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André
Salame Seabra *
Até muito recentemente, o abuso sexual de crianças era
tratado como um assunto proibido na sociedade. Entretanto, de alguns
anos pra cá esse tabu vem sendo quebrado, principalmente por
conta da ação dos movimentos feministas, visto ser a
mulher a vítima mais comum. E o que tem sido encontrado é
alarmante, não apenas em freqüência de tais práticas,
mas também em termos de conseqüências biopsicossociais.
A criança, além de todo o sofrimento durante o abuso
sexual, pode sofrer danos a curto e longo prazo; e uma simples intervenção
precoce e efetiva pode ter impacto decisivo, a longo prazo, no crescimento
e desenvolvimento da criança e um efeito positivo em todo o
funcionamento da família.
Portanto, torna-se essencial que todos os profissionais de saúde
que tenham contatos com crianças estejam cientes da realidade
do abuso sexual infantil e estejam preparados para identificá-lo,
para intervir corretamente e para ajudar a criança vítima.
O abuso sexual infantil (ASI) é definido como a exposição
de uma criança a estímulos sexuais impróprios
para sua idade, seu nível de desenvolvimento psicossocial e
seu papel na família. A vítima é forçada
fisicamente ou coagida verbalmente a participar da relação
sem ter, necessariamente, a capacidade emocional ou cognitiva para
consentir ou julgar o que está acontecendo.
The American Humane Association, em seus mais recentes estudos, estima
o abuso sexual de crianças e adoslecentes nos Estados Unidos
em 450 mil casos por ano. Apesar desses números serem altos,
é consenso que o número de casos não relatados
seja maior que o número de casos notificados, devido ao segredo
e vergonha que são inerentes ao ASI. Estima-se que uma em cada
três mulheres e um de cada seis homens passem por um episódio
de abuso sexual. Estudos têm revelado que os homens se abstêm
de notificar o abuso sexual, devido ao medo e à vergonha de
serem rotulados como homossexuais. Sabe-se, também, que 80%
das vítimas de ASI conhecem seus abusadores. Desse grupo, aproximadamente
68% é membro da própria família. 80% dos abusadores
são homens e 20% mulheres. A média de idade do início
do ASI é de 9,2 anos para as mulheres e 7,8 a 9,7 para os homens..
Dos casos de ASI intrafamiliar, 75% é pai-filha (incluindo
padrastos, namorados da genitora morando na mesma casa, ou outros
que tenham papel paternal), enquanto 25% dos casos são de mulheres-criança
ou irmã- irmã. Esses estudos indicam que meninas são
mais abusadas sexualmente dentro do ambiente familiar, enquanto garotos
e crianças maiores são mais abusados fora da família.
No Brasil, O Serviço de Advocacia da Criança (SAC),
entidade ligada à Ordem dos Advogados do Brasil, fez uma pesquisa
a partir de processos registrados em 1988,1991 e 1992 para chegar
à seguinte cifra: das 20.400 denúncias de maus-tratos
`a criança que chegam anualmente ao conhecimento da Justiça,
13% referem-se a situações de abuso sexual, o que resulta
em 2.700 novos casos a cada 12 meses.
O ASI pode ser intrafamiliar ou extrafamiliar; este, por sua vez,
pode ser com adultos conhecidos ou desconhecidos. Menção
especial deve ser feito aos abusos sexuais institucionais, os quais
são perpetrados em instituições encarregadas
de zelar pelo bem-estar da criança.
O ASI intrafamiliar é definido como qualquer forma de atividade
sexual entre uma criança e um membro imediato da família
( pai, padrasto, irmão ), extensivo ( tio, avô, tia,
primo )ou parentes substitutos ( um adulto o qual a criança
considere como um membro da família ).
O ASI intrafamiliar também é conhecido com incesto.
Existem cinco tipos de relações incestuosas: pai-filha,
irmão-irmã, mãe-filha, pai-filho, mãe-filho.
Destes, é possível que irmão-irmã seja
o tipo mais comum. Entretanto, o mais relatado é entre pai
e filha (75% dos casos ). Mãe-filho é considerado o
tipo mais patológico, sendo freqüente sua associação
com psicose. Por outro lado, o do tipo irmão-irmã provavelmente
acarrete menores seqüelas.
Existem três tipos de relações familiares incestuosas,
envolvendo pai e filha, referidos na literatura: tipo intrafamiliar,
tipo multiproblemático e tipo acidental.
