Tum, tum, tum, bate coração…

 

*Nina Eiras Dias de Oliveira

 

                              O coração é um músculo cuja função é recolher o sangue proveniente das veias e lançá-lo nas artérias. Encontra-se, normalmente, em constante atividade, num verdadeiro “serviço de lavanderia”. O sangue vai pelas artérias, limpinho, para todo o corpo e volta pelas veias, sujão, para o coração mandá-lo para o pulmão, que vai limpar a sujeira.

                           Os recentes acontecimentos de mortes por cardiopatia envolvendo jogadores de futebol têm contribuído para um maior interesse  a respeito das doenças cardiovasculares e uma certa corrida aos cardiologistas em busca de uma investigação melhor para checar qualquer possibilidade de um mau funcionamento no órgão e, além disso, traz à tona a questão da nossa vulnerabilidade diante da morte.   

                             Durante milênios, desde a época de Platão, o coração tem sido considerado lugar das  emoções, órgão que representa a vida, o amor e outras simbologias. “Fiquei com o coração na mão”; “Ele tem um coração tão duro, parece um coração de pedra”; “Cabe todo mundo, igual coração de mãe”. Anency Giannotti declarou num artigo que: “As emoções, o esforço físico e as substâncias excitantes atuam sobre os parâmetros cardiovasculares, alterando o ritmo cardíaco, o pulso e a pressão arterial. Fatores psicológicos podem ocasionar graus extremos de alterações no ritmo cardíaco, sem provocar efeitos deletérios no coração normal. Estudos mostram que sentimentos de raiva, ansiedade e medo podem desencadear intensa atividade vagal, diminuindo consideravelmente o ritmo cardíaco. Alterações no ritmo nem sempre se devem a estados psicológicos e são considerados reações eletrofisiológicas normais”. Saber que as emoções podem atuar como fonte de problemas orgânicos é uma aquisição mais recente do conhecimento médico. Para os psicólogos, entretanto, isto não é novidade. Durante os últimos anos, verificou-se que o tratamento médico e, principalmente, cirúrgico nas afecções cardíacas está em constante expansão e evolução.  O desenvolvimento iniciado com os transplantes cardíacos, o tratamento cirúrgico das coronariopatias, as valvopatias, colocação do marcapasso e do cardiodesfibrilador, entre outros, têm mudado o prognóstico dos cardiopatas, aumentando e melhorando o nível de sobrevida dos pacientes.

Muitos são os avanços tecnológicos que nos auxiliam na compreensão das cardiopatias. Desconfio se por um lado essa tecnologia, além de benefícios e conforto maiores ao paciente, também não amenizariam a problemática da doença uma vez que, hoje, em muitos casos, não há necessidade de incisões cirúrgicas. Estariam, então, a agilização e modernização, ausência de cortes, diminuição da dor, contribuindo na diminuição da conscientização da doença e menor adesão ao tratamento? Infelizmente, em muitos casos, a mola mestra que nos impulsiona à conscientização é pautada na dor. Por outro lado, os avanços tecnológicos não minimizaram as fantasias a respeito deste órgão. Cada paciente é portador de suas próprias fantasias e quaisquer que sejam essas fantasias, um psicólogo junto com o paciente pode auxiliar no reconhecimento, dimensionar a importância, a proporção e influência destas no processo da cardiopatia e na recuperação do paciente. A relação com cada cardiopatia mostra um certo modo de ser, de  habitar no mundo e de  cuidar da existência. O ser humano é uma trama bio-psico-social e, no processo da doença, está em desequilíbrio. No processo terapêutico, na clínica, o psicólogo tem oportunidade, de conhecer seu cliente e a patologia na sua vida, uma vez que deve ser integrado tudo o que diz respeito à ele como: sua história, medos, expectativas, conceitos, crenças, forma de agir e de se relacionar.

 Meus sinceros agradecimentos a: Equipe Dr. Kanin Kalil Kassab (Drs.: José Carlos Camacho, Elias Gouvêa, Ernani Filho, técnicos: Graça Fernandes, Andréa Mesquita e Roberto Gomes), da Cardiologia; Dr. Dario Hauer e Dr Edgard Quintella da Hemodinâmica, Dr. Márcio Veiga do Hospital S. Teresa/Petrópolis-RJ, as psicólogas: Bellkiss Wilma Romano, Cíntia E. Watanabe (do Incor/S. Paulo) e Teresinha Perez (Coordenadora do GPFE), que muito têm me auxiliado no aperfeiçoamento do trabalho de acompanhamento psicológico ao paciente cardiopata.

 

 *Psicóloga existencial  infantil, especialista clínica pelo CRP/RJ