Ana
Cláudia Delfini*
"A
história mostra bem, com efeito, que os delírios mentais
não são puras atividades dos doentes, mas construções
coletivas, nas quais o meio-ambiente intervém pelo menos
tanto quanto o próprio doente." Roger Bastide
Este
artigo é fruto de uma pesquisa sobre saúde mental
e imigração italiana em Santa Catarina*, que busca
discutir os modelos institucionais de tratamento da loucura presentes
no Brasil a partir do séc. XIX, avaliando seus reflexos e
desdobramentos em Santa Catarina, analisando especificamente o tratamento
dispensado aos doentes mentais, (dentre eles alguns descendentes
de colonos italianos) pelas duas instituições que
marcaram modelos e concepções diferenciadas sobre
a loucura: o Asilo de Azambuja, em Brusque, e o Hospital Colônia
Santana, em São José.
A partir de 1910 a cidade de Brusque passou a contar com uma das
primeiras instituições asilares do Estado, o Asilo
de Azambuja, responsável pela assistência aos doentes
mentais da região, muitos deles descendentes dos italianos
que colonizaram a cidade. Em virtude da existência desse Asilo,
circulava uma frase muito comum na região referente a cada
novo "suspeito" que entrava na cidade: "Mais um pra
Brusque", indicando que chegava mais um "louco" para
o Asilo.
Desse modo, o presente artigo discutirá a percepção
sobre a loucura em diversos aspectos, desde as autoridades municipais
em Santa Catarina até o modelo asilar referente ao Asilo
de Azambuja. Também discutirá o modelo científico
com o desenvolvimento da psiquiatria no Estado através da
construção da Colônia Santana e seu respectivo
tratamento conferido aos internos do Asilo que foram para lá
transferidos, assim como os demais descendentes de colonos italianos
internados na Colônia.
Interessa-nos, pois, revisitar a vinda dos imigrantes italianos
para Brusque adentrando no mundo imaginário da loucura, uma
análise comumente não realizada nos estudos sobre
imigração, percebendo a incidência de casos
de internação referentes a seus descendentes na época
da inauguração das instituições acima
referidas.
A questão da loucura no contexto nacional e em Santa Catarina
Na
segunda metade do século XIX, começou-se a pensar
e a praticar uma assistência psiquiátrica no Brasil
mediante a implantação da instituição
asilar com a construção de hospitais de alienados
nos principais centros nacionais, configurando-se uma assistência
psiquiátrica cujo perfil estava adequado às propostas
e necessidades políticas e sociais de modernização
do país, conferindo antes uma assistência do que um
tratamento curativo. O assistencialismo e a filantropia são
característicos das instituições de misericórdia
do sistema asilar, instalados no Brasil pelos colonizadores portugueses.
No período Imperial, os "loucos" que pertenciam
à elite eram cuidados e vigiados pela própria família.
Os que não pertenciam à mesma, eram enviados para
asilos ou hospícios administrados por religiosas. Tais instituições,
nesse momento, não possuíam um caráter curativo
ou científico, apenas tinham o intuito de excluir do convívio
social aqueles sujeitos considerados perigosos, loucos. Sob os cuidados
das religiosas, os loucos ficavam em porões, trancafiados
e presos na lógica da submissão caridosa imposta por
este tipo de assistência.
Neste sentido, Michel Foucault, ao analisar a loucura, assinala
que as estruturas asilares eram consonantes com as exigências
da ordem social, da luta contra a desordem e o mal-estar social.
Era, pois, necessário que se isolasse os doentes e os "inconvenientes",
desenvolvendo-se assim, no decorrer do século XVIII, instituições
como as prisões, os hospitais e os hospícios.
Quando escreveu a respeito da loucura (História da Loucura-1961),
Foucault procurou mostrar como o discurso da psiquiatria desenvolveu
um discurso sobre o louco. O discurso da psiquiatria é o
tratamento, a cura, mas o seu inverso (as práticas) garantia
a manutenção da normalidade assegurada pelo trancamento
do louco. A delinqüência, bem como a loucura, ameaça
o sentido da normalidade e o funcionamento social. Confinar o louco
é uma maneira de manter a ordem das coisas e garantir o bom
funcionamento da sociedade
Foucault afirma que a polícia médica delineada no
século XVIII, nos países da Europa, tinha como reflexo
a organização da família e, por conseqüência,
a função higienista do corpo. O indivíduo passa
a ser dependente da medicina, o que se manifesta através
dos "médicos que se apoderam da existência de
seus clientes, exercendo seu poder sobre o corpo". Assim, "o
médico se torna o grande conselheiro e o grande perito, senão
na arte de governar, pelo menos na de observar, corrigir, melhorar
o 'corpo' social e mantê-lo em um permanente estado de saúde".
(FOUCAULT, 1979, p. 203)
Isto se deve ao entendimento do "corpo" enquanto um elemento
passível de estudo, sendo problematizado a partir do século
XVIII mediante uma série de políticas públicas
efetuadas tanto pelo Estado como por grupos religiosos (especialmente
os quackers), entidades filantrópicas/beneficientes e as
Academias de Ciência. Em virtude disso, desenvolveu-se uma
"política de saúde" com preocupações
anteriormente nunca pensadas ou sentidas. Esta nova política
de saúde permitiu o deslocamento do entendimento da doença
do campo da assistência social para novos campos como a economia
e a política. Opera-se, nas palavras de Foucault (1979:196):"um
esquadrinhamento mais rigoroso da população e das
distinções que se tenta estabelecer entre as diferentes
categorias de infelizes (...) o 'pobre' é um dos primeiros
a desaparecer e ceder lugar a toda uma série de distinções
funcionais (os bons e maus pobres, os ociosos voluntários
e os desempregados involuntários)."
A partir do final do século XVIII, pois, consolida-se a noção
de bio-poder como arte do bom governo, do controle social baseado
nos diagnósticos médicos. A história biológica
do indivíduo se inscreve na pele e por meio do seu corpo.
A importância conferida à medicina e ao hospital como
agentes promotores da saúde originou uma nova economia que
visava garantir a saúde de todos embora esse 'todos' simbolizasse
uma aguda diferenciação social. Além de um
certo tipo de pobre, um pobre socialmente produtivo, também
os desempregados e deficientes passaram a ser alvo de técnicas
de saúde com vistas à manutenção de
seus corpos - vivos e úteis. Não se tratava de erradicar
a pobreza ou curar o deficiente, mas desenvolver uma política
de saúde na qual a vigilância e a intervenção
do Estado tornassem seus corpos 'úteis' dentro de um corpo
maior - o corpo social.
O corpo passa, pois, por uma série de novas significações,
de novos sentidos. Não apenas um corpo forte ou fraco, doente
ou saudável, rico ou pobre, válido ou inválido,
mas, um corpo sujeito a ser útil, propício a ter e
exercer funções sociais rentáveis ao Estado.
Deste modo, a preocupação com a saúde é
antes uma preocupação com o utilitarismo do corpo.
