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EDIÇÃO ESPECIAL Página atualizada em 16 de maio de 2000

 

ARTIGO

 

Martin Buber e a Psicoterapia Existencial
Psicóloga Gabriela Bessa  CRP 05/24.063
Psicoterapeuta Existencial,   
Professora Assistente e Diretora de Marketing Institucional da SAEP.  
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O filósofo Martin Buber traz um pensamento no qual percebemos a atualidade marcante em suas reflexões. Essa atualidade se fundamenta no vigor com que suas reflexões tornam possíveis novas reflexões, bem como no comprometimento deste pensamento com a realidade concreta, com a experiência vivida. Buber é um excelente exemplo de uma responsável integração entre reflexão e ação. Buber ocupa-se do que é mais característico do homem: sua humanidade. Essa mensagem nos leva a uma revisão de nossas perspectivas sobre o sentido da existência humana. Propõe um projeto de existência a ser realizado que envolve o risco da própria situação humana.   
Sua filosofia do diálogo - da relação - ponto central de toda a sua reflexão, tanto no campo da filosofia ou dos ensaios sobre religião, política, sociologia e educação, atingiu sua expressão madura em EU & TU graças à fonte representada pelo Hassidismo e sua mensagem. Na mística hassídica Buber encontrou o princípio, a inspiração e a forma para a sua reflexão. Entretanto, essa influência não conduz sua reflexão a um pensamento irracional, sua obra não se fecha em si mesma. O fato primordial de seu pensamento é a relação, o diálogo na atitude existencial do face-a-face.   
Para fazer a relação entre o pensamento de Buber e a psicoterapia será utilizado o referencial da abordagem existencial. Assim sendo, pode-se dizer que esta abordagem de psicoterapia tem como objetivo fazer emergir e revelar aquilo que o cliente é. Cabe ao psicoterapeuta acompanhar o cliente e desenvolver com ele um processo psicoterápico baseado no afeto. Isto quer dizer que ambos estarão afetando e sendo afetados pelo outro. Esse processo leva a uma transformação mútua que somente psicoterapeuta e cliente poderão definir vivenciando o que poderá acontecer, até onde irão e quais os limites e alcances para  cada um. Para tanto, é necessário o respeito, a reciprocidade e a responsabilidade por ambos e pelo encontro que pode acontecer.    
É importante mencionar que a relação psicoterapêutica é dialógica e dialética. Especificamente quanto à arte do diálogo desenvolvida pelos gregos antigos, especialmente Sócrates com sua Maiêutica ( fazer parir idéias ) pode-se fazer uma analogia, onde o diálogo terapêutico faz parir a essência do ser, seus sentimentos, suas angústias, sua história. Mas não uma essência pronta a priori, e sim um processo dinâmico de construção de si mesmo, de essencialização. Quanto a dialética, esta implica numa visão de homem e de mundo como totalidade inserida na concretude. A realidade é vista como uma concepção dinâmica, intimamente ligada com a práxis. Nesse sentido, tem um compromisso com a vida assim como Buber sugere na relação dialógica.   
No processo psicoterápico se faz presente a relação Eu-Tu. Esta é o encontro  permeado pela reciprocidade onde um e outro estão disponíveis. Desse modo torna-se possível a integração que Buber tanto preza. O dialógico permite uma abertura para as pessoas experienciarem o mundo e a si mesmas de uma  forma totalizadora.   
A Psicoterapia Existencial tem como fundamento não diagnosticar e não enquadrar o cliente em paradigmas. O psicoterapeuta coloca seus valores em suspenso para estar com o cliente de modo aberto para vê-lo como ele se vê. Isso torna possível uma profunda compreensão do outro. Na base desse processo  está o encontro que é a condição fundamental para que a relação Eu-Tu ocorra. Não o tempo todo, mas prevalecendo sobre a relação Eu-Isso. A relação é o que fundamenta a existência humana tanto para Buber quanto para a Psicoterapia Existencial.   
A relação dialógica ocorre primordialmente através da palavra. Da mesma forma, na relação psicoterapêutica o falar corresponde ao agir, a palavra se torna espaço para o indivíduo se expressar e constituir a sua própria existência. Através da verbalização, os conteúdos individuais podem emergir e serem trabalhados com a conscientização. Ao falar ao Outro, há troca entre quem expressa e quem recebe, ocorrendo uma interação entre as pessoas, que estão nesse momento expressando a sua subjetividade, considerando a importância do que está sendo dito e a quem está sendo dito. Este tipo de diálogo só é possível no encontro, e depende da mutualidade, da troca, como fala possível à descoberta do Outro diferindo assim do mero discurso vazio. Aí está a responsividade que Buber considera essencial para a relação, a experiência de receber a palavra, a postura de escuta do ser do Outro e, por consequência, a reciprocidade. Considerando as pessoas envolvidas no que está sendo dito e o significado que uma tem para a outra, pode-se observar o quanto a responsabilidade está presente e mostra-se fundamental nessa relação.    
Para Buber, tanto quanto para a Psicoterapia Existencial, é fundamental reconhecer a existência de Um e de Outro, ou seja, a confirmação mútua, sendo essencial a responsabilidade de cada um no processo como agentes dinâmicos e integrados, vinculados aos seus próprios projetos. Essa relação acontece no âmbito do que Buber chama de dimensão do entre: união do mundo subjetivo do cliente com o mundo subjetivo do psicoterapeuta com suas afetações possíveis. Desse modo o encontro não se centra no cliente nem no psicoterapeuta e sim naquilo que construírem juntos nesse entre. Ou, como nos ensinou Miguel Callile Júnior, o encontro gera um conhecimento que é também um co-nascimento.

