Por
Cássia Borges
Psicóloga e Psicoterapeuta Existencial
Conselheira Editorial da SAEP
A
observação da trajetória da humanidade, desde seu surgimento na
Terra até os dias de hoje, tem sido motivo de muitos estudos e discussões,
não só do ponto de vista biológico, como também do sócio-político
e, principalmente, do filosófico.
A geologia histórica explica as alterações humanas através
dos fósseis e das alterações vegetais e minerais.
As teorias criacionista e evolucionista trazem suas elucidações
sobre a evolução humana. A primeira, acredita que todo surgimento
e avanço deu-se a partir do Criador; a segunda, de acordo com Lamark,
fundamenta-se no uso e desuso de órgãos, e no seu conseqüente desenvolvimento
ou atrofiamento. Na teoria de Darwin há uma busca incessante pela
sobrevivência, na qual os mais capazes permanecem e os menos capazes
sucumbem.
Hoje há uma preocupação com as relações afetivas e as novas
maneiras de adaptação entre os seres humanos. Um exemplo deste movimento
é a música mostrando os desassossegos da alma e as tentativas de
harmonia e satisfação pessoal como a canção inédita Ô vem
então de Candeia e Curinga (O Globo - 01.11.98):
(...)
Em plena avenida
Despertar a alegria reprimida da vida
Pois o samba reflete a paz da existência
Enaltece a nobreza do mundo e a ciência (...) |
O
compositor Noel Rosa com seu samba inédito Você não morre tão
cedo retrata a relação afetiva (O Globo - 01.11.98):
(Você
não morre tão cedo...)
Juro que neste momento
Pensava nesta sua pessoa
(Tão boa, tão boa)
Que até dormindo perdoa
Você sentiu agora com certeza
A dor que tenho no meu coração
E veio pra mudar minha tristeza
E veio pra me dar o seu perdão
Chegando exatamente no momento
Em que a gente pensa o que não diz
Você adivinhou meu pensamento
Você já perdoou tudo o que fiz |
Nas
artes cênicas, produtores, autores e atores procuram apresentar
peças que retratam as relações humanas, as dificuldades e o cotidiano
das pessoas comuns, como The beauty queen of Lenane traduzido como
Miss rainha da beleza que enfoca o relacionamento doentio entre
mãe e filha, e também The life retratando o submundo da prostituição
e suas relações turbulentas. Na literatura, o livro de Françoise
Dolto, Solidão, retrata as origens deste sentimento e os diversos
acontecimentos vivenciados por quem já viveu este estado e como
conseguiu transformá-lo num momento criativo, de atividade.
A procura por situações do dia-a-dia objetiva uma aproximação
com o público em geral. Nota-se que não só a ciência e a filosofia,
mas também as artes estão sempre voltadas para o mesmo tema: o ser
humano.
De alguma maneira, homens e mulheres procuram estabelecer
o que acreditam ser o melhor para si mesmos. Parece que há uma procura
para uma interação, um encontro consigo e com os outros que o cercam.
O autor Roberto da Silva diz: O homem se forma pelo encontro
consigo mesmo e com o outro e sem o processo de autoconhecimento
e sem a interação social não haverá homem.
Mediante tantos enfoques distintos e opiniões gerais, estudiosos,
psicólogos e sociólogos mostram-se preocupados com as relações humanas.
Utopia ou não, a verdade é que as pessoas buscam encontrar quem
as faça felizes e tendem a se afastar de si mesmas, como na citação
de Antonio Xavier Teles referendando Erich Fromm (1969, p.68): (...)
de que nada está ainda totalmente perdido, pois o homem pode livrar-se
de sua maior prisão: o aspecto destrutivo que existe nele mesmo.
Assim, afastados de si, não conseguem vislumbrar a esperada perspectiva
de completude, aguardando que esta outra parte surja de outrem.
Como diria Nietzsche (1991, s.n.) este procura seu vizinho porque
busca a si mesmo, aquele porque gostaria de perder-se. O falso amor
de si mesmo transforma a solidão em prisão.
Existe uma tentativa antiga de se criar elos, que se fundamenta
na primeira célula social: a família. Em seu livro Bakhtin, dialogismo
e construção do sentido, Solange Jobim e Souza (s.n., 339) diz:
Tudo que diz respeito a mim, chega à minha consciência por meio
da palavra do outro, com sua entoação valorativa e emocional.
Estudos e pesquisas mostram que há diversos fatores que contribuíram
e ainda contribuem para atual crise nas relações, principalmente
a crise do casamento, meio pelo qual a família era e é construída.
