EDIÇÃO ESPECIAL Caderno de Temas Existencias 
 
ARTIGO
 
Alternativas Cooperativas à Disciplina
Psicólogo e Sociólogo Maurício Castanheira 

"Disciplina", geralmente, refere-se a métodos de controle e punição das pessoas, a fim de socializá-las. A definição do verbo disciplinar em um dicionário (Morris, 1973) relaciona dois usos, incluindo (1) "treinar por instrução e controle; ensinar a obedecer à autoridade ou aceitá-la" e (2) "punir ou penalizar". Uma vez que esses usos pressupõem que os adultos fazem algo aos clientes, dizemos, portanto, que não "disciplinamos" os clientes. Ao invés disso, trabalhamos com os clientes enquanto eles constroem gradualmente suas próprias convicções sobre as relações com outros. A construção, não a instrução, é nosso objetivo para os clientes. Além disso, não "treinamos" clientes para o autocontrole obediente. A auto-regulagem autônoma é nossa meta, ao invés da obediência à autoridade.

Isto não significa, que os clientes em diversas situações podem "fazer o que bem entenderem". Na verdade, por exemplo, em sala de aula, os professores devem desenvolver estratégias para o manejo de uma classe de crianças e lidar com inevitáveis rupturas na cooperação. Os professores construtivistas não são passivos, pelo contrário! Eles são altamente ativos em seus esforços para facilitar a auto-regulagem das crianças. Sua atividade, entretanto, não assume formas unilaterais de treinamento, exercícios ou punições. Ao invés disso, ela assume formas cooperativas para permitir que as crianças construam convicções e sigam suas próprias regras sociais e morais, independentes da coerção adulta. As regras sociais e morais construídas pelas próprias crianças estão enraizadas em suas experiências pessoais no dia-a-dia. Essas experiências pessoais com companheiros e adultos levam-nas a construir relações de causa e efeito entre suas ações e as reações dos outros.

O que queremos dizer com "disciplina" por meio da cooperação é que o terapeuta coopera em termos do ponto de vista do cliente (o hífen em "co-opera" visa a salientar a operação em termos da perspectiva da criança). Isto é, o terapeuta estabelece uma atmosfera na qual os clientes sentem que o professor preocupa-se com eles, gosta quando estão juntos e os respeita, levando seus sentimentos, interesses e idéias em consideração. Quando vivenciam a cooperação do terapeuta, os clientes tendem a cooperar de bom grado com este mais tarde com seu próprio meio.

O PAPEL DA EXPERIÊNCIA PESSOAL NO
DESENVOLVIMENTO SOCIAL E MORAL


O desafio de socializar clientes é descobrir como ajudá-los a controlar seus impulsos, pensar além do aqui e agora e tornarem-se capazes de refletir sobre as conseqüências de suas ações. Isto envolve o descentramento necessário para considerar visões e sentimentos de outros. As alternativas para a disciplina são orgânicas em sua integração das preocupações pessoais, sociais e morais dos clientes à vida diária do dia a dia.
Em sua pesquisa sobre o julgamento moral dos clientes, Piaget (1932/1965) ressaltou que as crianças freqüentemente podem raciocinar em um nível superior quando centram-se em suas próprias experiências, ao invés de centrarem-se em situações hipotéticas. Nas experiências pessoais, as crianças estão mais propensas a perceber que suas próprias intenções são relevantes para o julgamento de suas ações.

Parece provável, portanto, que por meio das experiências pessoais os clientes possam, pela primeira vez, começar a considerar as motivações por trás das ações. Ao fazerem isso, eles começam a perceber os outros não mais como objetos, mas, sim, como sujeitos de idéias e sentimentos. Na psicoterapia, portanto, defendemos uma ênfase sobre as experiências pessoais dos clientes para o apoio do desenvolvimento social e moral. Essas experiências pessoais ocorrem em um contexto sócio-cultural, no qual os clientes escolhem e vão em busca de seus interesses.

DOIS TIPOS DE SANÇÕES

Ao discutir como os adultos lidam com as faltas cometidas pelas crianças, Piaget (1932/1965) faz uma distinção entre sanções expiatórias e sanções por reciprocidade, descritas abaixo.

Sanções Expiatórias ou Punitivas
Piaget descreveu sanções expiatórias como reações a transgressões com coerção e punição dolorosa. As sanções expiatórias são arbitrárias, no sentido de "não existir um relacionamento entre o conteúdo do ato culposo e a natureza de sua punição ... "Tudo que importa é que uma proporção precisa deve ser mantida entre o sofrimento infligido e a gravidade da falta" (p.205). As sanções expiatórias visam fazer a criança sofrer.