 

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Assista às fitas do Psicólogo Jadir Lessa e seja mais feliz!

 

As Mentiras de Pseudea
Psicólogo Luiz Fernando Teixeira Dantas 
Mestre em Psicologia e 
Doutorando em Ciência da Informação 
CRP 05/24.063 

Vou chamá-la Pseudea. Ela está noiva e tem uma amiga. Agora que já temos os personagens, vamos construir a história.  

Todas as manhãs Pseudea sai de casa à mesma hora e embarca no mesmo ônibus, no mesmo ponto, no mesmo horário. Duas horas mais tarde está no seu trabalho, pronta para iniciar sua rotina de oito horas. Desde que levanta até voltar para casa, tudo acontece “sempre igual”. Mas não naquela manhã quando saiu rumo ao ponto de ônibus. Naquela manhã foi muito diferente. No ponto imediatamente à frente do seu, um lindo jovem - um gato - entrou e sentou-se ao seu lado. O ônibus estava praticamente vazio, mas ele escolheu aquele lugar. Pseudea começou a ter agradáveis pensamentos, mas não quis permitir que tomassem forma. O recém-chegado não demorou muito para “puxar conversa”. Falou sobre o bom tempo que fazia (Será que vai chover?), sobre o estado precário daquele ônibus, sobre o trânsito... Mas gradativamente foi falando cada vez menos sobre as coisas e mais sobre suas impressões a respeito de Pseudea. Estava claro que ela havia chamado sua atenção. A conversa transformou-se num flerte e foi até um pouco além, gerando, inclusive, algumas pequenas confidências. É claro que ele não era o único falante. Pseudea participava. Mas era uma participação cuidadosa. Não que ela não estivesse encantada com sua companhia mas, como mandam as regras de convivência, não deveria parecer tão interessada que pudesse ser vista como uma oferecida, nem tão distante que parecesse que por ele não tinha nenhum interesse. Quando Pseudea estava chegando ao seu destino, o jovem convidou-a para um encontro. Ela desejou, mas afinal era noiva e gostava muito de seu noivo. Exatamente no momento em que pensava isto, ouviu uma voz dizendo: E daí? Esta voz não era uma visitante nova em sua mente. Vez por outra aparecia e Pseudea sempre a ouvia com atenção, embora às vezes fingisse uma espécie de surdez psíquica. Mas desta vez ouviu. Ouviu, gostou mas ficou indecisa. Era um gatão; o homem mais bonito com o qual havia conversado. Mas e o seu noivo? Pseudea, em dúvida, resolveu adotar a estratégia mais adequada para casos de indecisão: protelar. Então, quando seu admirador lhe ofereceu seu cartão, ela o aceitou, mas não confirmou um encontro. Apenas sorriu. Vamos ver... Estes foram os fatos. Agora vamos supor que Pseudea irá falar a respeito deste encontro para sua amiga e seu noivo. Como falaria? Restam poucas dúvidas sobre isto. Ela faria relatos  muito diferentes. Para a amiga contaria tudo o que aconteceu ou que supõe haver acontecido ou que gostaria que tivesse acontecido. Falaria sobre o tipo físico do seu admirador: um gato. E não esqueceria de contar que ele sentou ao seu lado estando o ônibus praticamente vazio. Falaria sobre sua conversa inteligente, sobre os elogios que recebeu, sobre as confidências etc. Não esqueceria de falar sobre sua insistência para que tivessem um encontro (talvez exagerasse um pouco nesta parte) e sobre a vontade que teve de aceitar o convite (e ai, deixaria claro que não esqueceu que é noiva; mas se não fosse...). Finalmente, talvez como prova, mostraria o cartão. Para o noivo faria um relato diferente. Inicialmente falaria sobre a inconveniência que é viajar de ônibus hoje em dia. E como exemplo, contaria um fato que aconteceu ontem. Um sujeito sentou-se ao seu lado e ficou tentando conversar com ela o tempo todo (ela só não mudou de lugar porque o ônibus estava cheio): falaria sobre sua ousadia ao fazer perguntas indiscretas (se não estivesse atrasada, saltaria do ônibus ali mesmo). Falaria também