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Professora
Silvia Gombi Borges dos Santos
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Originalmente apresentado em forma de conferência, este estudo foi
publicado em CIDADANIA E JUSTIÇA - Revista do Curso de Direito de
Ituiutaba, Ano 4 - Número 7 - Jan./Jun. 2001 (Universidade do Estado
de Minas Gerais, campus fundacional de Ituiutaba).
Escolhi, para falar-lhes, nesta noite, sobre o tema da amizade - ou,
mais especificamente, acerca do sentido socrático atribuído à amizade.
Imediatamente, porém, surgem questões, como estas:
Por
que, a amizade? Antes, o que é a amizade? É um sentimento, uma virtude?
Uma inclinação natural a que estamos sujeitos, ou algo que se aprende,
se adquire?
Somos levados a perguntar acerca do significado que essa palavra assume
para nós, homens contemporâneos; ou, de modo mais radical, se a amizade
tem hoje, ainda, um sentido, algum sentido... Por outro lado, por
que, qual interesse teríamos em conhecer a perspectiva socrática a
partir de um autor como Xenofonte?
Associar a figura de Sócrates à idéia de amizade, afinal, não nos
parece de todo estranha: ao evocarmos o nome do iniciador da filosofia
clássica, imediatamente nos vem à mente a imagem de um homem, descuidado
das coisas deste mundo, perambulando pelas ruas e praças de Atenas
e - sempre cercado de discípulos, que eram - também - amigos! ...
Lembremos
ainda que a amizade encontra-se inscrita na raiz do próprio nome dado
àquela atividade desenvolvida por Sócrates e seguidores, àquele tipo
de exercício intelectual a que se denominou filosofia - amor, amizade
ao saber, à sabedoria, inventado pelos gregos por volta do século
VII - VI a.C.
Comecemos, então.
Tecnicamente, a amizade é definida por especialistas, como André Lalande,
como uma "inclinação eletiva recíproca entre duas pessoas morais".
Essa inclinação --- que é eletiva, seletiva - é considerada em termos
de afinidade. Por afinidade, devemos entender: aliança ou semelhança.
Essa aliança se traduz por uma ligação ou atração resultante de uma
semelhança.
Em poucas palavras, a amizade é algo que envolve seletividade e semelhança.
Enquanto "inclinação eletiva recíproca", a amizade opõe-se
ao amor, no sentido de inclinação sexual, e ao amor, considerado em
termos de inclinação ou apropriação egoísta. A amizade não envolveria,
pois, a característica sexual; estaria também associada a relações
de reciprocidade e até à idéia de abnegação, de renúncia em favor
do amigo .
De posse desses conceitos, voltemos ao berço do pensamento racional
- à Grécia - ; voltemos a Sócrates e à sua imagem de filósofo, um
homem cercado de discípulos que eram, ao mesmo tempo, amigos! Entre
eles, encontramos um em especial: Xenofonte.
Quem era Xenofonte? Como esse discípulo particular encarava o mestre?
Historiador, filósofo e general grego, Xenofonte teria nascido em
430 e expirado em 355 a.C.. Tido como inquieto e perspicaz, participou
de vários combates.
Em
396 - três anos após a morte de Sócrates - colocara-se a serviço dos
espartanos; lutara contra os atenienses em Coronéia, em 394 a.C.,
ano em que fora banido de Atenas. No exílio, perto de Olímpia, teria
escrito grande parte de sua obra, a qual inclui, além dos textos relativos
a Sócrates, relatos históricos (Helênicas), obras técnicas (A Economia;
A Equitação), obras políticas (A República dos Espartanos) e um romance
histórico (A Educação de Ciro).
Para nossos propósitos, no entanto, convém destacarmos a condição
de Xenofonte - discípulo dileto e amigo de Sócrates, a quem dedicava
forte admiração. Em seus Ditos e Feitos Memoráveis de Sócrates5 ,
descreve-o com os seguintes termos:
"...Dentre quantos o conheceram, todos os que amam a virtude
não cessam de lamentá-lo qual o melhor auxiliar à prática do bem.