Estas preocupações podem ser visualizadas através
da ação da polícia enquanto mantenedora da
ordem que assegura o bem-estar de "todos", através
de práticas como a regulamentação das mercadorias
(procedimentos de fabricação e circulação),
cumprimento das medidas de ordem (vigilância de indivíduos
suspeitos, caça aos vagabundos que poderiam incluir mendigos,
criminosos, prostitutas), o respeito às regras gerais de
higiene (cuidar da qualidade dos gêneros postos à venda,
do abastecimento da água, limpeza das ruas etc...). A saúde
torna-se um dos maiores objetivos da polícia médica,
que vê na família um importante aliado, um agente constante
de medicalização como mostra Foucault:
Desde
o fim do século XVIII o corpo sadio, limpo, válido,
o espaço purificado, límpido, arejado, a distribuição
medicamente perfeita dos indivíduos, dos lugares, dos leitos,
dos utensílios, o jogo do 'cuidadoso' e do 'cuidado', constituem
algumas das leis morais essenciais da família. (Foucault,
1979, p.199)
Assim,
havia um novo entendimento das funções médicas
e hospitalares referentes ao espaço urbano. A cidade passa
por um processo de medicalização onde ela é
vista como um importante espaço sanitário. Crescem
as campanhas de vacinação pública, as intervenções
autoritárias do poder na ordem da higiene e das doenças.
Conhecer a cidade implica em conhecer sua população,
seus bairros, seu espaço geográfico, sua umidade,
arejamento, seu sistema de esgotos, a localização
dos cemitérios, prisões e portos, significa conhecer
para intervir caso surjam focos de doença.
Dessa forma, o alienismo assume um caráter social embasado
na teoria da "degenerescência" destinada à
disciplinarização e limpeza das cidades. A medicina
psiquiátrica assumiu um caráter de intervenção
no organismo social não restringindo a sua atuação
apenas nos indivíduos mas na saúde das cidades. A
partir da segunda metade do século XIX houve a construção
de hospitais de alienados nos principais centros nacionais, porém,
a assistência psiquiátrica intensifica-se apenas no
início do século XX com uma legislação
específica.
Com a pressão vinda tanto por parte da população,
que não admitia o tráfego dos loucos pela rua, como
dos intelectuais e médicos, que achavam um absurdo os tratos
aos quais eram submetidos os internos dos asilos e hospícios,
o Estado Imperial inaugurou em 1852, na cidade do Rio de Janeiro,
o primeiro hospital psiquiátrico, chamado Hospício
de Pedro II. Não possuindo ainda um corpo de especialistas
para atuar na área, a instituição ainda era
dirigida por religiosas. Sua clientela era composta de pessoas pobres,
marginalizadas e "inconvenientes".
Com a ruptura entre a Igreja e o Estado, ocorrido em virtude da
proclamação da República, houve a possibilidade
de ascensão do saber médico/científico com
a passagem das instituições para as mãos dos
psiquiatras. Todavia, a caridade continua sendo um método
muito eficaz que garantia o controle do louco através da
sua submissão perante uma força maior - "o amor
ao próximo, o bem-estar" - que inibia o diálogo
e pressupunha a eterna obediência e a eterna gratidão
por parte do doente mental.
Neste sentido, a loucura continuava a ser tratada com métodos
que misturavam o saber religioso, orações e cuidados
gerais com o corpo (banhos, alimentação etc...), com
métodos terapêuticos naturais, como o recurso aos banhos
frios e a exposição ao sol.
Como representante legítimo do Estado, o saber psiquiátrico
vem modificar toda estrutura de representação e função
das instituições. Antes encarado como forma de ordem
e segurança, passa a ser visto como um problema de saúde/doença.
Além de rotulados como anormais, tenta-se explicar o porquê
de tal anomalia, encarando-a como doença, correspondendo
a uma outra forma de controle. Os doentes continuam a ser excluídos
do meio social, pois são como um "câncer"
que deve ser isolado e tratado. Continua a exclusão, só
muda o modo de encarar o excluído, antes anormal, agora doente.
Com o fim da escravatura (oficial) e a vinda dos imigrantes, os
centros urbanos aumentaram. Com a necessidade de mão-de-obra,
a recuperação dos "excluídos" torna-se
foco principal dos discursos psiquiátricos. O conhecimento
psiquiátrico é ampliado através das universidades
e hospícios no que diz respeito à loucura.
A construção dos hospícios-colônias teve
como finalidade tanto o afastamento dos "loucos" do convívio
social nos grandes centros, já que tais instituições
eram afastadas, como o de fazer com que os doentes trabalhassem
no auto-sustento do hospital, através das atividades na lavoura,
diminuindo os gastos do Estado. Como diz Nelson:
"A
política de construção de hospícios-colônias,
assim como o trabalho como forma de tratamento, não foi adotada
apenas como alternativa para diminuir os gastos do Estado. Esta
política foi incrementada justamente por ir ao encontro dos
interesses do incipiente capitalismo brasileiro, que necessitava
cada vez mais de mão-de-obra. Era preciso que todos trabalhassem,
inclusive os doentes mentais."(SANTOS, 1994,p.82.)
A
normatização deveria atuar em todas as áreas,
ruas, fábricas. As antigas casas e cortiços foram
demolidos por serem considerados focos de doenças, epidemias,
infecções. A cidade passa a ser vista como um organismo,
sendo necessário mantê-lo saudável, evitando
as doenças que proliferavam dos lixos, do mau cheiro permanente,
da falta de saneamento básico, e conseqüentemente, as
pessoas que moravam nestes lugares insalubres, isto é, os
pobres.
A psiquiatria e suas instituições aumentaram de tamanho,
construiu-se novos leitos e hospitais devido ao problema freqüente
da superlotação. A partir de 1919 a abordagem psicanalítica
funde-se com as concepções biológicas científicas,
sendo criada em 1923 a Liga Brasileira de Higiene Mental (LBHM),
instituição responsável pela criação
do primeiro projeto de gestão social da loucura no Brasil.
Sua atuação teve como princípio a ampliação
dos hospícios-colônias, os quais deveriam adotar medidas
de higiene mental para a melhoria da saúde dos loucos. Incorporou
também no seu discurso a eugenia, que tinha como objetivo
primordial a purificação das raças,desejando
criar uma nova raça brasileira, a qual deveria ser "mentalmente
sã", sem vícios, dentro dos padrões de
conduta de uma sociedade "civilizada".
Na década de 30, no governo de Getúlio Vargas foi
criado o Ministério da Educação e Saúde
Pública que passou a controlar a Assistência a Psicopatas
do Distrito Federal. Outra medida importante tomada por Vargas foi
o decreto que dava proteção e assistência aos
pertences dos psicopatas, bem como a fiscalização
dos cuidados dados aos pacientes nas instituições
psiquiátricas. Os tratamentos foram estendidos para o ambiente
familiar, visando a diminuição da superpopulação
dos hospitais. O tratamento extra-hospitalar deu grande poder à
psiquiatria, que começa a atuar dentro e fora dos hospitais
através da prática de prevenção.