sobre a irritação que tal comportamento provocou; sobre a voz desagradável do sujeito. Sobre o que ele disse? Não sabe. Aliás nem prestou atenção. Não falaria sobre o seu tipo físico porque nem mesmo olhou para ele. Fica evidente que, tomando-se o acontecimento como referência, Pseudea mentiu para seu noivo e, se formos rigorosos, também para sua amiga ou, pelo menos, não foi totalmente verdadeira. Mas verdades & mentiras não são o tema deste breve trabalho. Quero falar sobre fatos e relatos, sem me importar com a concordância entre eles. Ora, o relato sofre influência direta das características cognitivas de quem relata, de sua forma de codificar o real e de outras circunstâncias. Assim, pelo menos em termos psicológicos, o relato está carregado de subjetivismo e é basicamente definido pelo contexto dentro do qual se manifesta. Podemos então dizer, para efeitos de estudo, que temos o contexto do fato e o contexto do relato (1). O contexto do fato seria o acontecimento descrito por um observador supostamente neutro e o contexto do relato, a história contada pelo ator segundo as determinantes do ambiente no qual o relato estiver inserido. E parte significativa deste ambiente é, geralmente, o seu interlocutor. Quando me comunico, não estou apenas transmitindo informações, mas, ao mesmo tempo sugerindo para o outro, uma forma de me perceber. Estou sobretudo falando de mim mesmo, ainda que esteja falando sobre você. O que conto é uma manifestação de minha própria identidade que busca afirmação na concordância do interlocutor, isto é, procuro nele a resposta confirmadora para minha própria imagem ou para a imagem que pretendo transmitir: Quero que você pense o que eu quero que você pense sobre mim ou Quero que você me veja como eu quero ser visto por você. É evidente então que mudando o interlocutor (parte significativa do contexto), pode mudar o relato. Posso dizer de outra forma: dentro deste contexto - o relacional - Pseudea tomou o fato e seu relato como instrumento para sua confirmação. Pseudea não é apenas Pseudea. É Pseudea e suas relações, seus sonhos, sua história, suas alegrias, suas tristezas, suas verdades, que podem ser mentiras e suas mentiras, que podem ser verdades. E parte significativa do que ela é, que se define por sua identidade, depende não propriamente dela, mas de suas relações com os outros, do que os outros pensam dela e do que ela pensa que os outros pensam dela. Para sermos o que somos ou pensamos que somos, dependemos significativamente dos outros. Quando Pseudea fez seu relato tanto para sua amiga quanto para seu noivo, estava também falando dela mesmo. Para sua amiga, por exemplo, poderia estar falando de suas qualidades femininas. Para o noivo, de seu próprio amor por ele, de sua fidelidade e talvez lembrando que ele deve tomar cuidado. Afinal de contas, certas coisas sempre podem acontecer. Não sabemos exatamente qual o seu propósito, mas é muito provável que esteja marcando ou remarcando seu próprio território psicológico, isto é, nestes comportamentos e em muitos outros, está implícita uma definição dela mesma, uma confirmação de identidade ou busca de reconhecimento. Watzlawick afirma que esta autoconfirmação assegura o desenvolvimento e a estabilidade mentais ... Por muito surpreendente que isso possa parecer, sem esse efeito de auto-confirmação a comunicação humana dificilmente evoluiria além das fronteiras muito limitadas das permutas indispensáveis - proteção e sobrevivência; não haveria motivo para a comunicação pela mera comunicação. (2) Mas é claro que assim como os outros podem confirmar nossas qualidades, podem também nos rejeitar e nos desconfirmar. E também, assim como buscamos nos outros a confirmação de nossas qualidades, podemos também buscar nossa desconfirmarção (uma forma de confirmar nossa baixa auto-estima). 