Quanto a mim, que o vi tal qual o pintei: piedoso, de nada fazer sem
o assentimento dos deuses; justo, de nunca por nunca fazer o menor
mal a ninguém, ao contrário prestar os maiores serviços aos que o
freqüentavam; morigerado, de jamais preferir o agradável ao honesto;
prudente, de nunca enganar-se na apreciação do bem e do mal, capaz
de penetrar todas estas noções, explicá-las e defini-las, hábil no
julgar os homens, apontar-lhes suas faltas, encaminhá-los à virtude
e ao bem - figurava-se-me fadado a ser o melhor e o mais ditoso dos
humanos". E conclui sua apologia, seu elogio a Sócrates de forma
incisiva: "se alguém houver que comigo não concorde, compare
o que foi Sócrates com o que são os outros homens e julgue!"
O que fora Sócrates, em poucas palavras? Homem bondoso, respeitador
dos deuses; justo, prudente, sábio e virtuoso; enfim, o melhor dos
mortais, segundo Xenofonte. Porém, ao traçar tão belo perfil do mestre,
teria, ele, exagerado? É possível que não.
Embora não revelasse, em seus escritos, a profundidade, a sutileza
e a poesia de um espírito como o de Platão, Xenofonte teria, a contar
a seu favor, a clareza, a "transparente simplicidade de sua linguagem",
o estilo direto...
Por essas qualidades, o elegemos para nos apresentar as idéias de
Sócrates acerca da amizade, e dos meios através dos quais pode-se
conquistar um amigo.
Em Memoráveis, II, VI, Xenofonte narrará a conversa entabulada entre
Sócrates e seu discípulo Critóbulo . Este, quer saber de Sócrates
- pontualmente - como conseguir um amigo. Só que a resposta esperada
não virá, de modo algum, de forma tão pontual...
Critóbulo pergunta, demanda conselhos, orientações ao sábio mestre:
"se precisássemos de um amigo, quem procuraríamos?"
Sócrates responderá, estabelecendo as características necessárias
a um amigo.
Em
primeiro lugar, ser capaz de dominar o ventre e as paixões da bebida,
da sensualidade, do sono, da indolência, pois quem obedece a tais
paixões nada faz de útil a si e ao amigo.
Também,
alguém que não fosse perdulário, gastador, esbanjador, pois não precisaria
nos pedir emprestado e nem se ofenderia, caso recusássemos atendê-lo.
Seria conveniente termos como amigo alguém que soubesse aumentar seus
haveres, suas posses, mais amigo de receber do que devolver!
Mas, deveríamos nos afastar do aurissedento, do sedento de ouro em
demasia; da mesma forma que deveríamos evitar o rixoso, ou, o encrenqueiro
e o ingrato - aquele que recebe o bem e se esquece de retribuir!
"Então, pergunta Critóbulo, quem devemos procurar para amigo?",
ao que Sócrates responde: "aquele que tenha as qualidades contrárias"!
Ou seja, "senhor dos apetites sensuais, fiel a seus juramentos,
condescendente nos negócios, que não fique atrás dos que o beneficiem,
pronto a servir quem o sirva".
O discípulo insiste: como reconhecer no pretenso amigo as qualidades
apontadas sem pô-lo à prova?
Sócrates
recorre a um exemplo bastante claro: o dos estatuários. Para julgá-los,
pondera, "não vamos atrás de suas palavras; fiamo-nos em quem
tenha executado belas estátuas".
O mestre induz o discípulo a estender o mesmo raciocínio para a busca
do amigo:
Sim, aquele que "proceder bem com os amigos que já teve, de certo
procederá da mesma forma com os que vier a ter".
Uma outra analogia aqui é feita sobre o reconhecimento do amigo: o
cavaleiro, ao ser visto montar bem alguns cavalos, seria tido como
capaz de o mesmo fazer em relação a outros animais .
Porém,
o discípulo, nesse momento, retorna à pergunta inicial, insistindo
que - uma vez que o amigo atenda aos requisitos necessários, sintetizados
na condição de que ele seja digno de nossa amizade, ainda assim, como
fazê-lo amigo?