Tal prática criadora e difusora de ideologia, penetra no
corpo social e prolifera uma determinada racionalidade que conceitua
o certo e errado. Quando assimilada pela grande massa, tal conceito
passa a ser encarado como verdade. Sob o cunho moralista, devido
a alegação da necessidade da erradicação
desse mal, os poderes públicos acentuaram a vigilância
e o controle sobre aquelas pessoas - bêbados, loucos, prostitutas
- consideradas potencialmente vítimas e proliferadoras da
doença. Eram pessoas tidas como "desviantes" que,
ao circular pelas ruas, incomodavam a organização
e a higiene da cidade.
Na década de 40, com a criação do Serviço
Nacional de Doenças Mentais dirigido por Adauto Botelho,
que concordava com a prática de asilamento, houve a iniciativa
para a construção de novos hospitais, dentre eles
a Colônia Santana, em Santa Catarina, que seguiu seu trajeto
dentro dos parâmetros nacionais, não fugindo dos padrões
das demais instituições brasileiras.
Contudo, a loucura já era um problema muito antigo em Santa
Catarina. Podemos perceber como essa questão foi tratada
pela municipalidade desde o final do século XIX, evidenciando
diferentes sensibilidades frente à loucura, como passaremos
a mostrar.
Há muito que a municipalidade manifestava-se a respeito da
construção de um hospital através das inúmeras
falas dos presidentes da Província, dentre os anos de 1881
a 1907, dirigindo diversas manifestações do poder
público no sentido da organização de um hospital.
Em 1876 o Presidente da Província de Santa Catarina, João
Capistrano de Mello Filho, fala da inexistência de um hospício
de alienados/cadeia, quando então os loucos eram removidos
para Ilha de Anhatomirim e de Santa Cruz, embora houvesse a lei
provincial de 6 de maio de 1874 (n.721) que designava no artigo
4 o auxílio de 5 contos de réis para edificação
de um prédio destinado ao recolhimento de alienados.
Este problema permanece ainda em 1881, quando na fala de João
Rodrigues Chaves ao Presidente da Província, chama a atenção
para a necessidade de um hospício, pois o "Imperial
Hospital de Caridade abriga em um pequeno quarto os doentes mentais".
Pede a construção de um "asylo para mendigos
a fim de evitar-se que continue a esmolar pelas ruas e praças
públicas incommodando aos transeuntes, um meio de afugentar
a muitos que pedem esmolas por ociosidade e preguiça, em
logar de procurarem ganhar a vida pelo trabalho. Os alienados são
infelizes, loucos, de condição pobre, (...) para manter
a ordem e a tranqüilidade publica precisa de todo cuidado e
vigilancia."
Nesta fala fica evidente a necessidade de um asilo para livrar as
ruas da então pacata e decente Nossa Senhora do Desterro,
de gente pobre esmolando e incomodando os transeuntes nas praças
públicas. Os mendigos devem ser afastados, assim como os
alienados, das praças, lugar de sociabilidade para a elite
local, cartão visita das cidades, e serem então recolhidos
para um mesmo local - o asilo, eximindo-se assim, as autoridades
locais da responsabilidade em cuidar tanto dos pobres, tidos como
ociosos e preguiçosos, como dos doentes mentais, tidos como
alienados infelizes, loucos e pobres. No jornal, A Verdade, de 15/09/1921,
fica evidente a ameaça que um louco representava para os
"jardins" da cidade:
"Antonio
de tal foi acometido de um ataque de loucura. No Jardim Oliveira
Bello, arrancou flores, inutilizou plantas, pizou a grama, quebrou
galhos de árvores, ao passar pelos postes, estreita-vos num
forte amplexo, julgando tratar-se de algum velho camarada, cantava,
pulava, brincava, enfim, fez o diabo. A polícia, que não
gosta de ver essas trepolias, agarrou o Antonio. Sabendo-o de Palhoça,
para as autoridades de lá o enviou."(FONTOURA, 1997,
p. 74)
Percebe-se,
pois, como o discurso higienista esteve presente na cidade de Florianópolis
no início do século, quando então a cidade
passava por reformas urbano-sanitárias nos moldes das cidades
como Rio de Janeiro e São Paulo, que por sua vez, copiavam
as cidades européias. Antigas casas e cortiços foram
demolidos, considerados focos epidêmicos, proíbe-se
jogar dejetos no mar ou enterrar em espaços abertos como
praças e jardins, a rede de água é criada em
1910, a energia elétrica bem como a construção
de novas ruas e avenidas.
Dessa forma, as políticas higienistas foram decisivas para
o controle da população e para a promoção
do progresso, do urbano associado ao novo, das cidades saudáveis
e limpas de pessoas infectas, sujas, que põem em perigo a
saúde das pessoas, como evidenciam os relatórios dos
presidentes da Província até meados de 1910, sendo
constantes as queixas pela falta de um hospício que tratasse
dos alienados, infelizes, "quase todos sahidos das classes
mais pobres, andam a vagar pelas ruas desta cidade com risco de
seus habitantes. É um espetáculo indigno da nossa
civilização", mostrando a freqüente associação
da loucura com a pobreza.
Nota-se o quanto os loucos perturbavam os presidentes da Província
até o início do século, não sabendo
estes o que fazer com aqueles. Em 1936 o governador Nereu Ramos
também posicionou-se a respeito, numa mensagem proferida
à Assembléia Legislativa, segundo Nelson Santos: "Já
é tempo de se cuidar da construção pelo Estado
de um estabelecimento em que se recolham os alienados e onde lhes
ministre o tratamento que a Psiquiatria vem aperfeiçoando."(SANTOS,
1994, p.85)
Diante de todas as considerações acima, podemos inferir
que as preocupações das autoridades públicas
e sanitárias de Santa Catarina direcionavam-se à separação
e reclusão dos "alienados" do resto da população
considerada "sadia", aquelas economicamente ativas e pertencentes
às elites políticas locais. Sendo assim, interessa-nos
averiguar a percepção e o tratamento da loucura no
Estado de Santa Catarina a partir das duas instituições
que inauguraram concepções diferenciadas da loucura:
o Asilo de Azambuja e a Colônia Santana.
O
Asilo de Azambuja
Inaugurado
oficialmente em 29 de junho de 1902, a Santa Casa de Misericórdia
de Azambuja englobava um hospital, asilo, orfanato e hospício.
Porém, em 1901 já havia uma antiga casa de madeira
para os doentes que eram separados de acordo com o seu grau de "normalidade",
sendo metade destinada aos doentes "normais" e a outra
para os "anormais".