Tipo intrafamiliar - Este é o tipo mais comum. Raramente é
feito o diagnóstico, pois a família parece levar uma
vida normal e tranqüila na comunidade. Entretanto, com um exame
mais apurado, percebe-se que apresentam um contato limitado com o
mundo extrafamiliar. Nessas famílias, as fronteiras entre os
diversos subsistemas não são nítidas e sim difusas,
com confusão de papéis sociais e psicológicos
entre seus membros. Pai e mãe sofreram privações
que comprometem suas capacidades de assumir seus papéis de
pais.
O incesto ocorre envolvendo três pessoas: o pai, a mãe
e a criança. O pai comumente possui uma personalidade passiva
e introvertida, apesar de , superficialmente, parecer dominador. Sente-se
incapaz de exercer seu papel de pai e de marido. Geralmente inicia
as relações incestuosas com a filha durante um período
de estresse, solidão ou dependência, como durante perda
de emprego ou conflitos conjugais. A atividade incestuosa pode não
ser motivada pelo sexo, mas representar uma necessidade de afeto.
O pai obtém gratificações e conforto através
da relação sexual. Freqüentemente, inicia-se como
uma simples carícia e, gradualmente, torna-se de natureza cada
vez mais sexual. Geralmente, há uma vida sexual pobre entre
o casal.
A mãe geralmente possui história de abuso sexual em
sua infância e provém de "broken homes" ( lares
quebrados ). Ela própria sofreu, no passado, privação
materna e foi recipiente de ressentimentos e hostilidades de sua própria
mãe. Geralmente, é descrita como deprimida, apresentando,
portanto, baixa auto-estima, passividade e isolacionismo.
Na maioria das vezes assume papel de protetora do marido, mas é
insensível às necessidades emocionais da filha, não
conseguindo dar-lhe suporte emocional adequado. Freqüentemente
tem uma vida sexual insatisfatória e possui existência
atribulada, ausentando-se de casa devido ao trabalho ou atividades
sociais. As funções maternas como cozinha, limpeza e
educação, além das sexuais, são passadas
para a filha mais velha. A mãe parece mais filha do que mãe.
Apesar de ter conhecimento do incesto, pode ignorá-lo ou até
mesmo incentivá-lo, pois sua filha a está substituindo
em um papel no qual se sente incapaz e que não deseja para
si.
A mãe facilita a situação incestuosa, pois desse
modo está reeditando a situação de sua infância:
sua filha assume o papel de mãe má, que a despreza e
rejeita. Deste modo, projeta na filha seus sentimentos hostis em relação
à sua própria mãe e vivência a situação
como ela sendo novamente a vítima das hostilidades maternas.
Esta é uma tentativa neurótica de elaboração
de sua própria dificuldade no relacionamento com sua própria
mãe. Portanto, este mecanismo de identificação
projetiva exerce um papel facilitador para a ocorrência do incesto.
Para manter a aparência de normalidade, ambos, pai e mãe,
concordam consciente ou inconscientemente que a relação
incestuosa é mais aceita do que uma relação extra-marital,
que poderia levar a uma ruptura do casamento e da família.
A criança poucas vezes relata o incesto antes de chegar à
adolescência, uma vez que está envolvida na trama familiar
e é profundamente dependente desses pais, que são os
únicos adultos com quem, em geral, ela pode contar. Além
disso, como possui com a mãe um relacionamento insatisfatório,
isso perpetua um funcionamento em nível oral, podendo levar
a menina a voltar-se para o pai, numa tentativa de suprir suas necessidades
de ser cuidada, alimentada e amada. Segundo Bárbara Broks,
o incesto poderia estar significando esta busca de satisfação
oral e isso explicaria a longa duração que, usualmente,
observa-se nessas relações incestuosas. O incesto dura,
em média, vários anos, com uma média de seis
meses a sete ou oito anos.
Neste tipo de família, a relação incestuosa,
geralmente, inicia-se com a filha mais velha. Outras filhas serão
envolvidas quando deixar a casa paterna ou quando terminar a relação.
Trata-se de uma relação perversa, que tem suas origens
no primitivo desenvolvimento psicossexual de todas as crianças
em que, na fantasia, tais relações são desejadas
e permitidas.
Tipo multiproblemático - Neste tipo de família, o problema
do incesto é mais facilmente identificado, pois é mais
um aspecto a somar, na total desorganização familiar.
É comum a associação com o alcoolismo, violência,
abuso físico, delinqüência e doença mental.
Há uma estrutura familiar caótica, não existindo
uma relação próxima entre seus membros. A criança
tanto pode ser vítima do abuso físico quanto sexual.
