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Uma publicação da SAEP Sociedade de Análise Existencial e Psicomaiêutica | |
| EDIÇÃO ESPECIAL | Caderno de Terapias Corporais | |
| Texto de Apoio em Neurociência |
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Propriedades
e Homeostase Neurais
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Prof. Bruno L. Galluzzi da S. Dalcin
Sabemos que toda função do sistema nervoso está centrada no neurônio, e que este é uma célula especializada. A nível do corpo celular neuronal concentra-se um aparato metabólico notável, com carga alentada de ribossomos, facultando a síntese de substâncias (como os neurotransmissores) fundamentais para a homeostase neural. O axônio participa de mecanismos de transporte de substâncias sintetizadas no soma até o extremo telodêndrico neuronal, permitindo a liberação sináptica de mediadores químicos. O tecido nervoso em geral apresenta uma elevada taxa de metabolismo, com consumos elevados de oxigênio e de glicose, exigindo uma "reserva" especial de nutrientes, e contando com uma "barreira" (a barreira hematoencefálica), que protege o sistema nervoso central de possíveis agressões (v.g., infecções bacterianas) provenientes da circulação sangüínea que a ele chega; esta barreira cria também condições fisiológicas diferenciadas para o tecido nervoso, permitindo-lhe certo grau de autonomia funcional em relação ao restante dos sistemas homeostáticos. Assim sendo, a manutenção da plena vitalidade funcional do sistema nervoso exige grandes concentrações de glicose e de oxigênio; na deficiência ou ausência dos mesmos, as funções neuronais são progressivamente bloqueadas e, em condições vitais, podem ser definitivamente lesadas se o estado de hipoxia (falta de oxigênio) ou hipoglicemia (insuficiência de glicose no sangue) persistir prolongadamente. Lembramos que todas as funções celulares dependem de cadeias de reações químicas, como as que envolvem o oxigênio e a glicose, reações estas que são CATALISADAS pela presença de inúmeras ENZIMAS. Estas são moléculas de proteína que, partindo de uma ou mais substâncias (os SUBSTRATOS) permitem a síntese de outras tantas. É o que se denomina METABOLISMO. No neurônio, esse metabolismo visa primordialmente (a) produzir energia, através do ATP (trifosfato de adenosina, molécula-padrão energética nas células animais, ao liberar energia pela quebra de uma ou duas ligações fosfato), e (b) sintetizar moléculas intrinsecamente ligadas à função neuronal, como proteínas receptoras, neurotransmissores (mediadores químicos), neuromoduladores e "segundos mensageiros" (termos que serão explicados a seu devido tempo em nosso curso). As características e funções dessas moléculas serão explicadas em capítulos posteriores. Em outros tipos celulares, a função do metabolismo envolve ainda o crescimento e regeneração das estruturas celulares; à exceção de moderado grau de recuperação funcional, e de seu período de maturação a partir da CÉLULA TOTIPOTENCIAL (até atingir suas dimensões e funções finais), o neurônio não apresenta plenamente estas funções. Com efeito, uma das propriedades funcionais do neurônio é justamente sua IRREGENERABILIDADE uma vez lesado estrutural ou funcionalmente (além de um limite determinado, contudo), virá a sofrer morte celular, NÃO SE DIVIDINDO nem sendo substituído por outro neurônio idêntico. Esta perda da capacidade de regeneração ocorre logo após a diferenciação final da célula neuronal, quando esta assume sua forma e função definitivas, e não mais sendo readquirida. Aparentemente, decorre da presença no tecido neural embrionário de determinadas substância, FATORES NEUROTRÓFICOS cuja produção parece ser restrita às fases mais iniciais do desenvolvimento tecidual neural. Experimentos têm sido levados a termo no sentido de isolar e identificar tais fatores, com sucesso modesto até o momento, utilizando células embrionárias. Na realidade, sinais físicos e químicos participam da maturação do sistema nervoso: ao lado dos fatores tróficos, químicos, visualizamos a migração das células primitivas seguindo o trajeto orientado por células da glia; ao atingir sua localização definitiva, as células