Responde, Sócrates: precisamos, antes de tudo, consultar os deuses
e "ver se nos aconselham a fazê-lo nosso amigo".
Ao estabelecer essa condição, sugere-nos Xenofonte que eram infundadas
acusações de impiedade, imputadas ao mestre, que o teriam levado,
juntamente com as alegações de corrupção da juventude ateniense e
introdução de crença em novas divindades, à condenação e morte em
399 a.C..
Sócrates
indica, então, a necessidade de se consultar os deuses. Mas, essa
resposta não satisfaz a Critóbulo, o qual, impaciente, pergunta novamente:
"... Uma vez confirmada nossa escolha, pelo consentimento dos
deuses, poderás dizer-me como caçaremos nosso amigo?"
Tendo evocado a divindade, responde Sócrates indicando o que não devemos
fazer: "não será correndo-lhe no encalço, como a lebre, nem com
reclamo, como aos pássaros, nem de força, como aos inimigos".
Não devemos, em suma, constranger o nosso possível amigo, pois, palavras
de Sócrates, "árdua tarefa seria conquistar um amigo contra sua
vontade. Nem que o encadeássemos qual escravo, lograríamos retê-lo.
Semelhante tratamento criar-nos-ia antes inimigos que amigos".
Insiste,
então, Critóbulo, como que retornando à questão original, inicial
do diálogo: "Como, então, conseguir amigos?"
Um tanto misterioso, responde Sócrates, aguçando ainda mais a curiosidade
do discípulo:
"Dizem
existir certas palavras mágicas, que, sabidas e pronunciadas, fazem
amigos nossos quem quer que queiramos, filtros cujo conhecimento serve
para fazer-se amar de quem se queira".
Sócrates,
aqui, não se responsabiliza diretamente pelo conselho, mas parece
endossar, aceitá-lo. Consiste, nada mais, nada menos, em palavras,
certas palavras mágicas... que levam à afeição.
Nesse
momento do diálogo, cumpre ressaltar dois pontos importantes. O primeiro,
refere-se à força desempenhada pela palavra, pelo logos entre os gregos.
Como se sabe, o uso da palavra é liberdade, revela, quanto a quem
a domina, tratar-se de um espírito cultivado, e não de um bárbaro,
um bruto. Pela docilidade da palavra, conquista-se o amigo; isso é
o que Sócrates quer insinuar ao discípulo.
Em segundo lugar, Critóbulo mostra-se como verdadeiro discípulo socrático,
dada a sua vivacidade e insistência, a insistência com que pergunta,
querendo realmente saber como conquistar um amigo.
"
- Onde aprender essas receitas? " , pergunta ele ao mestre.
Xenofonte lembra que Sócrates recorre à tradição de Homero, legendário
poeta épico grego, que teria vivido no século IX a.C., autor de Ilíada
e Odisséia, para identificar a magia das palavras, como aquelas com
que as sereias dirigem a Ulisses: "Aproxima-te ilustre Ulisses,
honra dos aqueus".
Retruca o discípulo:
" - Mas, Sócrates, não é o canto com que as sereias retinham
os outros homens e os impediam de fugir-lhes às seduções?"
Sócrates responde negativamente, esclarecendo que esse canto era endereçado
apenas aos amigos da virtude, aos homens virtuosos.
Ora, devemos proferir palavras doces, que encantem nosso pretenso
amigo, porém absolutamente imprescindível é que tais palavras sejam
verdadeiras. Essa condição exemplifica o quanto Sócrates valoriza
a verdade; o amor socrático à verdade, antes de tudo.
Conclui, então, o discípulo:
" - Sem dúvida, Sócrates, queres dizer que, se quisermos adquirir
um bom amigo, devemos ser igualmente honestos de palavras e de atos?
"
Ao
que Sócrates responde:
" - Pensavas então, pudesse homem improbo procurar amigos virtuosos?"
Vemos que Sócrates responde com outra pergunta, o que ilustra o diálogo,
a dialética socrática, sempre em busca da verdade.
