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Psicólogo
Luiz Fernando Teixeira Dantas
Às
vezes, para construir nosso futuro, é necessário rever nosso passado.
UM COMEÇO DE CONVERSA
Como alguém pode se transformar num profissional
bem sucedido? Esta é uma pergunta para a qual não se pode fornecer
uma resposta definitiva. Ninguém possui a fórmula do sucesso. E vários
são os motivos. O mais evidente é que ele não depende exclusivamente
do fato de querermos ter sucesso ou das nossas ações nesta direção;
existem variáveis intervenientes sob as quais não possuímos nenhum
controle. Mas se não podemos garantir o sucesso, sabemos com algum
grau de certeza, o que produz o fracasso. Então, não é exagero pensar
que se conseguirmos nos afastar deste caminho, se pudermos evitar
as formas de pensar e agir que induzem ao insucesso, teremos boas
possibilidades de engrossar o time dos bem sucedidos profissionalmente.
Antes de iniciar este pequeno estudo, é conveniente que procuremos
o significado que a palavra "sucesso" pode ter para cada
um de nós. Por exemplo, para alguns representa a possibilidade de
movimentar-se no palco da vida sob os aplausos permanentes da multidão;
para outros, é contar com o reconhecimento dos seus pares; para outros
ainda é apenas sentir-se útil e produtivo. Mas também é bom não esquecer
que seja qual for o significado que "sucesso" possa ter
para nós, devemos compreender que, em nossa sociedade, embora ele
seja parte importante da construção de nossa identidade, não deveria
ser o único objetivo em nossas vidas. É muito provável que nosso viver
se transforme em algo muito penoso se fizermos
do sucesso profissional a única razão de nossa existência - mesmo
que o alcancemos. Vamos então apresentar algumas formas de pensar
e agir que podem nos levar ao fracasso ou, pelo menos, dificultar
o atingimento do
sucesso profissional.
SOB A ÉGIDE DA JUSTIÇA
Algumas pessoas acreditam que, se um indivíduo é
honesto, bom filho, dedicado, educado, trabalhador, etc, cedo ou tarde,
por uma questão de justiça, acabará por ser reconhecido e beneficiado
em função de suas boas qualidades. Desta forma de encarar a vida geralmente
fazem parte afirmações do tipo: "A verdade sempre aparece",
"A justiça tarda mas não falha", "O criminoso sempre
volta ao local do crime" (e será descoberto e, subentende-se,
certamente punido). Esta "filosofia, pelo menos indiretamente,
está associada à teoria da verdade evidente, isto é, à crença exageradamente
otimista de que a verdade, o bem, a justiça sempre serão revelados
e se imporão naturalmente. Essas pessoas geralmente acreditam que
o mundo e nossas vidas são regidos por leis
justas que a todos atingirá - mesmo que não seja nesta vida. A Justiça
pode tardar, mas não pode falhar.
Pessoas deste tipo costumam esperar "que os outros reconheçam
sua competência", mas pouco fazem para mostrá-la.
O PRIMADO DA SORTE
Uma variante do ponto de vista anterior é o daquelas
pessoas que acreditam na sorte...Mas não na sorte como é definida
pelos dicionários: algo casual, fortuito, aleatório. Mas um tipo de
sorte que faz, por exemplo, com que algumas pessoas ganhem sempre
a melhor parte, enquanto outras, fiquem com a pior ou sem nenhuma
(1). Cada um já nasce com sorte ou sem sorte. E nada se pode fazer
num caso ou noutro. Se nascemos com sorte, vamos desfrutar; se nascemos
sem sorte, o melhor é rezar. Rezar, resignar e esperar.
O DESTINO IMPERATIVO
De um modo geral, estas pessoas também acreditam
no destino. Nada aconteceria se o acontecimento já não estivesse pré-determinado.
A pequena folha flutuando no espaço, não se desloca ao léu; alguém
ou alguma coisa determinou sua queda e seu rumo. Existe uma causalidade
imperativa que pode sempre ser descoberta.
Quando uma pessoa alcança algum sucesso, costumam dizer que ela "tem
uma boa estrela"; quando fracassa: "que nada se pode fazer,
é o destino", "é a vontade de Deus" ou que "Ele
escreve certo por linhas tortas". As pessoas que pensam assim,
não só negam sua competência para o sucesso como sua responsabilidade
pelo fracasso. Além disso transferem para Deus, a responsabilidade
pela condução de suas vidas. Mas é muito provável que Deus não leve
muito a sério esta história de destino - se o fizesse, não concordaria
com o livre-arbítrio. As Igrejas que o representam neste lado do Universo,
estimulam a responsabilidade do crente na escolha do seu caminho.
A Igreja Católica, há algum tempo, divulgou pela mídia, uma mensagem
que era mais ou menos assim: "Deus ajuda, mas só ajuda. Você
tem que arregaçar as mangas e trabalhar".
