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EDIÇÃO ESPECIAL Página atualizada em 16 de junho de 2000

 

ARTIGO

 

E Agora Mulher?
Por Cássia Borges 
Psicóloga e Psicoterapeuta Existencial  

Conselheira Editorial da SAEP  

A observação da trajetória da humanidade, desde seu surgimento na Terra até os dias de hoje, tem sido motivo de muitos estudos e discussões, não só do ponto de vista biológico, como também do sócio-político e, principalmente, do filosófico.  
A geologia histórica explica as alterações humanas através dos fósseis e das alterações vegetais e minerais.  
As teorias criacionista e evolucionista trazem suas elucidações sobre a evolução humana. A primeira, acredita que todo surgimento e avanço deu-se a partir do Criador; a segunda, de acordo com Lamark, fundamenta-se no uso e desuso de órgãos, e no seu conseqüente desenvolvimento ou atrofiamento. Na teoria de Darwin há uma busca incessante pela sobrevivência, na qual os mais capazes permanecem e os menos capazes sucumbem.  
Hoje há uma preocupação com as relações afetivas e as novas maneiras de adaptação entre os seres humanos. Um exemplo deste movimento é a música mostrando os desassossegos da alma e as tentativas de harmonia e satisfação pessoal como a canção inédita Ô vem então de Candeia e Curinga (O Globo - 01.11.98): 

(...) Em plena avenida  
Despertar a alegria reprimida da vida  
Pois  o samba reflete a paz da existência  
Enaltece a nobreza do mundo e a ciência (...)

O compositor Noel Rosa com seu samba inédito Você não morre tão cedo retrata a relação afetiva (O Globo - 01.11.98): 

(Você não morre tão cedo...)  
Juro que neste momento  
Pensava nesta sua pessoa  
(Tão boa, tão boa)  
Que até dormindo perdoa  
Você sentiu agora com certeza  
A dor que tenho no meu coração  
E veio pra mudar minha tristeza  
E veio pra me dar o seu perdão  
Chegando exatamente no momento  
Em que a gente pensa o que não diz  
Você adivinhou meu pensamento  
Você já perdoou tudo o que fiz 

Nas artes cênicas, produtores, autores e atores procuram apresentar peças que retratam as relações humanas, as dificuldades e o cotidiano das pessoas comuns, como The beauty queen of Lenane traduzido como Miss rainha da beleza que enfoca o relacionamento doentio entre mãe e filha, e também The life retratando o submundo da prostituição e suas relações turbulentas. Na literatura, o livro de Françoise Dolto, Solidão, retrata as origens deste sentimento e os diversos acontecimentos vivenciados por quem já viveu este estado e como conseguiu transformá-lo num momento criativo, de atividade.  
A procura por situações do dia-a-dia objetiva uma aproximação com o público em geral. Nota-se que não só a ciência e a filosofia, mas também as artes estão sempre voltadas para o mesmo tema: o ser humano.  
De alguma maneira, homens e mulheres procuram estabelecer o que acreditam ser o melhor para si mesmos. Parece que há uma procura para uma interação, um encontro consigo e com os outros que o cercam. O autor Roberto da Silva diz: O homem se forma pelo encontro consigo mesmo e com o outro e sem o processo de autoconhecimento e sem a interação social não haverá homem.  
Mediante tantos enfoques distintos e opiniões gerais, estudiosos, psicólogos e sociólogos mostram-se preocupados com as relações humanas. Utopia ou não, a verdade é que as pessoas buscam encontrar quem as faça felizes e tendem a se afastar de si mesmas, como na citação de Antonio Xavier Teles referendando Erich Fromm (1969, p.68): (...) de que nada está ainda totalmente perdido, pois o homem pode livrar-se de sua maior prisão: o aspecto destrutivo que existe nele mesmo. Assim, afastados de si, não conseguem vislumbrar a esperada perspectiva de completude, aguardando que esta outra parte surja de outrem. Como diria Nietzsche (1991, s.n.) este procura seu vizinho porque busca a si mesmo, aquele porque gostaria de perder-se. O falso amor de si mesmo transforma a solidão em prisão.  
Existe uma tentativa antiga de se criar elos, que se fundamenta na primeira célula social: a família. Em seu livro Bakhtin, dialogismo e construção do sentido, Solange Jobim e Souza (s.n., 339) diz: Tudo que diz respeito a mim, chega à minha consciência por meio da palavra do outro, com sua entoação valorativa e emocional. Estudos e pesquisas mostram que há diversos fatores que contribuíram e ainda contribuem para atual crise nas relações, principalmente a crise do casamento, meio pelo qual a família era e é construída. Sobre a crise atual do casamento, Aroldo Rodrigues (1998) diz: 