neuronais expandem seus processos dendríticos, para então chegar a um estado de plena maturação. Os fatores neurotróficos são moléculas proteicas capazes de induzir o crescimento e a migração de expansões das células neurais primitivas (cones de crescimento); com freqüência interagem entre si para promover a regulação dos processos de divisão e diferenciação das células neuroectodérmicas primitivas e/ou intermediárias. Dentre os conhecidos, primariamente envolvidos nos processos de diferenciação no sistema nervoso periférico (e atualmente considerados assim também a nível do sistema nervoso central), podemos citar (segundo fontes de 1995): o FATOR DE CRESCIMENTO NEURAL (NGF); o FATOR NEUROTRÓFICO CEREBRAL (BDNF); a NEUROTROFINA-3 (NT-3); a NEUROTROFINA 4/5 (NT-4/5). Outros fatores ativos no SNC, mas que não estão restritos a ele, são: os fatores de crescimento insulino-similares; o fator básico de crescimento de fibroblastos (bFGF ou FGF2); o fator neurotrófico ciliar; a purpurina e a ativina. Detecta-se, por exemplo, que as expansões neuronais em desenvolvimento projetam-se em áreas com concentrações elevadas de NGF, que se liga a receptores específicos para sofrer passagem endocitótica; uma vez no citoplasma, o NGF é carreado por transporte axonal retrógrado rápido para o soma, onde promove ações tróficas. O bFGF demonstra um sugestivo envolvimento nos processos de diferenciação celular em conseqüência de sua conhecida associação à biologia da matriz extracelular e das membranas plasmáticas tais processos de diferenciação parecem advir da existência de contactos intercelulares no neuroectoderma. Além disso, sua presença é detectada em fases bastante precoces de maturação ontogenética do telencéfalo e do manto cortical. Na verdade, ao bFGF tem sido atribuída participação nos processos de diferenciação e sobrevivência neuronais na córtex cerebral e nas regiões hipocampais, em concomitância com outros fatores. Uma outra instância dos fatores neurotróficos é a liberação por fibras musculares de fatores ainda desconhecidos, que estimulam a vitalidade de suas fibras neurais inervadoras. Uma importante propriedade do tecido nervoso é a sua não-reprodutibilidade. Todas as células neurais do indivíduo já lhe são conferidas à concepção, e nada mais fazem senão desenvolver-se através de processos de crescimento, até atingirem a maturidade... quando então inicia-se o lento e inexorável processo do envelhecimento celular, que culminará após um prazo de tempo variável (de indivíduo para indivíduo) na morte do neurônio, acarretando a perda funcional correspondente. As lesões estruturais do neurônio de ordinário induzem DEGENERAÇÃO celular com morte neuronal, o que é atribuível à complexidade morfológica e funcional desse tipo celular. As alterações funcionais (como a dos sistemas enzimáticos, ou da nutrição neuronal) podem ou não acarretar danos definitivos (terminando pela morte celular), na dependência de sua intensidade e/ou duração, como já tivemos oportunidade de mencionar em nota anterior. Sem embargo, observamos que (a) a função neural é capaz de algum grau de recuperação funcional (independente do fator trófico citado acima), quando os danos ao neurônio puderem ser compensados metabolicamente; (b) se o neurônio for inutilizado, é possível em determinados casos sua substituição funcional por outro neurônio similar pré-existente, que passará a "acumular" as funções do neurônio "morto"; (c) de certa forma, a PLASTICIDADE NEURONAL (que será oportunamente estudada) é u'a modalidade de "crescimento" funcional, de ampliação das conexões do neurônio (e, por consegüinte, de sua capacidade funcional). As funções, ao se complexificarem, vão de certa forma "abandonando" as estruturas cuja função tornou-se arcaica (face às demandas relacionais do animal), e ocupando estruturas morfológica e funcionalmente mais complexas. Os neurônios (assim como determinados tipos celulares, como as células excitáveis da retina) são sustentados estruturalmente pelas chamadas CÉLULAS DA GLIA (tecido conjuntivo), mais especificamente da macróglia, através de suas expansões somáticas. A oligodendróglia, comportando os oligodendrócitos e os