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EDIÇÃO ESPECIAL Caderno de Psicoterapia Existencial

 

Artigo

 

FUTURO MINORITÁRIO

 

Começo a ler o texto. Neste preciso momento. Percorro as primeiras palavras, a primeira linha. Não sei o que se segue. E se pudesse saber? E se, mesmo não conhecendo o texto, pudesse antecipar o seu futuro? O futuro não apenas como acontecer, embora também o seja, um apenas acontecer, mas igualmente como o que, por um conjunto de premissas - felizmente não conciliáveis entre nós - chamamos de significado. O sentido das coisas. E até onde é que esta simples frase nos poderia levar em matéria de discórdia. E se não fosse apenas um texto? Que faríamos se pudéssemos ter conhecimento antecipado de factos que iriam prejudicar alguém. Um crime por exemplo. De morte.
Bom, mas leio este texto, já o sei, a propósito de um filme. De uma possibilidade que surgiu sem se dar a conhecer previamente, e que aparece como história de um futuro próximo, no qual poderíamos tecer o mundo por onde estamos. E que futuro é esse que o texto descreve a partir de uma narrativa de imagens? Muito diferente e contudo muito semelhante com o nosso presente. No filme encontramos pessoas com o tipo de vida das sociedades ocidentais actuais, utilizando o mesmo género de utensílios. Por outro lado, surgem grandes alterações no quotidiano citadino, o sistema rodoviário por exemplo. As redes de estradas servem habitações e escritórios com automóveis que circulam tanto na horizontal como na vertical. Podemos assim estacionar à janela de nossa casa, entrar nela, comandá-la a partir da nossa voz. Podemos ver os vídeos familiares em três dimensões. Podemos, mesmo que não o desejemos, dar de face com um sistema de publicidade, com capacidades para provocar uma paranóia globalizante. Sistemas de identificação ocular de câmaras e painéis, espalhados pelos espaços públicos - centros comerciais, ruas, metro - dirigem-se-nos com tratamento personalizado, identificando-nos, tratando-nos pelo nome. Mas nesse presente, passado na sociedade norte-americana, nada se compara ao aparecimento de um novo sistema contra o crime - a Agência Precrime - revolucionário, infalível. Sistema perfeito porque prevê o futuro. A polícia, com a ajuda de três seres híbridos - os precogs - tem acesso a informação precisa, da hora e local de um crime, bem como dos nomes do autor e da vítima.

Este sistema é a raiz do enredo que Steven Spilberg adapta ao cinema a partir de uma obra de Philip K. Dick - Relatório Minoritário. Dick é um escritor reconhecido no meio da ficção científica, autor de um clássico que viria igualmente a tornar-se um marco nas histórias cinéfilas - Bladerunner. No livro, os precognitivos têm a possibilidade de ver (sonhar) com todo o tipo de acção criminosa, no filme, pelo contrário, essa capacidade está exclusivamente ligada à previsão de crimes de morte. A razão prende-se com o carácter metafísico da relação do homem com a sua finitude, explica um dos funcionários da Precrime. Spilberg radicaliza os argumentos, embora no livro também seja dada interpretação metafísica, ao conceito jurídico e ético das supostas pessoas-delinquentes-que-ainda-não-o-são mas que irão-ser-num-futuro-próximo e dos seus actos criminosos:

"Felizmente, não o farão, porque as apanhamos antes disso, antes que possam cometer qualquer acto de violência. Portanto, toda a imputação do crime é absolutamente metafísica. Nós declaramo-las culpadas. Por sua vez, elas declaram-se inocentes. E, num certo sentido, estão inocentes." (John Anderton).

Mergulhamos assim no futuro da apologia do destino. Com alcance político, moral e ético. Spilberg, extrema novamente os pontos de vista, construindo um cenário de discussão pública, na verdade, o novo sistema de combate ao crime está sujeito ao escrutínio da população, enquanto a publicidade tecnologicamente paranóica, avisa as pessoas das verdadeiras potencialidades do novo paradigma de segurança: "Um novo caminho para a Liberdade. Uma possibilidade dos seres humanos serem mais livres". Desenvolve-se então uma tramóia, a partir da qual seguimos os passos da vida atribulada do herói John Anderton, o Chefe da Agência Precrime, que vê o seu próprio nome surgir numa das bolas que dão a informação dos futuros assassinos. Um enredo com consequências trágicas, envolvendo questões políticas, profissionais, criminais, familiares e passionais.