A SOLUÇÃO MÁGICA
Existem também, dentro desta mesma forma de interpretar
os eventos da vida, as pessoas que se encantam com as histórias daqueles
grandes vultos - principalmente do mundo artístico - que casualmente,
fruto de um encontro inesperado, ficaram face-a-face com o sucesso
e se tornaram estrelas de primeira grandeza no mundo dos seres bem
sucedidos. Aquela artista que nem sabia que era artista, que nada
conhecia sobre artes cênicas, que nem gostava de teatro, num certo
dia casualmente tem um encontro e descobre toda a sua real vocação.
E então, como que por milagre, da noite para o dia é colocada sob
as luzes da ribalta e vive seu fulgurante sucesso. Estas crenças subentendem,
além de uma monumental sorte, uma competência inata, latente e pronta
para despertar
tão logo surja a oportunidade. Pessoas que acreditam em tais histórias,
tendem a tomar a exceção como regra e a destacar apenas o sucesso
do personagem, sem levar em conta todo o caminho que teve que trilhar
para chegar ao topo. Não percebem que este caminho é difícil e exige
persistência, vontade de vencer e alta resistência à frustração. Queriam
ter a sorte da grande pianista internacional que nasceu com a vocação
musical. Regra geral esquecem que esta mesma pianista que nasceu vocacionada
para a música, só alcançou o sucesso porque estudou com seriedade,
aproveitou todas as oportunidades que surgiram e trabalhou duramente
em seu piano, corrigindo erros e aprimorando qualidades.
OS "NATURALISTAS"
Existem também aqueles que acreditam que todos têm
que ser naturais. Como alguém pode ser natural por obrigação? Isto
não importa. O que interessa é que todos devemos ser completamente
naturais. As coisas devem acontecer por si mesmas. Neste sentido,
planejar sua vida profissional - como é a proposta deste trabalho
- seria, no mínimo, obsceno. Planejamento é primo direto de um outro
palavrão: racionalização (2). Para os "naturalistas", racionalização
é, basicamente uma força que impede a manifestação da verdadeira natureza
humana. Seu lema pode ser assim resumido "Seja natural. Viva
seus impulsos com espontaneidade. Não permita que a razão o (a) impeça
de viver a verdadeira vida. Não planeja nada. Deixe a vida fluir".
Essas pessoas não podem compreender (porque talvez "sofram"
de algo semelhante ao que Galbraith chama de crenças convenientes)
que o uso da razão se, por um lado, pode bloquear o fluir de certos
impulsos naturais, é por outro, um recurso conveniente e eminentemente
humano que tem, entre outras, a função de criar condições para que
as emoções se manifestem em sua plenitude.
A COMPETÊNCIA
Para outros, a condição necessária e suficiente para
que alguém alcance sucesso profissional, é, acima de qualquer outra,
a competência. Embora este atributo seja um dos requisitos fundamentais
para aqueles que pretendem ser bem sucedidos em suas profissões, a
experiência tem demonstrado que, mesmo sendo a competência condição
necessária, não é suficiente. São muitos os elementos definidores
do
sucesso. Conhecemos alguns: conhecimento geral e especial, senso de
oportunidade, decisão, persistência, planejamento, aprimoramento nas
relações interpessoais e se tivermos sorte, um pouco de sorte.
Todas estas características têm pouca utilidade se o indivíduo não
souber usa-las com adequação. Um plano bem feito e bem executado é
uma ajuda inestimável para o sucesso. Sem um bom plano é mais provável
que o candidato dê muitas voltas desnecessárias e perca muito tempo
até descobrir que, na melhor das hipóteses, apenas marcou passo.
O PLANEJAMENTO
Este planejamento é uma compilação de outros já existentes
e foi adaptado para o profissional do campo da Psicologia. Embora
nada de novo apresente, pode se constituir num conveniente instrumento
de ajuda para os que querem ter sucesso profissional por esforço próprio.
O PIC é um plano que visa o estabelecimento dos passos a serem dados
para alcançar um objetivo profissional previamente determinado. Um
planejamento de carreira compõem-se, basicamente, de duas partes:
(1) o estabelecimento do objetivo(s) - claramente definido(s) - a
ser(em) alcançado(s) e (2) as operações que devem ser realizadas para
que a meta seja atingida. Antes de iniciar seu plano, é importante
que você tenha um bom conhecimento sobre você mesmo e sobre as características
do seu campo profissional. As questões abaixo podem ajudá-lo:
1) Que motivos levaram você a escolher a psicologia como sua futura
profissão? Observação: Por favor, não responda: "Meu desejo de
ajudar aos outros". Ninguém escolhe uma profissão, seja ela qual
for, por qualquer motivo que não esteja voltado para sua própria sobrevivência
e/ou satisfação. Escolhemos uma profissão porque gostamos de fazer
o que ela oferece; porque com ela poderemos ganhar mais dinheiro;
para aumentar ou criar nosso status social, etc. Se você respondesse:
"Sinto-me bem quando ajudo aos outros" ou "A psicologia
vai me permitir ajudar aos outros e isto me fará sentir uma pessoa
importante", provavelmente estaria sendo mais coerente e "verdadeiro"
com relação a você mesmo.
2)
Após formado (a) qual a especialização que você pretende desenvolver?
Porque?
3) Após formado (a), que objetivo ou objetivos você pretende alcançar?
Indique, aproximadamente, dentro de quanto tempo?
