“Tum, tum, tum, bate coração…”
*
O coração é um músculo cuja função é recolher o sangue proveniente das
veias e lançá-lo nas artérias. Encontra-se, normalmente, em constante atividade,
num verdadeiro “serviço de lavanderia”. O sangue vai pelas artérias, limpinho,
para todo o corpo e volta pelas veias, sujão, para o
coração mandá-lo para o pulmão, que vai limpar a sujeira.
Os recentes acontecimentos de mortes por cardiopatia envolvendo jogadores
de futebol têm contribuído para um maior interesse a respeito das doenças
cardiovasculares e uma certa corrida aos cardiologistas em busca de uma
investigação melhor para checar qualquer possibilidade de um mau funcionamento
no órgão e, além disso, traz à tona a questão da nossa vulnerabilidade diante da
morte.
Durante
milênios, desde a época de Platão, o coração tem sido considerado lugar das emoções, órgão
que representa a vida, o amor e outras simbologias. “Fiquei com o coração na
mão”; “Ele tem um coração tão duro, parece um coração de pedra”; “Cabe todo
mundo, igual coração de mãe”. Anency Giannotti declarou num artigo que: “As
emoções, o esforço físico e as substâncias excitantes atuam sobre os parâmetros cardiovasculares, alterando o ritmo
cardíaco, o pulso e a pressão arterial. Fatores psicológicos podem ocasionar
graus extremos de alterações no ritmo cardíaco, sem provocar efeitos deletérios
no coração normal. Estudos mostram que sentimentos de raiva, ansiedade e medo
podem desencadear intensa atividade vagal, diminuindo
consideravelmente o ritmo cardíaco. Alterações no ritmo nem
sempre se devem a estados psicológicos e são considerados reações eletrofisiológicas normais”. Saber que as emoções
podem atuar como fonte de problemas orgânicos é uma aquisição mais recente do
conhecimento médico. Para os psicólogos, entretanto, isto não é novidade.
Durante os últimos anos, verificou-se que o tratamento médico e, principalmente,
cirúrgico nas afecções cardíacas está em constante expansão e evolução. O desenvolvimento iniciado com os
transplantes cardíacos, o tratamento cirúrgico das coronariopatias, as valvopatias,
colocação do marcapasso e do cardiodesfibrilador, entre outros, têm mudado o prognóstico
dos cardiopatas, aumentando e melhorando o nível de
sobrevida dos pacientes.
Muitos são os avanços tecnológicos que nos
auxiliam na compreensão das cardiopatias. Desconfio se por um lado essa
tecnologia, além de benefícios e conforto maiores ao paciente, também não
amenizariam a problemática da doença uma vez que, hoje, em muitos casos, não há
necessidade de incisões cirúrgicas. Estariam, então, a agilização e
modernização, ausência de cortes, diminuição da dor, contribuindo na diminuição
da conscientização da doença e menor adesão ao tratamento? Infelizmente, em
muitos casos, a mola mestra que nos impulsiona à conscientização é pautada na
dor. Por outro lado, os avanços tecnológicos não minimizaram as fantasias a
respeito deste órgão. Cada paciente é portador de suas próprias fantasias e
quaisquer que sejam essas fantasias, um psicólogo junto com o paciente pode
auxiliar no reconhecimento, dimensionar a importância, a proporção e influência
destas no processo da cardiopatia e na recuperação do paciente. A relação com
cada cardiopatia mostra um certo modo de ser, de habitar no mundo e de cuidar da existência. O ser humano é uma
trama bio-psico-social e, no processo da doença, está
em desequilíbrio. No processo terapêutico, na clínica, o psicólogo tem
oportunidade, de conhecer seu cliente e a patologia na sua vida, uma vez que
deve ser integrado tudo o que diz respeito à ele como:
sua história, medos, expectativas, conceitos, crenças, forma de agir e de se
relacionar.
Meus sinceros agradecimentos a: Equipe Dr.
Kanin Kalil Kassab (Drs.: José Carlos Camacho, Elias Gouvêa, Ernani
Filho, técnicos: Graça Fernandes, Andréa Mesquita e Roberto Gomes), da
Cardiologia; Dr. Dario Hauer e Dr Edgard Quintella da Hemodinâmica, Dr. Márcio Veiga do Hospital S.
Teresa/Petrópolis-RJ, as psicólogas: Bellkiss Wilma Romano, Cíntia E. Watanabe (do Incor/S. Paulo) e Teresinha Perez (Coordenadora do GPFE),
que muito têm me auxiliado no aperfeiçoamento do trabalho de acompanhamento
psicológico ao paciente cardiopata.
*Psicóloga existencial infantil,
especialista clínica pelo CRP/RJ