decisórios e podem também gerar mudanças.

A pessoa que sempre escolhe mesmo quando sede a pressões externas ou quando empurra a decisão para outra pessoa, devido a angústia vivenciada. O existencialismo mostra o quanto é importante usar a angústia positivamente, a fim de vencer a inércia e fazer deliberadamente suas próprias escolhas e ter prazer em faze-lo e não medo de que não seja a opção mais adequada.

 

5.4. Projeto de Vida

 

É livre aquele que aprendeu a libertar-se daquilo que o impede de ser livre.

Walmor Chagas.

Na visão de J. P. Sartre, a escolha que se faz para si próprio é chamado projeto original. Trata-se do que é fundamental em todos os projetos. Sartre remete-nos à responsabilidade por nossas escolhas, pois quando a pessoa escolhe, está vislumbrando para si, seus objetivos.

O maior projeto de vida é o processo de existir. Os seres vivos têm instinto de preservação da vida. E o que há de mais concreto na vida é a inevitabilidade da morte. É no período compreendido entre o nascimento e a morte que construímos nossa existência e projeto de vida. Existem muitas possibilidades de escolhas e caminho na vida, e estes somam-se com as experiências adquiridas anteriormente. Mas o produto final visa que essas possibilidades atendam as necessidades mais prementes do ser humano.

O homem não é um fato consumado, um produto acabado. Ele seta se construindo à medida que existe, assim é possível a realização dos projetos de vida, objetivos da existência. Mesmo que não tenha clareza, todo sujeito tem um projeto de vida, pois está existindo. São estes projetos que impulsionam o desenvolvimento humano, por isto as pessoas ousam e aventuram-se na busca de suas realizações.

Fazendo uso de sua liberdade, o indivíduo coloca em prática seu projeto singular e pessoal, assim amplia suas possibilidades, seu sentido de mundo, e sua consciência de ser. Ter um projeto claro e decididamente seu é o que dá sentido a existência.

6. ENTREVISTAS

1a Entrevista: Rio de Janeiro, 15 de setembro de 2000.

Dados do Entrevistado:

Nome: Jadir Machado Lessa

Data de nascimento: 17/10/1952.

Formação: Psicólogo e Psicoterapeuta Existencial

Presidente da SAEP - Sociedade de Análise Existencial e Psicomaiêutica onde coordena os cursos de formação em Análise Existencial e Psicomaiêutica.

Entrevistador: Quanto tempo de profissão, como foi sua formação e porque a opção da prática existencialista?

 

Entrevistado: Quando eu comecei, não tinha praticamente, nada do que se tem hoje, não tinha muitas opções de formação, tinha apenas a faculdade.

Eu estava começando a formação em Gestalterapia. Tinha a Psicanálise mas, as sociedades Psicanalíticas, naquela época eram freqüentadas só por médicos que não aceitavam psicólogos como membro. Então, comecei a fazer a formação em Gestalt, gostei muito, depois surgiu o psicodrama e ai eu fiz formação em psicodrama, e achei interessante porque onde na gestalt usava almofadas para representar pessoas no psicodrama usavam pessoas para representar pessoas, então parecia uma coisa muito mais dinâmica,.

 

Depois destas formações, entrei em contato com o existencialismo. Quando comecei a me aprofundar no existencialismo descobri uma coisa importante: o que mais havia me encantado na gestalterapia e no psicodrama era justamente o fundamento existencialista que tinha neles.

 

O existencialismo como uma corrente da psicoterapia se apresentou para mim como uma forma de conhecer na raiz, ou seja, a fundo aquelas idéias que fundamentavam a Gestalt e o psicodrama que eu tanto havia gostado. Foi aí que comecei a ver o grande significado do psicoterapeuta.

 

As questões existenciais estavam pôr trás da necessidade da psicoterapia, que estavam presentes na relação terapêutica. O psicoterapeuta precisa ter uma consciência muito clara dela, uma coisa que eu observei quando fazia Gestalt e psicodrama é que havia uma ênfase na técnica. Era uma técnica para atingir um determinado resultado, mais que o pouco conhecimento que motivava o uso da técnica ou do que estava pôr trás... eu não sei se estou sendo claro?

 

Entrevistador: Seria para atingir o objetivo rapidamente?

 

Entrevistado: Não. Não é isso, pôr exemplo: o enfermeiro quando aplica uma injeção num paciente, faz isso porque o médico mandou, estava escrito na papeleta para aplicar uma injeção. O enfermeiro não tem o conhecimento profundo de quais são as substâncias que estão naquela injeção, qual efeito vai causar no paciente, porque está sendo administrado naquela hora, naquela quantidade e etc. O enfermeiro tem uma noção do que esta fazendo, mas não tem o domínio deste assunto.

 

Era exatamente isto que eu sentia. A descoberta que eu fiz do existencialismo foi como se eu estivesse deixando de ser enfermeiro e me tornando médico, ou pelo menos descobrindo a possibilidade de ser médico, ou seja, não só conhecer a técnica de aplicar injeção, mas a possibilidade de conhecer e combinar o conhecimento de tudo aquilo que ela pode causar ou não no paciente ou seja uma ampliação muito grande do conhecimento da existência. Uma ampliação muito grande da minha consciência, do sentido da vida, meu e do outro. Uma consciência muito grande de todos os problemas que os seres humanos enfrentam na vida.

 

Então, depois que eu me aprofundei nisto, fazer psicoterapia com meu cliente passou a ser uma brincadeira, uma diversão; passou a ser uma coisa muito simples e muito clara, desvendar os mistérios dos clientes passou a ser muito fácil. Porquê? Porque eu não só estudei, como experimentei a fundo todas as essas questões existenciais. Que questões? A angústia, o sentido da vida, a escolha, a inautenticidade, a autenticidade, o medo da morte, a dificuldade de superar obstáculos, a desconfiança em si mesmo e a confiança em si mesmo, a fé... e os autores que mais contribuíram para que aumentasse essa minha consciência, foram justamente Kierkegaard, Heidegger e Sartre também.

 

Kierkegaard, ele um mundo extremamente materialista, num mundo mecanicista, ele resgata o quê? O sentimento resgata a importância dos sentimentos na vida da pessoa. Ora, num mundo em que o homem estava virando máquina, num mundo onde o homem estava cada vez mais na linha de produção funcionando como um instrumento, como uma máquina.

 

As pessoas entravam para as fábricas, para as empresas para se tornarem robôs, eles deixavam a condição de pessoas do lado de fora. As empresas de uma certa forma exigiam que as pessoas abrissem mão da afetividade, abrissem mão dos sentimentos, das emoções, para que pudessem trabalhar na firma.

 

Se esse mundo continuasse assim, hoje teríamos um mundo pobre, extremamente vazio, extremamente entediante, o número de suicídios seria enorme, a doença seria muito freqüente, muito mais do que hoje.Por que? Porque havia um desmoronamento da estrutura afetiva que é o que fundamenta o indivíduo, é como se fosse a coluna para o corpo.

 

Entrevistador: Mas nós estamos voltando a isso?

 

Entrevistado: Não, hoje nós estamos saindo disto ainda, não é que Kierkegaard resolveu esta questão, ele levantou esta questão de forma muito clara. Outro que levantou esta questão de uma forma muito veemente foi Mead, que também me influenciou muito no sentido de resgatar a humanidade do ser humano. Essas coisas se passaram na forma de uma grande batalha que vivem e viviam na medida em que os efeitos e os confrontos, muitas vezes eram imperceptíveis porque se davam de uma forma não verbal, muitas vezes não articulada.

 

Mas até hoje essas pessoas foram as principais responsáveis pelo que esta havendo ainda hoje de mudança no sentido de resgatar o sentimento, é a humanidade do ser humano. Então não estamos voltando a isso, pois isso ainda não foi superado.

 

Entrevistador: Pôr mais que nas empresas digam que querem deixar você mais à vontade, eu acho que pôr trás disso tudo há uma fachada para que você trabalhe mais.

 

Entrevistado: Sempre a empresa quer que você trabalhe, e quando ela faz isso, ela faz numa estratégia operacional, ela quer que você fique mais à vontade para produzir, mas é verdade, isso não é uma coisa oculta.

 

Entrevistador: Então ele não está pensando no ser humano?

 

Entrevistado: Ele está pensando no ser humano sim, mas não prioritariamente no ser humano, ele pensa no lucro. A empresa pensa na operacionalidade dela e está certa a empresa não tem que pensar no ser humano. Quem tem que pensar no ser humano é a própria pessoa. Pensar nos ser humano que cada um é. A empresa não tem que pensar nisto.

 

Antigamente a empresa desprezava a humanidade do ser humano e estava pouco se importando se o sujeito se sentisse a vontade, pelo contrário, queriam que o operário se sentisse coagido e constrangido, acreditando que produziria mais assim.