Tipo acidental - O pai, geralmente sob influência do álcool,
comete o abuso sexual que, na maioria das vezes, não envolve
coito. Esta forma de incesto pode ocorrer em famílias estáveis,
nas quais existem boa relação pai-filha. Em geral, restringe-se
a um episódio único, e o pai sente culpa e remorso.
O ASI extrafamiliar é definido como qualquer forma de atividade
sexual entre um não membro da família e uma criança.
Na maioria dos casos de ASI extrafamiliar, o adulto é conhecido
da criança. O adulto tem geralmente acesso a criança
como visitante ( por exemplo: o amigo do pai, vizinho) ou como um
"tomador de contas"(babá, professor, religioso).
Existem, porém, casos de ASI extrafamiliar em que o responsável
pelo abuso não é conhecido da criança. Os episódios
são únicos e ocorrem com maior freqüência
fora do ambiente familiar, incluindo atos sem violência física,
como a pedofilia, ou até os atos violentos como o estupro.
Como não há envolvimento direto da família, os
pais e a criança com freqüência procuram rapidamente
atendimento do profissional de saúde, contando uma história
clara de abuso.
Segundo a gravidade do ato, os abusos sexuais podem ser divididos
em : abusos sensoriais, como pornografia, exibicionismo, linguagem
sexualizada; abusos por estimulação: como carícias
impróprias em partes consideradas íntimas, masturbação,
contatos genitais incompletos; abusos por realização:
tentativas de violação ou penetração oral,
anal, genital.
Existe um curso padrão que culmina com o abuso sexual da criança.
No primeiro estágio, uma aproximação é
feita. Aqui o perpetrador tem acesso à criança e oportunidade
para comportamento inapropriado. O abusador articula situações
que permitam ficar sozinho com a criança. A criança
pode ser ameaçada se recusar a participar ou pode ganhar uma
recompensa pela cooperação. O próximo estágio
é a fase de atividade sexual típica, na qual o adulto
pode progredir do olhar para as carícias ou comportamentos
sexuais mais invasivos, como penetração do pênis
ou sexo orogenital. Neste estágio, faz-se um pedido de segredo.
A criança pode ser ameaçada com a perda das recompensas
ou com violência física, caso ela conte o "segredo
especial". Alguns adultos ameaçam machucar a criança
ou a si próprios. Outra ameaça comum é a de que
a família será desfeita e a criança forçada
a morar em uma casa de estranhos. No estágio de revelação,
o abuso se torna conhecido. Isto pode ocorrer acidentalmente ou de
propósito. A próxima fase é a de supressão.
A criança se retrai sobre o abuso, devido às ameaças
feitas pelo perpetrador ou pela negação dos pais ou
pressão familiar para negar o abuso. A criança pode
sentir-se parcialmente envergonhada ou querer proteger o abusador.
Finalmente, o abuso deve parar e iniciar-se a fase de resolução.
O ASI pode produzir feridas emocionais profundas, com efeitos de longa
duração. Geralmente, o tratamento para seqüelas
mais graves requer anos.
O profissional de saúde deve estar preparado para identificar
não apenas os casos de abuso sexual em que há evidência
de violência, como também aqueles casos intrafamiliares,
sem danos físicos, em que o diagnóstico deve ser investigado
minuciosamente.
O abuso sexual envolvendo membros da família, geralmente, não
se constitui na queixa principal da consulta, de modo que o diagnóstico
inicial pode passar desapercebido. Outros fatores concorrem para dificultar
a identificação desses casos. A negação
do problema, usualmente observada tanto por parte profissional de
saúde quanto da própria família, deve ser destacada.
O ASI chega ao serviço de saúde de três formas:
como queixa específica, feita pela vítima ou seus familiares;
por outras pessoas, que se preocupam com a possibilidade de que o
abuso possa estar ocorrendo; ou, finalmente, como causa subjacente
do problema principal da consulta, que surge após avaliação
minuciosa, mesmo que o problema principal não tenha relação
aparente com o abuso.
Poucas vezes o abuso sexual é a queixa principal. Além
disso, os serviços de emergência se constituem em sua
principal via de acesso. Desse modo, na maioria das vezes escapa à
detecção por exigir tempo e necessitar de uma equipe
multidisciplinar integrada para sua identificação e
atendimento adequado. Associa-se a isto a falta de treinamento para
o reconhecimento e o manejo do mesmo pelo profissional de saúde.