Muito poderia ser escrito sobre esta história de Spilberg a partir da obra de Dick, como por exemplo, o facto de um sistema supostamente perfeito, assentar na ideia de incriminar pessoas antes de cometerem qualquer crime e julgá-las de imediato, sem tribunais, sem sistema jurídico, sem juizes. Destaque-se num entanto outro aspecto, a contradição do homem consigo mesmo. Sempre inquieto, contrariando a sua facticidade, substituindo-se, antecipando-se, perspectivando-se em retrocesso. Neste caso, a ilusão de apreensão do Nada parece estar relacionada com a possibilidade de saber o futuro. De predizer, invertendo a vivência do tempo. Viveríamos de amanhã para hoje. Submergindo nos sonhos o homem poderia então ver as imagens do seu amanhã. Apesar de uma das cenas mais importantes para desvendar o mistério da história esteja relacionado com uma visão do passado! Curiosa a perspectiva dos autores. Curioso que se pretenda seguir o caminho da salvação pelos sonhos, como interessante é a maneira do realizador se posicionar perante as imagens. Imagens gravadas a partir do mundo onírico dos precogs. John Anderton, ao som de grandes sinfonias, no fundo representando-nos a todos, torna-se num exegeta da imagem. De uma multiplicidade e confusão de alegorias diríamos. E no entanto, parece não ser a quantidade de imagens e a sua manipulação tecnológica, que torna possível ao homem recriar-se, mas sim a sua capacidade intrínseca de transformar. E para criar todo um novo mundo apenas necessitamos de uma simples imagem. Gaston Bachelard, exemplifica, lembrando a chama de uma vela como um dos maiores operadores de imagens, suficientemente poderosa, para nos enviar de imediato para o mundo do imaginário. Um mundo onde é possível entrar mas de onde também é necessário sair...

"A imagem poética - uma simples imagem! - torna-se assim, simplesmente, uma origem absoluta, uma origem de consciência" (Bachelard, 1960).

Ainda relacionado com esta última questão, nota-se no filme uma certa cumplicidade entre uma atitude de suposto rigor, diríamos cientificamente sustentado, e a utilização das imagens como suporte vinculativo de verdade. Aparentemente, a ciência tornara-se menos iconoclasta, encararia o devaneio como campo seguro, em contraponto à sua posição natural, fechada em conceitos. Mas, fundamentalmente, as ironias de Spilberg estão relacionadas com ilusões e não tanto com alusões. Uma ilusão de felicidade inscrita na capacidade do homem dominar-se e dominar o seu meio, ora evitando os deuses, ora ultrapassando o futuro. Nada de novo. A história, apesar do aparato conceptual, parece remeter-nos para duas velhas questões: que talvez não houvesse pior possibilidade como essa de conhecer o futuro (veja-se a personagem Agatha, a precognitiva mais importante, que expressa o desespero de viver no futuro, o cansaço e o desassossego de saber o amanhã); e de que o homem, mesmo procurando outros horizontes, metafísicos ou científicos, para se ver num Outro, acaba sempre por se encontrar a si mesmo. Na angustiante necessidade de ter de ser ele a decidir. A ter permanentemente que escolher. E o tempo, precisamente o tempo, parece ser esse caminho pelo qual o homem consegue encarar tudo aquilo que lhe aparece como um outro, como um não-eu. Um lado mais sombrio, escondido nos abismos da existência, mas que também é chave na busca de liberdade.

Psicólogo Daniel Sousa
Psicólogo Clínico formado pelo ISPA - Instituto Superior de Psicologia Aplicada (Lisboa)
Co-responsável do Espaço Sócrates Café


 

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