 

Então, a grande transformação que está acontecendo no mundo é que a partir de Kierkegaard, a partir de Nietzsche contagiando tantos pensadores, tantos profissionais, fez com que as empresas percebessem que é muito mais vantajoso dar melhores condições ao ser humano para que ele produza melhor, ou seja, se ele estiver mais à vontade, se estiver mais humano produzirá melhor do que se estiver robotizado.

 

Esta é a grande questão. A empresa continua pensando nos benefícios que ela pode ter. Só que agora ela acha mais vantajoso para a produção que o ser humano se sinta à vontade, ora isso é uma conquista extraordinária do movimento existencialista.

 

Entrevistador: As empresas atualmente promovem cursos, palestras - utilizando os recursos humanos mais para promover a interação e desenvolver o espírito de equipe.

 

Entrevistado: Exatamente, isso nada mais é do que o reflexo do existencialismo no campo empresarial. Mas isso não é dito com essa clareza, as pessoas nem sabem disso e é pôr isso que eu falei para vocês que eu me sinto privilegiado pôr ter esse conhecimento, pôr ter essa fundamentação teórica.

 

Porque a grande contribuição que eu tive enquanto profissional da Psicologia foi ter essa fundamentação teórica. Essa visão de mundo tão esclarecida de como as coisas funcionam, de como o ser humano funciona, a questão da angústia existencial, a questão da liberdade é questão documental.

 

Antigamente se entendia a angústia como uma coisa ruim que precisava tomar um tranqüilizante. O existencialismo nos mostrou que a angústia é uma coisa boa, uma coisa vital. A angústia é como sentir fome. Ninguém precisa tomar tranqüilizante porque esta com fome.

 

A angústia significa - olha, eu estou com fome, mas fome de quê? - fome de tomar decisões. O indivíduo angustiado é aquele que não decide. É aquele que está empurrado na sua vida, é aquele que está numa situação em que a vida está cobrando dele uma definição, uma atitude, e ele não se manifesta.

Então, ele próprio internamente está cobrando de si mesmo uma atitude e ele não escolhe, ele não se posiciona, então sente angústia. Tem pessoas que sentem angústias durante anos, e ao invés de correr riscos, de fazer escolhas, toma um tranqüilizante, considerando a angústia uma coisa ruim.

 

Na realidade, o que é ruim é ficar parado, imobilizado diante da vida. Então são questões existenciais muito importantes que quando o psicólogo conhece, compreende, domina e pode ajudar o cliente com muito mais facilidade.

 

Outra questão é a questão da liberdade que eu tinha dito a vocês. Ninguém nasce livre, isso Sartre nos ensinou, muito bem. A liberdade tem que ser construída, tem que ser conquistada, não pode ser dada, nem doada como herança, ela não pode ser outorgada.

 

A liberdade tem que ser construída e só o ser humano pode lutar para construir sua própria liberdade individualmente, ela não acontece em grupos. Então, ajudar um cliente a se conscientizar de que ele pode ser livre, é um privilégio. A maioria das pessoas se sentem presas e atreladas a uma série de coisas a uma série de pessoas, a uma série de preconceitos e valores, se sentem subjugadas e submetidas aquilo, como se fosse uma coisa determinada e determinante como se não pudesse escapar da teia da vida.

 

Não é verdade. Eu aprendi que cada um de nós pode ter uma atitude libertadora ou liberticida, tanto com relação aos outros como em relação a si mesmo, ou seja cada pessoa pode ter uma atitude de liberticidade ou seja, matar a liberdade em si mesmo e no outro, ou pode ter uma atitude libertadora. Despertar, incentivar e cultivar a liberdade em si mesmo e nos outros.

 

Isso aparece claramente nas relações sociais e é possível ver com clareza se o cliente está tendo uma atitude libertadora ou liberticida em relação e com relação a si mesmo e aos outros. Então, são questões muito fortes e que são o fundamento da existência humana.

 

Entrevistador: Estamos, o tempo todo, buscando essa superação, essa liberdade?

 

Entrevistado: Não, não. Não buscando essa liberdade. Só o homem não consegue nada, da mesma forma que o pobre busca dinheiro e riqueza. Contudo, não faz a menor diferença o pobre buscar dinheiro e riqueza, ele fica buscando, buscando, buscando, o que acontece? Ele fica rico? Não.

Buscar não é suficiente, desejar não é suficiente. É preciso encontrar o caminho. A grande questão da humanidade é essa, as pessoas buscam as melhores coisas, elas desejam as melhores, todos.

Se você fizer uma enquête, você não vai encontrar ninguém que diga que busca uma doença ao invés da saúde ou busca a pobreza no lugar da riqueza. Se você perguntar, todos buscam as melhores coisas para si, mas se você for constatar, você vai ver que pouquíssimos tem as melhores coisas. A maioria tem as piores coisas, entende.

Pôr isso que eu contestei a sua observação, embora seja inteligente. Não basta buscar a liberdade, é preciso descobrir um caminho de construí-la, conquistá-la.

 

Entrevistador: Mas só se consegue fazer essas escolhas, essas opções, o indivíduo consciente da sua angústia. Tem pessoas que passam pela vida e parece que a vida que está passando pôr ela.

 

Entrevistado: Exatamente, então exatamente isso constitui o privilégio que eu sinto em ser um psicoterapeuta existencial. Eu tenho essa possibilidade de ajudar as pessoas a se conscientizarem dessas questões de uma forma muito clara, muito tranqüila. De modo que fica fácil para ela sair dessa condição de se desejar o bem e de buscar o bem, para se tornarem pessoas que de fato constroem o caminho que leva a existência.

Foi isso o grande tesouro que eu conquistei ao me aprofundar na psicoterapia existencial, foi isso que eu descobri nela. Para minha vida pessoal e é isso que eu procuro distribuir para os meus clientes.

 

Entrevistador: qual a diferença da postura do psicólogo existencialista para o psicanalista?

 

Entrevistado: A psicanálise volta para trás, para o passado. É Voltada para procurar as causas que fizeram com que o indivíduo se tornasse quem ele se tornou.

 

O existencialismo é voltado para o futuro, o presente no futuro. Em vez de ele perguntar o que fez você ficar assim.? Ele pergunta: o que você quer ser?

 

Entrevistador: O psicanalista pouco fala com o cliente? O existencialista interfere mais?

 

Entrevistado: Ele fala mais. A psicanálise parte de um princípio muito interessante, muito bonito que diz o seguinte: na medida em que o terapeuta conseguir manter-se numa posição de neutralidade ou seja, fingir que ele não existe, pois tudo o que o cliente trouxer para a terapia não é um vínculo com a pessoa dele, e sim a projeção de todos os conteúdos internos da própria pessoa ou seja, se o psicanalista consegue manter-se tão indiferente a nível afetivo, a nível existencial, se ele consegue ser tão neutro, tão indiferente de modo que não construa nenhum vínculo afetivo com seu cliente, esse vínculo afetivo chamam de contra transferência, se ele não constrói um vínculo, se ele se coloca no papel que o Lacan chamou de o papel do morto, ele consegue um vínculo transferencial, ou seja, onde o cliente vai transferir todos os seus conteúdos, vai projetar nele todos os seus conteúdos e tudo que o cliente disser, não será sobre ele, mesmo que esteja falando da pessoa dele, mas o cliente estará falando de si mesmo e de seus conteúdos. É como um teste de Rochar. É como se o psicanalista fosse a prancha, totalmente indefinida sem nenhuma indicação de nada.

Quando ele consegue ser tão neutro quanto uma prancha de Rochar, o cliente projeta nele todas as suas fantasias. Só que é muito difícil ser psicanalista desta forma porque é muito difícil para um indivíduo ocupar o papel de morto. É muito difícil o indivíduo com sentimentos, com pensamentos, com uma série de coisas pulsantes, fingir, fingir ou negar ou neutralizar essas coisas de modo que elas não apareçam diante do indivíduo.

Mas basicamente o papel do psicanalista é um papel negativo. Negativo no sentido de valor, negativo no sentido de ausência. Ele tem um papel ausente, ou seja, ele não está ali, ele está como se não estivesse.

O papel do psicoterapeuta existencial é um papel ativo, ele está ali como se estivesse, ou seja, interfere mais, não tem compromisso com o teórico, não tem a necessidade com o metodológico, de fingir que não está ali. Não tem a necessidade da neutralidade ou da intenção, mas ele tem uma outra coisa, no caso da existencialidade, que é a fenomenologia, ele tem a disposição de colocar entre parênteses os seus próprios valores, ou seja, ele se empenha no sentido de não permitir que os valores dele interfiram nos valores do cliente, ou seja, deve-se procurar conhecer e compreender o cliente a partir dos valores do próprio cliente e não de seus próprios valores.