O relatório do padre Gabriel Lux, em 18 de outubro de 1908,
narra a história do Asilo a partir da história do
santuário de Azambuja, que foi construído pelos imigrantes
italianos da província de Milão que trouxeram uma
cópia do quadro milagroso de Nossa Senhora do Caravagio,
"querendo transplantar para aqui as tradições
religiosas da velha pátria." Provavelmente seu relato
foi tirado das atas escritas pelas irmãs da Divina Providência
que se referiam a este episódio da seguinte forma:
"Uns pobres colonos italianos vindo-lhes em 1884, trouxeram
um antigo quadro de Nossa Senhora de Caravagio muito venerada nas
proximidades de Milão. Estabelecendo no seu aprazível
recanto de Azambuja, levantaram uma modesta capela em honra de Maria
Santíssima, e depois do trabalho os obscuros camponeses visitavam
a querida mãe de Deus e ela retribuía o amor e a confiança
daquela boa gente com numerosos e manifestos favores"
Em
1876 os colonos iniciaram a construção de uma pequena
capela em um terreno pertencendo a Pietro Colzani, pronta 09 anos
depois, em 1885. Em 1892 o padre Antonio Eising assumiu a paróquia
e construiu o hospital e "asylo de desvalidos, velhos e cegos",
sendo inaugurado em 29 de junho de 1902, com 03 irmãs da
Ordem Divina Providência responsáveis pela assistência
as doentes.
"A caridade não tem pátria", era o grande
lema da Ordem Divina Providência, que reunia, "como uma
grande família, alemães, italianos, polacos, poloneses,
austríacos. Recebe a subvenção anual do governo
do Estado (paga o número de 5 dementes no valor de 1$500
réis), da municipalidade e da ajuda dos bravos colonos e
de esmolas."
De acordo com o relatório do padre Lux, percebe-se a presença
dos "bravos colonos" de Brusque/Azambuja na manutenção
e nos cuidados com o asilo, porém, há uma carta datada
de 1903, escrita pelo padre Antonio Eising ao bispo diocesano de
Curitiba, que mostra que a cidade não se preocupava muito
com os "bravos/pobres colonos". Nesta carta, Eising pede
a construção de um cemitério no hospital pois
"o hospital não tem pessoas para acompanhar e levar
os cadáveres até Brusque, como também estão
fracos. Em Brusque, a gente não se importa com os fallecidos
de Azambuja porque regularmente são pobres colonos."
De acordo com o inspetor de saúde do estado, Dr Joaquim David
F. Lima, em sua visita ao Hospital de Azambuja, junto ao chefe de
polícia, o asilo representava uma verdadeira:
"casa
de misericórdia, preenche ao mesmo tempo os fins de hospital,
asylo de inválidos e desamparados, e hospício de alienados.
A direção médica do hospício será
confiada a um médico, de nacionalidade alemã, especialista,
em que o padre Lux já se entendeu por carta. Acredito que
uma vez que esteja funcionando regularmente aquelle hospício
e sob a direção technica de um médico alienista,
ficará em Santa Catharina perfeitamente satisfeita esta grande
necessidade actual de assistência aos alienados."(apud
FONTOURA,1997, p. 28)
Visualiza-se,
pois, uma das primeiras iniciativas em se tratar da loucura mediante
um saber médico, especializado, que estavam se desenvolvendo
no início do século. Entretanto, permanece o atendimento
assistencialista religioso, e, apesar das boas intenções
na construção do asilo, as irmãs da Divina
Providência relatam um tratamento nada positivo em seu início:
"Tudo
ainda era pobreza não a vendo outra renda a não ser
a generosidade do povo desta terra faltando às vezes as mais
necessárias. A subsistência alimentar vem por dádivas
dessa boa gente entretanto faltavam muitas coisas como roupas e
medicamentos e todo o material para construção digna
de um hospital pois os doentes estavam deitados em péssimas
camas alojadas em casebres que se achavam espalhados pela vizinhança.(...)Confiando
no auxilio da divina providencia e na proteção da
querida mãe do céu começamos o ano de 1942
mesmo trouxe para nós uma grande mudança pelo de já
a tempo planejado o transporte dos alienados ao novo hospital ereto
pelo governo do estado no município de São José.
As irmãs Fernandina e Custodia já tinham algumas semanas
antes providenciando todo o necessário ao nosso instituto.
Em 4 de janeiro o governo mandou um caminhão e em 6 do mencionado
mês levava dois outros caminhões os últimos
alienados das colônia Santana. Assim nos deixavam nesse dia
também irmãs Telefora e a irmã Francelina as
quais conforme os desejos do governo partiram com os doentes, desse
modo estava fechado o hospício de Azambuja fundado em 1902."
Num
outro trecho, há um relato que mostra o difícil convívio
com os doentes, agora chamados de "mentecapatos" e tratados
por um "médico especialista". Neste relato, um
pouco confuso, as irmãs narram uma perturbação
sofrida por um dos padres que atendiam ao asilo, supostamente uma
perturbação psíquica que foi redimida graças
`as sangrias, ao confinamento e às orações,
mostrando um tratamento à base de isolamento e oração:
"No
dia 26 de junho de 1933 esteve aqui um médico especialista
de mentecaptos a vê se poderia o reverendo Cornego Nicolal
Geising Ele declarou que aqui não haveria cura para o bom
sacerdote sendo que deveria ser levado a um sanatório sem
com tudo poder garantir a cura, fez-se uma sangria no reverendo
padre para aliviar a cabeça da grande pressão do sangue
e ficou combinado que o doente seria levado a Itajaí para
ser observado melhor e de perto pelo médico. E agora aos
27 de manha o padre Nicolau ainda está bastante perturbado
e reclama pela sua liberdade fazendo-se a vontade dele, passa-se
o reverendo padre Nicolau a tarde na companhia dos reverendos padres,
pela noite porem pedem eles que se retirassem para seu quarto de
grades obedecendo espontaneamente, deixa-se trancar. Chegamos hoje
ao ultimo dia da novena do sagrado coração de Jesus
feita para todos os devotos no santuário pela saúde
do nosso estimado doente. De fato parece que ele está curado
pois logo no dia seguinte a novena celebra ele a santa missa com
tanta devoção como se nunca tivesse estado doente
graças ao bom Deus pelo favor alcançado. O reverendo
cônego Nicolau Geising passou perturbado aqui em nosso tratamento
do dia 29 de novembro de 1933 até 37 de junho de 1934 no
total de 211 dias".
Entretanto,
a perturbação psíquica parecia mesmo séria
pois ainda em 1937 este "cônego Nicolau Geising, doente,
foi a pedido do Sr. Dr. Bruno Chichon, enviado ao hospital de alienados
em Curitiba. Depois de longa estadia e tratamento, voltou infelizmente
pior." Parece que as perturbações psíquicas
atingiam muitos religiosos, tanto padres como seminaristas e as
próprias freiras, como mostram os trechos abaixo:
"Deus
visitou os seminaristas, um deles já filósofo desde
algumas semanas doente das faculdades mentais. Alta noite de 13,
14 de outubro teve que ser buscado de volta da chácara onde
tinha sido alojado devido aos visitantes, como é triste um
homem tão piedoso e jovem num tal estado, uma vocação
perdida. Estamos a espera de visitas das reverendas irmãs
madres as quais decidirão sobre a organização
do novo hospital quanto a clausura. (...)"
