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EDIÇÃO ESPECIAL Caderno de Cidadania e Mediação Social

 

Caderno de Cidadania e Mediação Social

 

FILOSOFIA E DESENVOLVIMENTO REGIONAL

Professor Dr. Leosino Bizinoto Macedo

Parte que é de um grande todo chamado Brasil, cada região brasileira caminha em busca do desenvolvimento. Nesse mister, cabe à Filosofia desempenhar algum papel?
Ao leitor que concebe, eqüivocadamente, a Filosofia como um tipo de conhecimento dissociado das circunstâncias históricas, sociais e concretas do ser humano, a pergunta parecerá, certamente, sem sentido. Porém, há de considerar válida a pergunta aquele leitor mais arguto que conceber a Filosofia como uma reflexão radical acerca da problemática humana circunstancializada de modo histórico, social e concreto.
A respeito do problema desafiador do desenvolvimento, a situação em que as regiões brasileiras se encontram em relação ao Brasil assemelha-se à situação das nações em relação ao globo: de um lado, aquelas desenvolvidas ou em acelerado processo de desenvolvimento e, de outro, aquelas estagnadas ou quase, com grandes dificuldades para dar o salto qualitativo.
Dentre as contribuições que a Filosofia pode dar, está a explicitação do que deve ser entendido por desenvolvimento. Ora, os contornos de um desenvolvimento desejável, na medida em que este envolve aspectos econômicos, sociais, políticos e culturais, exigem que alarguemos nossa visão para além dos compartimentos estritos da Economia, da Sociologia, da Política, da Ética e de outras ciências culturais.
A reflexão sobre o desenvolvimento compreende o estudo de seus pressupostos filosóficos, a conceituação do processo de desenvolvimento em seu sentido mais amplo, e, ainda, a caracterização e análise de aspectos fundamentais do desenvolvimento e do subdesenvolvimento nos diferentes campos da cultura.
Com relação aos aludidos pressupostos, a pergunta fundamental é sobre validade e desejabilidade do desenvolvimento.
É negativa a resposta das principais concepções orientais (bramanismo, que prega a perda da individualidade própria e o eterno retorno a Brama; budismo, que acredita na supressão do desejo e no aniquilamento da existência como forma de suprimir a dor universal; confucionismo, cuja imutável lei do dever regula todas as relações particulares e públicas) bem como de suas continuadoras no pensamento greco-romano (pitagóricos, estóicos etc.). Essencialmente imobilistas, tais cosmovisões conduzem a uma atitude incompatível com a idéia de desenvolvimento.
Por outro lado, é justificadora do desenvolvimento a filosofia judaico-cristã. Inspira-se na Sagrada Escritura, que diz: "Sujeitai a terra" (Gênesis, 1, 29); "Deus criou o homem para cultivar a terra" (Gênesis, 2,6).
Ora, a consciência ocidental foi formada por essas idéias, pilares do progresso e do desenvolvimento e, por isso, aceita-as e vive delas.
Porém, ao lado desses pressupostos, o campo conceitual é outro aspecto pelo qual a filosofia contribui para o problema do desenvolvimento. Primeiramente, cumpre-nos observar que não podemos limitar esse conceito ao mero crescimento econômico. Isto porque as riquezas de um país podem efetivamente aumentar, mas sem distribuição eqüitativa, não podemos falar que há propriamente desenvolvimento.
Uma forma de ampliar esse conceito é, sociologicamente, considerá-lo como sendo a transição das sociedades tradicionais para as sociedades modernas. Mas, isso ainda é pouco.
Lebret conceitua o desenvolvimento como a "passagem, para cada um, de condições de vida menos humanas para condições mais humanas".
Na perspectiva de que o desenvolvimento precisa, para ser autêntico, atingir o homem todo e todos os homens, coloca-se João XXIII, na encíclica Mater et Magistra, ao dizer: "quando as estruturas e o funcionamento de um sistema econômico comprometem a dignidade humana dos que nele trabalham, enfraquecem o sentido de sua responsabilidade ou impedem seu poder de iniciativa, esse sistema é injusto".
Condição contrária do desenvolvimento é o subdesenvolvimento é a do colonialismo cultural. Vivemos sob um colonialismo cultural e precisamos sair dele para assumirmos "a autonomia e a responsabilidade de uma elaboração própria", como diz Hélio Jaguaribe em sua Filosofia no Brasil. Superar a dependência cultural é, pois, elaborar um pensamento próprio sobre os nossos verdadeiros problemas como exigência fundamental do nosso desenvolvimento na perspectiva de uma globalização irreversível. Cabe à Filosofia despertar a consciência desses problemas de dependência cultural no campo da ciência, da técnica, das artes, da Filosofia etc., que impedem ou dificultam nosso desenvolvimento e, por isso, devem ser superados.
Fundamental, pois, é desenvolver o espírito crítico e a capacidade de reflexão em profundidade em todos os setores de nossa cultura. Esse é um passo necessário à superação do colonialismo cultural e à elaboração de uma forma de pensar brasileira.
Nesse sentido, cada região deve assumir seu papel na composição do conjunto.


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