Ele procura ficar não no lugar do morto, mas ficar no lugar do vivo que está a sua frente, ou seja, ficar no lugar. Deve procurar ver o mundo pela ótica do cliente, procurar compreender o mundo do modo como o cliente o compreende e, ao fazer isso ele utiliza uma técnica que é exatamente trazer as questões do cliente do geral para o particular, ou seja, o cliente muitas vezes se encontra numa atitude em que ele está disperso, diluído no impessoal, ele não esta centrado em si mesmo, então faz colocações na terceira pessoa. Ele fala de nós como se estivesse falando do eu, então o psicoterapeuta existencial faz um convite ao cliente se colocar na primeira pessoa do singular, isso é um estímulo constante para que ele saia da condição de diluído no impessoal para uma posição de estar individualizado. O processo de individualização é fundamental na psicoterapia existencial.

O é processo de individualização? É passar a reconhecer, a validar, a nomear, a expressar todos os seus legítimos pensamentos e sentimentos e os pensamentos de outras pessoas.

 

Entrevistador: Não seria estar mais próximo da sua essência?

 

Entrevistado: É, essa palavra essência tem uma importância muito grande na teoria existencialista, eu preferia não usar esta palavra. Mas seria ele encontrar e construir os seus próprios valore, os seus próprios conceitos e validar sua própria visão de mundo ao invés de ficar copiando a visão de mundo dos outros. Significa superar todos os condicionamentos que eu ele teve - condicionamentos pavilovianos que a vida fez com ele, as pessoas fizeram com ele ao longo da vida no sentido de que ele ficasse reagindo a determinados estímulos automaticamente e se conscientize disso para que aprenda, ao invés de reagir a esses estímulos automaticamente, passe a dar uma resposta própria, ou seja, responder a uma situação e muito diferente de reagir automaticamente. Reagir é repetir automaticamente uma atitude que já estava condicionada.

 

Entrevistador: Durante toda a vida nós vamos sendo condicionados, não é? Até chegar o momento em que nós começamos a tomar nossas próprias decisões, então o existencialismo viria para nos ajudar neste sentido?

 

Entrevistado: Isso, o existencialismo vem para ajudar nesse sentido, não só a tomar decisão, mas a ajudar a descobrir o que realmente você quer.

 

Entrevistador: No momento atual o que tem leva uma pessoa a procurar terapia?

 

Entrevistado: O que leva uma pessoa a procurar terapia não é um assunto específico. É quando ela percebe que não esta funcionando bem, em qualquer área, profissional, pessoal, sexual. Então o indivíduo se esforça, se esforça e não consegue atingir o objetivo que se propôs, então procura apoio.

 

Algumas pessoas continuam quebrando a cabeça e incidindo nos mesmos erros durante muitos anos, mas a cada dia que passa as pessoas se mostram mais conscientes e mais disponíveis para procurar ajuda. Atualmente eu diria que há um número maior de mulheres do que de homem.

 

O homem é mais cabeça dura, a mulher é mais disponível para ser ajudada, reconhecer que precisa de ajuda e efetivamente procurá-la. E com isso a mulher está tendo uma vantagem muito grande na sociedade, ela esta tomando cada vez mais posições importantes, esta se desenvolvendo cada vez mais e muitas vezes o homem esta ficando para trás.

Progressivamente, lugares que eram só ocupados pôr homens agora já são ocupados pôr mulheres e às vezes a mulher é a chefe. Então acho que estamos vivendo um período de grandes transformações sociais. É recente a presença da mulher no mercado de trabalho. Ela começou a trabalhar na época das duas guerras mundiais. Até então, não se cogitava a presença da mulher no mercado de trabalho e com as guerras e com a ausência dos homens nas cidades, o trabalho teve que ser feito pela mulher, simplesmente ou em função dessas circunstâncias, todos os homens foram para a guerra. Os homens em condições de produzir foram para a guerra, e tinha muito trabalho a ser feito. Acabou esse trabalho sendo feito pelas mulheres num momento de desespero público e social. A mulher gostou de fazer isso e a sociedade gostou do resultado do trabalho das mulheres, e tem sido uma coisa realmente bem sucedida. A evidência disso é que aqui tem três mulheres e um homem.

 

Entrevistador: Agora está tendo uma crise no meio masculino, pois o homem não compreende essa nova mulher, ele não está conseguindo acompanhar essa nova mulher?

 

Entrevistado: Não só não compreende, como está sendo superado porque o homem foi educado para fazer poucas coisas. A mulher foi educada desde o início a fazer muitas coisas, então os empresários estão descobrindo que a mulher produz muito mais do que o homem. É muito mais vantajoso ter uma mulher na empresa do que um homem, ela trabalha mais, não fica quieta. Ela sempre vê uma coisa que pode ser, o homem não, o homem muitas vezes está doido para dar uma parada, ler um jornal, ficar contando piada... A mulher não tem esse hábito, pelo menos ainda, se ela acabou o serviço procura outra coisa para fazer, para produzir.

O homem não tem essa cultura de realizar tarefas e a mulher, ficou muito tempo em casa realizando tarefas que tinham que ser feitas e que se acumulasse seria um desastre, lavando a louça, varrendo a casa, lavando roupa e eram coisas que acontecia ao mesmo tempo-estar com uma panela aqui cozinhando feijão, depois bota outra com arroz - o fogão tem 4 bocas e, muitas vezes as 4 bocas estão acesas e ainda tem alguma coisa no forno enquanto a máquina está funcionando, fora as crianças.

São muitas coisas, a mulher aprende a fazer muitas coisas simultâneas. O homem não aprende a fazer coisas únicas, fica concentrado numa coisa só. Então neste mundo atual em que a coisa é muito dinâmica e a velocidade da informação é muito dinâmica, a mulher fica numa vantagem extraordinária.

 

Entrevistador: Além de atuar no mercado de trabalho, atua dentro de casa.

 

Entrevistado: Exatamente, o homem chega em casa querendo o chinelo e o jornal. A mulher já chega pensando nas coisas que tem que fazer: a janta, os filhos, esta sempre atenta a uma série de tarefas e é uma grande responsabilidade. A mulher tem uma responsabilidade social muito maior do que o homem - nesse sentido o homem parece ser muito mais egoísta.

 

Entrevistador: E mais comodista.

 

Entrevistado: E mais comodista. Isso aconteceu numa época em que o homem tinha o domínio total do mercado de trabalho e a mulher tinha a obrigação de ficar em casa, então ele podia se dar a esse luxo.

O homem era o rei, mas agora que a mulher entrou no mercado de trabalho, ele não pode mais se dar a esse luxo. É como se ele quisesse continuar exercendo esse reinado, e com isso muitas brigas familiares acontecem em função disso. Ele querendo insistir em ocupar esse papel de rei e a mulher diz: - sai para lá rapaz, isso aqui não é nenhum reinado. Isso agora é democracia, e ele não entende, não aceita, mesmo que entenda, não aceita e com isso a mulher cresce e o homem, fica para trás. Pelo sorriso de vocês, vejo que vocês concordam comigo.

 

Entrevistador: Com certeza. Talvez agora, o homem tivesse que partir para uma conscientização disso.

 

Entrevistado: Eu não sei, ou então para a decadência. Se o homem vai partir para a conscientização disso eu não sei, eu sei que ele tem dois caminhos: ou ele se conscientiza disso e se reformula, ou vai cair em decadência vertiginosa e aí teremos a oportunidade de ter um mundo prioritariamente feminino, governado pelas mulheres, administrado pelas mulheres e a mulher dando o tom. Quem sabe não é uma boa experiência para se tentar?

 

Eu não sei se é a melhor coisa do mundo, o mundo ser governado pelos homens. Os homens tiveram durante muitos séculos de exercer esse papel. A mulher nunca teve essa oportunidade, quem sabe a mulher não administra melhor que o homem. Eu não sei, e acho que vale a pena tentar se a mulher tiver condições de conquistar este espaço, porque na realidade este espaço não vai ser dado de graça, nem para o homem, nem para a mulher.

Talvez uma outra opção seja os dois administrarem o mundo em parceria, eu não sei. Eu sei de uma coisa, que os mais capacitados, os mais competentes vão prevalecer sempre. Se for o homem que seja o homem, se for a mulher que seja a mulher, se for os dois em parceria, que seja os dois em parceria, mas me parece pouco provável que o mundo ande para trás. A perspectiva que eu vejo é que o mais competente vai prevalecer e que vença o melhor.

 

Entrevistador: Você trabalha só com adultos?

 

Entrevistado: Não trabalho com crianças também.