astrócitos, tem a mesma origem embriológica dos neurônios. Já a micróglia tem origem mesodérmica. Atribui-se aos astrócitos funções de nutrição das células neuronais, servindo como intermediárias no transporte de nutrientes dos vasos sangüíneos, embora isso ainda não tenha sido inteiramente corroborado. Fizemos referência à intensa atividade metabólica e de consumo energético pelo neurônio no apontamento I. Já vimos no mesmo apontamento que os OLIGODENDRÓCITOS são células nervosas produtoras de MIELINA, uma proteína básica com propriedades isolantes elétricas, de grande importância para garantir o desempenho das funções excitáveis dos neurônios os oligodendrócitos (ou CÉLULAS DE SCHWANN) irão recobrir os axônios de neurônios com camadas isolantes de mielina, para facultar a condução saltatória (apresentada em outro capítulo). O estudo das células da glia é bastante dificultado tecnicamente nos animais superiores, demandando que se recorra a modelos mais simples, como os gânglios das sanguessugas. Destes estudos, depreende-se que, ao contrário do que se acreditava, existe uma discreta condição de excitabilidade das células da glia, permeáveis aos íons potássio, com potencial de repouso elevado em suas MPs (você verá mais adiante o significado dessa afirmação). Embora tal fato não contribua de forma relevante para os processos de transmissão de sinal neural, certos tecidos (como a retina) demonstram uma participação da glia no desempenho de suas funções. A nível da córtex cerebral, as células da glia participam de uma forma de "espalhamento" retardado da excitabilidade de populações neuronais o interessante fenômeno da "depressão alastrante" de ARISTIDES LEÃO. A nutrição e excreção das estruturas do sistema nervoso, providas pelo sistema de circulação liqüórica (já citado anteriormente), é ainda provida por dois sistemas circulatórios exclusivos, que ofertam grandes quantidades de sangue aos tecidos neurais. Encontramos vários tipos morfológicos de neurônios, adaptados às suas funções específicas (vide fig. 1). O mais amplamente considerado é o neurônio ESTRELADO, dotado de ramificações dendríticas somáticas amplas, em um corpo celular com a forma de estrela, já representado no apontamento I. Há também o neurônio PIRAMIDAL, com corpo celular em forma de pirâmide de base invertida, e axônio longo, com ramificações dendríticas somáticas variáveis, encontrável nas camadas celulares piramidais da córtex cerebral. O neurônio BIPOLAR, com dois prolongamentos longos, identificado por exemplo a nível das retinas (superfícies no fundo da parte interna e mais posterior do olho, onde a luz é percebida como estímulo), participando do processo visual, e o neurônio PSEUDO-UNIPOLAR (que constitui o protótipo neuronal nos gânglios sensitivos somáticos), são exemplos de células adaptadas à função sensitiva. Observa-se ainda o neurônio de PURKINJE, característico da córtex cerebelar, com sua função de processamento de sinais da motricidade. Faremos outras considerações de ordem morfológica de neurônios onde mais se fizerem necessárias ao longo deste curso. Todo esse aparato morfológico serve à FUNÇÃO NEURAL, um conceito funcional de equilíbrio e controle de todo o organismo. O sistema nervoso, assim como o sistema endócrino, realizam o CONTROLE global das funções fisiológicas. Foi visto no apontamento I que as funções neurais abrangem dois aspectos da vida biológica: o VEGETATIVO ou VISCERAL, ligado às funções mantenedoras da vida celular (e portanto, dos órgãos e sistemas), e o RELACIONAL. Nosso curso abrange essencialmente tais aspectos relacionais. Mas, o que se entende por controle neural da vida relacional? A proposição fundamental é a de um PROCESSO SEMÂNTICO, à semelhança daquele estabelecido em Lingüística: um emissor que interage com um receptor através de um código significativo. Ora, as funções vegetativas do animal, em primeira instância, referem-se aos seus próprios limites biológicos; todavia, o animal está inserido em um meio, que em primeira análise terá de lhe fornecer nutrição e abrigo a evolução gradual na escala animal (filogenética) cria espécies heterótrofas, incapazes de autonomia maior do meio para sua subsistência.