A
mesma concepção de isolamento em celas é expressa
no relatório de Lux em 20 de janeiro de 1909 ao bispo diocesano
João Becker, quando fala da necessidade de clausura e de
banhos terapêuticos como forma de tratar tanto os "epidêmicos
como os alienados", como se ambas as coisas fossem iguais.
Porém, esse tratamento era dispensado aos alienados mais
agitados, os "turbulentos":
"Para
doentes de moléstia infectuosa e para alienados turbulentos
tem se feito e já está concluído um pavilhão
de isolação contendo, além de um largo corredor,
três celllas, uma cellla para banhos e um páteo fechado.(...)
O valor do pavilhão eleva-se a três contos de réis,
além das despesas com jardins, hortaliças, pomar,
tudo para diminuir os gastos na cozinha. Além de um provedor
e um servente, nenhuma das pessoas do serviço da casa é
assalariada, mormente as irmãs da Divina Providência
não recebem remuneração pecuniária nenhuma
por seus abnegados serviços da caridade cristã."
O padre quer ressaltar o serviço abnegado das irmãs,
porém, queremos chamar a atenção para a proximidade
do asilo à natureza, e das construções de jardim,
hortas, pomares também como formas terapêuticas próprias
do tratamento na concepção asilar. Em seu artigo sobre
o Hospício São Pedro em Porto Alegre, Alexandre Schiavoni
faz o seguinte comentário que pode ser comparado ao Asilo
de Azambuja:
"Se,
por um lado, o louco é possuído por visões
irreais, olhar equívoco e distorcido sobre as coisas, por
outro, é a natureza, por perfeição própria,
lugar de retidão e ortopedia, realidade despossuída
de fantasmagorias, de correção do real. Foucault no
diz que esta perspectiva que valoriza a natureza curadora é
anterior ao advento do manicômio, e que por isso, nos projetos
de construção destes hospitais na Europa do séc.
XIX, o médico Esquirol recomendava que cada cela fosse aberta
para a vista de um jardim." (SCHIAVONI apud LEAL, 1995, p.
331)
No relatório de 16 de janeiro de 1911, Lux descreve a construção
do asilo, que evidencia a forma de entendimento sobre o tratamento
referente à loucura:
"Conclui-se
a obra do asylo de alienados. Consiste em duas alas laterais e uma
parte central reservada à administração. Cada
ala lateral tem um dormitório vasto, duas cellas particulares,
um banheiro, uma sala para a refeição e um páteo
de recreio. A casa central contém na parte térrea
dois quartos de serventes, a cozinha, dois quartos fortes no sobrado
e cinco quartos. Cada asylo tem 31m de comprimento sobre 8 ½
respectivamente com 12m de largura. No terceiro andar tem uma capela
privada e mais alguns quartos."
A própria construção do prédio asilar
demonstra suas preocupações terapêuticas voltadas
para o controle dos alienados, sendo a parte central reservada à
administração, quartos "fortes", as celas
de banho , os pátios para exposição ao sol
e descanso e, como não podia faltar, a capela. O fato da
administração ficar no centro do prédio é
muito sugestiva, lembrando o panóptico descrito por Foucault.
O Panóptico de Bentham é uma figura arquitetural,
cujo princípio é:
"na
periferia uma construção em anel; no centro, uma torre;
esta é vazada de largas janelas que se abrem sobre a face
interna do anel; a construção periférica é
dividida em celas, cada uma atravessando toda a espessura da construção;
elas têm duas janelas; uma para o interior, correspondendo
às janelas da torre; outra, que dá para o exterior,
permite que a luz atravesse a cela de lado a lado. Basta então
colocar apenas um vigia na torre central[...] pelo efeito da contraluz,
pode-se perceber da torre[...] as pequenas silhuetas. [...] O dispositivo
panóptico organiza unidades espaciais que permitem ver sem
parar e reconhecer imediatamente." (FOUCAULT, 1987, p. 165-166)
No
relatório de 01 de julho de 1919, Lux narra o problema da
superlotação e dos gêneros:
"A
maior inconveniência no hospício consiste em que tenho
loucos de ambos os sexos na mesma casa, é um perigo. Se tivéssemos
um só sexo poderia-se facilmente augmentar a capacidade da
casa elevando-se um andar a mais. Deste modo podia ganhar lugar
para mais 40 camas. Já propuz ao governo que, terminado o
contracto, retire daqui os loucos do mesmo sexo, continuarão
em Azambuja com o outro, mas este senhor nem me responde, talvez
porque não sabe aonde metter os loucos. A municipalidade
de Blumenau intenciona fazer um hospício para homens loucos,
mas temo que hão de passar uma série de anos antes
de acabar esta casa. A questão dos loucos é uma das
mais urgentes a resolver pois só nesse Estado calculo a 500
o número de loucos."
Este problema segue no ano seguinte, na administração
de pde Henrique Lindgens, que também pede ao chefe de polícia
para que os loucos, que o Estado não pagou as diárias,
sejam recolhidos na cadeia da cidade por não haver possibilidade
de sustentá-los. Isso se repete até 1926 - várias
procurações são encaminhadas à Delegacia
Fiscal do Tesouro Nacional pelo Procurador João Joaquim Garcia
Netto. Dessa forma, os loucos perambulam ora em hospitais, asilos,
cadeias e fortalezas, até à construção,
em 1942, do hospital Colônia Santana, nos moldes da psiquiatria
científica.
A
Colônia Santana
Construído
no Salto do Imaruí, município de São José,
local afastado e de belas paisagens, teve como responsável
pela escolha de tal localização o Dr. Deniz Malta
Ferraz que não a fez por acaso. As instituições
da época tinham praticamente como pressuposto o afastamento
dos grandes centros, distando de Florianópolis cerca de 22
km e do Leprosário Santa Tereza a apenas 06 km. O psiquiatra
responsável era o Dr Adauto Botelho, defensor do modelo de
gestão asilar, realizado durante o governo de Nereu Ramos.
A escolha do local, embora nos princípios terapêuticos
do alienismo, não foi bem aceita por alguns médicos
e diretores da Colônia, como Antonio Santaella que afirmou
ser o local uma "zona fria e sombria, infestada de mosquitos,
(...) como o rio que corta o terreno em sua parte central que constitui
uma ameaça à vida dos pacientes, uma vez que em alguns
casos existem problemas relacionados à fuga e suicídio."
O local, a organização, os médicos escolhidos,
o tratamento, nada é por acaso, tudo tem função
terapêutica, mesmo que essa pareça, às vezes,
piorar o quadro da loucura, levando ou à fuga ou ao suicídio,
como atemoriza Santaella.
