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EDIÇÃO ESPECIAL Caderno de Temas Existencias

 

ARTIGO

 

Pelos Caminhos da Interpretação

Daniel Sousa

Este pequeno texto surge como reflexão, quando tive conhecimento de uma conversa entre um professor e um aluno, que trocavam animadamente idéias, de como ser fenomenológico, no contexto psicoterapêutico.

Também eu sou aluno e, portanto, não tenho ainda formação psicoterapêutica, muito embora esteja a estagiar num local onde, a psicoterapia de apoio, é um elemento chave do nosso trabalho. Como se sabe, a psicoterapia de apoio é uma competência dos psicólogos clínicos e pode ser aplicada, tendo por base um ou outro quadro teórico, onde se inclui naturalmente, o fenomenológico-existencial.

A questão de como se utiliza a fenomenologia no encontro, realizado entre duas pessoas, remete para vários aspectos muito interessantes. Um deles tem haver com a interpretação.

Por vezes o psicólogo na ânsia de querer ajudar a pessoa, ou de ter formulações, hipóteses, etc., levantadas por si, sobre a pessoa que tem à sua frente, interpreta, deduz, conclui, por vezes, com demasiada rapidez.

Diz Goethe: "Teorias são usualmente pressas exageradas de uma mente impaciente, que se quer livre dos fenômenos, colocando em seu lugar imagens, conceitos, por vezes só palavras".

A interpretação, técnica potente e muito eficaz, pode-se revelar desastrosa.

O método fenomenológico pode ajudar a conter estes ímpetos dos terapeutas (talvez ainda mais importante para os jovens como eu).

A fenomenologia, no seu sentido descritivo, permite-nos apreender a pessoa que está à nossa frente, de empatizar com o outro, não só no que ele suporta de si, mas também, com os aspectos com os quais tem mais dificuldade em viver e senti-los em si mesmo.

Assim, a fenomenologia pode-nos ajudar a evitar um perigo: o abandonar do outro, de forma prematura, refugiando-nos nas idéias que sustentam as nossas teorias, estas últimas, quais espaços de aconchego, onde tudo já é conhecido, diminuindo-nos a ansiedade e a angústia! Suspender as nossas idéias, dizia Husserl, só pode ser entendido como uma meta ideal, de facto, a nossa linguagem já é interpretação.

"A formulação de hipóteses inicia-se com a constatação dos factos, que implica já por si, sempre teoria" (Scharfetter).

A regra da epoché (suspender os nossos pré-conceitos), a regra da descrição (descrever em vez de interpretar) e a regra da horizontalidade (colocar as hipóteses lado a lado e não criar hierarquias), são princípios que nos ajudam a ter um postura fenomenológica em psicoterapia. Se calhar é isso mesmo: uma postura, mais que uma, outra, escola psicológica.

Outras posturas relevam logo para as "coisas em si", a fenomenologia, centra-se na "vivência das coisas pelo sujeito".

Desculpem, já me alonguei muito, mas não resisto a contar um episódio que o Professor Spinelli (Professor na escola inglesa de Psicoterapia Existencial), conta num livro seu e que está relacionado com a sua vida pessoal: uma amiga sua telefona-lhe, chora, desabafa, conta as amarguras de um amor desastrado e então acabado. A amiga e o Professor ao desligar, dizem até logo, pois sabiam que se iam encontrar mais tarde, numa festa de um amigo comum.
À noite, o Professor Spinelli chega à festa e bate à porta, quando a abrem, a primeira coisa que ele viu foi a sua amiga que lhe tinha telefonado, a chorar, com as lágrimas a escorrer pela cara e várias pessoas à sua volta. Spinelli, corre para a sua amiga, tentando confortá-la rapidamente. Mas, de repente, sente que algo está errado. E quando repara, todas as outras pessoas estavam a chorar. A sua amiga tinha acabado de contar uma anedota, e todos riam a bom rir, a ponto de fazer chorar...

Daniel Sousa
Psicólogo Clínico formado pelo ISPA - Instituto Superior de Psicologia Aplicada (Lisboa)
Co-responsável do Espaço Sócrates Café


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