A avaliação deve iniciar com a entrevista do adulto
que trouxe a criança (sem a presença dessa). Durante
a entrevista devem ser observados e documentados a história
, o senso de percepção do adulto e sua resposta emocional
ao evento. A criança deve, então, ser entrevistada separadamente.
Deve-se iniciar com questões sobre a casa da criança,
a escola e assim por diante, gradualmente direcionado para a configuração
da família e , finalmente, para a suspeita de abuso propriamente
dito. Os profissionais que entrevistam crianças devem lembrar
que as perguntas iniciais não devem ser diretas, visando encorajar
frases e sentenças espontâneas por parte da criança;
porém, geralmente, crianças jovens requerem questões
mais específicas para provocar sua memória do evento,
pois assim, podem revelar espontaneamente os detalhes.
Recentemente, investigadores têm enfocado a possível
contribuição de desenhos das crianças e jogos
ou brincadeiras com bonecas anatômicas para confirmação
de abuso sexual.
A American Medican Association (AMA) estabeleceu um guia específico
para se entrevistar uma criança com suspeita de abuso sexual
( Quadro 1 ).
QUADRO
1
FAÇA
1. Conduza a entrevista em particular.
2. Tente estabelecer um relacionamento empático e de confiança.
3. Em caso de abuso sexual e físico grave, faça com
que a criança seja entrevistada pelo profissional mais experiente
disponível.
4. Explique o propóito da entrevista em liguagem apropriada
ao nível de desenvolvimento da criança.
5. Pergunte se a criança tem alguma dúvida e responda.
6. Cuidadosamente explique à criança a razão
e a natureza de removê-la de sua casa, se a hospitalização
for iminente.
7. Utilize os termos próprios da criança.
8. Reconheça que a situação deve Ter sido difícil
para a criança e que não foi culpa dela.
9. Sente-se próximo à criança, não em
frente a uma mesa ou escrivaninha.
10. Sente-se ao nível dos olhos da criança.
11. Faça perguntas diretas e sem julgamento.
NÃO FAÇA
1. Sugerir resposta à criança
2. Pressionar a criança para respostas que ela não seja
capaz de dar.
3. Criticar a escolha das palavras pela criança.
4. Sugerir que a criança deva sentir-se envergonhada ou culpada
pela situação.
5. Deixar a criança sem atenção ou co pessoas
desconhecidas.
6. Demonstrar choque ou horror em relação à criança
ou à situação.
7. Fazer qualquer promessa que não possa ser cumprida (por
exemplo: tudo que você me disser será confidencial; ou
você nunca mais será machucada novamente ).
SINAIS E SINTOMAS
Varios ssintomas comportamentais, psiquiátricos e físicos
aparecem na criança sexualmente abusada.
Indicadores comportamentais da idade pré-escolar
-
Choro excessivo sem razão aparente;
- Irritabilidade ou agitação extrema na criança;
- Fracasso no desenvolvimento;
- Regressão a etapas do desenvolvimento anteriormente já
ultrapassados como: enurese, encoprese, chupar o dedo, falar como
bebê;
- Presença de medo como: medo do escuro, de ir para cama, ser
deixado com certas pessoas;
- Brincadeira repetitiva de sexo com bonecas, brinquedos, animais,
com outras pessoas ou sozinha. Essa brincadeira geralmente tende a
ser bastante específica, pois a criança simula o que
aconteceu com ela. Este tipo de brincadeira ultrapassa os limites
da exploração sexual normal para a sua idade;
- Masturbação excessiva, chegando ao grau de irritar
os órgãos genitais ou comportamento repetitivo, incessante,
em público;
- Distúrbios do sono, incluindo pesadelos, recusa de ir para
cama, de dormir no quarto;
- Apego excessivo e particularmente a certos adultos;
- Retraimento de situações sociais;
- Mudança nos hábitos alimentares, tanto aumento como
diminuição do apetite;
- Conhecimento explícito de atos sexuais, acima do nível
de desenvolvimento normal para a idade.