Sua inauguração oficial ocorreu em 1941, sendo transformado
em Instituto Psiquiátrico somente em 1994. A Colônia
representaria um avanço nos cuidados para com os alienados,
expresso nos discursos das autoridades locais que não teriam
mais que se preocupar com o destino dos loucos. Contudo, a superlotação
da Colônia viria a trazer mais dor de cabeça, especialmente
nas décadas de 50-60 quando então a população
interna de doentes atingia quase 800 pessoas para cerca de 500 leitos.
Separado por pavilhões, o que possibilita a classificação
do espaço por categoria, sendo cada ala específica
para um determinado tipo de paciente, o hospital contava com laboratórios,
RX, gabinete dentário, serviço otorrino-laringológico,
etc.
A melhor forma de disciplina, além dos remédios e
dos eletrochoques como forma de controle dos "sintomas da loucura",
era o trabalho. Assim, a Colônia Santana possuía uma
usina de açúcar, um engenho de farinha, um de torrefação
de café, um moinho de trigo e milho, além das hortas.
Em 1947, graças ao trabalho dos internados, obteve-se uma
produção de 30 sacos de milho, a padaria fabricou
81.258 kg de pão, 362 kg de macarrão, 44 kg de bolachinhas
e 554 kg de cuca. (SANTOS,1994, p. 87)
Eles eram loucos, mas eram eficientes para o trabalho, de acordo
com as teorias psíquicas nas quais o trabalho seria o grande
regenerador social e psíquico. Nas ruas eram tidos como criminosos,
ladrões, mendigos, mas no hospital eram regenerados pelo
trabalho, segundo a teoria da Laborterapia/Praxiterapia. O trabalho
era desenvolvido especialmente pelos homens, já que eram
a grande maioria dos pacientes, sendo primordialmente lavradores.
(SANTOS, 1994, p.89)
Na acepção dos médicos, o trabalho também
funcionava como um controle do tempo, exercendo uma benéfica
influência sobre os doentes, além de garantir a própria
sobrevivência da Colônia. A este respeito, é
interessante observar as cartas recebidas pelo diretor da colônia
de uma mãe queixosa a respeito do trabalho de seu filho,
sendo ambos descendentes de imigrantes italianos da colônia
de Nova Trento.
Em uma de suas muitas cartas, datada de 01/09/53, a mãe pede
informações do estado do filho e queixa-se de ter
sabido que o filho estava trabalhando na casa de um senhor e diz:
"Dr, se ele está trabalhando, porque não pode
voltar para casa? Ou ele não está completamente curado
ou é porque ele é internado como indigente, e não
pode pagar a cura."
O diretor Santaella, responde suas cartas periodicamente, afirmando
diversos "estados de seu filho" como "mais acomodado",
"continua no mesmo", "pode receber visitas breves",
"está trabalhando e apresenta melhora", "boa
adaptação hetero-familiar", e autoriza o paciente
a passar um tempo com a família, justificando que o trabalho
faz parte da sua recuperação.
A Colônia Santana veio suprir as necessidades do Estado de
possuir um hospital que estivesse ligado ao saber psiquiátrico,
já que havia uma grande demanda de doentes mentais. Foram
transferidos todos os pacientes com doença mental de Azambuja
para a Colônia Santana, tendo em vista que a Colônia
possuía mais estrutura para agregar tais pacientes, que agora
deveriam ser tratados e devolvidos à sociedade, mostrando
um novo entendimento sobre a loucura dentro da lógica utilitarista
do capitalismo, não centrada apenas na reclusão mas
na lógica da recuperação e da utilidade social,
como fala o próprio Dr Agripa de Castro Faria: "Assistir
o doente mental segregando-o da sociedade não consistirá
apenas o papel da psiquiatria."
Cerca de 110 pacientes do Asilo de Azambuja foram transferidos para
a Colônia ainda em 1939, além dos doentes de outras
regiões como Joinvile. Nesta época a Colônia
contava com 04 médicos e as enfermeiras religiosas da Divina
Providência, que cuidavam das alas femininas.
A Colônia possuía elevado número de estrangeiros,
especialmente de origem teuta e italiana, sendo a faixa etária
de 19 a 39 a mais comum, justificada, segundo o relatório
do serviço de assistência a psicopatas da colônia,
por ser essa a época da "eclosão de psicoses."
Entraram, em 1930, 42% de homens da zona rural, segundo o mesmo
relatório, e em 1942, 34,59% de mulheres da zona urbana,
a maioria domésticas.
A respeito desses estrangeiros, queremos chamar a atenção
para o tratamento conferido aos descendentes de italianos da região
do Vale de Itajaí, especialmente da cidade de Brusque, que
foram internados em Azambuja e transferidos para a Colônia
Santana em 1942.
O
tratamento na Colônia Santana referente aos descendentes italianos
da região
O
levantamento do número de casos de internação
referentes aos descendentes de italianos submetidos a tratamentos
psiquiátricos no ano de fundação da Colônia
Santana, 1942, registrou o total de nove internações,
sendo três transferidos do Asilo de Azambuja e quatro do Hospital
de Brusque (Carlos Renaux), um de Blumenau e um de Criciúma.
Dentre os nove casos analisados, cinco são mulheres e quatro
homens. A faixa etária predominava entre 29 e 37 anos (cinco
casos), havendo três registros entre 50 e 60 anos.
As profissões encontradas eram, no caso das mulheres, o trabalho
de domésticas (havia uma freira internada), e no caso dos
homens, a maioria era lavrador, sendo um dentista. A grande maioria
era casada, constando uma viúva, um solteiro e duas solteiras.
O tempo de permanência mais definido em cada prontuário
é cerca de 20 a 30 anos, apenas um ficou internado 03 anos
(1942-1945), quatro ficaram mais de 20 anos e quatro constavam apenas
o ano de entrada.
Os diagnósticos mais comuns eram: Esquisofrenia simples,
psicose maníaco-depressiva e epilepsia. Dentre as mulheres,
a esquisofrenia era a mais apontada, já os homens variavam
nas três categorias. Os prontuários analisados apresentavam
muitas distorções, como dois diagnósticos diferentes,
profissões diferentes e algumas informações
incompletas. Há porém, algumas informações
que se repetem e nos dão alguma pista acerca do cotidiano
e do tratamento na colônia.
A princípio, de acordo com a seqüência que aparece
nos prontuários, parece que o primeiro procedimento era dar
vacinas a todos os doentes, anti-varíola e anti-tifo, sendo
que a varíola foi dada uma única vez no ano de 1944
para todos, a anti-tifo repetidas vezes entre os anos de 1942 a
1950.
Em seguida, fazia-se exame bucal, contando o número de dentes
íntegros e os inaproveitáveis, exames de sangue, urina
e fezes. Na própria constituição dos prontuários
médicos fica nítida a intenção de se
"purificar a raça" mediante caracteres e descrição
físicas, como a cor dos olhos, cabelos, pêlos, cor
etc... além da medição do crânio, face,
tronco e membros, a título de "prescrição
étnica" conforme as teorias raciais para comprovação
de degenerescência. Há anotações em alguns
prontuários de que esses exames não foram feitos no
ato da entrada.