Daí que o indivíduo terá de interagir com o meio, através de dois processos: a PERCEPÇÃO e a EXPRESSÃO. Por intermédio da percepção, será capaz de captar e interpretar informações a respeito do meio que o cerca por exemplo, a proximidade de inimigos naturais, de alimento, ou de macho/fêmea de sua espécie. Aliás, toda a função neural, incluindo os animais superiores de constituição neural complexa, nada mais é do que o aperfeiçoamento e especialização de uma propriedade básica da matéria viva, a IRRITABILIDADE. Esta representa a capacidade do ser em reagir às variações de estado físico e/ou químico em seu ambiente. Em última instância, a percepção é um aperfeiçoamento da irritabilidade. Já a expressão é a capacidade do indivíduo em interagir ativamente com seu meio, principalmente através da MOTRICIDADE, ou seja, dos movimentos que realiza. Assim, reagirá aos estímulos do meio através de sua marcha fugindo ou perseguindo e de movimentos mais ou menos estereotipados que identificam determinados comportamentos como o acasalamento, a submissão e a dominação, a raiva, o gesto manual, a fala (e as emissões vocais primitivas que correspondem às "vozes" dos animais), a escrita, a busca e ingesta de alimentos, o medo, a repulsa, os movimentos expressivos dos olhos e da mímica facial, etc. Notemos que a motricidade também compõe a irritabilidade primordial, representando uma resposta do animal (cada vez mais complexa e elaborada à medida que ascendemos na escala filogenética ou ontogenética) ao estímulo ambiental; do simples afastar dos pseudópodos formados pela membrana plasmática dos procariotas, passando pela contração dos segmentos somáticos nos invertebrados, até atingir as manifestações altamente coordenadas dos primatas superiores. Trazendo esses conceitos primários para o âmbito da Neurobiologia, vemos que o substrato estrutural representado pelo sistema nervoso (central e periférico, somático ou visceral) tem dois grupos de funções: (a) BÁSICAS ou ELEMENTARES, e (b) SUPERIORES ou TRANSCENDENTES. Naturalmente, ao longo de nossas considerações faremos referência aos animais superiores, como os mamíferos, em especial os primatas...e dentre estes, aos primatas superiores os hominídeos que representam nosso principal objeto de estudo. Daqui se conclui que as funções elementares são a SOMESTESIA ou SENSIBILIDADE (representando a função perceptiva), e a MOTRICIDADE (representando a função expressiva). Qualquer espécie animal será dotada destas duas funções, filogeneticamente muito primitivas, e gradualmente adaptadas às necessidades perceptuais e motoras das espécies. Por exemplo: a ausência de função visual nos peixes abissais, que vivem a grandes profundidades, sob luminosidade praticamente inexistente; o desenvolvimento de audição especial em espécies que necessitam da função de sonar (por enxergarem pouco), como os morcegos; o desenvolvimento da bipedestação (marcha ereta sobre os membros inferiores) nos primatas; o desenvolvimento da fala e da escrita, etc. As funções superiores são apanágio de espécies mais desenvolvidas, e na verdade têm de apoiar-se nas funções básicas para sua consecução. Aqui se incluem, por exemplo: a CONSCIÊNCIA, como substrato de várias outras funções transcendentes, e seus parafenômenos, como o SONO e o SONHO; o CONDICIONAMENTO e o APRENDIZADO; a MEMÓRIA; as EMOÇÕES e o COMPORTAMENTO; o RACIOCÍNIO e o JUÍZO CRÍTICO.