Ao testemunho de Critóbulo, de que teria visto "maus retóricos
amigos de oradores distintos [e] homens sem conhecimentos militares
intimamente ligados aos mais hábeis generais" , Sócrates parece
não dar atenção: ao pedir para voltarem ao objeto do diálogo, foge,
momentaneamente, à contestação do discípulo e radicaliza sua posição
ao sugerir que homens maus não se aproximam dos bons.
Homens maus não se aproximam dos bons! Para tornar mais enfática tal
concepção, pergunta Sócrates:
" - ... Conheces homens inúteis [possivelmente, aqueles apontados
no início do diálogo] que tenham sido capazes de granjear amigos úteis?"
O discípulo nega essa possibilidade. Ao fazer isso, mostra-se confuso,
embaraçado, já que acabara de afirmar ter conhecimento da aproximação
de maus retóricos a bons oradores, de homens sem conhecimentos militares
associarem-se a hábeis generais - entrando, portanto, em visível contradição.
Porém, Critóbulo recoloca a questão, agora mais delimitada, perguntando
se é fácil a homens honestos encontrar amigos entre os dotados de
virtudes. Sócrates ainda não responde ao discípulo essa última questão,
porém retorna à objeção anteriormente feita - a de conhecer a associação
entre bons e maus oradores, a ligação entre bons e maus militares.
Diz ao discípulo:
" - O que te embaraça (...) é veres muitas vezes pessoas que
praticam o bem e se abstêm do mal, longe de amigos, atacarem-se umas
às outras e tratarem-se mais indignamente que os últimos dos homens".
Nesse ponto, passamos a um outro nível, mais amplo, da discussão,
do diálogo travado entre Sócrates e Critóbulo: deixamos o nível pessoal,
particular, para estendermos a reflexão ao âmbito, da cidade, para
pensarmos em termos políticos. Detecta-se a presença da guerra, da
indisposição entre os indivíduos; denuncia-se a constante presença
da guerra entre as cidades, até mesmo entre aquelas que "mais
amam tudo o que é belo e mais abominam tudo o que é vergonhoso".
Desabafa Critóbulo, numa fala emocionada, dizendo sentir-se completamente
desesperançoso de poder adquirir amigos. Reconhece que os maus não
podem amar-se uns aos outros, não podem pactuar entre si, visto que
são maus. Quanto, porém, aos bons? O que pensar se, também entre esses,
prevalece o ódio e a inveja? E, novamente, a pergunta: onde encontrar
amigos?
Até aqui, Sócrates prepara o terreno, conduz o diálogo a um clima
de crescente tensão e expectativa no sentido de se encontrar a resposta
ao problema colocado.
A partir deste momento, em que a tensão e expectativa parecem ter
chegado ao limiar do tolerável (lembremos que Critóbulo é descrito
por Xenofonte como "impulsivo"!), segue-se uma longa passagem,
onde Sócrates finalmente expõe sua tese acerca da amizade.
Afirma, ele, que a amizade é um sentimento natural nos homens, assim
como a inimizade.
Prolongando tal concepção para o âmbito da polis, Sócrates sustentará
que a concórdia e a paz, assim como a guerra, são naturais, inerentes
ao homem. Cabe a ele, procurar a paz e evitar a guerra.
Xenofonte apresenta, então, a fala brilhante de Sócrates, que acreditamos
ser importante reproduzir, repetir, aqui, os trechos mais significativos.
Diz, ele, a Critóbulo:
"Há em tudo isso (...) diversas maneiras de encarar os fatos.
Os homens têm naturalmente [grifo nosso] o sentimento da amizade.
Necessitam uns dos outros, capitulam à piedade [isto é, cedem à compaixão],
socorrem-se mutuamente, compreendem-se e se mostram gratos. Mas têm
também o sentimento da inimizade. Quando suas idéias sobre os bens
e os prazeres são as mesmas, lutam por alcançá-los. Quando divididos
pelas opiniões, combatem-se uns aos outros: a guerra nasce da disputa
e da cólera, a malevolência, dos desejos ambiciosos; o ódio, da inveja."