A prescrição médica variava entre "água,
sal, vichy, morfina, sindrato de sódio, entura de ópio,
acladoma, xarope de hortelã, revanoletas, soro, vitamina
Br, entura de beladona e valeriana, glicorena, várias doses
de luminal, sulfato de sódio, escobonato de sódio,
solicitato de sódio, xarope simples, hidrolato, bicarbonato
de sódio, xarope espectorante (vichy), litoridrato de codeína,
extrato epótico e comprimido de levedo."
Também era muito comum prescrever a Praxiterapia, ou seja,
a terapia do trabalho, e o exame somático, que consistia
em dados antropométricos, hábitos externos, vícios
de conformação congênitos e adquiridos, aparelho
respiratório, circulatório e digestivo, órgão
geniturinário, glândulas secção interna.
O exame psíquico revelava o estado do paciente, os sintomas
apresentados, "um estado calmo e triste, respondendo pausadamente,
não orientado no tempo, muito recusado e desconfiado, com
cuidado conseguimos apurar a sua atividade delirante. Diz o paciente
escutar a voz do Vosso Senhor Jesus Cristo, e escuta freqüentemente
a voz de Deus que o chama para a prática do bem." O
exame mental revelava também os desejos do paciente, "quer
ir para casa, se demonstra amável, confessa a prática
da masturbação, fiel aos ideais de sua religião
e nota-se uma natureza industriosa para o trabalho."
As análises a respeito do humor dos pacientes eram freqüentes,
e a preocupação com o trabalho uma das formas de avaliar
o seu estado de saúde. Alguns exames físicos mostravam
o problema da desinteria, alguns exames psíquicos mostravam
algumas dificuldades com a língua, sendo que uma das pacientes
falava o português mas misturava o italiano, seus pensamentos
"não são lógicos, confunde as pessoas,
instantes de alucinação ou delírios, humor
irritável."
Aparece neste prontuário, a ficha convulsoterapia, com data,
hora e temperatura e o número de eletrochoques (12). Em outro
prontuário feminino aparece uma tabela do ciclo menstrual,
na sua anamnesi consta que "teve 8 filhos, exaltação
psíquica, fala continuamente, repete constantemente as mesmas
frases, possui idéias delirantes.(...) desorientada em relação
ao tempo, meio e sobre si mesma, perturbações quanto
a tentativa de memória, alucinações auditivas,
demência esquizofrênica sem portanto, possibilidade
de recuperação." (grifo nosso) O diagnóstico
da esquizofrenia, neste caso, parece definitivo. Levava eletrochoques
em dias alternados. Esteve internada por 26 anos. Há observações
nas quais está escrito choque úmido ou coma, indicando,
possivelmente, as reações dos pacientes.
Um prontuário apresenta diferenças aos demais, pois
registra o pulso, pressão sanguínea e questões
referentes ao humor da pessoa, ao seu estado psíquico como
revelador de características anormais sempre associadas à
violência, agitação, ou à uma tristeza
profunda e desespero, na ordem de classificação que
segue abaixo:
Agitado/Agressivo/Alegre/Expansivo/Colérico/Deprimido/Julga-se
perseguido/Sabe onde está/Quer fugir/Quer suicidar-se/Conformou-se
com o internamento/Está ferido/A que seção
foi conduzido
Embasada
em um caráter científico, a Colônia Santana
ofereceu tratamentos aos seus pacientes, sendo no princípio,
alguns bastante rudimentares, como o uso da camisa de força
e o isolamento. Nas décadas de 40-50 a produção
e difusão de remédios mudaram bastante a manutenção
dos loucos, trocando as correntes de aço pelas químicas,
sendo inserido ao tratamento a insulinoterapia, sonoterapia, convulsoterapia
pelo eletrochoque e cardizol, eletronarcose, baneoterapia, lobotomia,
malarioterapia e praxiterapia. Tais aparelhos representavam o que
havia de mais moderno e avançado no desenvolvimento da psiquiatria.
Aparelho de eletrochoque - acervo do Museu do Hospital Colônia
Santana
Aparelhos Médicos déc. 40 - acervo do Museu do Hospital
Colônia Santana
Apesar dos tratamentos "científicos", permanecia
a crença na eficácia dos banhos frios, como o serviço
de balneoterapia. Outras atividades foram incorporadas como a assistência
"hetero-familiar", que através da permanência
do paciente trabalhando na casa de alguns funcionários, tentava-se
reintegrar o doente mental crônico à família.
Há que se ressaltar o relatório de 1942 do Dr Agripa
Faria quando este trata a respeito de uma das acepções
sobre a loucura como fator genético, como uma das formas
de profilaxia que:
"abrange
o círculo imenso de atividades pré e pós-natais
que visem impedir o nascimento de seres nitidamente anormais psiquicamente
e de cooperar ainda pelos meios gerais e especiais no sentido de
que os que são se não tornem doentes, representam
em syntese, o fim da higiene mental. (...) nossa tibieza, nosso
desalento doentio, nosso sentimentalismo mórbido impede-nos
de pôr em prática aos poucos, medidas sancionadas pela
ciência, põe-nos em situação de inferioridade.
É imprescindível que saiamos deste marasmo para que
possamos fechar o círculo das atividades da higiene e profilaxia
mentais, procurando dar amparo às idéas modernas sobre
o assunto, quais sejam, as baseadas nos conhecimentos sobre os problemas
da hereditariedade das doenças mentais."
O
doutor defende, pois, o que há de mais "avançando
e moderno", no pensamento da época, em relação
não apenas ao tratamento dos doentes mentais, (rejeitando
todo sentimentalismo mórbido que caracterizava a assistência
asilar, não científica, aos chamados alienados-separados)
mas à sua prevenção, instalando exames pré-nupciais
na Colônia e registros genealógicos das famílias
tronco de Santa Catarina, a fim de se "evitar o mal pela raiz",
como mostram os dados dos prontuários em relação
à cor, tamanho do crânio, cabelos, pêlos, olhos
etc...como uma "pista" para desvendar os sinais da loucura
com base nas questões anatômicas e fisionômicas,
pautadas pelas teorias eugenistas.
O doutor discorre em seu relatório diversos argumentos que
afirmam ser cientificamente comprovado esse tipo de tratamento,
numa clara alusão ao problema da loucura como uma doença
genética, mostrando que deve-se proibir, "dentro de
leis serenas, o casamento de anormais e para tanto não se
póde começar de afogadilho, senão sairá
obra manca. Vamos nos preparando aos poucos, com cuidado e carinho
com passos seguros!" É nítida a intenção
sincera em se promover o "aperfeiçoamento das raças
pelo aperfeiçoamento das espécies, e com isto a diminuição
dos males que se enxertam de um geito ou de outro, as psicoses."
Neste sentido, o doutor faz uma observação criteriosa
quanto à imigração e aos cuidados profiláticos
de forte cunho moralizante e normatizador, tendo como foco terapêutico
principal a saúde no lar através do trabalho, do saneamento
básico, da alimentação e, é claro, do
cuidado médico.