 

Entrevistador: E como a criança é vista dentro da filosofia existencialista?

 

Entrevistado: Da mesma forma, não como se fosse um adulto em miniatura, mas da mesma forma, um ser que tem angústia, tem a possibilidade de ser independente ou de ser dependente, de ser autônomo ou acomodado, como qualquer ser humano e com uma vantagem, de que a criança está em construção, então é mais receptiva para fazer mudanças, transformações e aprender. O adulto é menos receptível. Quanto mais jovem mais receptivo para o aprendizado, o indivíduo é, então na psicoterapia isso também acontece. Quanto mais jovem melhor o resultado.

 

Entrevistador: Mas as crianças sofrem muita influência de outras pessoas, não é?

 

 

Entrevistado: É, agora, o problema das crianças é que muitas vezes ela é o reflexo dos pais. Então muitas vezes, o pai e a mãe estão precisando muita mais de terapia do que a criança, ou seja, muitas vezes a criança é trazida porque está tendo um comportamento inadequado em casa e na escola, mas esse comportamento é muito compreensivo em função do tipo de vida que leva e do tipo de família que ela convive.

Se a família se reestrutura, a criança automaticamente passa a funcionar bem. Então quando eu trabalho com crianças, eu faço um trabalho muito forte também com os pais. E muitas vezes recomendo que os pais façam terapia individual cada um, e às vezes um deles, às vezes os dois alem deste acompanhamento que eu faço.

 

Entrevistador: É importante que a família participe?

 

Entrevistado: É fundamental, sem a participação da família não é possível fazer um trabalho com uma criança. O que é faço é um trabalho de 45 a 50 minutos pôr semana, uma vez, e os pais fazem às vezes o trabalho em casa, inverso durante todo o dia. Então não há como haver sucesso num trabalho que está sendo desfeito na forma intensiva em casa. Se não houver parceria com os pais, a conscientização dos pais com relação a determinadas questões que são decisivas na atitude da criança, a possibilidade de terapia é inviável na terapia da criança.

 

Entrevistador: Qual é o melhor momento que você já vivenciou na sua prática profissional?

 

Entrevistado: São muitos, mas para falar genericamente, é o momento de ver o cliente fazendo suas conquistas. O cliente se amando, pôr exemplo, acreditando em si mesmo. Acreditando que vai vencer, que vai conseguir, ou mesmo, conseguindo as coisas que quer, porque muitas vezes, o processo de psicoterapia passa pôr esse trajeto.

No início não acredita em si mesmo. Não acredita na sua capacidade de realização, não gosta de si mesmo, não acredita que as coisas que fizer darão certo e às vezes nem tenta porque sabe que não vai dar certo. Fazer essa mudança de perspectiva é um trabalho longo, promover esta mudança junto com o cliente é um trabalho longo.

É preciso que o psicoterapeuta tenha muita fé na psicoterapia. Muita fé na teoria que ele acredita, muita fé em si mesmo, na sua capacidade de realização para que ele consiga continuar ajudando alguns clientes.

Muitas vezes, alguns clientes no início da terapia, dão a impressão de que não vai mudar nada, que vão mudar muito pouco, que não acreditam em nada daquilo e não tem a menor possibilidade de se esperar nada dele, de bom, de positivo ou de progresso, só que o sujeito continua vindo.

O fato de ele continuar vindo, mesmo que diga que não vai dar certo, que não vai ter resultado, é uma declaração muito mais efetiva de que ele tem uma fé, uma esperança, uma crença de que pode ter algum resultado. Então é muito importante prestar atenção na atitude do cliente, muito mais do que na sua palavra, do que o seu discurso.

 

É preciso muitas vezes estar atento as atitudes do cliente para que possa ver o que ele não revela nas palavras.

 

Entrevistador: Se ele continua vindo é porque está dizendo: eu quero ser ajudado?

 

Entrevistado: Sim, mesmo que na palavra ele diga que não liga. Há pessoas que fazem isso, mas continuam vindo. Então, mais tarde um pouco, o resultado começa a aparecer e é preciso acreditar nisso e uma das coisas que mais ajudam a gente é acreditar nisso, é já aconteceu com muita gente.

Para quem está começando é mais difícil porque não tem a experiência de ter testemunhado esse processo ser bem sucedido com muitas pessoas, então ele mesmo fica em divida e às vezes até acredita na descrença do cliente. Mas quando o indivíduo já fez psicoterapia, o indivíduo psicólogo, já fez psicoterapia e conseguiu bons resultados em si mesmo e se ele teve a felicidade de fazer nos outros e conseguir bons resultados também, mesmo que nos clientes mais difíceis, ele consegue manter a autoconfiança, manter a confiança no cliente e consegue fazer um bom trabalho, e conseguir um bom resultado.

 

Entrevistador: Qual é o momento mais difícil, crítico?

 

Entrevistado: eu tive um momento muito crítico quando era estudante igual a vocês. Eu estava estagiando, no Engenho de Dentro, no Centro Psiquiátrico Pedro II. Eu estava atendendo um cliente no refeitório, numa hora em que não havia refeição. Estava só nos dois lá, eu e o cliente sentado numa mesinha com quatro cadeiras, eram várias, quando de repente chegou um sujeito surtado. Entrou enfurecido e começou a jogar as mesas para o alto, quebrou o refeitório todo. As mesas batiam no teto e se quebravam, já caíam partidas no chão, tal a violência da força do sujeito.

Meu cliente ficou assustado e eu disse para ele fingir que não estava acontecendo nada e ficamos os dois lá, olhando um para o outro sem olhar para o surtado, e saímos ilesos. O sujeito jogou para o alto todas as mesas e as cadeiras do refeitório, exceto a mesa em que estávamos e as quatro cadeiras, inclusive a que estávamos sentados, não tocou em nós.

Mas eu acredito, que se eu e o cliente tivéssemos entrado em pânico teríamos tomado uma boa surra naquele dia.

 

Entrevistador: Você se sente realizado em sua profissão? Tem alguns projetos?

 

Entrevistado: Me sinto plenamente realizado, o que não descarta a possibilidade de ter projetos. Eu sempre tenho projetos novos, a cada dia. Hoje mesmo eu estou gestando um tremendo projeto.

Agora, o fato de estar com uma grande perspectiva pela frente não quer dizer que eu não me sinta realizado. Eu me sinto realizado pôr estar realizando e não pelo que eu posso vir a terminar num determinado momento, num determinado tempo..

O que me realiza não é completar uma tarefa. O que me realiza é expandir as possibilidades de realização da minha pessoa e das pessoas com quem eu trabalho. É isso que me dá a sensação de realização. Não é um fato ocorrido ou um trabalho acabado e organizado, mas a consciência que eu tenho da minha capacidade de realização, isso que me realiza, me realiza muito.

 

Entrevistador: O que é preciso para ser um bom psicoterapeuta existencialista?

 

Entrevistado: É fácil dizer porque são regras bastante simples e bastante conhecidas por vocês. A primeira coisa é você fazer uma boa terapia. Ninguém consegue ser um bom psicoterapeuta sem fazer uma boa terapia. Isso é fundamental.

Em segundo lugar, fazer um bom curso de formação e uma boa supervisão. É essa a receita: uma receita com 3 ingredientes. Nessa ordem: A terapia; a formação e a supervisão. Fazendo isso você está qualificado para ser um bom profissional.

 

 

2ª Entrevista: Rio de Janeiro, 27 de setembro de 2000

 

Dados da Entrevistada:

Nome: Ana Tereza Camasmie

Data de nascimento: 17/10/1952.

Formação: Psicóloga e Psicoterapeuta Existencial e supervisora.

Professora da SAEP - Sociedade de Análise Existencial e Psicomaiêutica.

 

Entrevistador: Como foi o início de sua carreira?

 

Entrevistada: Já estou atendendo cerca de 12 anos aproximadamente, comecei a atender um pouquinho antes de me formar, desde que eu entrei no estágio básico, comecei a entrevistar os casos avançados, e também como co-terapeuta.

 

Entrevistador: Você desde o início de sua carreira quis seguir essa linha (Existencial)?

 

Entrevistada: Não, eu nem sabia que a linha existia. Graduei-me na UERJ, lá não tinha essa linha, nem existencial, nem humanista, era uma época em que tudo era muita psicanálise, quando eu estava no último ano a UERJ passou por uma reformulação de curriculum, e entraram essas coisas novas, a Gestalt Terapia, a Terapia Reichiana, Existencial Humanista, tinha até PNL, mas não dava mais tempo, estava no último ano e não dava para mudar toda a carga horária.

