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Uma publicação da SAEP Sociedade de Análise Existencial e Psicomaiêutica | |
| EDIÇÃO ESPECIAL | Caderno de Terapias Corporais | |
| Texto de Apoio em Neurociência |
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Propriedades
e Homeostase Neurais
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Prof. Bruno L. Galluzzi da S. Dalcin
1. A função do sistema nervoso baseia-se no neurônio, uma célula especializada, sintetizando substâncias (neurotransmissores). 2. O axônio transporta substâncias sintetizadas no soma até o telodendro, com a li-beração sináptica de mediadores químicos. O tecido nervoso em geral apresenta taxa elevada de metabolismo, com consumo alto de oxigênio e glicose, exigindo uma "reserva" especial de nutrientes, e contando com a barreira hemato-encefálica (BHE), que protege o sistema nervoso central de agressões provenientes da circulação sangüínea; a BHE cria condições fisiológicas diferenciadas para o te-cido nervoso, permitindo-lhe certa autonomia funcional no organismo. 3. A vitalidade do sistema nervoso exige grandes quantidades de glicose e de oxigênio; em sua falta, as funções neuronais são progressiva-mente bloqueadas. Todas as funções celulares dependem de reações químicas (meta-bólicas) envolvendo o oxigênio e a glicose, CATALISADAS por ENZIMAS (moléculas de proteína que, partindo de um ou mais SUBSTRATOS, permitem a síntese de ou-tros). No neurônio, esse metabolismo visa produzir energia pelo ATP (trifosfato de adenosina), e sintetizar moléculas ligadas à função neuronal (proteínas re-ceptoras, neurotransmissores, neuromoduladores e "segundos mensageiros"). 4. À exceção de moderado grau de recuperação funcional, e de seu período de matura-ção a partir da CÉLULA TOTIPOTENCIAL (até atingir suas dimensões e funções fi-nais), o neurônio não apresenta funções regenerativas plenas: uma proprieda-de funcional do neurônio é a IRREGENERABILIDADE, NÃO SE DIVIDINDO ou sendo subs-tituído por outro neurônio idêntico em caso de lesão importante. Isto passa a ocorrer logo após a diferenciação final da célula neuronal, quando esta assume sua forma e função definitivas, não mais sendo readquirida. 5. FATORES NEUROTRÓFICOS: moléculas proteicas capazes de induzir o crescimento e a migração de expansões das células neurais primitivas (cones de crescimento). de produção restrita às fases iniciais do desenvolvimento tecidual neural - podemos citar o FATOR DE CRESCIMENTO NEURAL (NGF), o FATOR NEUROTRÓFICO CEREBRAL (BNDF), a NEUROTROFINA-3. 6. Todas as células neurais do indivíduo já lhe são conferidas à concepção, e de-senvolvem-se até atingirem a maturidade, quando inicia-se o processo do envelhe-cimento celular, que culminará na morte do neurônio. Lesões estruturais induzem DEGENERAÇÃO celular com morte neuronal, dada a sua complexidade morfológica e funcional. As alterações funcionais (como a dos sistemas enzimáticos, ou da nu-trição neuronal) podem ou não acarretar danos definitivos (terminando pela morte celular), na dependência de sua intensidade e/ou duração. 7. A função neural é capaz de algum grau de recuperação funcional quando os danos ao neurônio puderem ser compensados metabolicamente; se o neurônio for inutili-zado, é possível sua substituição funcional por outro neurônio similar pré-exis-tente, que passará a "acumular" as funções do neurônio "morto"; de certa forma, a PLASTICIDADE NEURONAL é u'a modalidade de "crescimento" funcional, de amplia-ção das conexões do neurônio e de sua capacidade funcional. As funções, ao se complexificarem, vão de certa forma "abandonando" as estrutu-ras cuja função tornou-se arcaica (face às demandas relacionais do animal), e ocupando estruturas morfológica e funcionalmente mais complexas. 8. Os neurônios (e determinados outros tipos celulares) são sustentados estrutural-mente pelas chamadas CÉLULAS DA GLIA, mais especificamente da macróglia, através de suas expansões somáticas. A oligodendróglia, comportando os oligodendrócitos e os astrócitos, tem a mesma origem embriológica dos neurônios. Astrócitos: fun-ções de nutrição das células neuronais, servindo como intermediárias no trans-porte de nutrientes dos vasos sangüíneos, embora isso ainda não tenha sido in-teiramente corroborado. A nutrição e excreção das estruturas do sistema nervoso, dadas pela circulação liqüórica, é ainda provida por dois sistemas circulatórios exclusivos, que ofertam grandes quantidades de sangue aos tecidos neurais. 