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Joaquim
sempre se sentira confortável naquele lugar.
As paredes da fortaleza aqueciam as suas costas, o mar abria-lhe o horizonte.
Era ali, exactamente ali, na esquina sul da fortaleza que gostava de se
sentar, no cruzamento das suas ideias.
A luz crepuscular de fim de tarde aquecia-lhe parte da face, a outra,
em sombra, escondia o olhar ligeiramente cabisbaixo, como que procurando
as razões debaixo do sentir.
A fortaleza era magnífica.
Nela se encostava, nela se aquecia, nela se aconchegava.
Quando as nuvens escondiam a luz solar, ainda que momentaneamente, a face
de Joaquim ficava, por fim, em consonância com a sua alma, cinzenta.
Por isso gostava da cor que o mar lhe emprestava, trazendo-lhe a paz necessária
para procurar no escuro do seu sentir, na imensidão das suas dúvidas,
nas interrogações dos seus devaneios.
As pessoas, essas, pareciam-lhe estranhas.
O tempo passa, os anos sucedem-se, os forasteiros e os curiosos surgem
em permanente rebuliço, regulados por calendários rítmicos. Sempre diferentes,
sempre normalizados.
Joaquim sempre tentara compreender porque razão as pessoas só visitavam
a sua pequena aldeia em momentos precisos do ano. Porque razão apareciam
sempre na mesma altura, sempre em fuga, em busca de um tempo que não imaginam
viver. Procuram o tempo que não acreditam viver, estão nos lugares como
se estes fossem ilhas criadas pelas revistas que lêem em casa.
Realmente, as revistas são para Joaquim cada vez mais sofisticadas; não
que as leia muito, mas repara no seu desenho sofisticado, tal como os
barcos modernos da marina próxima. As revistas são para ele o sonho antecipado
de realidades milimetricamente imitadas, até sugarem o último centímetro
de veracidade. De real.
O sonho imaculado. A vivência desfeita, o corpo esvaziado, a alma perdida.
O rosto de Joaquim volta-se a iluminar.
Oculta-se de novo, para novamente branquear.
Era dos momentos que mais apreciava, quando o farol do cabo escarpado
lhe equilibrava de novo o pensamento.
Na esquina da fortaleza, no cruzar da luz de farol, Joaquim parecia viver
sereno.
Sem segredos.
Daniel Sousa
Psicólogo Clínico formado pelo ISPA - Instituto Superior de Psicologia
Aplicada (Lisboa)
Co-responsável do Espaço Sócrates Café
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