Saí da Faculdade com a Psicanálise nas costas, só para dar conta, e como fui trabalhar em uma clínica eu me sentia totalmente esquisita, todo mundo era psicanalista, mas meu trabalho era diferente não combinava muito com eles, mas fazia um grande sucesso. Uma funcionária da clínica falou assim: “Você vai fazer supervisão com quem?”. Eu não tinha nenhum supervisor na época, falei que não sabia, e ela me falou que conhecia o Jadir Lessa - Diretor de Psicoterapia Existencial. Fui procurá-lo, ele tinha um curso de formação de Existencialismo, particular para 2 a 3 pessoas no máximo, eu fiz sem saber o que era o existencialismo, mas comecei a estudar, o que eu lia, estudava era o que eu gostava e sentia. Acho que o Existencialismo tem esse Tchan, quem lê o livro do existencialismo se identifica. Tem uma história de um Psicólogo que estava muito doente e ficou internado em um hospital, com pneumonia, um problema grave respiratório, ele disse que quando lia o livro de Freud ele gostava, se sentia bem, mas quando ele leu o Existencialismo se sentiu profundamente compreendido.

 

Entrevistador: Como que é isso na prática?

 

Entrevistada: Primeiro queria dar para vocês um parâmetro que é importante que já que conhecem outras linhas. É melhor diferenciar isso.

O Existencialismo não é uma linha terapêutica com corpo teórico arrumado, ela não tem uma Psicologia do Desenvolvimento, não tem procedimentos técnicos e teóricos organizados, porque ela é uma linha que veio da Filosofia. O novo modo de pensar o homem começou a surgir na época das guerras mundiais, entre guerras e pós-guerras, esse novo modo que a filosofia começou a perceber o homem, os Psiquiatras da época começaram a ler e estudar esses livros, e começaram a pensar: “Porque que a gente não compreende o nosso paciente desse modo que eles compreendem?”. A psicologia e a filosofia da época não estavam dando conta dos sofrimentos que os homens tinham. Nesse momento vários teóricos em vários lugares do mundo começaram a escrever. Kierkegaard Tinha escrito no derramar de 1800 e tal, de repente nessa época começou a aparecer os livros dele e outros livros novos que apareceram por volta de 1902. Também começou a aparecer os filósofos como Sartre, Heidegger que começaram a escrever e falar do homem de um modo diferente da filosofia da época. Mas que modo diferente é esse? - é ver o homem de uma maneira mais ampla, de forma que ele não seja explicado por causas e efeitos. Foi uma época que a filosofia começou a falar sobre angústia, desespero, solidão, morte, limitação da existência, eram temas que não era muito bem o que a filosofia estava trazendo, a filosofia tinha um modo científico de olhar o homem, distanciado dele, até então a filosofia fazia como a ciência faz hoje na Biologia, Física, Química, que é a gente isolar o fenômeno e olhar ele distante, colocar em um laboratório, examinar, medir, quantificar. Nessa época esses autores existencialistas falaram: - “Mas olha, isso não serve para gente observar o homem, a amplitude humana não cabe dentro dessa coisa tão apertadinha que a ciência está oferecendo, será que não tem um outro jeito de olhar o homem?”.

Surgiu nesse momento o movimento existencial, que vem a Filosofia Existencial, que daí surge a psicologia Existencial. Foram com 2 psiquiatras Medard Boss e Ludwig Binswanger, eles vão pegar essa filosofia e vão trazer para a psicoterapia “como a gente faz isso para atender os clientes que a gente tem?”. Foi uma revolução na Psicologia que até então o que a psicologia tinha era que a história do homem é que explica os movimento que ele tem que viver, o que acontece com a sua vida adulta hoje tem uma explicação no passado, na sua infância, na sua adolescência, até uma gripe tem uma explicação, porque alguma coisa aconteceu ontem que hoje você está gripado. A esse modo de entender o homem chama-se metafísica. Esse modo diferente que Heidegger e Sartre vão propor chama-se fenomenologia.

Esse modo de compreender o homem, o modo como o Psicoterapeuta Existencial compreende o seu cliente. Aqui no atendimento quando o cliente estiver relatando as suas questões eu não vou procurar a explicação para isso que está acontecendo, não vou trazer um corpo teórico para encaixar ele nesse enquadramento, se ele pisca para a esquerda, quer dizer isso, se ele pisca para direita quer dizer aquilo, por isso que na Psicoterapia Existencial, não se está ocupado em traçar diagnóstico. É uma Psicoterapia que vai ter como primazia a relação do terapeuta e o cliente e tentar com o objetivo também, compreender seu modo de existir, como é que é seu jeito de existir sem classificar o lugar, entender o modo como ele existe, e no trabalho com ele, tentar ampliar o máximo de possibilidades que puder de existir, que a gente também busca a coisa de liberdade do ser. A Psicoterapia Existencial, mas propriamente a filosofia, fala que o homem é eternamente vir a ser ele nunca tem um dia que está pronto, nunca tem um dia que está maduro, nunca tem um dia que está arrumado, eu não posso nunca dizer que você não é capaz disso ou é incapaz daquilo, sempre há possibilidade de você ser uma pessoa diferente do que está sendo hoje.

O Existencialismo também tem uma forma de pensar do humanismo que o Roger traz, quando a gente nasce é um ser de potencialidade que a medida que você vai existindo essas potencialidades se tiver um campo para se manifestar elas vão se desenvolver. Na Psicologia Humanista ela fala em desenvolvimento, em autodescobrimento, de potencial humano, realização plena. São termos próprios desse modo de pensar que o Humanismo tem e que tem a cara dos Estados Unidos, tem muito de Americano nisso, diz também que se você fizer direitinho alguns desses passos você chega lá. No ponto de vista existencial, por isso que às vezes é entendido como negativo, como mais pesado, como mais dark, não acredita que a gente nasce com potencialidade. Para o puro Existencialismo a existência precede a essência por isso, por que é existindo que vou fazer essa pessoa que sou hoje, claro que dentro dessa cultura que nasci, nessas condições que tenho, tenho certas limitações que a existência me oferece, mas dentro dela eu tenho a liberdade de poder acolher o que a cultura me traz, a sociedade me traz ou de negar, esse processo de construção humana não é desenvolver potencialidades, eu não sei onde vou chegar, não tenho para onde chegar, a única certeza que a gente tem é que vai morrer, a gente tem um intervalo entre o viver e o morrer, é nesse intervalo que a gente vai procurar viver o máximo das possibilidades que se tem.

 

Entrevistador: Mas através da nossa história, da nossa educação e da sociedade é que a gente vai fazer as escolhas, o que a gente quer. Por exemplo, o modelo de nossos pais vai influenciar nas nossas escolhas mais tarde.

 

Entrevistada: A gente faz nossas escolhas, mas também não podemos esquecer que esses modelos dos nossos pais, o que aprendemos, escutamos desde pequeno, isso influencia muito no nosso modo de ser, mas não determina aquilo que sou, nem tem como determinar aquilo que vou ser.

 

O Psicoterapeuta não pode traçar o objetivo do cliente dele, meu cliente vai ter alta quando ele fizer x, y, z coisas, não posso traçar esses objetivos porque seria assim limitar suas possibilidades, eu tenho que ter em mente o tempo todo que para o meu trabalho com ele é ajudar a ser mais livre, que possa se apropriar da pessoa que é, conhecer esse seu jeito de ser, aceitar-se, conscientizar-se, tornar-se mais responsável pelas escolhas que está fazendo na vida, é todo um esforço de aprender a cuidar dele mesmo, ser mais dono de si nesse sentido a gente vai tá humano trabalhando com perspectiva muito diferente de uma outra que vai traçar o comportamento desesperado, as explicações para os comportamentos que você apresenta. A gente não trabalha com o inconsciente, com contra transferência, o conteúdo que a psicanálise traz que não é nossa perspectiva, não entendo que exista um inconsciente que esteja como um lugar armazenando suas experiências anteriores, eu posso entender que você tem uma memória, mas que a cada instante da sua vida vai dar um significado para aquilo que você entende como experiência, porque quando você conta um fato hoje na sua vida, jamais vai ser exatamente igual como aconteceu, nesse momento o passado é presente, a nossa perspectiva de tempo não é cronológica, assim, o ontem é a causa do hoje e hoje vai ser a causa de amanhã, o tempo todo, ontem, amanhã e hoje estão juntinhos. Por exemplo, quando se vai comprar um carro, na hora que vai comprar você vai fazer a escolha naquele exato momento que está na loja procurando o carro você se imagina no futuro dentro do carro dirigindo ele, imagina sua experiência de carro que já teve no passado, se você já bateu, se já ganhou um carro parecido com aquele, se é a 1ª vez que entra em uma loja para comprar um e, aí juntando, futuro com passado você compra o carro. Na perspectiva existencial a compreensão do tempo não é linear cronológica, ela é o tempo todo junta, entrincado, passado/presente/futuro, quando abri o armário para vestir minha roupa hoje de manhã, quando fui colocar essa roupa, botei a calça comprida porque eu pensei, vou sair daqui de noite, vou sair daqui 09h da noite, não posso colocar uma roupinha de verão porque eu já saí daqui de noite, com frio e então pego a calça comprida, entende como que é transar essas escolha da gente, eu vou lá na frente, vou lá trás, para decidir, por isso não posso dizer que foi por causa de ontem que eu estou decidindo aqui e agora, porque nesse momento que estou olhando ontem, eu também olhei para frente. É nessa perspectiva que a gente vai entender as patologias, por exemplo, as patologias graves que a gente tem como as psicoses é o momento em que a pessoa parou esse movimento, ou ela está totalmente lá, naquilo que passou, ou ela tem uma projeção o tempo todo daquilo que virá, quando estou preso lá ou cá não posso escolher, decidir, ser responsável, por esse comportamento está presente, o trabalho do Terapeuta é ajudá-lo a refazer esse movimento, a construção chama de restrição da existência está restrita, não estou podendo livremente fazer escolhas, é por aí que a gente vai trabalhando, são conceitos diferentes, a gente que vem de um conhecimento tão retórico, tão forte de causas e efeitos que é difícil de pensar, no cliente da gente sem querer explicar porque ele é desse jeito, porque não daquele outro jeito. É uma maneira de compreender o homem mais livre e mais aberto.

