EDIÇÃO ESPECIAL Caderno de Temas Existencias

 

ARTIGO

 

As Mentiras de Pseudea
Psicólogo Luiz Fernando Teixeira Dantas 
Mestre em Psicologia e 
Doutorando em Ciência da Informação 
CRP 05/24.063 

Vou chamá-la Pseudea. Ela está noiva e tem uma amiga. Agora que já temos os personagens, vamos construir a história.  

Todas as manhãs Pseudea sai de casa à mesma hora e embarca no mesmo ônibus, no mesmo ponto, no mesmo horário. Duas horas mais tarde está no seu trabalho, pronta para iniciar sua rotina de oito horas. Desde que levanta até voltar para casa, tudo acontece “sempre igual”. Mas não naquela manhã quando saiu rumo ao ponto de ônibus. Naquela manhã foi muito diferente. No ponto imediatamente à frente do seu, um lindo jovem - um gato - entrou e sentou-se ao seu lado. O ônibus estava praticamente vazio, mas ele escolheu aquele lugar. Pseudea começou a ter agradáveis pensamentos, mas não quis permitir que tomassem forma. O recém-chegado não demorou muito para “puxar conversa”. Falou sobre o bom tempo que fazia (Será que vai chover?), sobre o estado precário daquele ônibus, sobre o trânsito... Mas gradativamente foi falando cada vez menos sobre as coisas e mais sobre suas impressões a respeito de Pseudea. Estava claro que ela havia chamado sua atenção. A conversa transformou-se num flerte e foi até um pouco além, gerando, inclusive, algumas pequenas confidências. É claro que ele não era o único falante. Pseudea participava. Mas era uma participação cuidadosa. Não que ela não estivesse encantada com sua companhia mas, como mandam as regras de convivência, não deveria parecer tão interessada que pudesse ser vista como uma oferecida, nem tão distante que parecesse que por ele não tinha nenhum interesse. Quando Pseudea estava chegando ao seu destino, o jovem convidou-a para um encontro. Ela desejou, mas afinal era noiva e gostava muito de seu noivo. Exatamente no momento em que pensava isto, ouviu uma voz dizendo: E daí? Esta voz não era uma visitante nova em sua mente. Vez por outra aparecia e Pseudea sempre a ouvia com atenção, embora às vezes fingisse uma espécie de surdez psíquica. Mas desta vez ouviu. Ouviu, gostou mas ficou indecisa. Era um gatão; o homem mais bonito com o qual havia conversado. Mas e o seu noivo? Pseudea, em dúvida, resolveu adotar a estratégia mais adequada para casos de indecisão: protelar. Então, quando seu admirador lhe ofereceu seu cartão, ela o aceitou, mas não confirmou um encontro. Apenas sorriu. Vamos ver... Estes foram os fatos. Agora vamos supor que Pseudea irá falar a respeito deste encontro para sua amiga e seu noivo. Como falaria? Restam poucas dúvidas sobre isto. Ela faria relatos  muito diferentes. Para a amiga contaria tudo o que aconteceu ou que supõe haver acontecido ou que gostaria que tivesse acontecido. Falaria sobre o tipo físico do seu admirador: um gato. E não esqueceria de contar que ele sentou ao seu lado estando o ônibus praticamente vazio. Falaria sobre sua conversa inteligente, sobre os elogios que recebeu, sobre as confidências etc. Não esqueceria de falar sobre sua insistência para que tivessem um encontro (talvez exagerasse um pouco nesta parte) e sobre a vontade que teve de aceitar o convite (e ai, deixaria claro que não esqueceu que é noiva; mas se não fosse...). Finalmente, talvez como prova, mostraria o cartão. Para o noivo faria um relato diferente. Inicialmente falaria sobre a inconveniência que é viajar de ônibus hoje em dia. E como exemplo, contaria um fato que aconteceu ontem. Um sujeito sentou-se ao seu lado e ficou tentando conversar com ela o tempo todo (ela só não mudou de lugar porque o ônibus estava cheio): falaria sobre sua ousadia ao fazer perguntas indiscretas (se não estivesse atrasada, saltaria do ônibus ali mesmo). Falaria também sobre a irritação que tal comportamento provocou; sobre a voz desagradável do sujeito. Sobre o que ele disse? Não sabe. Aliás nem prestou atenção. Não falaria sobre o seu tipo físico porque nem mesmo olhou para ele. Fica evidente que, tomando-se o acontecimento como referência, Pseudea mentiu para seu noivo e, se formos rigorosos, também para sua amiga ou, pelo menos, não foi totalmente verdadeira. Mas verdades & mentiras não são o tema deste breve