As sanções expiatórias ou punitivas, por serem arbitrárias, transmitem a idéia de vingança ou retaliação. Algumas pessoas acham que fazer a criança sofrer é uma medida preventiva. Piaget (1932/1965) descobriu, entretanto, que as crianças mais velhas vêem essas punições como ineficazes e que elas simplesmente tornam "o ofensor insensível e friamente calculista"(p.225). A atitude é de: "Papai vai me castigar, mas depois disso não vai fazer mais nada!"(p.225). Piaget comentou ainda: "Com que freqüência, na verdade, vemos crianças suportando estoicamente sua punição, porque decidiram de antemão agüentá-la ao invés de cederem" (p.225). Como exemplo existe a história de uma adolescente que fôra proibida por seus pais de furar as orelhas. Em um fim de semana em que os pais estavam fora da cidade, ela pediu a uma amiga que lhe furasse as orelhas. Quando os pais retornaram e viram o que a filha fizera, ficaram furiosos. Sua punição foi passar a ferro as roupas da família por seis meses. Vinte e cinco anos depois, ela ainda insiste que a punição valeu a pena.

Punições expiatórias incluem surras, fazer com que a criança fique de pé em um canto e fazer com que escreva "Eu não - " cem vezes. Humilhar e castigar as crianças de uma forma emocionalmente intensa também são formas de sanções expiatórias. Qualquer punição que vise fazer a criança sofrer ajusta-se a esta categoria.

Piaget descobriu que as crianças pequenas acreditam que a punição é necessária e, assim, quanto mais dura, melhor. Elas acreditam que a punição infligida deve ter uma relação de quantidade com a falha cometida. Crianças mais velhas, em comparação, não avaliam o valor de uma punição em termos de sua severidade. Ao invés disso, elas acreditam que a punição, cuja finalidade é fazer o indivíduo que errou sofrer, não faz sentido. Elas crêem que as sanções por reciprocidade são mais justas e mais efetivas.

Terapeutas deveriam concordar com elas. Não punimos os clientes. Ao invés disso, os terapeutas devem invocar sanções que têm a característica de reciprocidade.

Sanções por Reciprocidade
Embora as sanções expiatórias sejam adequadamente chamadas de punições, este não é o caso das sanções por reciprocidade. Infelizmente, o tradutor para o inglês de The Moral Judgment of The Chíld ["O julgamento Moral da Criança"] de Piaget (1932/1965) traduziu sanções como punições. Ao invés de ver as sanções por reciprocidade como punições, recomendamos pensar nessas como conseqüências. Contrastando com as sanções expiatórias, as sanções por reciprocidade salientam a ruptura do vínculo social pelo mau comportamento de uma criança. Todas as faltas ocorrem em um contexto social, envolvendo relacionamentos sociais que são, de alguma forma, perturbados como resultado do mau ato. Quando os materiais são usados incorretamente ou quebrados, outros que também desfrutam de seu uso são privados de fazê-lo e podem ficar zangados ou tristes. Quando alguém mente, outros podem sentir que não podem mais confiar naquele que contou a mentira. Ocorre uma perturbação no vínculo social, que exige reparo. Assim, o professor apenas precisa chamar a atenção para a conseqüência da ruptura das relações sociais. Piaget afirma que "a censura não precisa mais ser enfatizada por meio de punição dolorosa: ela é exercida plenamente, desde que as medidas tomadas por meio da reciprocidade façam com que o transgressor perceba o significado de suas mãos".

Para que uma sanção seja efetiva, a criança deve valorizar o vínculo social e desejar sua restauração. Portanto, relacionamento pessoal próximo entre professores construtivistas e as crianças oferece uma importante base para o uso efetivo de sanções por reciprocidade. Da mesma forma, as relações das crianças umas com as outras também são cruciais para a efetividade das sanções por reciprocidade.
As sanções por reciprocidade têm em comum a comunicação rompimento de um vínculo social tal como desapontamento, raiva ou perda da confiança. Isto é, a disponibilidade mútua em um relacionamento foi interrompida. Em uma sanção por reciprocidade, a pessoa prejudicada responde à ofensa ou ferimento retirando a confiança ou boa-vontade. Ela sinaliza claramente que a mutualidade está perturbada e que o causador do dano não pode mais desfrutar dos prazeres e vantagens do relacionamento anterior. A fim de restabelecer a antiga mutualidade, aquele que errou deve agir no sentido de compensar o sentimento de desconforto e restaurar o relacionamento.

Piaget (1932/1965) discutiu seis tipos de sanções por reciprocidade que oferecem uma maneira útil de pensar sobre como enfrentar as transgressões em sala de aula. Qualquer dessas sanções por reciprocidade pode ser implementada de um modo punitivo, o que restringe a reciprocidade e a transforma em punição.