A fragilidade do casamento na sociedade contemporânea preocupa os especialistas (psicólogos, sociólogos juristas, assistentes sociais...) porque suas conseqüências repercutem não só na vida das pessoas diretamente envolvidas na dissolução do vínculo matrimonial, mas na dos eventuais filhos do casal. Ademais, problemas jurídicos, econômicos e psicológicos via de regra seguem-se à dissolução do casamento, justificando a preocupação de especialistas, assim como da sociedade de um modo geral, com as estatísticas mundiais acerca do aumento do número de casamentos desfeitos neste final do século XX. (prefácio)

Percebe-se que a sociedade tomou rumos que nem mesmo os precursores de alguns movimentos podiam cogitar. Não se imaginava que necessidades surgiriam frente à nova realidade do casamento: mudanças sócio-econômicas, avanços tecnológicos, atuação masculina na vida doméstica, diminuição do número de filhos, longevidade dos(as) parceiros(as).  
É evidente que ocorreram mudanças na instituição do casamento e uma delas a mudança socioeconômica, que empurrou de alguma maneira as mulheres para o mercado de trabalho. Com isso, as mulheres tiveram que estabelecer prioridades em sua vida, a começar pelos afazeres domésticos que precisaram contar com o auxílio masculino, o que na prática não funcionou.  
Surgiu também a necessidade de diminuir o número de gestações, que até então, antes da tentativa da emancipação feminina, era tido como símbolo de fertilidade e feminilidade, principalmente se os filhos gerados fossem do sexo masculino, o que garantiria a perpetuação das atitudes patriarcais.  
As juras de amor e lealdade também eram condizentes com a situação anterior, pois para alguns, tanto homens quanto mulheres, o tempo de vida do marido ou da mulher era parcialmente diminuído até mesmo pelas condições de vida precárias, principalmente longe dos centros urbanos e sem recursos tecnológicos.  
Também é preciso mencionar a mortalidade feminina que ocorria na hora do parto, normalmente realizado por parteiras. Influíram também nas mudanças citadas, a questão religiosa como ressalta Bernardo Jablonski (1998, p.34): de modo geral, os autores são unânimes em apontar um declínio na religiosidade, principalmente após a modernização e a industrialização, o mesmo autor ainda relata que o processo de secularização no
Ocidente, ou seja, a gradual redução do domínio ou influência,  das instituições religiosas sobre setores da sociedade e da cultura, faz com que os indivíduos passem a avaliar, interpretar e lidar com o mundo sem auxílio de indicações provenientes da religião oficial.  
No que tange ao conceito de liberdade, Jablonski faz referência à D’Antonio dizendo (id):
para este autor, a modernização - além de ter aumentado a longevidade e de ter dado uma ênfase especial mais às relações sociais do que exatamente ao controle social - vem proporcionando também um impulso à autonomia das pessoas, em detrimento da obediência às instituições. Uma sociedade que enfatiza sobremaneira as realizações do indivíduo, seus direitos, e principalmente sua liberdade de fazer o que quiser, quando e da forma que quiser, é uma sociedade que necessariamente se torna menos sensível aos apelos à submissão e à obediência irrestritas, mormente no que diga respeito a valores primários e/ou afetivos. (p.34)  

Dessa nova situação, ou seja, da crise do casamento, surgiram algumas conseqüências importantes: 