Indicadores comportamentais da criança sexualmente abusada
na idade escolar
-
Problemas escolares, incluindo fobia da escola ( podem indicar vitimização
por empregados relacionados à escola), ausências freqüentes,
medo de ir para a casa após a escola, mudança na performance
acadêmica;
- Temas de violência em trabalhos artísticos ou escolares;
- Retraimento social;
- Desenvolvimento de amizades inadequadas à idade, especialmente
no caso de crianças menores, que possam ser controladas;
- Imagem distorcida do corpo e problemas relacionados, tais como medo
de tomar banho com outros após ginástica, medo de outros
verem-na despida e usar várias camadas de roupas para esconder
o corpo;
- Conhecimento sexual avançado para a idade;
- Excessiva mudança de humor;
- Expressões impróprias de raiva ou tentativa de suicídio;
- Início súbito de enurese;
- Distúrbios de alimentação, incluindo bulimia,
anorexia e polifagia compulsiva;
- Comportamento sexual explícito para com os adultos, tentando
agradar, flertando e fazendo propostas sexuais ( como se fosse a maneira
que a criança aprendeu para lidar com os adultos );
- Simulação de atividade sexual sofisticada com crianças
menores.
Indicadores comportamentais da criança sexualmente abusada
na idade adolescente.
-
Constante ausência de confiança;
- Relacionamento pobre com semelhantes;
- Baixa auto-estima;
- História de fuga;
- Distúrbio do sono, incluindo pesadelos, sono excessivo;
- Problemas escolares, incluindo mudanças na performance acadêmica
e ausência excessiva;
- Retraimento e isolamento de amigos e semelhantes;
- Abuso de álcool ou drogas;
- Automutilação, incluindo tatuagem, corte e queimaduras
casuais do corpo (geralmente para aliviar a dor ou pressão
interior);
- Contatos sexuais múltiplos, "má" reputação
ou agir de forma sexual indiscriminada;
- Depressão clínica, necessitando de intervenção
médica, medicamentos ou outros tratamentos;
- História de tentativa de suicídio.
Indicadores familiares de abuso sexual infantil
-
Isolamento geográfico social. A família tende a voltar-se
a si mesma, morando em uma área remota ou severamente limitada
em suas interações sociais, isto protege o segredo do
abuso;
- Extrema desconfiança de estranhos;
- Modelo de comunicação disfuncional, incluindo segredos,
comunicação indireta;
- Desequilíbrio do poder dos pais, com o pai sendo, geralmente,
autoritário;
- Reversão de funções, com uma forte necessidade
de dependência parental, a criança é forçada
a cuidar das necessidades dos adultos;
- Dependência química;
- Outras formas de violência no relacionamento, incluindo abuso
do cônjuge, abuso físico da criança e negligência;
- Problemas conjugais, incluindo disfunção sexual;
- Incidentes anteriores de abuso sexual.
Sintomas Psiquiátricos
A
sintomatologia de adultos, vítimas de abusos na infância
varia e freqüentemente preenche critérios para várias
categorias diagnósticas, segundo o CID- 10, tais como: transtorno
depressivo, abuso de álcool ou outras substâncias, transtorno
de personalidade (ressaltando o transtorno borderline), reações
de ajustamento, dissociação, transtornos psicóticos
e somatização. A dissociação ocorre quando
as vítimas do abuso sexual se distanciam psicologicamente da
realidade, da confusão, da dor e do sofrimento do episódio
abusivo.
Uma vítima de abuso sexual pode exibir vários sintomas
de dissociação, tais como: não estar "centralizada
"ou tocando o chão, sentindo-se fora do corpo, não
se sentindo como se fosse ela mesma, perdendo contato com a realidade
ou olhando a si mesma de uma certa distância. A mais extrema
forma de dissociação resulta de uma desordem de personalidade
múltipla. Pessoas com este distúrbio têm duas
ou mais personalidades distintas, que tomam total controle de seu
comportamento. Pesquisas têm demonstrado que a maioria das pessoas
com transtorno de personalidade múltipla tem uma história
de ASI.
A somatização surge de uma percepção disfuncional
do corpo. Vítimas de abuso sexual podem tornar-se preocupadas
com seu próprio corpo e sua vulnerabilidade para doenças.
A somatização tem muitas manifestações
físicas (Quadro 2).
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QUADRO
2
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Manifestações
de somatização em crianças sexualmente
abusada
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1.
Cefaléia
2. Distúrbios do sono.
3. Distúrbios do apetite.
4. Distúrbios gastrointestinais
-----síndrome do cólon
irritável
-----cólon espástico
-----náuseas e vômitos
5. Manifestações ginecológicas
-----dor pélvica crônica
-----dispareunia
-----vaginismo
-----dismenorréia
6. Asma.
7. Palpitações.
8. Tensão muscular
9. Desmaios, fadiga e síncope. |
Sintomas Físicos
Dentre
os sintomas físicos temos: dor abdominal crônica, enurese,
encoprese, infecção recorrente do trato urinário,
corrimento vaginal, dano anogenital, queixa anal, principalmente em
vítimas do sexo masculino ( fissuras, constipação)
e gravidez na adolescência.
