EDIÇÃO ESPECIAL Caderno de Cidadania e Mediação Social

 

Caderno de Cidadania e Mediação Social

 

CAMINHOS E (DES) CAMINHOS NA REVELAÇÃO DO SER HUMANO: do determinado ao indeterminado.

Professora Betânia de Oliveira Laterza Ribeiro
Professor Leosino Bizinoto Macedo

"Quando as águas da enchente derrubam as casas, e o rio transborda arrasando tudo, quer dizer que há muitos dias começou a chover na serra, ainda que não nos déssemos conta" Eraclio Zepeda apud STRECK LENI o Luiz (1999). A epígrafe acima, sugere que a interpretação temporal do ser-no-mundo parece caracterizar-se em sua maior parte inadequada aos fenômenos do mundo. Desta forma, viver no mundo, interpretá-lo ou não, dependerá de "como se vive no mundo". No entanto, por mais que o ser no mundo compreenda-se e consiga interpretá-lo para nele se projetar, isto não acontecerá de uma forma linear em sua temporalidade.
Na expressão de Heidegger, o estado determinado designa-se faticidade. Movimentos internos são necessários para que o ser humano passe do estado interior determinado para o indeterminado. Esse estado interior resulta de fatores de que não participou por sua vontade, mas é reflexo das condições culturais, sociais, econômicas e da vinculação familiar na qual o ser humano é inserido ao vir ao mundo.

A partir da compreensão de suas possibilidades, o ser-aí poderá projetar-se no mundo, abrir-se para o seu porvir em direção ao indeterminado, ao que está por acontecer, descortinando, em sua existência, espaços de novas significações e sentidos. Na direção do indeterminado e conectado com o seu projeto de vida, o homem poderá assumir uma atitude interna de abertura para o mundo, onde se arriscará a revelar-se, reconduzindo seu próprio destino.

Neste sentido, poderá entregar-se à preocupação, que poderá transportá-lo de sua condição primeira de ser determinado para outros estados de consciência, dentre os quais está o sentir-se estranho a si próprio, estado que poderá levá-lo a sentir-se perdido e desvalido.

O que está em jogo é a atitude interna de sua decisão: ou ignora seu estado, na tentativa, segundo HEIDEGGER (1991:X), de fugir de novo e retornar ao cotidiano para aliviar-se; ou supera a própria angústia e manifesta seu poder de transcendência sobre o mundo e sobre si mesmo.

Neste sentido surge um dos temas fundamentais refletidos por HEIDEGGER (1991:X) "O homem pode transcender, o que significa dizer que o homem está capacitado a atribuir um sentido ao ser, tomando o destino em suas próprias mãos". Ou desviar de si mesmo, e cair naquilo que HEIDEGGER (1991:X) denominaria "ruína" ou seja o desvio de cada um de seu projeto de vida em favor das preocupações cotidianas, que o distraem e perturbam, confundindo-o com a massa. Nesse caso, o "eu" individual sacrifica-se em função do persistente "eles"; reduz sua vida à vida dos outros; deixa-se levar pelas opiniões alheias; aliena-se totalmente da sua principal tarefa, que é tornar-se si mesmo.

O estado de angústia ou preocupação no ser humano leva-o a colocar-se em suspensão. Neste processo, em que as palavras parecem "suspensas", pois ele pode estar voltado para si mesmo e necessitará de tempo para decidir-se.

HEIDEGGER (1989:255) explicita a liberdade do ser para as suas possibilidades existenciais apresentando uma antiga fábula sobre a origem da natureza humana enquanto "preocupação", que TÁPIA (1992:60-62) consegue interpretar de forma significativa para este estudo.

Com relação à condição humana, para que o leitor compreenda a relevância não só da Fábula da preocupação, utilizada por HEIDEGGER, mas da preciosidade da interpretação de TÁPIA, far-se-á, inicialmente, a descrição da Fábula e, em seguida, a interpretação de TÁPIA.

«Certo dia quando a Preocupação atravessava um rio, viu argila; pensativa apanhou um pedaço e começou dar-lhe forma. Enquanto pensava no que tinha feito enxergou Júpiter. Preocupação pediu-lhe que desse espírito à forma no que ele concordou com prazer.

Mas quando Preocupação quis colocar-lhe seu próprio nome, Júpiter proibiu e ao invés disso exigiu que fosse colocado o nome dele. Enquanto Preocupação e Júpiter disputavam, apareceu a Terra querendo que seu nome fosse dado à criatura já que ela tinha provido com parte do seu corpo.

Eles pediram para Saturno para ser o Juiz, e ele proferiu a seguinte sentença, que pareceu ser justa:

Visto que tu, Júpiter, lhe deste espírito, receberá esse espírito em sua morte, uma vez que tu, Terra lhe desse seu corpo, tu receberás seu corpo.

Mas já que Preocupação formou primeiro esta criatura a possuirá enquanto viva, e por causa da disputa que neste momento existe entre vocês quanto ao nome, seja chamada de "homo" devido a que é feita de húmus (terra).

Observa-se, neste contexto existencial, a exigência da ética do reconhecimento da participação do outro, do seu direito fundamental e da formulação de uma sentença em que possui o respeito e a dignidade de cada um na construção do "homo" como foi consolidada.

No mundo atual, a intolerância alheia dificulta ou até mesmo impossibilita a construção de um projeto coletivo e, neste sentido, abre-se a possibilidade para a de-cadência do ser humano, pela tentativa de sobrepor-se ao outro, e isto o leva a agir de forma violenta contrariando os direitos fundamentais do ser humano.