 
  • solidão 
  • o “novo” lugar da mulher  
  • mudanças na dinâmica do vínculo afetivo  
  • mudanças na questão do prazer sexual. 
  • Sobre o novo lugar da mulher, existe uma história comum aos nossos ouvidos: em algumas culturas, a mulher nascia e já era predestinada, isto é, sua trajetória de vida era antecipada, tendo outro como responsável: o marido, que ela não sabia quem nem como era, mas ao qual ela devia obediência. Seu novo dono, ou seja, o marido, era quem dizia o que fazer e como. Como seus pais não aceitariam de volta em casa uma mulher descasada, o jeito era manter-se unida a quem ao menos a alimentava e protegia.  
    A partir desta ilustração percebe-se que o lugar ocupado pela mulher até então começa a ser modificado, com o passar do tempo. Com a tentativa de emancipação feminina, o então dito sexo frágil começa a perceber que pode caminhar e conquistar seu próprio espaço, que também cabe à mulher escolher seu parceiro, companheiro ou talvez ficar sozinha; e que podia obter seu sustento com o próprio trabalho.  
    É preciso analisar também o vínculo afetivo, que nesta mulher sem expressividade e vontade constituía o que Pichon-Rivière (1991, p.24) chama de vínculo histérico é o vínculo da representação, sendo sua principal característica a plasticidade e a dramaticidade. O vínculo, da maioria das mulheres, era com objetos e afazeres domésticos, e sua expressão de afeto mostrava-se nos cuidados diários e na criação de seus filhos. E por vezes, mostrava-se fraca para obter algum ganho na condição de esposa.  
    No que tange ao prazer sexual, ela era quase inoperante. Como esta mulher poderia acreditar e se perceber em contato físico com alguém, o marido, sendo-lhe vetada a oportunidade de sentir carinho ou qualquer tipo de afeição? Sem contar que expressar a libido, o desejo e até atingir o orgasmo eram coisas para mulheres doidivanas e não para as senhoras de família.  
    O objeto da pesquisa a que nos propomos é a solidão, como bem define  Norman Cousins (apud May, 1991, p. 24) toda a história do homem é um esforço para destruir a própria solidão. Rollo May (1991, p.25) ressalta que no reverso da solidão do homem moderno está seu grande temor de ficar só.  As pessoas poderiam escolher estar só, temporariamente, mas como opção de vida geraria um mal estar, como se existisse algo errado. Por este motivo a aceitação pelo outro é importante, pois imerso no grupo, no convívio com o outro, temporariamente esquece a solidão, embora ao preço da renúncia à sua existência como personalidade independente (id, 29).  Pascal no século XVII diz que as diversões que aconteciam tinham como finalidade evitar que as pessoas pensassem em si mesmas, pois enquanto absorvidas com atividades sociais fugiam do medo de estar só, como May (id, p.29)  diz: o medo de estar só deriva, em grande parte, da ansiedade de perder a consciência de si mesmo.  
    No que tange à mulher, Maria Lúcia Rocha-Coutinho em seu livro Tecendo por trás dos panos (1994), diz: 

      (...) o trabalho doméstico impede ou dificulta a participação autônoma das mulheres nos espaços públicos, que ficam restritos aos homens, levando-as a uma marginalidade social. Além disso, o trabalho doméstico isola as mulheres no âmbito da unidade familiar, onde realizam sua tarefa de forma individual, sem organização cooperativa alguma e quase sem integração com seus pares adultos, afastando-as, assim, cada vez mais do mundo público e inibindo processos de realização pessoal. Elas passam a ser e a viver para os outros e não para si mesmas e sua afirmação pessoal consiste precisamente em negar-se como pessoa. (p. 33)

    Este contínuo aprendizado feminino, de que a mulher é destinada para alguns afazeres domésticos e que para trabalhos intelectualizados não o é, remete ao que Pasolini em Jovens infelizes (s.d.) diz:  A educação que um menino recebe dos objetos, das coisas, da realidade física - em outras palavras, dos fenômenos materiais da sua condição social -, torna-o corporalmente aquilo que é e será por toda a vida. O que é educada é a sua carne, como forma do seu espírito.(p.127) 
    A linguagem introjetada perpetua a idéia sobre a maneira repressiva da mulher agir não saindo do estado inerte para provocar alguma transformação; o que devemos considerar é que esta tentativa é recente e lenta. Pasolini (s.d., 134) diz: os filhos têm assegurada uma existência semelhante a dos pais. Ou melhor, se destinam a repetir e a reencarnar os pais. Não se pode negar que durante muito tempo foi este o aprendizado que muitas mulheres incorporaram como verdades absolutas, reproduzido em gerações sucessivas, como se estivessem condenadas a alguma situação a priori.  
    E agora mulher, o que você está transformando em sua vida? Continua esperando um salvador, o príncipe, o pai ou marido? Crê que seu destino está determinado ou ainda quer se realizar de fato, quer fazer sua própria história? 