9. Tipos morfológicos de neurônios, adaptados às suas funções específicas. Neurônio ESTRELADO: dotado de ramificações dendríticas somáticas amplas, em um corpo ce-lular com a forma de estrela. Neurônio PIRAMIDAL: corpo celular em forma de pi-râmide de base invertida, e axônio longo, com ramificações dendríticas somáticas variáveis, encontrável nas camadas celulares piramidais da córtex cerebral. Neurônio BIPOLAR: dois prolongamentos longos (ex.: nas retinas). Neurônio PSEUDO-UNIPOLAR: protótipo neuronal nos gânglios sensitivos somáticos. Neurônio de PURKINJE: característico da córtex cerebelar, processa sinais da motricidade. 10. O sistema nervoso e o endócrino controlam funções fisiológicas. Proposição fun-damental: um PROCESSO SEMÂNTICO, onde um emissor interage com um receptor atra-vés de um código. As funções vegetativas do animal referem-se à sua vida bioló-gica; todavia, o animal está inserido em um meio, com o qual terá de relacionar-se, utilizando funções neurais. 11. O indivíduo interage com o meio através de PERCEPÇÃO e EXPRESSÃO. A percepção capta e interpreta informações destinadas ao sistema nervoso. Expressão é a capacidade do indivíduo em interagir ativamente com seu meio através da MOTRICIDADE. 12. Toda função neural na escala filogenética é aperfeiçoamento e especialização de uma propriedade básica da matéria viva, a IRRITABILIDADE (capacidade de reagir às variações de estado físico e/ou químico do ambiente). A motricidade é um aperfeiçoamento da irritabilidade: reagirá aos estímulos do meio através de movimentos de maior ou menor complexidade; representa uma resposta do animal (cada vez mais complexa na escala filogenética ou ontogenética) ao estímulo ambiental. 13. Funções neurais: BÁSICAS ou ELEMENTARES, e SUPERIORES ou TRANSCENDENTES. Funções elementares: SOMESTESIA ou SENSIBILIDADE (função perceptiva) e MOTRICIDADE (fun-ção expressiva). Qualquer espécie animal será dotada destas duas funções, filo-geneticamente muito primitivas, e adaptadas às necessidades perceptuais e moto-ras das espécies. As funções elementares representam a base sobre a qual operam as funções superiores. 14. Funções superiores: típicas de espécies mais desenvolvidas, apóiam-se nas fun-ções básicas - a CONSCIÊNCIA (substrato das outras funções transcendentes), o SONO e o SONHO; o CONDICIONAMENTO e o APRENDIZADO; a MEMÓRIA; as EMOÇÕES e o COMPORTAMENTO; o RACIOCÍNIO e o JUÍZO CRÍTICO. 15. Toda manifestação comportamental repousa sobre um substrato morfológico dotado de propriedades fisiológicas características. Entretanto, nem todas as capacida-des relacionais são totalmente já explicáveis pela neurociência. Novas formas de abordagem científica trarão em um futuro próximo o domínio neurobiológico de funções comportamentais ainda não desveladas. 16. A partir da geração do IMPULSO NERVOSO, haverá complexa interação entre neurô-nios que formam sistemas funcionais, os quais interagem com outros sistemas. 17. Junto aos fenômenos adaptativos neurais no organismo, identificamos uma partici-pação endócrina; a regulação neural, rápida, imediata, mas transitória, contras-ta com a regulação endócrina, mais lenta, mais gradual, porém duradoura. A regu-lação neural (tipicamente físico-química) complementa-se pela intervenção de mecanismos hormonais (proporcionando uma regulação química, dita HUMORAL). 18. Hormônio: substância sintetizada e liberada por células, que atuará sobre o metabolismo de outras células, agindo à distância (levada pela corrente circula-tória) e em ínfimas quantidades. As ações de neurotransmissores, neuromodulado-res e hormônios muitas vezes se interpenetram, e mesmo inter-regulam. 19. Modelos matemáticos e físicos de cérebro (processos teóricos e experimentais) tentam reproduzir o comportamento de sistemas neuronais, representando os fenô-menos neurais, buscando prever suas respostas e interpretá-las. 20. Abordagem bioquímica da Neurociência: relacionada aos processos metabólicos celulares neuronais, e envolvida diretamente com os assim denominados MEDIADORES QUÍMICOS ou NEUROTRANSMISSORES, moléculas capazes de transmitir mensagens neu-rais, e os NEUROMODULADORES, capazes de modificar o desempenho das funções neuronais. 