CONTO

 

A FORTALEZA
Psicólogo Daniel Sousa

Joaquim sempre se sentira confortável naquele lugar.

As paredes da fortaleza aqueciam as suas costas, o mar abria-lhe o horizonte.

Era ali, exactamente ali, na esquina sul da fortaleza que gostava de se sentar, no cruzamento das suas ideias.

A luz crepuscular de fim de tarde aquecia-lhe parte da face, a outra, em sombra, escondia o olhar ligeiramente cabisbaixo, como que procurando as razões debaixo do sentir.

A fortaleza era magnífica.

Nela se encostava, nela se aquecia, nela se aconchegava.

Quando as nuvens escondiam a luz solar, ainda que momentaneamente, a face de Joaquim ficava, por fim, em consonância com a sua alma, cinzenta.

Por isso gostava da cor que o mar lhe emprestava, trazendo-lhe a paz necessária para procurar no escuro do seu sentir, na imensidão das suas dúvidas, nas interrogações dos seus devaneios.

As pessoas, essas, pareciam-lhe estranhas.

O tempo passa, os anos sucedem-se, os forasteiros e os curiosos surgem em permanente rebuliço, regulados por calendários rítmicos. Sempre diferentes, sempre normalizados.

Joaquim sempre tentara compreender porque razão as pessoas só visitavam a sua pequena aldeia em momentos precisos do ano. Porque razão apareciam sempre na mesma altura, sempre em fuga, em busca de um tempo que não imaginam viver. Procuram o tempo que não acreditam viver, estão nos lugares como se estes fossem ilhas criadas pelas revistas que lêem em casa.

Realmente, as revistas são para Joaquim cada vez mais sofisticadas; não que as leia muito, mas repara no seu desenho sofisticado, tal como os barcos modernos da marina próxima. As revistas são para ele o sonho antecipado de realidades milimetricamente imitadas, até sugarem o último centímetro de veracidade. De real.

O sonho imaculado. A vivência desfeita, o corpo esvaziado, a alma perdida.
O rosto de Joaquim volta-se a iluminar.

Oculta-se de novo, para novamente branquear.

Era dos momentos que mais apreciava, quando o farol do cabo escarpado lhe equilibrava de novo o pensamento.

Na esquina da fortaleza, no cruzar da luz de farol, Joaquim parecia viver sereno.

Sem segredos.

Daniel Sousa
Psicólogo Clínico formado pelo ISPA - Instituto Superior de Psicologia Aplicada (Lisboa)
Co-responsável do Espaço Sócrates Café


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