trabalho. Quero falar sobre fatos e relatos, sem me importar com a concordância entre eles. Ora, o relato sofre influência direta das características cognitivas de quem relata, de sua forma de codificar o real e de outras circunstâncias. Assim, pelo menos em termos psicológicos, o relato está carregado de subjetivismo e é basicamente definido pelo contexto dentro do qual se manifesta. Podemos então dizer, para efeitos de estudo, que temos o contexto do fato e o contexto do relato (1). O contexto do fato seria o acontecimento descrito por um observador supostamente neutro e o contexto do relato, a história contada pelo ator segundo as determinantes do ambiente no qual o relato estiver inserido. E parte significativa deste ambiente é, geralmente, o seu interlocutor. Quando me comunico, não estou apenas transmitindo informações, mas, ao mesmo tempo sugerindo para o outro, uma forma de me perceber. Estou sobretudo falando de mim mesmo, ainda que esteja falando sobre você. O que conto é uma manifestação de minha própria identidade que busca afirmação na concordância do interlocutor, isto é, procuro nele a resposta confirmadora para minha própria imagem ou para a imagem que pretendo transmitir: Quero que você pense o que eu quero que você pense sobre mim ou Quero que você me veja como eu quero ser visto por você. É evidente então que mudando o interlocutor (parte significativa do contexto), pode mudar o relato. Posso dizer de outra forma: dentro deste contexto - o relacional - Pseudea tomou o fato e seu relato como instrumento para sua confirmação. Pseudea não é apenas Pseudea. É Pseudea e suas relações, seus sonhos, sua história, suas alegrias, suas tristezas, suas verdades, que podem ser mentiras e suas mentiras, que podem ser verdades. E parte significativa do que ela é, que se define por sua identidade, depende não propriamente dela, mas de suas relações com os outros, do que os outros pensam dela e do que ela pensa que os outros pensam dela. Para sermos o que somos ou pensamos que somos, dependemos significativamente dos outros. Quando Pseudea fez seu relato tanto para sua amiga quanto para seu noivo, estava também falando dela mesmo. Para sua amiga, por exemplo, poderia estar falando de suas qualidades femininas. Para o noivo, de seu próprio amor por ele, de sua fidelidade e talvez lembrando que ele deve tomar cuidado. Afinal de contas, certas coisas sempre podem acontecer. Não sabemos exatamente qual o seu propósito, mas é muito provável que esteja marcando ou remarcando seu próprio território psicológico, isto é, nestes comportamentos e em muitos outros, está implícita uma definição dela mesma, uma confirmação de identidade ou busca de reconhecimento. Watzlawick afirma que esta autoconfirmação assegura o desenvolvimento e a estabilidade mentais ... Por muito surpreendente que isso possa parecer, sem esse efeito de auto-confirmação a comunicação humana dificilmente evoluiria além das fronteiras muito limitadas das permutas indispensáveis - proteção e sobrevivência; não haveria motivo para a comunicação pela mera comunicação. (2) Mas é claro que assim como os outros podem confirmar nossas qualidades, podem também nos rejeitar e nos desconfirmar. E também, assim como buscamos nos outros a confirmação de nossas qualidades, podemos também buscar nossa desconfirmarção (uma forma de confirmar nossa baixa auto-estima). 

Durante o processo terapêutico é preocupação do terapeuta tentar entender a forma pela qual seu cliente se relaciona com o mundo que os outros constituem. E não deve esquecer que, dentre todos os seus outros, ele, o terapeuta, é um deles. 

1 - É bom lembrar que não existem fatos independentes do observador, desde que se admita que todo fato implica na existência de uma explicação ou descrição, isto é, o fato somente pode ser percebido se contextualizado. Neste caso, o contexto do fato é, em última análise, também um contexto de relato. Mas neste caso, um relato “generalizado”. 

2 - Watzlawick, Paul e outros. Pragmática da Comunicação Humana: um estudo dos padrões, pato-logias e paradoxos da interação, p. 77, Editora Cultrix, S. Paulo, 1972.

Psicólogo Luiz Fernando Teixeira Dantas

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