Sobre a crise atual do casamento, Aroldo Rodrigues (1998) diz:
- A
fragilidade do casamento na sociedade contemporânea
preocupa os especialistas (psicólogos, sociólogos juristas,
assistentes sociais...) porque suas conseqüências repercutem
não só na vida das pessoas diretamente envolvidas na
dissolução do vínculo matrimonial, mas na dos eventuais
filhos do casal. Ademais, problemas jurídicos, econômicos
e psicológicos via de regra seguem-se à dissolução do
casamento, justificando a preocupação de especialistas,
assim como da sociedade de um modo geral, com as estatísticas
mundiais acerca do aumento do número de casamentos desfeitos
neste final do século XX. (prefácio)
|
Percebe-se
que a sociedade tomou rumos que nem mesmo os precursores de alguns
movimentos podiam cogitar. Não se imaginava que necessidades surgiriam
frente à nova realidade do casamento: mudanças sócio-econômicas,
avanços tecnológicos, atuação masculina na vida doméstica, diminuição
do número de filhos, longevidade dos(as) parceiros(as).
É evidente que ocorreram mudanças na instituição do casamento
e uma delas a mudança socioeconômica, que empurrou de alguma maneira
as mulheres para o mercado de trabalho. Com isso, as mulheres tiveram
que estabelecer prioridades em sua vida, a começar pelos afazeres
domésticos que precisaram contar com o auxílio masculino, o que
na prática não funcionou.
Surgiu também a necessidade de diminuir o número de gestações,
que até então, antes da tentativa da emancipação feminina, era tido
como símbolo de fertilidade e feminilidade, principalmente se os
filhos gerados fossem do sexo masculino, o que garantiria a perpetuação
das atitudes patriarcais.
As juras de amor e lealdade também eram condizentes com a
situação anterior, pois para alguns, tanto homens quanto mulheres,
o tempo de vida do marido ou da mulher era parcialmente diminuído
até mesmo pelas condições de vida precárias, principalmente longe
dos centros urbanos e sem recursos tecnológicos.
Também é preciso mencionar a mortalidade feminina que ocorria
na hora do parto, normalmente realizado por parteiras. Influíram
também nas mudanças citadas, a questão religiosa como ressalta Bernardo
Jablonski (1998, p.34): de modo geral, os autores são unânimes
em apontar um declínio na religiosidade, principalmente após a modernização
e a industrialização, o mesmo autor ainda relata que o processo
de secularização no Ocidente,
ou seja, a gradual redução do domínio ou influência, das instituições
religiosas sobre setores da sociedade e da cultura, faz com que
os indivíduos passem a avaliar, interpretar e lidar com o mundo
sem auxílio de indicações provenientes da religião oficial.
No que tange ao conceito de liberdade, Jablonski faz referência
à DAntonio dizendo (id): para
este autor, a modernização - além de ter aumentado a longevidade
e de ter dado uma ênfase especial mais às relações sociais do que
exatamente ao controle social - vem proporcionando também um impulso
à autonomia das pessoas, em detrimento da obediência às instituições.
Uma sociedade que enfatiza sobremaneira as realizações do indivíduo,
seus direitos, e principalmente sua liberdade de fazer o que quiser,
quando e da forma que quiser, é uma sociedade que necessariamente
se torna menos sensível aos apelos à submissão e à obediência irrestritas,
mormente no que diga respeito a valores primários e/ou afetivos.
(p.34)
Dessa
nova situação, ou seja, da crise do casamento, surgiram algumas
conseqüências importantes:
| |
solidão
o
novo lugar da mulher
mudanças
na dinâmica do vínculo afetivo
mudanças
na questão do prazer sexual.
|
Sobre
o novo lugar da mulher, existe uma história comum aos nossos
ouvidos: em algumas culturas, a mulher nascia e já era predestinada,
isto é, sua trajetória de vida era antecipada, tendo outro como
responsável: o marido, que ela não sabia quem nem como era, mas
ao qual ela devia obediência. Seu novo dono, ou seja, o marido,
era quem dizia o que fazer e como. Como seus pais não aceitariam
de volta em casa uma mulher descasada, o jeito era manter-se unida
a quem ao menos a alimentava e protegia.
A partir desta ilustração percebe-se que o lugar ocupado
pela mulher até então começa a ser modificado, com o passar do tempo.
Com a tentativa de emancipação feminina, o então dito sexo frágil
começa a perceber que pode caminhar e conquistar seu próprio espaço,
que também cabe à mulher escolher seu parceiro, companheiro ou talvez
ficar sozinha; e que podia obter seu sustento com o próprio trabalho.