    Bibliografia:

    • 1. ADORNO, Theodor W. e HORKHEIMER, Max. Dialética do esclarecimento - fragmentos  filosóficos, Rio  de  Janeiro, Editora Zahar  
    • 2. ALBERONI, Francisco. Enamoramento e amor. Rio de Janeiro, Editora Rocco, 1992  
    • 3. BAUDRILLARD,   Jean.     As   estratégias  fatais.  Rio   de   Janeiro,  Editora Rocco, 1991  
    • 4. BAUDRILLARD, Jean. A sociedade de consumo. Lisboa, Edições 70, 1995  
    • 5. In  CARNEIRO,  Terezinha  Féres    (org). Relação    amorosa,  casamento, separação, terapia.  Coletâneas  da  ANPEPP,  vol. 1   número 1,  Rio  de Janeiro,  1996 
    • 6. COUTINHO,  Maria Lúcia Rocha.  Tecendo  por  trás  dos  panos -  A  mulher brasileira  nas  relações familiares. Rio de Janeiro, Editora Rocco, 1994  
    • 7. FROMM, Erich. Análise do homem. Rio de Janeiro, Editora Guanabara, 1986 
    • 8. GOLDENBERG, Mirian. Ser homem ser mulher - dentro e fora do casamento.  Rio de Janeiro, Editora Revan, 1991 
    • 9. JABLONSKI, Bernardo. Até que a vida nos separe: a crise do casamento contemporâneo,  Rio  de  Janeiro, Editora Agir. 1998
    • 10. MAFFESOLI, Michel.  A contemplação do mundo. Porto Alegre, Editora Artes e Ofícios, 1995
    • 11. MAY, Rollo.  O homem à procura de si mesmo. Petrópolis, Editora Vozes, 1991
    • 12. MELO, Susana Carneiro Leão. Românticos ou Narcísicos? Um estudo sobre  o  Descompromisso Afetivo Contemporâneo. Dissertação de Mestrado, Departamento de Psicologia, PUC-Rio, 1996 
    • 13. MOTTA,   Maria  Euchares  e  CARNEIRO,   Terezinha  Féres  (orgs).  A psicologia em contexto - Seminário  Brasileiro  de  Psicologia,   Rio  de Janeiro,  PUC-Rio CNPq, 1996
    • 14. PASOLINI,   Pier   Paolo.    As   últimas    palavras   do   herege,   Editora Brasiliense 
    • 15. RIVIÈRE, Enrique Pichon. Teoria do vínculo. São Paulo, Editora Martins, 1991. 
    • 16. RORTY, Richard.  A  filosofia  e  o  espelho  da   natureza, Editora Relume Dumará 
    • 17. In SÓCRATES,  Nolasco  (org).   A  desconstrução  do  masculino,  Rio de Janeiro, Editora Rocco, 1995 
    • 18. SOUZA,  Solange  Jobim  e,  Bakhtin,  Vygotsky,  Benjamin. Infância e linguagem, Campinas, Editora Papirus 
    • 19. TELES,  Antonio  Xavier. Introdução ao estudo de filosofia, Rio  de Janeiro, Editora Ática, 1967

    Jornais e Revistas 

    • O que será que vai chover? (algumas previsões de um psicólogo social para o amanhã). 
    • Anais do Seminário Brasileiro: a Psicologia em Contexto, CNPq/PUC-Rio/Depto. de Psicologia, 201-208, 1996
    • Solidão Jornal O Globo, 01 de novembro de 1998. Anexo: Jornal da Família
    • No rastro dos bambas Jornal O Globo, 01 de novembro de 1998. Anexo: Segundo Caderno

     

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