Sintomas a Longo prazo
Entres
os sintoma a alongo prazo freqüentemente associado com abuso
sexual prévio, encontram-se: distúrbios psicológicos
e psicossomáticos, frigidez, vaginismo, dispaurenia, promiscuidade
sexual, impotência, pedofilia e pederastia, dificuldade sexual
no casamento, incesto, prostituição, homossexualismo,
uso de drogas, delinqüência juvenil, baixa auto-estima,
depressão, sintomas conversivos e dissociativos, automutilação
e múltiplas tentativas de suicídio.
Exame Físico
O
exame deve ser completo e orientado para a pesquisa de trauma físico
ou sexual. Os achados variam, desde o exame físico normal até
manifestações físicas dificilmente negáveis,
como doenças sexualmente transmissíveis (DST) e gravidez
em idade precoce. A ausência de achados físicos não
exclui o diagnóstico de abuso sexual em crianças.
Ao iniciar-se o exame, é importante saber se o abuso é
recente (menos de 72 horas), pois nestes casos haverá maior
probabilidade de achados físicos. Também é relevante
conhecer se houve penetração e qual a freqüência
da penetração, pois poderão servir como guia
de orientação para o exame físico.
Os achados encontrados na área genital e anal variam, incluindo:
eritema, escoriações, lacerações, fissuras,
hematomas, sangramentos, corrimentos, presença de sêmen,
edema genital, evidências e sinais de DST, vaginite, uretrite
e gravidez. Lesões físicas em zonas não genitais
também podem ocorrer, concomitantemente com o abuso sexual.
As lesões mais traumáticas costumam ocorrer em episódios
únicos. Também se observou que crianças submetidas
a abusos pelos pais ou parentes têm menos achados físicos
em comparação quando o responsável pelo abuso
é um estranho. Após múltiplos episódios,
os achados físicos são mais sutis e lacerações
e hematomas são raros. Quando há penetração
vaginal, nota-se um aumento no tamanho do orifício himenal
normal para idade.
Quando a penetração é anal, freqüentemente
há hiperpigmentação perianal, espessamento da
pele perineal, perda das dobras normais do ânus e diminuição
do tônus muscular ao exame digital. Ruptura parcial do esfíncter
anal pode acarretar incontinência fecal, mas este é um
achado raro.
Evidências Forenses
O
tempo de sobrevida do espermatozóide se encontra diminuído
em garotas pré-púberes, devido à falta de muco
cervical. A demora em fazer o exame diminui a probabilidade de que
os espermatozóides sejam detectados. Estes raramente têm
sido detectados em secreções cervicovaginais de vítimas
de estupro pós-puberdade com mais de 12 horas do abuso. A fosfatase
ácida positiva tem sido encontrada por mais de 22 horas após
o abuso sexual e por mais de 30 horas após relação
sexual voluntária. Como os espermatozóides são
detectados em espécies sem atividade de fosfatase ácida,
o teste da fosfatase ácida não deve ser o único
método usado para se avaliar a presença de sêmen.
Uma glicoproteina do sêmen de origem prostática, p30,
tem sido detectada em swabs de fluido vaginal até 47 horas
após relação sexual voluntária. A utilização
de um anticorpo monoclonal para um peptídio secretado pela
vesícula seminal no homem, MHS-5 (Mouse Antihuman Sperm-5)
não é dependente da presença do esperma e tem
sido usado com sucesso na identificação de fluido seminal
em amostras forenses até seis meses depois do ato.
A evidência de fluido seminal não é o único
material forense que pode ser coletado durante o exame da vítima
de abuso sexual. Qualquer anormalidade ou material que corrobore uma
história de abuso sexual será uma evidência e
deve ser documentado e preservado.
Notificação
Reportar
casos suspeitos de abuso sexual é sempre ético, uma
vez que a finalidade é proteger a saúde da criança.
Uma criança sexualmente abusada que permanece não identificada,
não notificada, não tratada, está sujeita a abusos
subsequentes e a uma multiplicidade de seqüelas de longa duração.
* Médico Psiquiatra.
Residência no Hospital do Servidor Público Estadual de
São Paulo.
Formando em Psicoterapia Existencial pela SAEP e IFEN.
Médico concursado do Hospital Municipal Jurandyr Manfredini
(Colônia Juliano Moreira).
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