Para tanto, a fim de estabelecer "medidas serenas", o
doutor convocava o movimento de um "exército",
de uma "marcha", no combate às doenças,
em tom quase profético. Todavia, o trabalho é sempre
a melhor solução no combate às doenças
mentais que atingiam os "desocupados", assim como manter
uma vida digna, de forte cunho moral contra os chamados "vícios
elegantes" ou ainda, "a maledicência, a intriga"
a fim de constituir um homem, uma mulher, civilizados, na "marcha"
pelo amor, justiça, lei , ordem, harmonia e consequentemente,
dentro dessa lógica, a saúde mental:
"Acautelemo-nos,
pois, contra as imigrações prejudiciais, fator de
um caldeamento doentio, o caldeamento de 3 raças branco-preto-gentio,
dará em breve um tipo normotipo muito bom, pois o branco
é dominante. Ampare-se a saúde no lar, dando esgoto,
água, pão e médico, combatam-se os vícios
sociais elegantes desde o álcool até a cocaína,
(...) com medidas serenas, desde o jogo até o lupanar, impeça-se
o uso e abuso de filmes excitantes, (...) faça-se do trabalho
e do braço produtor uma verdade, movimente-se um exército
para libertar-nos da lepra, tuberculose, febre amarela, verminoses,
sifilis e malária, (...) oriente-se e regularise-se a vida
dos desocupado (que em geral são doentes mentais), dando-lhes
trabalho pelo Estado. Enfim, (...) amaldiçoe-se a intriga
como vício social capaz de desagregar, evite-se a malidicencia
como fonte desagregadora dos sentimentos de comunidade e por fim
apregoe-se o amor, a justiça, a lei, a ordem, distribua-se
liberdade, pão e saúde e teremos começada a
marcha para uma situação onde haverá sem dúvida,
mais amor entre os homens, mais harmonia entre as sociedades, onde
haverá por fim, mais saúde mental."
No
final do seu relatório, o doutor ainda discorre acerca das
diversas campanhas que se faziam necessárias como as campanhas
no lar, sobre o casamento, o dever do exame pré-nupcial e
a proibição do casamento entre anormais, das campanhas
nas escolas, atenção redobrada às crianças
e o tipo de leitura que realizam, campanha acirrada contra os vícios
chamados "elegantes", campanha de controle sobre os egressos
dos estabelecimentos penais, hospícios, campanha de controle
sobre os "desocupados que, em geral, são doentes mentais",
como uma forma de se "eliminar" o problema da mendicância
trancafiando os "pedintes". Tais campanhas deveriam contar
com o apoio do rádio, imprensa, governo, a fim de serem tomadas,
nas palavras do doutor, "todas as medidas eugênicas necessárias."
Dessa forma, abordar a questão da doença mental através
das instituições analisadas confere à história
da loucura em Santa Catarina diferentes sensibilidades e percepções
sobre a loucura, suas causas e suas conseqüências, em
momentos históricos bem delineados. Da instituição
asilar, de cunho religioso, até o hospital científico,
muitas normatizações foram estabelecidas a fim de
enquadrar o "diferente", o "anormal", o "perigoso",
dentro da embrionária sociedade catarinense.
Todavia, em toda a trajetória dos diferentes tratamentos
conferidos à loucura, a questão da moralização
e do controle social se fizeram imprescindíveis, como uma
necessidade primordial para a promoção da saúde
e prevenção da loucura. Assim, a assistência
filantrópica asilar promovia o controle do corpo através
do aprimoramento da alma mediante orações, jejuns,
sacrifícios, que garantissem a regeneração
da alma perturbada presa num corpo doente, sem preocupar-se especificamente
com a cura. A própria designação da palavra
"alienismo" confere a condição do internamento
não como promotora da cura mas como separação,
reclusão e exclusão social.
Mesmo com o desenvolvimento da racionalidade terapêutica,
com a "cientificização" da loucura, as teorias
raciais desempenharam um papel decisivo na constituição
da normalidade e do harmonioso convívio social, claramente
demarcado pelas tecnologias de poder exercidas - em nome da medicina
- sobre o corpo, para a manutenção da ordem e da saúde
social.
As palavras de ordem não eram mais a separação,
a segregação, o confinamento. Classificar, ordenar,
enquadrar, integrar e esquadrinhar são as metas dessa nova
política de saúde sobre a loucura, como a única
forma de "melhorar" a sociedade e garantir o seu progresso
através dos corpos sadios, eliminando as diferenças
para se efetivar o "penhor" de uma "igualdade"
constituída por "braços fortes", como prega
o Hino...
Nesta política de aprimoramento do corpo visando sua recuperação
pelo trabalho voltado para a produção e desenvolvimento
capitalista, inclui-se o tratamento dispensado aos descendentes
de imigrantes italianos, sem verificar, contudo, nenhuma diferença
de tratamento pela questão da nacionalidade, ao contrário,
esta nova política de saúde busca tornar úteis
todos os corpos, especialmente aqueles que já haviam colaborado
para a colonização da região.
Assim, buscamos ainda considerar a doença mental como produto
das interações entre as condições de
vida social com a trajetória específica do indivíduo
e sua estrutura psíquica, seus desejos pessoais, seus projetos
de vida. As condições externas para a realização
desses desejos e projetos podem ser determinantes ou para o desencadeamento
da doença mental ou para propiciar a saúde mental,
isto é, dependendo das possibilidades de realização
pessoal do indivíduo em todos os aspectos.
E neste sentido, o surgimento de instituições responsáveis
pelo tratamento da doença mental são significativos
para expressar os anseios da sociedade, suas sensibilidades diante
do estranho, do contingente, do suspeito, que pode sorrir para você,
em busca de afeto, ou simplesmente gritar, em busca de libertação.
Cabe, pois, às sociedades, aprender a respeito desse sorriso
ou desse grito, parando para ouvir e ver o louco, em vez de confiná-lo
em instituições religiosas, asilos ou celas de hospitais
e prisões, atitude própria de quem não sabe
ouvir, ou não quer ouvir. Quer apenas mandar.
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Falas e relatórios do Presidente da Província de Santa
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Correspondências variadas do Ministério dos Negócios
da Agricultura, Comércio e Obras Públicas do Rio de
Janeiro ao Presidente da Província de Santa Catarina
2) Hospital Carlos Renaux -Brusque
Ata da Irmandade Divina Providência do Asilo de Azambuja
Registros de Internação do hospital
3) Arquivo Sociedade Amigos de Brusque - Brusque
Relatório dos Diretores da Colônia
4) Instituto Histórico Geográfico de Santa Catarina
- Fpolis
Blumenau em Cadernos
5) Cúria Metropolitana de Florianópolis
Relatórios do padre Gabriel Lux
6) Hospital Colônia Santana
Serviço de assistência a psicopatas da Colônia
Santana, Secretaria do Interior e Justiça
Ata das internações e prontuários - 1942