Durante o processo terapêutico é preocupação do terapeuta tentar entender a forma pela qual seu cliente se relaciona com o mundo que os outros constituem. E não deve esquecer que, dentre todos os seus outros, ele, o terapeuta, é um deles. 

1 - É bom lembrar que não existem fatos independentes do observador, desde que se admita que todo fato implica na existência de uma explicação ou descrição, isto é, o fato somente pode ser percebido se contextualizado. Neste caso, o contexto do fato é, em última análise, também um contexto de relato. Mas neste caso, um relato “generalizado”. 

2 - Watzlawick, Paul e outros. Pragmática da Comunicação Humana: um estudo dos padrões, pato-logias e paradoxos da interação, p. 77, Editora Cultrix, S. Paulo, 1972.

 

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E Agora Mulher?
Por Cássia Borges 
Psicóloga e Psicoterapeuta Existencial  
Conselheira Editorial da SAEP  

A observação da trajetória da humanidade, desde seu surgimento na Terra até os dias de hoje, tem sido motivo de muitos estudos e discussões, não só do ponto de vista biológico, como também do sócio-político e, principalmente, do filosófico.  
A geologia histórica explica as alterações humanas através dos fósseis e das alterações vegetais e minerais.  
As teorias criacionista e evolucionista trazem suas elucidações sobre a evolução humana. A primeira, acredita que todo surgimento e avanço deu-se a partir do Criador; a segunda, de acordo com Lamark, fundamenta-se no uso e desuso de órgãos, e no seu conseqüente desenvolvimento ou atrofiamento. Na teoria de Darwin há uma busca incessante pela sobrevivência, na qual os mais capazes permanecem e os menos capazes sucumbem.  
Hoje há uma preocupação com as relações afetivas e as novas maneiras de adaptação entre os seres humanos. Um exemplo deste movimento é a música mostrando os desassossegos da alma e as tentativas de harmonia e satisfação pessoal como a canção inédita Ô vem então de Candeia e Curinga (O Globo - 01.11.98): 

(...) Em plena avenida  
Despertar a alegria reprimida da vida  
Pois  o samba reflete a paz da existência  
Enaltece a nobreza do mundo e a ciência (...)

O compositor Noel Rosa com seu samba inédito Você não morre tão cedo retrata a relação afetiva (O Globo - 01.11.98): 

(Você não morre tão cedo...)  
Juro que neste momento  
Pensava nesta sua pessoa  
(Tão boa, tão boa)  
Que até dormindo perdoa  
Você sentiu agora com certeza  
A dor que tenho no meu coração  
E veio pra mudar minha tristeza  
E veio pra me dar o seu perdão  
Chegando exatamente no momento  
Em que a gente pensa o que não diz  
Você adivinhou meu pensamento  
Você já perdoou tudo o que fiz 