Todas as funções se fundem em uma capacidade semântica de relacionar o ser vivo com o ambiente circunjacente, num intercâmbio de aferências e eferências. Deve-se compreender que as funções elementares representam a base necessária sobre a qual operam as funções superiores. Ao longo de nosso curso, daremos atenção inicialmente ao estudo das funções elementares, para então passarmos às funções superiores. Veja como o Quadro I acima sumariza a classificação funcional. É indispensável deixar claro, mais uma vez, que todas as manifestações comportamentais repousam sobre um substrato morfológico dotado de propriedades fisiológicas características conhecer tal substrato anátomo-funcional é forma segura de buscar a compreensão das manifestações relacionais. Tal compreensão esbarra na complexidade estrutural e funcional do sistema nervoso, considerando-se que nem todas as capacidades relacionais do ser humano são totalmente explicáveis ainda pela neurociência. Em um Apontamento ulterior, ao ser abordada a fisiologia dos fenômenos ligados à consciência, faremos algumas considerações a respeito da interação corpo-mente, mais especificamente, das ciências do cérebro com as transcendências da vida de relação a consciência, o pensamento e seus correlatos neurobiológicos. Essencialmente, o problema de tais interações resulta da tentativa de relacionar processos abstratos aos mecanismos fisiológicos "materialmente" conhecidos e aos seus substratos neuronais, buscando harmonizar os dois aspectos fenomenológicos reconhecidamente distintos, para que se possa proceder a uma interpretação científica global dos mesmos. O nascimento de novas formas de abordagem científica, quiçá a partir de fatos ainda não evidentes, poderá trazer em um futuro próximo o acesso e domínio neurobiológicos de algumas funções comportamentais ainda não desveladas. Com efeito, a partir do fenômeno primário da geração do IMPULSO NERVOSO, partimos para uma complexa interação entre vários neurônios que formam entre si sistemas funcionais, os quais por sua vez interagem com outros sistemas, até a consecução das capacidades objetivas do sistema nervoso (como as funções transcendentes). Na verdade, transcendemos os próprios limites do sistema nervoso, na medida em que é reconhecida uma importante participação dos sistemas endócrinos (hormonais) nos mecanismos neurais, a ponto de falarmos de uma ciência neuroendócrina. Isto vem se tornando cada vez mais claro: ao analisarmos os fenômenos adaptativos no organismo, identificamos a regência neural de tais processos, ao lado de uma regência endócrina; a regulação neural, de caráter rápido, imediato, mas transitório; a regulação endócrina, mais lenta, mais gradual, porém potencialmente duradoura. Assim, a regulação neural (que é tipicamente físico-química) complementa-se pela intervenção de mecanismos hormonais (proporcionando uma regulação química, dita HUMORAL). Veremos mais além os conceitos de neurotransmissor e de neuromodulador; a estes, pode-se adicionar o de hormônio, uma substância liberada por células capazes de sintetizá-la, e que atuará sobre o metabolismo de outras células, agindo à distância (levada pela corrente circulatória) e em ínfimas quantidades (da ordem até de milionésimos de milionésimos de grama!). As atuações de neurotransmissores, neuromoduladores e hormônios muitas vezes se interpenetram, e mesmo inter-regulam. A evolução do conhecimento em Neurociência, proveniente não apenas das ciências biológicas, mas no mesmo nível das ciências físico-matemáticas e humanas, empresta à Neurobiologia modelos matemáticos e físicos (teóricos) de cérebro, onde através de processos técnicos tentamos reproduzir o comportamento usual de sistemas neuronais específicos. Por que isso ? Será visto que as mensagens veiculadas pelos sistemas que compõem a neuralidade mostram um comportamento pouco previsível estatisticamente aleatório, mesmo e os modelos servem para tentar representar os fenômenos neurais, com o intuito de prever o melhor