 

Eu acho que a psicologia é restrita, porque a gente quando estuda psicologia a gente estuda, antropologia, sociologia, essas coisas no 1º período, quando chega no 10º a gente não lembra mais nada, quando vai atender o cliente a gente só sabe uma coisa para atender, o aspecto emocional e o homem não é só isso, ele é ser social, ser político, ser econômico, antropológico, um ser cultural, é um ser um monte de coisas, já acho que a Psicologia fecha e se um me restringir a um modo de ver o homem, eu fecho mais ainda. Eu fico um pouco triste quando vejo que as faculdades oferecem apenas uma perspectiva para o cliente e para o terapeuta compreende-lo.

 

Entrevistador: Agora eu acho que está bastante diversificado, estão abrindo bastante, na Celso Lisboa, por exemplo, a gente tem estágios em empresas, clínicas, escolas, hospitais...

 

Entrevistada: Vai abrindo, mais mesmo na escola, empresas, no hospital, qual é a perspectiva que eu uso para poder compreender a escola, a empresa e o hospital?

 

Entrevistador: A ênfase é mais na psicanálise.

 

Entrevistada: Uma outra coisa que o Psicoterapeuta tem que ficar atento é assim, é quanto essa coisa de limitação da existência, como a gente entende que o ser é um ser para a morte, não quer dizer que se tenha uma visão mórbida da existência, mas isso quer dizer quer dizer que se eu me der conta que sou uma pessoa finita eu passo a valorizar mais as minhas conquistas presentes, que amanhã eu posso não está aqui, o tempo todo o terapeuta é na Psicoterapia existencial com o cliente dele, um terapeuta mais ativo, ele está o tempo todo: “e aí o que você está fazendo, mas então diante disto, o que você pretende fazer, mas qual é a finalidade disso que você está escolhendo? Porque é um terapeuta mais ativo? Porque ele está o tempo todo atento e ajudando o seu cliente, a se tornar consciente que ele não tem a vida toda para fazer escolhas, se a gente fosse um ser eterno a gente podia ser tudo, hoje ser médico, amanhã psicólogo, depois de amanhã economista, e assim por diante, mas a vida da gente tem um tempo que vai se extinguir, eu não tenho o tempo de fazer tudo, eu tenho que fazer escolhas, renunciar ou ganhar, acolher outras, o terapeuta vai está o tempo todo tornando isso claro. “Ah não, mas acontece que a minha mãe é isso, meu pai é aquilo, minha vida é isso”. Mas o que você vai fazer com isso que sua mãe deu, seu pai deu, quais são as atitudes que você vem tomando que você está escolhendo para cuidar da sua vida, porque ela é sua cabe a você responder que caminho já está trilhando e que vai trilhar daqui para frente, é uma terapia que é não é centrada nem no cliente, como na abordagem humanista, nem no terapeuta como na psicanálise, é uma terapia inteiramente centrada nessa relação que eu estabeleço. Não é uma relação para eu ficar contando as fofoca lá de casa, diferente de um papo de bar da esquina, mas é um clima facilitador, para que você possa mostrar, o mais inteiramente possível, o terapeuta também é a pessoa que também é 10% daquilo que ele pensa e sente com relação ao cliente, como ele está sentido, como ele está aceitando. Não acho que ela (Terapia existencial) é mais rápida, mas acho que oferece condições de andar mais, do que na terapia que é centrada aqui ou lá. Aqui vão te acontecer fenômenos que te acontecem lá não, você é sedutor lá, vai aparecer sedução por aqui, você é enrolado lá, a enrolação vai aparecer por aqui, eu estou abrindo campo para que a gente possa selecionar uma faixa de atendimento.

 

Entrevistador: Pensava que o existencialista usava esse método do Centrado no cliente, sentir com o cliente e tudo mais...

 

Entrevistada: Essa coisa do modo de ser empático, tudo isso é estrutura que Rogers vai trazer, não quer dizer que não se possa utilizar, mas é uma perspectiva de alta, quem dá é o cliente vem tudo de lá para cá. Na existencial é pensada. Nós vamos conversar, assim como conversamos nós aqui, eu penso isso o que você pensa e tal, to achando que você está bem melhor, está bonito, olha também acho, ou não, tôo com medo. Etc...

É uma abordagem que vai abrir campo também para você utilizar técnicas pesicoterápicas que você sinta legal de está oferecendo, ela não tem técnicas fixas, como ela vem da filosofia ela não tem isso, a filosofia ela é teórica.

 

Entrevistador: O Terapeuta tem que ter o bom senso para ver qual vai ser aplicado.

 

Entrevistada: Sempre tendo como meta, como finalidade essa expansão das possibilidades, eu vou usar essa técnica para que, vai abrir que possibilidades para mim, o que eu posso fazer com isso, como posso usar uma dramatização, posso usar um desenho com meu cliente, posso usar um teste projetivo, posso usar as pranchas para ele me dizer o que ele vê, sem ficar preocupado com a parte quantitativa do teste, eu posso contar uma história, posso utilizar várias coisas, tem também uma perspectiva corporal, que são próximos das linhas orientais que não conheço muito bem, mas que existe. Não existe só essa terapia de diálogo.

 

Entrevistador: O que é que está trazendo no momento os cliente para fazer terapia?

 