É preciso analisar também o vínculo afetivo, que nesta mulher
sem expressividade e vontade constituía o que Pichon-Rivière (1991,
p.24) chama de vínculo histérico é o vínculo da representação,
sendo sua principal característica a plasticidade e a dramaticidade.
O vínculo, da maioria das mulheres, era com objetos e afazeres
domésticos, e sua expressão de afeto mostrava-se nos cuidados diários
e na criação de seus filhos. E por vezes, mostrava-se fraca para
obter algum ganho na condição de esposa.
No que tange ao prazer sexual, ela era quase inoperante.
Como esta mulher poderia acreditar e se perceber em contato físico
com alguém, o marido, sendo-lhe vetada a oportunidade de sentir
carinho ou qualquer tipo de afeição? Sem contar que expressar a
libido, o desejo e até atingir o orgasmo eram coisas para mulheres
doidivanas e não para as senhoras de família.
O objeto da pesquisa a que nos propomos é a solidão, como
bem define Norman Cousins (apud May, 1991, p. 24) toda
a história do homem é um esforço para destruir a própria solidão.
Rollo May (1991, p.25) ressalta que no reverso da solidão do
homem moderno está seu grande temor de ficar só. As pessoas
poderiam escolher estar só, temporariamente, mas como opção de vida
geraria um mal estar, como se existisse algo errado. Por este motivo
a aceitação pelo outro é importante, pois imerso no grupo, no convívio
com o outro, temporariamente esquece a solidão, embora ao preço
da renúncia à sua existência como personalidade independente
(id, 29). Pascal no século XVII diz que as diversões que aconteciam
tinham como finalidade evitar que as pessoas pensassem em si mesmas,
pois enquanto absorvidas com atividades sociais fugiam do medo de
estar só, como May (id, p.29) diz: o medo de estar só deriva,
em grande parte, da ansiedade de perder a consciência de si mesmo.
No que tange à mulher, Maria Lúcia Rocha-Coutinho em seu
livro Tecendo por trás dos panos (1994), diz:
| |
(...)
o trabalho doméstico impede ou dificulta a participação autônoma
das mulheres nos espaços públicos, que ficam restritos aos homens,
levando-as a uma marginalidade social. Além disso, o trabalho
doméstico isola as mulheres no âmbito da unidade familiar, onde
realizam sua tarefa de forma individual, sem organização cooperativa
alguma e quase sem integração com seus pares adultos, afastando-as,
assim, cada vez mais do mundo público e inibindo processos de
realização pessoal. Elas passam a ser e a viver para os outros
e não para si mesmas e sua afirmação pessoal consiste precisamente
em negar-se como pessoa. (p. 33) |
Este
contínuo aprendizado feminino, de que a mulher é destinada para
alguns afazeres domésticos e que para trabalhos intelectualizados
não o é, remete ao que Pasolini em Jovens infelizes (s.d.) diz:
A
educação que um menino recebe dos objetos, das coisas, da realidade
física - em outras palavras, dos fenômenos materiais da sua condição
social -, torna-o corporalmente aquilo que é e será por toda a vida.
O que é educada é a sua carne, como forma do seu espírito.(p.127)
A linguagem introjetada perpetua a idéia sobre a maneira
repressiva da mulher agir não saindo do estado inerte para provocar
alguma transformação; o que devemos considerar é que esta tentativa
é recente e lenta. Pasolini (s.d., 134) diz: os filhos têm assegurada
uma existência semelhante a dos pais. Ou melhor, se destinam a repetir
e a reencarnar os pais. Não se pode negar que durante muito tempo
foi este o aprendizado que muitas mulheres incorporaram como verdades
absolutas, reproduzido em gerações sucessivas, como se estivessem
condenadas a alguma situação a priori.
E agora mulher, o que você está transformando em sua vida?
Continua esperando um salvador, o príncipe, o pai ou marido? Crê
que seu destino está determinado ou ainda quer se realizar de fato,
quer fazer sua própria história?
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Jornais
e Revistas
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que será que vai chover? (algumas previsões de um psicólogo
social para o amanhã).
- Anais
do Seminário Brasileiro: a Psicologia em Contexto, CNPq/PUC-Rio/Depto.
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- Solidão
Jornal O Globo, 01 de novembro de 1998. Anexo: Jornal da Família
- No
rastro dos bambas Jornal O Globo, 01 de novembro de 1998.
Anexo: Segundo Caderno
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