possível suas respostas, e interpretá-las, empregando conhecimentos de inferência numérica, cálculo estocástico, álgebras e topologia. São abordagens laboriosas, exaustivas e por vezes profundas; todavia, contribuem para a ciência básica com alguns modelos mais simples dos fenômenos neurais. Diz-se de uma abordagem bioquímica da neurociência, diretamente relacionada aos processos metabólicos celulares neuronais, e envolvida diretamente com os assim denominados MEDIADORES QUÍMICOS ou NEUROTRANSMISSORES, moléculas capazes de transmitir mensagens neurais, e os NEUROMODULADORES, capazes de modificar o desempenho das funções neuronais todos serão explicados posteriormente. Não é demais dar relevo à importância dos aspectos enzimáticos do metabolismo neuronal, da síntese encadeada de substâncias pelo neurônio, produzindo uma seqüência de compostos químicos dotados ou não de atividade nos processos neurais. Recordamos aqui que a noção de metabolismo refere-se aos processos químicos e físico-químicos da vida celular, tanto genéricos (produção de energia e reposição estrutural) quanto específicos (por exemplo, a síntese dos referidos neurotransmissores e neuromoduladores). A pesquisa científica admite os MÉTODOS DE ESTUDO em Neurociência, métodos esses que serão discutidos progressivamente ao longo destes apontamentos, segundo sua utilidade se faça apreciar. Tais métodos partem sempre do binômio estrutura versus função, ora atentando mais para os aspectos morfológicos, ora para os funcionais; dentro de uma concepção de normalidade, ou seja, daquilo que é fisiológico (que ocorre no animal intacto), em contraposição com aquilo que é patológico (que se desvia da normalidade). Da mesma forma como se visualiza a morfologia ao lado da fisiologia do sistema nervoso normal, tem-se o contraste também no sistema nervoso lesado. A ciência anatômica toma a estrutura e a descreve, isoladamente ou em relação com suas estruturas vizinhas; no caso do sistema nervoso, estuda as projeções de fibras neuronais, e as populações de corpos celulares que se concentram segundo um padrão topográfico. Para visualizar a estrutura, usa seu olho nu, ou instrumentos da microscopia óptica ou eletrônica, chegando mesmo a um nível subcelular (ao enxergar as organelas celulares, a membrana plasmática... e seus componentes moleculares). Atinge-se mesmo tal nível físico, na descrição das diferentes estruturas moleculares que compõem a célula. Os tecidos neurais, agrupamentos de células neuronais, recebem colorações especiais adição de substâncias com afinidade por componentes estruturais específicos, e que permitem visualizar diferencialmente tais componentes. Utilizam-se as afinidades químicas das substâncias corantes, mas também suas afinidades imunológicas com os tecidos, de antígeno-anticorpo. A histoquímica permite identificar seletivamente diferentes substâncias presentes na estrutura celular do neurônio. As "marcações" celulares podem ser delineadas nos tecidos adicionando-se aos "corantes" átomos que emitem radiação radionuclídeos. A abordagem fisiológica se inicia quando uma visão dinâmica, de estados mutáveis na célula, é acrescentada à visualização das estruturas. Um dos métodos mais recentes busca identificar o trânsito de substâncias que sofrem transporte axonal (anterógrado ou retrógrado), identificando suas origens e destinos. Os estudos lesionais assumem um lugar importante na exploração morfofuncional do sistema nervoso, permitindo inferir sobre as funções prováveis desempenhadas por cada sistema individual. Na qualidade de exemplo, o método de GUDDEN, que realiza lesões seletivas em áreas da córtex cerebral de animais de experimentação recém-natos, observando posteriormente o desaparecimento dos sistemas de fibras que partem das áreas lesadas, assim como a atrofia de núcleos ligados a essas áreas. Também são empregados métodos lesionais criogênicos, a partir do resfriamento seletivo de populações neuronais do neuroeixo, objetivando o estudo de suas relações