Abramos, nesse ponto, um pequeno parêntesis, apenas para ressaltar
que essa concepção socrática, de que há uma base natural para a guerra
e para a paz entre os homens, será retomada algumas décadas mais tarde
por Aristóteles, o qual afirmará que a guerra está enxertada, por
assim dizer, na natureza humana. Como evitá-la, eis precisamente a
questão. A amizade parece então constituir-se no grande antídoto para
esse mal, tanto para Sócrates como em Aristóteles. Como todos sabemos,
a noção aristotélica de comunidade justa e feliz está baseada na noção
de philía, amizade.
Retornemos às palavras de Sócrates e sua apologia da amizade; diz
ele:
"Porém, a amizade vence todos os obstáculos para unir os corações
virtuosos: é que, graças à virtude, preferem os homens possuir em
paz haveres moderados a tudo dominar pela guerra" .
Detenhamo-nos um momento sobre essa importante colocação socrática:
a idéia de amizade e, por derivação, a de paz, associa-se à necessidade
de auto-domínio, domínio - e não ausência - de paixões, isto é, à
moderação, característica que deve estar presente em um homem de virtude.
Ora, ao justapormos essas concepções - de auto-domínio, moderação,
ao mundo competitivo, belicoso e violento de hoje, podemos vislumbrar
o quanto nos afastamos da virtude, o quanto falta-nos o que Sócrates
chamou de "corações virtuosos"!
Por vários modos, Sócrates procurará explicitar o que ele entende
por "corações virtuosos". Afirma que os homens virtuosos
"com fome ou sede, cordialmente dividem os alimentos e a bebida.
Cobiçosos de um belo objeto, sabem resistir a si próprios para não
afligir aqueles que devem respeitar. Não tomam das riquezas senão
sua parte legítima sem nenhuma idéia de cupidez, e demais auxiliam-se
uns aos outros. Sabem resolver suas divergências não somente sem prejudicar-se,
mas ainda com mútua vantagem, e impedir a cólera de ir até o rompimento.
Enfim, repartindo suas riquezas com os outros amigos e olhando os
bens dos outros como os seus próprios, dirimem todo pretexto de inveja"
. Os homens, movidos pelo sentimento da philía, amizade, são capazes,
assim, de dominar as paixões do corpo e a cobiça, evitar a cólera
e a inveja, tornando virtuosos os seus corações.
Importante preceito ético, gerador de homens justos, virtuosos, a
philía reveste-se de um expressivo valor político, não apenas por
promover a concórdia e a união entre os homens. Sócrates vai ainda
mais além e estabelece o valor da amizade em sua dimensão política,
ao colocar também a necessidade de que esses mesmos homens virtuosos
estejam à frente dos negócios públicos.
Diz, ele:
" - Os [homens] que desejam as honras e a autoridade em sua pátria,
a fim de pilhar livremente os fundos públicos, violentar os cidadãos
e viver na indolência, são corações injustos, perversos, incapazes
de qualquer afeição. Mas, o homem que busca as dignidades para pôr-se
ao abrigo de toda injustiça e prestar legítimo apoio aos amigos, que,
feito magistrado, se esforça por ser útil à pátria, então este homem
será incapaz de entender-se com outro cidadão virtuoso como ele? Cercado
de homens virtuosos, ser-lhe-á menos fácil servir aos amigos? Apoiados
pelos cidadãos honestos, será menos poderoso para fazer bem à pátria?"
Evidentemente, a resposta é negativa, visto que os semelhantes se
atraem, e se esses semelhantes virtuosos estabelecem vínculos entre
si, o resultado só poderá ser o bem.
Sócrates discorre ainda sobre o exemplo das competições, dos combates
gímnicos, lembrando que são realizados entre iguais, caso contrário,
os mais fortes sempre venceriam, o que é inconcebível. Da mesma forma,
nas lutas políticas, os vitoriosos deverão estar entre os virtuosos.