4) Você acredita que já possui as condições necessárias?
5) Se ainda não as possui, acredita que possui meios para desenvolvê-las?
6) Para atingir seus objetivos, que dificuldades você acredita que
poderá encontrar? Neste caso, o que poderá fazer para superá-las?
Após responder a estas questões, você provavelmente estará apto para
iniciar seu Plano. Seguem-se algumas recomendações que poderão ajudá-lo
nesta tarefa:
a) Estabeleça seu(s) objetivo(s) e o(s) prazo(s) que supõe necessitar
para atingi-lo(s). Por exemplo: "Dentro de cinco anos quero estar
dirigindo Setor de Relações Humanas da empresa X". ou "Dentro
de
três anos quero estar realizando meu mestrado em psicologia clínica".
b) Esteja certo(a) de que o prazo que você estabeleceu é adequado:
nem muito longo nem muito curto.
c) Certifique-se de que, estando devidamente preparado(a), você poderá
ocupar a função desejada, isto é, certifique-se de que não existirão
barreiras extra-profissionais que possam tornar impossível ou
muito difícil atingir sua meta. Por exemplo, você terá que avaliar
o esforço que deve despender para tentar chegar a chefe ou gerente
numa instituição que é dirigida por um grupo familiar que somente
permite aos
seus familiares o acesso a posições-chave ou, sendo você do sexo masculino,
aspirar o posto de Gerente de Recursos Humanos, numa empresa onde
este nível de gerência é vetado aos homens.
d) Estabeleça níveis intermediários e prazos para atingir cada um
dos seus objetivos. Por exemplo: trabalhar durante x anos em tal equipe
multi-profissional com o objetivo de adquirir a experiência que lhe
permita montar seu próprio serviço de atendimento psicológico ou tanto
tempo para fazer os cursos de especialização que lhe darão o necessário
respaldo teórico para ocupar tal ou qual função. Esteja certo(a) de
que dispõe de tempo, competência e condições materiais para alcançar
tais objetivos.
e) É um bom procedimento procurar pessoas confiáveis que possam auxiliá-lo(a)
a determinar, se seu plano é realmente exeqüível. Você estará se super
ou subestimando?
f) Adquira competência instrumental para facilitar o atingimento de
suas metas. Duas sugestões:
A especialidade pretendida está publicada predominantemente em idioma
estrangeiro que lhe é desconhecido, coloque como uma de suas metas
importantes, o estudo daquela língua. Atualmente o inglês é a "língua
universal". E é sabido que são suficientes apenas 600 horas para
que
você domine este idioma. Hoje a Internet é uma das maiores fontes
de informação disponível no mundo. Saber usá-la é condição indispensável
para o seu aprimoramento.
g) Escolha um profissional competente que possa auxiliá-lo(a) na definição
de objetivos e na escolha de leituras, cursos de especialização, estágios,
etc. Esteja certo de que esta ajuda não está sendo influenciada por
outros fatores que não a competência, experiência e seriedade do profissional.
h) Se você ainda não possui um grupo de estudo, organize um. Um grupo
com objetivos, recursos, motivações semelhantes, é uma ajuda inestimável
no planejamento e execução de seus objetivos profissionais.
i) Esteja atento para identificar suas deficiências profissionais
e elimine-as logo que possível.
j) Sempre que possível amplie seus conhecimentos para além dos limites
da psicologia. Dificilmente alguém pode atingir proficiência ficando
apenas nos limites de sua especialização.
k) Esteja aberto (a) às críticas; disponha-se a mudar toda vez que
essas críticas sinalizarem a necessidade de revisões e mudanças.
l) Esteja alerta para atualizar seu Plano toda vez que o surgimento
de novas condições possam influenciar sua concretização. Um dos motivos
mais comuns de fracasso é deixar de reformular nossos objetivos mesmo
quando eles se tornam inexeqüíveis face a novas informações ou a mudanças
contextuais.
Finalmente, para atingir o sucesso profissional é indispensável -
e parece que todos concordamos - que cada um tenha um Plano. Pode
ser um Plano com este ou maior, menor, melhor, escrito, pensado, diferente.
Isto não importa. Importa que você o elabore e siga. Também é importante
ressaltar que seja lá qual for o plano você escolher, não lhe será
útil se for um plano que determine em todas as situações e rigidamente
tudo o que se deve fazer. Sugeri que você tivesse um plano para servi-lo
e não
um plano ao qual você deva servir.
Notas:
(1) Não sei se este tipo de sorte existe. Mas vou supor que sim e
vou chamá-la de oportunidade. E neste sentido, quando a oportunidade
chegar, é importante que utilizemos a nossa competência para garantir
que "a
sorte" não nos abandone. (2) A expressão não é aqui considerada
como na psicanálise: "processo
segundo o qual o indivíduo utiliza uma explicação coerente do ponto
de vista da lógica, para justificar e ocultar determinada motivação".
É utilizada como é definida nos dicionários: "tornar racional,
reflexivo; utilização do raciocínio".
Psicólogo
Luiz Fernando Teixeira Dantas
Autor
dos seguintes artigos publicados no Jornal Existencial On Line:
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