funcionais com outras populações: o resfriamento é capaz de reduzir ou abolir, transitória ou permanentemente, a atividade neural desses grupos celulares. Um importante recurso no estudo da Neurociência é a eletrofisiologia, a análise de potenciais elétricos presentes nas células neurais, e sua variação nos estados de "repouso" e de "excitabilidade" celular. Assim, estimulam-se eletricamente as células nervosas para observar suas respostas; ou simplesmente captam-se potenciais espontâneos, com o mínimo de interferência sobre o processo. Os métodos eletrofisiológicos aplicam-se não apenas ao estudo do comportamento das populações celulares corticais e subcorticais (eletroencefalografia ou eletrocorticografia), como também de outros sistemas neuronais, como os das vias auditivas, ópticas e somestésicas, a nível tanto periférico quanto central. Métodos emprestados da exploração clínico-diagnóstica, como a TOMOGRAFIA COMPUTADORIZADA, a RESSONÂNCIA MAGNÉTICA NUCLEAR ou a TOMOGRAFIA POR EMISSÃO DE PÓSITRONS, permitem uma sofisticada abordagem dos aspectos morfológicos e funcionais (dinâmicos) do tecido nervoso neuraxial. Abordemos outros aspectos relativos à homeostasia neural. Cumpre informar ainda, nesta pequena introdução geral aos processos neurais, que as interações neuronais dão-se basicamente por fenômenos de EXCITAÇÃO e de INIBIÇÃO. Através da aceleração/aumento ou desaceleração/redução dos impulsos nervosos transmitidos, podemos regular as mensagens neurais, processos estes veiculados pelas SINAPSES anteriormente citadas (apontamento I). Veremos mais adiante que o sistema nervoso, tal como é concebido hodiernamente, "funciona" em um sistema denominado DIGITAL. O termo digital refere-se às grandezas que podem ser enumeradas por quantidades inteiras por exemplo, número de dedos das mãos ou pés, de estrelas no universo, de grãos de areia na praia, de fios de cabelo no couro cabeludo, de elétrons circundando um núcleo atômico, etc. São portanto expressas por números NATURAIS (N = {0,1,2,3,...,n}). O sistema nervoso funciona em uma base digital, representada unitariamente pelo POTENCIAL DE AÇÃO NEURONAL, que estudaremos daqui a pouco. Entretanto, a grande maioria das grandezas físicas ou químicas (forças mecânicas, térmicas ou eletromagnéticas...e até certo ponto os estímulos por moléculas) que atingem o indivíduo através da somestesia é ANALÓGICA, não podendo ser representada com precisão em números naturais; elas têm de ser transformadas em grandezas digitais para poderem ser interpretadas e transmitidas pelo aparato neural. Esta dualidade analógico-digital é uma característica importante do sistema nervoso (e que o aproxima funcionalmente de sistemas teóricos não-biológicos de controle automático, criando uma ponte de abordagem interdisciplinar que busca ultrapassar as dificuldades de compreensão integral da funçào neural). Resumindo: o neurônio é uma célula viva, que se encontra em relação dinâmica com o meio circundante, e que interage elétrica e quimicamente com outras células neuronais (assim como com outros tipos celulares, como as fibras musculares e o tecido glandular) para propiciar o desempenho de funções que lhe são características. Ele é o resultado de um processo evolutivo e de crescimento adaptativo nos seres pluricelulares (eucarióticos), representando a propriedade da irritabilidade. É uma célula EXCITÁVEL, capaz de transmitir mensagens à distância, valendo-se de sua membrana plasmática, de ordinário a partir de estímulos incidentes oriundos do meio circunjacente, de tal forma que esses SINAIS NEURAIS passam ordinariamente de neurônio para neurônio. De maneira geral, isto se dá (a) a partir de um ponto de RECEPÇÃO, através de neurônios intermediários, até atingir uma região onde tais estímulos sofrem interpretação, ou (b) a partir de um ponto de EMISSÃO, também atravessando neurônios intermediários, até atingir regiões onde tais mensagens são executadas. Prof.
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