Como, nessas lutas, não se impede um cidadão de unir seus esforços
aos de outro, para o bem da pátria, também parece ser vantajoso, ao
se tomar parte no governo, cercar-se de excelentes amigos, tê-los
antes por associados e colaboradores, que por antagonistas.
Sócrates propõe, assim, a cooperação entre os homens, sempre baseada
na virtude como forma de atenuar conflitos. Conclui com estas sábias
e eloqüentes palavras:
" ... Se há lutas, há mister aliados, e tantos mais quanto se
tenha de combater contra homens de mérito e virtude. (...) Necessário
é fazer bem aos que queiram tornar-se nossos aliados, a fim de dar-lhes
coragem; e antes beneficiar poucos homens virtuosos que um exército
de maus, desde que os maus saem muito mais caros que as pessoas de
bem".
Com isso, Sócrates incita-nos a sermos bons. Dirige-se ao discípulo,
acalmando-o e instigando-o a tornar-se bom e buscar os homens virtuosos;
esta é a sua receita para conquistar amigos. Em suas próprias palavras:
" - Fica tranqüilo, Critóbulo; procura fazer-te bom e, uma vez
bom, põe-te à caça dos corações virtuosos".
Sócrates, reconhecidamente um homem bom, coloca-se à disposição do
discípulo para auxiliá-lo nessa tarefa, já que afirma ter alguma experiência
nisso. Nesse momento, temos a última parte do diálogo travado entre
Sócrates e Critóbulo, onde finalmente o mestre dará de modo mais pontual
os conselhos para a conquista de amigos.
Sócrates relata a sua própria experiência. Deve-se fazer ver ao amigo
em potencial o quanto é importante a sua amizade, jamais lançando
mão de coação e violência, mas sim por meio de encantamento, de sedução
- exatamente como faziam as sereias na Odisséia de Homero. Mas, como
primeira e grande exigência para conseguir amigos virtuosos, ser sincero,
verdadeiro: ao invés de proclamar virtudes que não se tenha, tudo
fazer por tê-las. Também, jamais acercar-se dos amigos em potencial
devido a vantagens que se queira usufruir. Portanto, entre os deveres
do amigo, não se incluem nem coação e violência, nem constrangimentos
menores, nem a mentira.
Pede, Sócrates, então, ao discípulo:
" - Quando quiseres ligar-te a alguém, permitirás que eu te denuncie
a ele, que lhe diga que o admiras e desejarias ser seu amigo".
Ao consentimento de Critóbulo, Sócrates revela as qualidades essenciais
para se ter amigos, qualidades estas que estariam presentes em seu
discípulo, agora, já devidamente instruído.
Além da admiração, inclinação, propriamente, seria preciso:
· Ser zeloso de seus amigos;
· Sentir-se feliz em tê-los virtuosos;
· Orgulhar-se das boas ações de seu amigo, como se fossem suas;
· Alegrar-se com a prosperidade de seu amigo, como se fosse a sua
própria;
· Não medir esforços, sacrifícios, para assegurar o bem ao amigo;
E, por fim, adotar por máxima de virtude: vencer os amigos em benefícios
e os inimigos em ultrajes.
Diante dessa exposição, o discípulo mostra-se, no entanto, contrariado:
pergunta a Sócrates se este não faria outros comentários elogiosos
ao futuro amigo - caso fosse necessário.
Ora, sabemos que o compromisso de Sócrates é com a verdade. Assim
sendo, ele o afirma, não poderá - de modo algum - fazer elogios imerecidos
a Critóbulo.
Para reforçar esta sua posição, Sócrates lembra de algumas situações
exemplares a esse respeito, uma das quais, real e outras duas, hipotéticas,
envolvendo o próprio discípulo.
A primeira: "... Ouvi dizer um dia Aspásia que as boas casamenteiras,
não falando senão a verdade, são felizes no casar os homens, ao passo
que de nada serviriam louvores descabidos, pois os esposos enganados
se detestam mutuamente e maldizem quem os uniu" . Ou seja, a
mentira não leva à união e à virtude.