A preciosidade da interpretação de TÁPIA (1992:60-62) introduz a perspectiva da esperança quando se sensibiliza com as imagens iniciais da fábula.

TÁPIA (1992:60) assim se expressa: "Chama de início a atenção da imagem da beleza do lugar. Preocupação estava atravessando, um rio onde água pura, terra fértil, ar, luz e outros elementos naturais à vida encontram-se reunidos. O próprio fluir das águas teria em si a significação de constante mudança e renovação".

A imagem do rio também representa o espaço aberto tanto de união quanto de separação entre duas regiões ou territórios. Esta duplicidade de sentido sugere por si uma natural imprecisão. Exatamente esse lugar transforma-se em fórum de singular disputa entre os deuses.

TAPIA, em sua interpretação provoca o leitor a refletir sobre as condições oferecidas pela natureza, que traz significações de constante mudança e renovação mas que podem ter duplicidade. O rio pode deslocar-se de um nível mais elevado para outro mais baixo, desaguando no mar, reduzir-se ou até secar, dependendo de suas condições existenciais, como volume de água, ou o relevo que o acolhe.

No plano humano, dentro do contexto das instituições educativas, religiosas, jurídicas e outras, o ser encontra-se sempre em condições aparentemente "claras como as águas dos rios", mas que, dependendo do modo como se relacionam, podem silenciar para sempre o outro. Isto será feito com o poder da "sentença" utilizada pelos seus pares como justa para "eles" ou o poder de abrir espaços para a ética e a moral, dada a possibilidade de agir de forma solícita, sem negar a contribuição de cada um e sem sobrepor um sujeito ao outro, eliminando-o violentamente em seu existir.

Este parágrafo da fábula coloca em evidência os vários "deuses" presentes no mundo globalizado, onde um país tenta "em nome de Deus", sobrepor-se ao outro por meio da força ou violência.

Neste sentido, enfatiza SARAMAGO, que o nome de Deus tem permitido e justificado tudo, inclusive os fatos mais horrendos e cruéis. Em sua análise, observa que a humanidade desde o princípio dos tempos e da civilização tem mandado "matar" em nome de Deus. Ou seja um Deus função, ligado aos interesses humanos, e não um Deus, criador e perfeito, livre da condição imposta pelos seus "filhos".

TÁPIA (1992:61) traz a seguinte contribuição que pode explicitar a afirmação acima: no dizer de Sêneca, a perfeição de Deus é realizada pelo bem e a perfeição do homem pela preocupação. Noutras palavras, prossegue TÁPIA, "Se a preocupação da fábula não tivesse imprimido características significativas suas à forma modelada, esta teria ficado imperfeita mesmo dotada de espírito por Júpiter, o mais poderoso dos Deuses. Certamente na perfeição da natureza humana pensava a preocupação da fábula, no dia em que atravessava o rio. Vista a realização do seu projeto".

Desta forma, retornando à fábula, pretende-se refletir ainda sobre os Deuses, que disputam o poder, cada um atribuindo-se o direito de "apoderar-se da criatura", colocando-a em seu próprio nome.

No entanto, na fábula, foi sugerido e visualizad também na interpretação de TÁPIA (1992:61) que a sentença proposta por Saturno fora justa.

Isto porque TÁPIA afirma, que pela riqueza significativa da fábula apresentada, valores ético e estéticos, ideais de perfeição, noção de possibilidade e limite de justiça, entre outros, enquanto elementos necessários ao projeto humano.

Isto faz pleno sentido quando se pensa num projeto de cidadania, onde "a modelagem, revisão ou reformulação" expressões citadas por TÁPIA, são elementos constitutivos de um projeto de vida.

Nesta perspectiva, quando se pensa a educação do homem, só é possível vê-lo "educado", se este estiver aberto a reformulações do seu projeto de vida.

TÁPIA (1992:61) ainda sugere, que: "Um projeto de existência naturalmente exige fundamento, isto é, precisa ser instituído a partir da tentativa de explorar possibilidades de si próprio. Explorar possibilidades, pode, por sua vez implicar esforço, dificuldade, risco de aventura-se, tentativa angustiosa".

O esforço, o risco é compreendido, neste estudo, como processo de transição entre aquilo que "alguém" que se sente ditador apoderou-se como fator essencial para a resistência contra outrem.

Nesta condição emergiria a esperança do abrir-se daquilo que se determina para o deslocamento e o colocar-se no lugar do outro; este seria um salto qualitativo a favor da humanização do homem e do processo de solicitude capaz de colocá-lo em tolerância e paciência para com o pensar e agir do outro.

Bibliografia

HEIDEGGER, Martin. Os Pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1989
______. Todos nós... ninguém. São Paulo: Moraes, 1981.
TÁPIA, Luís Ernesto Rodriguez. Fábula da preocupação original: exegese analítico-existencial. Inform Psiq, 11 (2):60-62, 1992.

Betânia de Oliveira Laterza Ribeiro, doutora em Educação pela USP-SP e docente do Mestrado em Direito e dos cursos de Graduação e Pós-graduação na Universidade do Estado de Minas Gerais - Campus de Ituiutaba

Leosino Bizinoto Macedo, mestre em Filosofia das Ciências Humanas; doutorando em Direito pela UFMG; professor aposentado da Universidade Federal de Uberlândia; docente do mestrado em Direito e da Graduação em Direito na Universidade do Estado de Minas Gerais - Campus Fundacional de Ituiutaba - MG


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