Nas artes cênicas, produtores, autores e atores procuram apresentar peças que retratam as relações humanas, as dificuldades e o cotidiano das pessoas comuns, como The beauty queen of Lenane traduzido como Miss rainha da beleza que enfoca o relacionamento doentio entre mãe e filha, e também The life retratando o submundo da prostituição e suas relações turbulentas. Na literatura, o livro de Françoise Dolto, Solidão, retrata as origens deste sentimento e os diversos acontecimentos vivenciados por quem já viveu este estado e como conseguiu transformá-lo num momento criativo, de atividade.  
A procura por situações do dia-a-dia objetiva uma aproximação com o público em geral. Nota-se que não só a ciência e a filosofia, mas também as artes estão sempre voltadas para o mesmo tema: o ser humano.  
De alguma maneira, homens e mulheres procuram estabelecer o que acreditam ser o melhor para si mesmos. Parece que há uma procura para uma interação, um encontro consigo e com os outros que o cercam. O autor Roberto da Silva diz: O homem se forma pelo encontro consigo mesmo e com o outro e sem o processo de autoconhecimento e sem a interação social não haverá homem 
Mediante tantos enfoques distintos e opiniões gerais, estudiosos, psicólogos e sociólogos mostram-se preocupados com as relações humanas. Utopia ou não, a verdade é que as pessoas buscam encontrar quem as faça felizes e tendem a se afastar de si mesmas, como na citação de Antonio Xavier Teles referendando Erich Fromm (1969, p.68): (...) de que nada está ainda totalmente perdido, pois o homem pode livrar-se de sua maior prisão: o aspecto destrutivo que existe nele mesmo. Assim, afastados de si, não conseguem vislumbrar a esperada perspectiva de completude, aguardando que esta outra parte surja de outrem. Como diria Nietzsche (1991, s.n.) este procura seu vizinho porque busca a si mesmo, aquele porque gostaria de perder-se. O falso amor de si mesmo transforma a solidão em prisão 
Existe uma tentativa antiga de se criar elos, que se fundamenta na primeira célula social: a família. Em seu livro Bakhtin, dialogismo e construção do sentido, Solange Jobim e Souza (s.n., 339) diz: Tudo que diz respeito a mim, chega à minha consciência por meio da palavra do outro, com sua entoação valorativa e emocional. Estudos e pesquisas mostram que há diversos fatores que contribuíram e ainda contribuem para atual crise nas relações, principalmente a crise do casamento, meio pelo qual a família era e é construída. Sobre a crise atual do casamento, Aroldo Rodrigues (1998) diz: 

A fragilidade do casamento na sociedade contemporânea preocupa os especialistas (psicólogos, sociólogos juristas, assistentes sociais...) porque suas conseqüências repercutem não só na vida das pessoas diretamente envolvidas na dissolução do vínculo matrimonial, mas na dos eventuais filhos do casal. Ademais, problemas jurídicos, econômicos e psicológicos via de regra seguem-se à dissolução do casamento, justificando a preocupação de especialistas, assim como da sociedade de um modo geral, com as estatísticas mundiais acerca do aumento do número de casamentos desfeitos neste final do século XX. (prefácio)

Percebe-se que a sociedade tomou rumos que nem mesmo os precursores de alguns movimentos podiam cogitar. Não se imaginava que necessidades surgiriam frente à nova realidade do casamento: mudanças sócio-econômicas, avanços tecnológicos, atuação masculina na vida doméstica, diminuição do número de filhos, longevidade dos(as) parceiros(as).  
É evidente que ocorreram mudanças na instituição do casamento e uma delas a mudança socioeconômica, que empurrou de alguma maneira as mulheres para o mercado de trabalho. Com isso, as mulheres tiveram que estabelecer prioridades em sua vida, a começar pelos afazeres domésticos que precisaram contar com o auxílio masculino, o que na prática não funcionou.  
Surgiu também a necessidade de diminuir o número de gestações, que até então, antes da tentativa da emancipação feminina, era tido como símbolo de fertilidade e feminilidade, principalmente se os filhos gerados fossem do sexo masculino, o que garantiria a perpetuação das atitudes patriarcais.  
As juras de amor e lealdade também eram condizentes com a situação anterior, pois para alguns, tanto homens quanto mulheres, o tempo de vida do marido ou da mulher era parcialmente diminuído até mesmo pelas condições de vida precárias, principalmente longe dos centros urbanos e sem recursos tecnológicos.  
Também é preciso mencionar a mortalidade feminina que ocorria na hora do parto, normalmente realizado por parteiras. Influíram também nas mudanças citadas, a questão religiosa como ressalta Bernardo Jablonski (1998, p.34): de modo geral, os autores são unânimes em apontar um declínio na religiosidade, principalmente após a modernização e a industrialização, o mesmo autor ainda relata que o processo de secularização no Ocidente, ou seja, a gradual redução do domínio ou influência,  das instituições religiosas sobre setores da sociedade e da cultura, faz com que os indivíduos passem a avaliar, interpretar e lidar com o mundo sem auxílio de indicações provenientes da religião oficial 
No que tange ao conceito de liberdade, Jablonski faz referência à D’Antonio dizendo (id): para este autor, a modernização - além de ter aumentado a longevidade e de ter dado uma ênfase especial mais às relações sociais do que exatamente ao controle social - vem proporcionando também um impulso à autonomia das pessoas, em detrimento da obediência às instituições. Uma sociedade que enfatiza sobremaneira as realizações do indivíduo, seus direitos, e principalmente sua liberdade de fazer o que quiser, quando e da forma que quiser, é uma sociedade que necessariamente se torna menos sensível aos apelos à submissão e à obediência irrestritas, mormente no que diga respeito a valores primários e/ou afetivos. (p.34)  