Entrevistada: Por isso que eu acho que o existencialismo é belíssimo, e tem condições de está podendo dar conta dessas transformações que o mundo está tendo. Nós estamos numa intensa transformação de valores, se pegarmos nossas mães, avós elas tinham referencias mais fixas, do que o que é ser homem, mulher, do que ser filho, criança não fala, não dá palpite, as mães não tinham dúvidas de como educar seus filho, chamávamos os pais de Senhor e de Senhora, o pai era para prover, a mãe cuidava dos filhos e de casa, os papéis eram claros para as pessoas. Mulher não se separava para tentar uma vida, mulher separada era super mal vista, desquitada era como eram chamadas antigamente e se junta-se com outro cara era amasiada. Tinham referencias fixas de como educar filhos, como ser mulher, como ser marido, como ser esposa e assim por diante. Nós estamos numa época que essas referências não valem mais uma das coisas que a gente mais sabe, não há como o homem poder dar conta financeiramente de uma casa sozinho, essa esposa dele teve que ir para fora, mas ela foi para fora e não deixou ninguém no lugar dela, para cuidar dos filhos, do marido, e aí chegam as empregadas que não dão conta, não conseguem, a mulher que está trabalhando fora, os filhos que chegam em casa e não encontram a mãe, e assim vai. Os filhos comportadinhos, que agora não são mais, ele vivem outra demanda de pai e mãe. São filhos questionadores. Essa mulher que tem que ser sensual, independente financeiramente, mas que também não pode ser mandona, o suficiente para não perder o marido, tem que ser uma excelente mãe, ela também não sabe mais que mulher que vai ser. Essa falta de referência que estão acontecendo mundialmente, e socialmente estão trazendo uma grande demanda para os consultórios, por que vão chegar aqui, crianças desadaptadas ou muito agressivas na escola, batem nos colegas, passa mal em casa, tem doenças crônicas, é essas mulheres que vem aos consultórios são mulheres sozinhas, porque esses homens também não compreendem esse movimento de libertação dela, porque ele espera muito dela, não sabe dividir com ela ou então ela chega querendo ser a rainha da cocada preta, não sabe dá espaço para o marido, esse marido também que chega ou impotente ou solitário, ou ele chega também extremamente provedor ou entristecido porque não consegue ser um provedor, então são os paciente que estão chegando nos consultórios, sem falar das grandes patologias, são pessoas que estão procurando seu lugar no mundo, estão procurando novos referenciais, é difícil procurar referenciais internos quando os de fora estão em questão. O Terapeuta que também está nessa sociedade sem referencia, ele também não tem, é também um novo modo, uma coisa é ser terapeuta em 1910 como Freud era, onde as mulheres eram reprimidas sexualmente, não trabalhavam, os homens tinham uma função definida. Hoje em dia é muito difícil você atender com essa mesma perspectiva que antigamente. É preciso uma Psicoterapia que possa dar conta dessa realidade que a gente está tendo, eu acho que o existencialismo tem condições de dar conta disso tudo, ela deixa o homem livre, ela não tem perspectiva de como o homem deve ser, ela está ocupada em compreender de como é o modo desse homem ser, se ele está podendo ser livre e responsável por aquilo que ele quer ser. Se você quer ser homossexual ou não, isso não é uma patologia, quem optou foi ele, assim como a esquizofrenia não é vista assim, a esquizofrenia não é vista assim, a esquizofrenia também é vista como um modo de ser, o modo como você pode ser no mundo. A gente está num processo de tanta revolução de tanta indefinição que a gente precisa de uma abordagem que possa dar conta dos sofrimentos do homem, às vezes o cliente está passando por conflitos que você também está, é o mesmo mundo que você está inserido, eu não estou acima do meu cliente, estou no mesmo mundo que ele está, mas com uma outra postura. Antigamente os clientes costumavam dizer assim: “Você sabe tudo sobre mim, né?”, antigamente eles diziam isso, que o terapeuta é aquele que sabia mais sobre ele do que ele mesmo, eu digo sinceramente, eu sou a que menos sei sobre você, e nem você é a pessoa que mais sabe sobre você, mas você é a pessoa que mais pode ter chances de trazer informações para a gente poder fazer a sua consulta, mas é assim os que pacientes estão chegando. Se você disser que o mercado está fraco, mentira, é que as pessoas estão com muita dificuldade de refletir, é que as pessoas não sabem que a psicoterapia é um caminho de poder trabalhar seus corações sofridos, suas dificuldades. Aqui no Rio que é uma capital grande, que não é tão grande quanto SP, ainda há muita ignorância sobre o que a é Psicoterapia pode oferecer para uma pessoa. É muito mais claro para gente ir ao ginecologista, cardiologista, porque a medicina é velha, a psicologia ela é novinha de 1960 e poucos a psicologia foi regulamentada como profissão a gente que tinha mesmo na época do Sócrates olha a diferença, a pessoa tem claro que ir ao médico ela sabe o que vai acontecer lá, mas psicólogo ainda é lugar de maluco, quando a pessoa fala que não tem mercado, que está fraco, eu penso o contrário, a gente não está sabendo encontrar nosso lugar no mercado, o marketing, falar mais sobre psicologia.

 

Entrevistador: Ainda mais agora que está tendo uma expansão, sobre a 3ª idade, as pessoas estão vivendo mais.

 

Entrevistada: Eles estão vivendo mais, a ciência está abrindo isso tudo, a medida que ela aumenta a longevidade, está abrindo campo para se trabalhar com a 3ª idade. Os Geriatras falam que tem pouco profissional da área. Psicólogo da 3ª idade também é raro.

 

Entrevistador: E Você trabalha com qualquer idade ou tem uma faixa etária preferida?

 

Entrevistada: Não, eu acho que o Psicoterapeuta tem que saber o seu limite, antes de saber o seu limite, tem que sair experimentando. Eu já atendi 3ª idade, adultos, adolescentes, jovens, crianças, aí eu fui vendo onde eu me sentia mais hábil, mais à vontade, melhor. Gostei mais de atender crianças e adultos, a 3ª idade me senti o tempo todo tratada como criança, o adolescente vem com uma visão de alienação, temporal, espacial, eu não tenho paciência com isso, não marca, não fala, não sabe que dia está marcado, as crianças e os adultos, eu me identifiquei bastante, de um tempo para cá tenho passado as crianças para outra Terapeuta a Gabriela Bessa, que tem se especializado mais, eu fico com os adultos, os pais, e me sentido mais a vontade, mas o trabalho que mais gosto depois da terapia individual é o trabalho de grupo, monto Workshop, monto grupo de terapia de grupo, vivências, são coisas que impulsionam a terapia individual. O trabalho de atender 01 pessoa só é muito solitário. Acho que restringe muito o mundo, como se só fosse aquelas duas relações, aquelas duas pessoas ali o tempo todo e a gente só conhece o que vem falado dali, e não tem a possibilidade de interagir, ver as outras coisas como é que acontece, o trabalho de grupo é bom pois ajuda muito na interação.

 

Entrevistador: Quais as questões mais comuns que os adultos trazem?

 

Entrevistada: Os temas do ser humano de sempre, solidão, angústia, desesperos, são as angústias a dificuldade de ser livre que estão arrumadas e vestidas com essa roupa “estou com dificuldade financeira, não sei se caso ou se separo, não sei o que digo para o meu filho se deixo ele ir no baile se não deixo, encontrei meu marido com outra, todos esses temas tem sua base no seu fundamento, a solidão humana, a característica de todos nós. O desespero que dá a gente poder escolher diante da própria vida, a gente se saber ser mortal, isto significa que eu sou uma pessoa limitada, que eu não posso tudo, mas eu não sei muito bem o que eu posso ou que não posso, então eles procuram a terapia para descobrir, o que posso, o que não posso, até onde um posso, quais são os alcances que eu tenho na vida, os temas que a nós chegam por mais diversos que chegam, eles vão chegar aí, no que esses teóricos existencialista falou e falam sempre”.

 

Entrevistador: As pessoas sempre chegam angustiadas, alguma coisa está incomodando.

 

Entrevistada: Senão não estavam aqui, para ela não é uma coisa fácil vir, é muito difícil, encontrar uma pessoa que ela nunca viu na vida, ter que falar de suas feridas, é muito difícil. A principal coisa que o psicólogo tem que fazer é colocar a cara no mundo, que é mais fácil eu escolher uma pessoa para fazer terapia que eu vi em uma palestra, já vi a cara dele. O Terapeuta tem que fazer palestra, tem que está no mundo, tem que está aparecendo, os clientes não batem na porta assim, “Vou ao terapeuta hoje?”

 

Entrevistador: É sempre alguém que indicou.

 

Entrevistada: Alguém indicou, viu você em algum lugar, ouviu, leu um livro que você escreveu ou um artigo.

 

Entrevistador: Qual foi o melhor momento que você já vivenciou dentro dessa prática do Existencialismo?

 

Entrevistada: Até hoje é difícil escolher o melhor momento.

 

Entrevistador: O que você mais gostou, alguma coisa que marcou positivamente ou negativamente, se quiser falar dos mais críticos também?

 

Entrevistada: Vou começar do mais crítico. O momento mais crítico para mim foi quando atendi uma criança com uma patologia muito grande, em que ninguém conseguia dar um diagnóstico para ele, muito menos eu, também não estava preocupada com isso, mas ele teve uma crise psicótica aqui no consultório, começou a jogar todas as minhas coisas no chão, quebrar tudo, gritar, berrar. Foi extremamente, desesperante. O que fazer quando uma pessoa dá uma crise no seu consultório? Eu tinha naquele momento que dar conta daquilo de alguma forma, lógico que não dá conta de tudo, eu tinha que segurar o que eu estava sentido, e ajudá-lo, porque aquele momento era de grande sofrimento para ele, foi muito difícil, foi a coisa mais difícil na minha vida. Quando acabou eu pensei - eu não sei se vou continuar sendo psicóloga amanhã, não há condições de trabalhar a tarde, não sei se vou continuar fazendo isso na minha vida, porque qualquer cliente seu pode ter um surto no seu consultório, claro que você vê sinais, mas qualquer um tem essa possibilidade, quando os sinais são claros eu encaminho para uma instituição, eu acho que o psicótico não deve ser atendido num consultório. Essa foi a coisa mais crítica que eu já tive.

A coisa mais legal eu não consigo escolher um, eu tive vários momentos maravilhosos, momentos belíssimos em instituição que dei aula, vitórias belíssimas que tive com alunos, coisas legais que a gente organizou como congressos, oficinas, coisas que me deram muito prazer. Eu me senti muito realizada, quando a gente editou o 1º jornal, a 1ª apostila.