Além disso, os clientes podem ainda interpretar as sanções por reciprocidade como expiatórias. Portanto, deve-se tomar muito cuidado ao aplicar-se essas sanções. Algumas vezes, entretanto, apesar de todos os esforços do terapeuta, um cliente criança pode vivenciar e interpretar uma sanção por reciprocidade como sendo injusta.
As sanções por reciprocidade incluem conseqüências naturais e lógicas. As conseqüências lógicas incluem compensação, privar o transgressor do objeto mal-utilizado, exclusão, fazer com o cliente o mesmo que este fez: a censura.

Conseqüências Naturais
As conseqüências naturais resultam diretamente das ações. Essas assumem um significado especial quando o transgressor sabe que o grupo social também sofre conseqüências. Se páginas de um livro são rasgadas, a conseqüência natural é que ninguém mais poderá lê-lo. Se a falta de cuidado resulta em dano ou perda das peças de um jogo, este não será mais tão agradável de usar. Se você fica conversando e não escuta a apresentação de atividades na roda, não saberá o que pode fazer. Se você não coloca as tampas das canetas coloridas, estas secam e ninguém mais pode usá-las.

Compensação
Compensar significa pagar, consertar ou substituir um objeto quebrado ou furtado, a fim de restaurar a situação anterior ao erro. H, uma criança do jardim de infância, por exemplo, trouxe um novo dinossauro para a classe a fim de substituir aquele cujo rabo ele arranca com uma mordida. K, que rasgou o desenho que E fizera, consertou-o e devolveu-o a ela. Ações assumidas com o fim de restaurar o relacionamento rompido também são compensações. Pedidos de desculpas, quando livremente oferecidos com espírito de arrependimento, podem ser uma forma de compensação. Embora os terapeutas jamais exijam pedidos de desculpas eles alegram-se ao testemunharem solicitações sinceras de perdão como um sinal de que os clientes reconhecem como suas próprias ações afetam o modo como são tratados por outros.

Exclusão
A exclusão do grupo é uma conseqüência lógica para a violação dos direitos de outros. As crianças freqüentemente excluem outras das brincadeiras, quando essas violam direitos. Z, de 3 anos, por exemplo, responde aos beliscões de R dizendo-lhe que não quer mais ser sua amiga. Se uma criança comporta-se agressivamente no parquinho, o professor pode exigir que ela brinque sozinha por algum tempo.
Esta conseqüência freqüentemente é difícil de ser aplicada sem transformá-la em punição. O procedimento de "retirada de atividade"é uma punição amplamente usada que não é uma sanção por reciprocidade.

Censura
Piaget (1932/1965) ressaltou que a simples censura (a mera opinião de alguém de que foi, de alguma forma, decepcionado ou prejudicado por ações do outro ou de que este, de alguma forma, prejudicou o relacionamento) é uma sanção por reciprocidade quando possibilita que "o transgressor perceba como rompeu o vínculo da solidariedade". "Maria recorda vividamente o dia em que, quando estava com 4 ou 5 anos, sua mãe respondeu a algo errado que ela fizera puxando-a para perto de si e, com um tom de tristeza, disse-lhe o quanto estava desapontada, o remorso resultante foi bem mais forte do que uma possível surra".
Devemos advertir enfaticamente que, a fim de ser uma sanção por reciprocidade, a censura não pode ser apresentada como proveniente da autoridade. Ela deve estar baseada na perturbação do relacionamento.
Piaget (1932/1965) notou que as sanções por reciprocidade realmente contêm um elemento de sofrimento. Contudo, ele mostrou que este sofrimento não é infligido para finalidade de sofrimento, mas é "simplesmente um resultado inevitável da quebra do vínculo da solidariedade".
Existem ainda, as sanções do tipo privar o transgressor do objeto mal-usado e fazer ao cliente o mesmo que ele faz.
O objetivo da conseqüência é comunicar que aquele que errou perturbou um relacionamento interpessoal.

CONCLUSÃO

Os terapeutas não "disciplinam"os clientes no sentido de controlá-los ou puni-los. Ao invés disso, as alternativas fenomenológicas a este tipo de disciplina centram-se em estratégias de apoio à construção, pelos clientes, de convicções sobre o relacionamento cooperativo com outros. A distinção de Piaget entre sanções expiatórias e por reciprocidade é a base para o planejamento das reações aos maus atos. Mais especificamente, o critério de reciprocidade leva os terapeutas a tipos de sanções (discutidas por Piaget em número de seis) que salientam os vínculos sociais rompidos pelas faltas dos clientes. A fim de reduzirem a possibilidade dos clientes sentirem as conseqüências como arbitrárias e punitivas, os terapeutas devem seguir diretrizes que protegem a autonomia dos clientes e levam ao seu amadurecimento.

Psicólogo e Sociólogo Maurício Castanheira 
Professor do Mestrado da UGF e do CEFET  


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