A cultura do
instantâneo
Nina Eiras Dias de Oliveira
CRP 05/09409
“Um, dois, três e ... já!” começa a correria: todas as crianças querem
chegar entre os primeiros pois, “... quem chegar por último é bobão!”
Com grande freqüência lido, no consultório, com a dificuldade
das crianças em enfrentarem o perder no jogo. São filhos de uma cultura que
valoriza a competição e o ganhar. Assim, nos confrontamos com uma corrupção de
vulto cada vez maior (futebol, política, etc); com um atropelar
quem e o quê estiver na frente para alcançar suas metas; de uma busca
desenfreada pela aquisição de ter cada vez mais; de baixa tolerância e
paciência com relação ao ensaio-e-erro no processo de aprendizagem e aquisição
de novos conhecimentos; de valorizar
pessoas e países que consigam atingir um crescimento rápido. Hoje, a China é
apontada como modelo econômico sem muito se discutir ou refletir sobre o modo e
o preço deste crescimento.
Para atender a
necessidade de emagrecimento rápido lança-se mão das bioplastias,
lipo-esculturas e injeções no corpo de substâncias
pouco conhecidas e na incerteza das evoluções futuras. Os jovens tomam viagra numa proporção cada vez maior desencadeada pela
chamada síndrome do temor da
performance
(medo de não corresponder às expectativas das parceiras, de não fazer jus ao esteriótipo do “garanhão”). Os alunos não têm paciência
para desenvolver um projeto na escola. Querem imprimir a velocidade da Internet
Merleau-Ponty, filósofo
existencialista, escreveu: “ Nascer é, simultaneamente,
nascer do mundo e nascer para o mundo. Sob o primeiro aspecto, o mundo já está
constituído e somos solicitados por ele. Sob o segundo aspecto, o mundo não
está inteiramente constituído e estamos abertos a uma infinidade de possíveis.
Existimos, porém, sob os dois aspectos ao mesmo tempo. Não há, pois,
necessidade absoluta nem escolha absoluta, jamais sou uma coisa e jamais sou
uma pura consciência... A situação vem em socorro da decisão e, no intercâmbio
entre a situação e aquele que a assume, é impossível delimitar a “parte que
cabe à situação” e a “parte que cabe à liberdade””. Estamos imbricados no
mundo. Há um enlace permanente no fluxo desta rede.
Na vida tropeçamos
em acertos e erros, ganhos e perdas, vitórias e frustrações. Amadurecer implica
no modo como lidamos com toda essa diversidade momento a momento. Não podemos
tudo. Estamos, sempre, fazendo escolhas. E cada escolha implica em ganhar e
perder. Ao escolhermos uma coisa abrimos mão de outras coisas. Não há como
agarrar tudo. Às vezes, um limite limita um modo de ser e de atuar e ao ser
enfrentado e aceito pode mostrar outros caminhos possíveis de serem trilhados
em relação a necessidades, ajustes, adaptações, abertura a novos conhecimentos,
etc. O que significa perder e ganhar, especificamente, em cada situação? Para
que, deixar o filho ganhar um jogo ou só ganhar de você? Por que o filho não
pode ser frustrado? Por que ele não pode perder? Quais
valores escolhemos e o que fazemos para que eles, realmente, façam parte
das nossas vidas e do nosso mundo?
Ao ensinarmos a um
filho que só vale ganhar estamos dificultando o caminho dele em relação à vida
e com relação aos obstáculos que, certamente, virão.
*Psicóloga existencial infantil, especialista clínica pelo CRP/RJ