21. MÉTODOS DE ESTUDO em Neurociência: a partir do binômio estrutura versus função, e da distinção entre o normal e o desviante da normalidade. A ciência anatômica descreve a estrutura; no caso do sistema nervoso, estuda as projeções de fibras neuronais e as populações de corpos celulares com seu um padrão topográfico. Atinge-se o nível subcelular (organelas celulares, a membrana plasmática...e seus componentes moleculares). 22. Métodos de estudo: colorações especiais - substâncias com afinidade por compo-nentes estruturais específicos, permitindo visualizá-los diferencialmente; imunohistoquímica - afinidades imunológicas com os tecidos (antígeno-anticorpo); histoquímica - identifica seletivamente diferentes substâncias presentes na es-trutura celular do tecido neural; radionuclídeos - as "marcações" celulares são feitas adicionando-se aos "corantes" átomos que emitem radiação; estudo do transporte axonal - identifica o trânsito anterógrado ou retrógrado de subs-tâncias, identificando suas origens e destinos no neurônio; estudos lesionais - inferem sobre as funções dos sistemas propositalmente lesionados (ex.: método de GUDDEN - lesões seletivas da córtex cerebral de animais recém-natos, observando o desaparecimento posterior dos sistemas de fibras que partem das áreas lesadas, e a atrofia de núcleos ligados a essas áreas; métodos lesionais criogênicos - resfriamento seletivo de populações neuronais, afetando a atividade neural); eletrofisiologia - análise de potenciais elétricos de células neurais e sua va-riação nos estados de "repouso" e "excitabilidade"; métodos clínico-diagnósticos - TOMOGRAFIA COMPUTADORIZADA, RESSONÂNCIA MAGNÉTICA NUCLEAR, TOMOGRAFIA POR EMISSÃO DE PÓSITRONS - geram imagens sofisticadas dos aspectos morfológicos e funcionais. 23. Interações neuronais dão-se basicamente por fenômenos de EXCITAÇÃO e INIBIÇÃO veiculados pelas SINAPSES: aceleração/aumento ou desaceleração /redução dos impulsos nervosos transmitidos. 24. O sistema nervoso "funciona" em um sistema denominado DIGITAL, representado uni-tariamente pelo POTENCIAL DE AÇÃO NEURONAL. Entretanto, a grande maioria das grandezas físicas ou químicas que atingem o indivíduo através da somestesia é ANALÓGICA, não podendo ser representada com precisão em números naturais; elas têm de ser transformadas em grandezas digitais para poderem ser interpretadas e transmitidas pelo aparato neural. Esta dualidade analógico-digital é uma carac-terística importante do sistema nervoso (e que o aproxima funcionalmente de sis-temas teóricos não-biológicos de controle automático, criando uma ponte de abor-dagem interdisciplinar que busca ultrapassar as dificuldades de compreensão in-tegral da funçào neural). 25. O neurônio é uma célula viva, em relação dinâmica com o meio circundante, e que interage elétrica e quimicamente com outras células neuronais para propiciar o desempenho das funções neurais. Resulta de um processo evolutivo e de crescimento adaptativo nos seres pluricelulares (eucarióticos), representando a propriedade da irritabilidade. É uma célula EXCITÁVEL, capaz de transmitir mensagens à distância, valendo-se de sua membrana plasmática, de ordinário a partir de estímulos incidentes oriundos do meio circunjacente, de tal forma que esses SINAIS NEURAIS passam ordinariamente de neurônio para neurônio. De maneira geral, isto se dá a partir de um ponto de RECEPÇÃO, através de neurônios intermediários, até atingir uma região onde tais estímulos sofrem interpretação, ou a partir de um ponto de EMISSÃO, também atravessando neurônios intermediários, até atingir regiões onde tais mensagens são executadas. Prof.
Bruno L. Galluzzi da S. Dalcin Os livros Solidão e Liberdade e A Construção do Poder Pessoal encontram-se a venda exclusivamente nas livrarias do Rio de Janeiro, na sede da SAEP ou pelo Correio, para todo o Brasil, pelos telefones (021-21) 264-8615 ou (021-21) 567-4420, pelo preço de R$10,00 e R$ 12,00, respectivamente. |
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