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EDIÇÃO ESPECIAL Caderno de Temas Existencias

 

ARTIGO

 

Compaixão

Flávia Curty de Pina

Em princípio, a primeira coisa que me veio à mente, foi que compaixão é um sentimento de piedade em relação a alguém.
E me parece que este sentimento revela um certo "desequilíbrio" existente entre quem o sente e por quem ele é sentido. Ou seja, a pessoa que sente compaixão (e para senti-la) precisa perceber-se superior ao "coitado" a quem destina os seus sentimentos piedosos. Por outro lado, o "pobrezinho" que, às vezes até em forma de súplica da compaixão, tende a mostrar-se como sendo realmente um sofredor digno de pena.

Penso que a combinação citada acima, embora se dê de forma "desequilibrada" (um é mais do que o outro), é muito cômoda: um piedoso precisa de um coitadinho tanto quanto um coitadinho precisa de um piedoso. Eles se completam e, penso, se anulam.

O que questiono é como ficam essas existências. Parece-me que anuladas, fechadas num círculo vicioso que não oferece oportunidades para crescimento, desenvolvimento, para o revelar-se, sobressair-se.

A compaixão surge a partir do contato com a miséria humana do outro ou de si mesmo. Acontece, porém, que ao invés de provocar um movimento de superação, a compaixão parece minimizar, atolar o miserável cada vez mais fundo no poço das incapacidades.

Acredito que o sentimento de compaixão também esteja ligado à educação cristã que a maioria de nós recebeu (eu, por exemplo, sou católica). Partindo da minha experiência, posso afirmar que somos educados a nos percebermos como pecadores que suplicam a piedade de Deus para nos redimirmos do nosso erro (da nossa pequenez) e, conseqüentemente, da nossa culpa...

Acredito que existir seja muito, muito mais do que clamar a piedade do outro ou, por outro lado, distribuir compaixão aos pobres errantes. Existir é ocupar-se com as rédeas da própria vida, construindo-a com responsabilidade a partir das escolhas que se faz. Existir é assumir-se como pessoa, como um eterno vir-a-ser. Existir é permitir que as próprias misérias se revelem sim, com o único objetivo de conhecê-las ou até mesmo aceitá-las como são e o que são: apenas uma das inúmeras partes deste ser. Existir é poder ser o que se quiser ser COM PAIXÃO, sem culpas, medos ou julgamentos.

Flávia Curty de Pina
Psicóloga e Aluna do Curso de Formação da SAEP


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