Nasceu
numa velha moradia de Lisboa, paredes meias com o bairro dos Prazeres.
Cresceu por entre os segredos dos subúrbios citadinos, mas desde
cedo se habituou a olhar o rio e as pombas que voavam sempre mais
alto que a extensa ponte do Tejo. Voos rasantes, quando comparados
com os sonhos de menino distante e perdido em deambulações secretas.
O rosto largo, de feições agrestes, escondem a candura do seu pensamento,
a vivacidade, sempre ao serviço dos outros. É um lutador da vida,
um vitalista, como diziam os amigos, por entre copos de cerveja
nos velhos cafés do chiado. A cidade tristeza traçou-lhe o destino
do campo. Aí, próximo da natureza, seria possível defender a vida,
celebrá-la, compreende-la, dar a conhece-la a quem procura um destino,
um sentido.
A nossa pequena aldeia alentejana, encravada entre montes isolados
e a humidade do mar pouco distante, divide-se em pequenas ruelas
de empedrado, frias como o toque do sino da casa paroquial. Para
aqui se mudara, convencido da sua missão, leal aos seus ideais.
Nunca me esqueci da primeira vez que o vi, melhor, que travei com
ele, como diria. Viu-me a roubar na papelaria e nada disse. Irritou-me.
Melhor seria que me tivesse denunciado, dando-me a razão definitiva
para lhe roubar o pouco ouro que ainda existe na maldita capela.
¾ Porque se calou você?
¾ Que ganharíamos com isso? És o Zé Escapa, não és? Já ouvi falar
de ti. Prefiro conversar sobre o livro, do que ele conta por exemplo,
a denunciar-te.
Imensas foram as conversas tidas a partir desse dia, quase sempre
ao fim de tarde, pelo lusco-fusco, quando as ideias menos temem
a luz. As roupagens negras de homem de fé, cobriam os seus braços
que gesticulavam pela ideia central do seu discurso: é preciso viver
a todo o momento com toda a nossa força. Defender a vida, acarinhá-la,
guarda-la como tesouro da nossa existência e, claro, desfrutá-la.
Política, religião, família, pouco importava, era preciso defender
a vida, protegê-la.
Foi o único a compreender Joana. O olhar com que a perscrutava nunca
enganou, o carinho brotava naturalmente, o acolhimento paternal
surgia apenas cindido por pequenos movimentos constrangidos, pouco
comuns num homem tão determinado.
Para Joana, a droga era o menos importante, as feridas invisíveis,
buracos negros de memória pareciam não ter fim, apenas o nosso amigo
comum, o padre Eleutério, se preocupava em tapar os abismos com
respostas e cal. Durante anos, Joana não cessara de espetar a agulha
no seu corpo fraco de sentimentos por si mesma, nunca se amara,
nunca se vira ao espelho, nunca reparara na continuidade dos dias,
dos anos, muitos menos se tinha aventurado a entrar no seu mundo
de medos e pesadelos. Mas para o padre Eleutério, a fé era o seu
porta estandarte, inabalável, mantinha-se firme como rocha à descrença
de Joana olhar as potencialidades que as amarguras da vida traziam
associadas. A firmeza de rocha servia também para protegê-lo, guardá-lo
de si mesmo. Talvez nunca o tenhamos compreendido.
Nesse sábado, cheguei atrasado à casa paroquial, já noite, por horas
da refeição. O senhor padre franquiou-me a entrada que dava acesso
directo à cozinha.
Estava particularmente feliz, com a ajuda de Joana, tinha finalmente
erguido a velha estátua de Nossa Senhora, com a ajuda de uma corda
dependurada numa trave do tecto.
Fizemos a festa em conjunto, as castanhas e a água pé, mais que
o magusto, celebraram o pequeno feito. Desde o início da recuperação
da estátua muito mudara no nosso quotidiano. Bandido de terceira
classe, dedicara-me ao que realmente gostava de fazer, escrever.
Joana abandonara o seu pior castigo, a droga latejante, e o padre
Eleutério, provava às instâncias clericais, o que se pode fazer
na área de recuperação do património sem subsídios. Era tarde, levei
Joana a casa, embebidos no nosso amor e no amor pela vida.
O dia seguinte era domingo, dia de missa. Estranhamente, o nosso
padre não comparece. Procuram-no no café onde habitualmente tomava
o café da manhã, em vão. Encontraram-no na cozinha da casa paroquial,
dependurado numa trave do tecto, ao lado da estátua de Nossa Senhora.
Daniel Sousa
Psicólogo Clínico formado pelo ISPA - Instituto Superior de Psicologia
Aplicada (Lisboa)
Co-responsável do Espaço Sócrates Café
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