Dessa nova situação, ou seja, da crise do casamento, surgiram algumas conseqüências importantes:  

 
  • solidão 
  • o “novo” lugar da mulher  
  • mudanças na dinâmica do vínculo afetivo  
  • mudanças na questão do prazer sexual. 
  • Sobre o novo lugar da mulher, existe uma história comum aos nossos ouvidos: em algumas culturas, a mulher nascia e já era predestinada, isto é, sua trajetória de vida era antecipada, tendo outro como responsável: o marido, que ela não sabia quem nem como era, mas ao qual ela devia obediência. Seu novo dono, ou seja, o marido, era quem dizia o que fazer e como. Como seus pais não aceitariam de volta em casa uma mulher descasada, o jeito era manter-se unida a quem ao menos a alimentava e protegia.  
    A partir desta ilustração percebe-se que o lugar ocupado pela mulher até então começa a ser modificado, com o passar do tempo. Com a tentativa de emancipação feminina, o então dito sexo frágil começa a perceber que pode caminhar e conquistar seu próprio espaço, que também cabe à mulher escolher seu parceiro, companheiro ou talvez ficar sozinha; e que podia obter seu sustento com o próprio trabalho.  
    É preciso analisar também o vínculo afetivo, que nesta mulher sem expressividade e vontade constituía o que Pichon-Rivière (1991, p.24) chama de vínculo histérico é o vínculo da representação, sendo sua principal característica a plasticidade e a dramaticidade. O vínculo, da maioria das mulheres, era com objetos e afazeres domésticos, e sua expressão de afeto mostrava-se nos cuidados diários e na criação de seus filhos. E por vezes, mostrava-se fraca para obter algum ganho na condição de esposa.  
    No que tange ao prazer sexual, ela era quase inoperante. Como esta mulher poderia acreditar e se perceber em contato físico com alguém, o marido, sendo-lhe vetada a oportunidade de sentir carinho ou qualquer tipo de afeição? Sem contar que expressar a libido, o desejo e até atingir o orgasmo eram coisas para mulheres doidivanas e não para as senhoras de família.  
    O objeto da pesquisa a que nos propomos é a solidão, como bem define  Norman Cousins (apud May, 1991, p. 24) toda a história do homem é um esforço para destruir a própria solidão. Rollo May (1991, p.25) ressalta que no reverso da solidão do homem moderno está seu grande temor de ficar só.  As pessoas poderiam escolher estar só, temporariamente, mas como opção de vida geraria um mal estar, como se existisse algo errado. Por este motivo a aceitação pelo outro é importante, pois imerso no grupo, no convívio com o outro, temporariamente esquece a solidão, embora ao preço da renúncia à sua existência como personalidade independente (id, 29).  Pascal no século XVII diz que as diversões que aconteciam tinham como finalidade evitar que as pessoas pensassem em si mesmas, pois enquanto absorvidas com atividades sociais fugiam do medo de estar só, como May (id, p.29)  diz: o medo de estar só deriva, em grande parte, da ansiedade de perder a consciência de si mesmo 
    No que tange à mulher, Maria Lúcia Rocha-Coutinho em seu livro Tecendo por trás dos panos (1994), diz: 

      (...) o trabalho doméstico impede ou dificulta a participação autônoma das mulheres nos espaços públicos, que ficam restritos aos homens, levando-as a uma marginalidade social. Além disso, o trabalho doméstico isola as mulheres no âmbito da unidade familiar, onde realizam sua tarefa de forma individual, sem organização cooperativa alguma e quase sem integração com seus pares adultos, afastando-as, assim, cada vez mais do mundo público e inibindo processos de realização pessoal. Elas passam a ser e a viver para os outros e não para si mesmas e sua afirmação pessoal consiste precisamente em negar-se como pessoa. (p. 33)