E dentro do consultório eu vivo vários momentos belíssimos, com conquistas que meus clientes tem, que lido ali, só que a gente não pode contar para ninguém, é a coisa mais difícil, você vive uma felicidade super solitária, comemora com o cliente e sai dando pulos de alegria no consultório - ele deu um passo, saiu daquela coisa que tinha!

Já tive histórias assim de clientes meus que quando comecei a atender duvidaram da minha capacidade de ajudar devido a gravidade do que o cliente apresentava, momentos felizes foi quando essa gravidade começava a diminuir, começava a dar lugar a uma expansão, uma abertura, um novo rumo no modo da pessoa ser, isso me fazia muito feliz, me faz muito feliz, eu tenho vários assim, conquistas, melhoras......

 

Entrevistador: Você se sente realizada na profissão?

 

Entrevistada: Gosto muito, mas tenho muito que andar. Dá vontade de desistir várias vezes, você se perde, acha que está tudo errado, que não é nada disso, isso tudo é muito intenso, mais eu acho que isso acontece exatamente porque está havendo um investimento muito grande não uma coisa qualquer, tanto faz ir e vir, pelo contrário acho exatamente porque a gente está se doando trocando uma série de movimentos internos e intensos e que a gente pode ter essa medida do que está acontecendo como é bom estar nessa profissão. Eu me sinto realizada nesse momento que estou fazendo, posso mudar isso, o existencialismo não fala isso, a gente é eternamente vir a ser a gente não é, a gente é sempre pode ser, então eu não sou terapeuta, eu sempre posso ser uma terapeuta melhor hoje, amanhã pior, daqui a pouco melhor do que já tinha sido, é sempre mudando porque a Psicoterapia é uma profissão muito abstrata, talvez mais abstrata do que a Psiquiatria, a Psiquiatria tem medicamentos de concreto, a gente não tem nada concreto para trabalhar com o cliente, é todo apoiado no que você está trabalhando na sua terapia, na sua supervisão e naquilo que o cliente pode trazer, o nosso instrumento não é físico. Quando se é dentista compra-se uma cadeira de dentista com aquele monte de material broca, motor e aí quando aparecem novas tecnologias eu pego esse material jogo fora, compro um novo, o terapeuta não tem isso concreto para poder caminhar, a gente faz isso na terapia pessoal, por isso o terapeuta tem que está sempre fazendo terapia pessoal, que é semelhante ao dentista que vai lá e compra material de alta tecnologia, o terapeuta também tem que ser de alta tecnologia tem que está sempre lendo um livro novo que saiu, estão em algum congresso aprendendo técnicas novas, terapias, abordagens novas, ter sempre supervisor mais experiente que ele para ajudá-lo a ver que o que ele não está vendo, mais porque está sempre se atualizando?- Por que o nosso trabalho é tão abstrato que nos traz muita insegurança ao mesmo tempo em que ele é libertador, tem mudança de vida ele também é gerador de muita insegurança para a gente. Quando você me pergunta se eu estou realizada, eu estou, mas isso não significa que não tenha angústia, culpa, incerteza, medo.

 

Entrevistador: Porque está viva?

 

Entrevistada: Ainda bem, só vai passar quando não estiver viva.

 

Entrevistador: O que você poderia dizer para gente que está fazendo formação, umas dicas, para sermos bons profissionais?

 

Entrevistada: Eu posso dizer de mim, que vocês possam sempre abrir possibilidades, não se fechem em uma coisa só, aproveite esse momento que vocês estão na faculdade para experimentar, eu tinha um professor na faculdade que dizia assim: “Enquanto a gente está na faculdade a gente pode errar muito, a gente pode quebrar muitas vidraças”, aproveitem para vocês poderem aprender novas formas de abordagens possíveis, técnicas possíveis, coisas diferentes, não se restrinjam, não se fechem já, no modo de aprender, no modo de pensar de compreender o homem e mesmo quando vocês fizerem uma escolha não entendam essa escolha como definitiva, nesse momento eu entendo que o existencialismo me ajuda muito, não significa que até o fim da minha vida eu tenha que ser fiel a isso. O que preciso entender que aquilo que me ajuda a melhor compreender o outro, mas principalmente eu, que estou aqui dando assistência a ele.

O que eu posso dizer é não se fechem, abram, ampliem, tenham olhar crítico para as coisas, critiquem tudo o que os professores dizem eles não têm as verdades, eles têm versões de verdades, como eu estou trazendo a minha versão do que é verdade para mim,, mas não é verdade absoluta, nada é absoluto, além da morte. Nada mais é absoluto. A melhor dica que posso dizer é deixem ir aberto, deixe livre esse caminho de como eu posso compreender o outro e deixe fluir.

 

 

 

8. CONCLUSÃO

 

 

Durante as entrevistas, procuramos saber principalmente como é a prática psicoterápica existencial e pudemos observar que esta está tão imbricada com a filosofia existencialista, que pudemos acompanhar a aplicação teórica no fazer psicoterapia dos profissionais entrevistados.

O pensar e o sentir relatados pelos terapeutas e as experiências compartilhadas, evidenciaram paixão e esforço tranqüilo para viver a idéia do existencialismo. Percebemos que estes profissionais nutrem um grande afeto pelo ser humano, e muita vontade de auxiliar no desenvolvimento pessoal dos que os procuram.

Observamos que é realmente necessário que os interessados em lidar com gente, estude e trabalhe no sentido de se autoconhecerem e se tornarem mais autênticos. A pessoas que é como realmente é, tem o charme da singularidade.

Na prática da psicologia ou no curso da existência vão se acumulando reflexões sobre os sentimentos próprios e dos outros. Torna-se necessário a enfrentar a angústia, o desespero e as perdas, de frente tirando o máximo de proveito dos aspectos positivos desses sentimentos. É importante termos em mente que que o ser humano é ilimitado e pode realizar transformações.

Os psicólogos entrevistados comentaram as origens do existencialismo no período do pós-guerra: uma forma de resgatar o sentimento humano, num momento que reinava um clima de insegurança, pessimismo ideológico e muita angústia. Aprendemos que mesmo nesse perfil doloroso de vida, foi possível ressurgir otimismo, verdade, liberdade para ser.

A psicoterapia existencial traz em sua origem a capacidade de reformulação do indivíduo e quem sabe do mundo, alcançando mudanças que nem a razão, nem a ciência ou as técnicas psicológicas tradicionais foram capazes de atingir.

René Descartes fixou o “penso logo existe”, lema do racionalismo, valorizando a razão como função suprema do homem.A quebra da supremacia da razão ocorre quando Kierkegaard afirma “Sinto logo sou”, abrindo então possibilidades para uma compreensão mais ampla deste homem que é mais concreta, singular e subjetiva do que se acreditava até então.

Por absoluta falta de tempo, não será possível listar as diversas aprendizagens que fizemos com este trabalho, porém ainda podemos acrescentar que nos foi muito proveitosos e será mais ainda no futuro.

Os psicólogos entrevistados deixaram-nos uma última lição para os desejosos de se tornar bons psicólogos existenciais. A receita é:

- Fazer terapia

- Fazer um bom curso de formação

Manter-se sempre em supervisão

 

Não se trata de uma fórmula mágica, mas que se praticada com amor e empenho com certeza nos transformará em não só bons profissionais, mas também em seres humanos melhores.

Parece mesmo que estamos sendo capturados pela psicologia existencial...

 

9. BIBLIOGRAFIA

 

 

Camasmie, A. T. (1999). Desenvolvimento das Habilidades Psicoterapêuticas. Rio de Janeiro: SAEP.

Erthal, T.S. (1994).Treinamento em Psicoterapia Vivencial.Petrópolis: Vozes.

Frankl, V.E. (1991). Em Busca do Sentido da Vida. Petrópolis: Vozes

FEIJOO, A. M. L. C. (1998). Os Mandamentos do Psicoterapeuta Existencial. Informativo IFEN, n.1.

HALL, C.S. & LINDZEY, G. Teorias da Personalidade. V.II. São Paulo: EPU, 1984.

HEIDEGGER, M. Introdução à metafísica. Rio de Janeiro, 1967.

HRYNIEWICZ, S. Para Filosofar: Introdução e história da filosofia. Rio de Janeiro: Ed. do Autor, 1998.

JOLIVET, R. As Doutrinas Existencialistas: De Kierkegaard a Sartre. Porto: Tavares Martins, 1961.

LESSA, J. A Construção do Poder Pessoal. Rio de Janeiro: SAEP, 1999

MAY, Rollo. Psicologia Existencial. Porto Alegre: Ed. Globo, 1974.

PENHA, João da. O que é Existencialismo. São Paulo: Ed. Brasiliense, 1996.

VICENTE, J.M. (2000). A Busca do Sentido da Vida na Psicoterapia Existência. Em fase de publicação.


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