A segunda situação:
"Suponhamos vá eu [isto é, Sócrates] fazer de ti um falso elogio
a um piloto de quem deseje ver-te amigo, lhe diga seres bom timoneiro,
e que, confiante em mim, esse piloto entregue seus navios em tuas
mãos, que jamais governaram um leme: teria alguma esperança de não
perder-te ao mesmo tempo que o navio?" Isto é, a mentira promove
o mal individual; envolve perdas materiais e humanas.
A terceira situação - também hipotética, porém desconcertante, e,
por seus matizes, de alcance ainda maior:
"Se, da mesma forma, por força de mentiras, persuadisse coletivamente
toda a cidade a entregar-se a ti como a um bom general, sábio jurisconsulto,
hábil político, a que males, pensas, não te exporias a ti e ao Estado?
Se, enfim, convencesse insuladamente alguns cidadãos a te confiarem
a gestão de seus bens, após haver-lhes dito falsamente seres administrador
econômico e zeloso, uma vez posto à prova não te patentearias a um
tempo desastrado e ridículo? A mentira, nesse caso, tem um alcance
que envolve todo o corpo social.
Com isso, Sócrates procura mostrar ao seu discípulo, Critóbulo, que
é seu amigo, porém, fiel à verdade, sobre todas as coisas; que a verdade
deve sempre permear e prevalecer em uma relação de amigos.
Não faltar nunca à verdade; firmar relações entre os homens fundadas
na verdade e transparência; eis finalmente a garantia de vínculos
consistentes, seguros, duradouros; base pare se construir uma cidade
justa e feliz.
Sócrates concluirá o diálogo com algo edificante e belo: ao invés
de ir em busca de falsos elogios, o homem deve lutar para que aquilo
de que deseja ser qualificado, se torne realmente verdade.
"Pois bem! Critóbulo, tudo fazer por sê-lo - eis o caminho mais
seguro, mais digno, se queres ter fama de probo" , diz Sócrates.
Ambos estarão de acordo com as palavras finais, incisivas, do mestre:
"Tudo o que os homens chamam virtude - convencer-te-á a reflexão
- aumenta pelo estudo e exercício."
Enfim, lutar para ser o que se queira ser: honrado, justo, bom - pelo
estudo e exercício - e assim merecer elogios verdadeiros... Essa é
a receita socrática. Para conquistar o amigo; para garantir a harmonia
na polis!
Depois de Sócrates, muitos outros pensadores, entre os quais Aristóteles
(384 - 322 a.C.), irão basear a felicidade da cidade na philía, nas
relações de amizade entre os homens.
Valor ao mesmo tempo ético e político, a amizade depende, em Sócrates,
de verdade e transparência, antes de tudo.
Revivido aqui, nesta noite, por nós, tendo se passado mais de dois
mil e quatrocentos anos, o diálogo estabelecido entre Sócrates e seu
impertinente discípulo, descrito por Xenofonte, nos coloca a pensar
- nos dá muito o que pensar.
Com efeito, em um mundo complexo, hierarquizado, hostil e violento,
movido por valores da aparência e do espetáculo - onde parece não
haver quase lugar para laços de solidariedade e amizade - ressoam
fortes as recomendações de Sócrates: o cuidado a se ter com a linguagem;
o esforço a ser empreendido para se tornar verdadeiramente o que se
queira ser e, assim... conquistar amigos - o maior dos bens a que
um homem possa almejar - e fonte de paz!
Por ora, e seguido os conselhos repetidos por Sócrates, prefiro concluir
com certas palavras mágicas, uma breve saudação muitas vezes usada
pelos gregos para manifestar a alegria experimentada pela volta de
um amigo ausente, e que faço uso para expressar a alegria de ter estado
aqui, entre vocês.
"Amigo, minha doce luz!"
Obrigada.
Professora Silvia Gombi Borges dos Santos
Doutoranda em Filosofia, pela Universidade de São Paulo; mestre em
Filosofia, pela Universidade de São Paulo; professora da Universidade
do Estado de Minas Gerais, campus fundacional de Ituiutaba.
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