| ARTIGO |
| Alternativas Cooperativas à Disciplina | ||
"Disciplina", geralmente, refere-se a métodos de controle e punição das pessoas, a fim de socializá-las. A definição do verbo disciplinar em um dicionário (Morris, 1973) relaciona dois usos, incluindo (1) "treinar por instrução e controle; ensinar a obedecer à autoridade ou aceitá-la" e (2) "punir ou penalizar". Uma vez que esses usos pressupõem que os adultos fazem algo aos clientes, dizemos, portanto, que não "disciplinamos" os clientes. Ao invés disso, trabalhamos com os clientes enquanto eles constroem gradualmente suas próprias convicções sobre as relações com outros. A construção, não a instrução, é nosso objetivo para os clientes. Além disso, não "treinamos" clientes para o autocontrole obediente. A auto-regulagem autônoma é nossa meta, ao invés da obediência à autoridade. Isto não significa, que os clientes em diversas situações podem "fazer o que bem entenderem". Na verdade, por exemplo, em sala de aula, os professores devem desenvolver estratégias para o manejo de uma classe de crianças e lidar com inevitáveis rupturas na cooperação. Os professores construtivistas não são passivos, pelo contrário! Eles são altamente ativos em seus esforços para facilitar a auto-regulagem das crianças. Sua atividade, entretanto, não assume formas unilaterais de treinamento, exercícios ou punições. Ao invés disso, ela assume formas cooperativas para permitir que as crianças construam convicções e sigam suas próprias regras sociais e morais, independentes da coerção adulta. As regras sociais e morais construídas pelas próprias crianças estão enraizadas em suas experiências pessoais no dia-a-dia. Essas experiências pessoais com companheiros e adultos levam-nas a construir relações de causa e efeito entre suas ações e as reações dos outros. O
que queremos dizer com "disciplina" por meio da cooperação
é que o terapeuta coopera em termos do ponto de vista do cliente (o
hífen em "co-opera" visa a salientar a operação em termos
da perspectiva da criança). Isto é, o terapeuta estabelece uma atmosfera
na qual os clientes sentem que o professor preocupa-se com eles, gosta
quando estão juntos e os respeita, levando seus sentimentos, interesses
e idéias em consideração. Quando vivenciam a cooperação do terapeuta,
os clientes tendem a cooperar de bom grado com este mais tarde com
seu próprio meio. Parece
provável, portanto, que por meio das experiências pessoais os clientes
possam, pela primeira vez, começar a considerar as motivações por
trás das ações. Ao fazerem isso, eles começam a perceber os outros
não mais como objetos, mas, sim, como sujeitos de idéias e sentimentos.
Na psicoterapia, portanto, defendemos uma ênfase sobre as experiências
pessoais dos clientes para o apoio do desenvolvimento social e moral.
Essas experiências pessoais ocorrem em um contexto sócio-cultural,
no qual os clientes escolhem e vão em busca de seus interesses. As sanções expiatórias ou punitivas, por serem arbitrárias, transmitem a idéia de vingança ou retaliação. Algumas pessoas acham que fazer a criança sofrer é uma medida preventiva. Piaget (1932/1965) descobriu, entretanto, que as crianças mais velhas vêem essas punições como ineficazes e que elas simplesmente tornam "o ofensor insensível e friamente calculista"(p.225). A atitude é de: "Papai vai me castigar, mas depois disso não vai fazer mais nada!"(p.225). Piaget comentou ainda: "Com que freqüência, na verdade, vemos crianças suportando estoicamente sua punição, porque decidiram de antemão agüentá-la ao invés de cederem" (p.225). Como exemplo existe a história de uma adolescente que fôra proibida por seus pais de furar as orelhas. Em um fim de semana em que os pais estavam fora da cidade, ela pediu a uma amiga que lhe furasse as orelhas. Quando os pais retornaram e viram o que a filha fizera, ficaram furiosos. Sua punição foi passar a ferro as roupas da família por seis meses. Vinte e cinco anos depois, ela ainda insiste que a punição valeu a pena. Punições expiatórias incluem surras, fazer com que a criança fique de pé em um canto e fazer com que escreva "Eu não - " cem vezes. Humilhar e castigar as crianças de uma forma emocionalmente intensa também são formas de sanções expiatórias. Qualquer punição que vise fazer a criança sofrer ajusta-se a esta categoria. Piaget descobriu que as crianças pequenas acreditam que a punição é necessária e, assim, quanto mais dura, melhor. Elas acreditam que a punição infligida deve ter uma relação de quantidade com a falha cometida. Crianças mais velhas, em comparação, não avaliam o valor de uma punição em termos de sua severidade. Ao invés disso, elas acreditam que a punição, cuja finalidade é fazer o indivíduo que errou sofrer, não faz sentido. Elas crêem que as sanções por reciprocidade são mais justas e mais efetivas. Terapeutas
deveriam concordar com elas. Não punimos os clientes. Ao invés disso,
os terapeutas devem invocar sanções que têm a característica de reciprocidade. Para
que uma sanção seja efetiva, a criança deve valorizar o vínculo social
e desejar sua restauração. Portanto, relacionamento pessoal próximo
entre professores construtivistas e as crianças oferece uma importante
base para o uso efetivo de sanções por reciprocidade. Da mesma forma,
as relações das crianças umas com as outras também são cruciais para
a efetividade das sanções por reciprocidade. Piaget (1932/1965) discutiu seis tipos de sanções por reciprocidade que oferecem uma maneira útil de pensar sobre como enfrentar as transgressões em sala de aula. Qualquer dessas sanções por reciprocidade pode ser implementada de um modo punitivo, o que restringe a reciprocidade e a transforma em punição. Além
disso, os clientes podem ainda interpretar as sanções por reciprocidade
como expiatórias. Portanto, deve-se tomar muito cuidado ao aplicar-se
essas sanções. Algumas vezes, entretanto, apesar de todos os esforços
do terapeuta, um cliente criança pode vivenciar e interpretar uma
sanção por reciprocidade como sendo injusta. Os terapeutas não "disciplinam"os clientes no sentido de controlá-los ou puni-los. Ao invés disso, as alternativas fenomenológicas a este tipo de disciplina centram-se em estratégias de apoio à construção, pelos clientes, de convicções sobre o relacionamento cooperativo com outros. A distinção de Piaget entre sanções expiatórias e por reciprocidade é a base para o planejamento das reações aos maus atos. Mais especificamente, o critério de reciprocidade leva os terapeutas a tipos de sanções (discutidas por Piaget em número de seis) que salientam os vínculos sociais rompidos pelas faltas dos clientes. A fim de reduzirem a possibilidade dos clientes sentirem as conseqüências como arbitrárias e punitivas, os terapeutas devem seguir diretrizes que protegem a autonomia dos clientes e levam ao seu amadurecimento. Psicólogo
e Sociólogo Maurício Castanheira Conheça os Psicoterapeutas Existenciais na Internet Para incluir seu nome clique aqui Psicólogo, inscreva-se no Curso à Distância: Curso de Introdução ao Existencialismo via Internet ou Correio |
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