    Este contínuo aprendizado feminino, de que a mulher é destinada para alguns afazeres domésticos e que para trabalhos intelectualizados não o é, remete ao que Pasolini em Jovens infelizes (s.d.) diz:  A educação que um menino recebe dos objetos, das coisas, da realidade física - em outras palavras, dos fenômenos materiais da sua condição social -, torna-o corporalmente aquilo que é e será por toda a vida. O que é educada é a sua carne, como forma do seu espírito.(p.127) 
    A linguagem introjetada perpetua a idéia sobre a maneira repressiva da mulher agir não saindo do estado inerte para provocar alguma transformação; o que devemos considerar é que esta tentativa é recente e lenta. Pasolini (s.d., 134) diz: os filhos têm assegurada uma existência semelhante a dos pais. Ou melhor, se destinam a repetir e a reencarnar os pais. Não se pode negar que durante muito tempo foi este o aprendizado que muitas mulheres incorporaram como verdades absolutas, reproduzido em gerações sucessivas, como se estivessem condenadas a alguma situação a priori.  
    E agora mulher, o que você está transformando em sua vida? Continua esperando um salvador, o príncipe, o pai ou marido? Crê que seu destino está determinado ou ainda quer se realizar de fato, quer fazer sua própria história? 


    Bibliografia:
  • 1. ADORNO, Theodor W. e HORKHEIMER, Max. Dialética do esclarecimento - fragmentos  filosóficos, Rio  de  Janeiro, Editora Zahar  
  • 2. ALBERONI, Francisco. Enamoramento e amor. Rio de Janeiro, Editora Rocco, 1992  
  • 3. BAUDRILLARD,   Jean.     As   estratégias  fatais.  Rio   de   Janeiro,  Editora Rocco, 1991  
  • 4. BAUDRILLARD, Jean. A sociedade de consumo. Lisboa, Edições 70, 1995  
  • 5. In  CARNEIRO,  Terezinha  Féres    (org). Relação    amorosa,  casamento, separação, terapia.  Coletâneas  da  ANPEPP,  vol. 1   número 1,  Rio  de Janeiro,  1996 
  • 6. COUTINHO,  Maria Lúcia Rocha.  Tecendo  por  trás  dos  panos -  A  mulher brasileira  nas  relações familiares. Rio de Janeiro, Editora Rocco, 1994  
  • 7. FROMM, Erich. Análise do homem. Rio de Janeiro, Editora Guanabara, 1986 
  • 8. GOLDENBERG, Mirian. Ser homem ser mulher - dentro e fora do casamento.  Rio de Janeiro, Editora Revan, 1991 
  • 9. JABLONSKI, Bernardo. Até que a vida nos separe: a crise do casamento contemporâneo,  Rio  de  Janeiro, Editora Agir. 1998
  • 10. MAFFESOLI, Michel.  A contemplação do mundo. Porto Alegre, Editora Artes e Ofícios, 1995
  • 11. MAY, Rollo.  O homem à procura de si mesmo. Petrópolis, Editora Vozes, 1991
  • 12. MELO, Susana Carneiro Leão. Românticos ou Narcísicos? Um estudo sobre  o  Descompromisso Afetivo Contemporâneo. Dissertação de Mestrado, Departamento de Psicologia, PUC-Rio, 1996 
  • 13. MOTTA,   Maria  Euchares  e  CARNEIRO,   Terezinha  Féres  (orgs).  A psicologia em contexto - Seminário  Brasileiro  de  Psicologia,   Rio  de Janeiro,  PUC-Rio CNPq, 1996
  • 14. PASOLINI,   Pier   Paolo.    As   últimas    palavras   do   herege,   Editora Brasiliense 
  • 15. RIVIÈRE, Enrique Pichon. Teoria do vínculo. São Paulo, Editora Martins, 1991. 
  • 16. RORTY, Richard.  A  filosofia  e  o  espelho  da   natureza, Editora Relume Dumará 
  • 17. In SÓCRATES,  Nolasco  (org).   A  desconstrução  do  masculino,  Rio de Janeiro, Editora Rocco, 1995 
  • 18. SOUZA,  Solange  Jobim  e,  Bakhtin,  Vygotsky,  Benjamin. Infância e linguagem, Campinas, Editora Papirus 
  • 19. TELES,  Antonio  Xavier. Introdução ao estudo de filosofia, Rio  de Janeiro, Editora Ática, 1967 


  • Jornais e Revistas 
  • O que será que vai chover? (algumas previsões de um psicólogo social para o amanhã). 
  • Anais do Seminário Brasileiro: a Psicologia em Contexto, CNPq/PUC-Rio/Depto. de Psicologia, 201-208, 1996
  • Solidão Jornal O Globo, 01 de novembro de 1998. Anexo: Jornal da Família
  • No rastro dos bambas Jornal O Globo, 01 de novembro de 1998. Anexo: Segundo Caderno
  •  

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