Abrindo o coração
Por: Nina Eiras Dias de Oliveira
O coração, por
milhares de anos, foi cercado de mistérios e superstição, visto como o centro
das emoções do homem e a grande fonte de vida. Os egípcios antigos, antes de
embalsamar seus mortos, retiravam-lhes todos os outros órgãos do corpo,
deixando, apenas, o coração. Para eles o coração era a sede da alma, centro de
inteligência e de todas as emoções humanas. Na pré-história, em muitos desenhos
nas paredes das cavernas, o coração é apontado como alvo para o caçador.
Muitas descobertas
foram feitas a partir de então, desvendando os mistérios do órgão. Os avanços
tecnológicos são fascinantes e nos permitem, hoje, fazer mais e mais coisas
embora tenhamos a sensação de ter cada vez menos tempo. Nunca antes em nossa
história fomos tão poderosos. A cirurgia cardíaca, por exemplo, jamais teria
atingido o grau de avanço atual não fossem as muitas e sofisticadas técnicas
diagnósticas. Mas, observando a equipe do dr. Kanin Kalil Kassab
(1), no Hospital Santa Teresa, em Petrópolis, percebo que não só a sofisticação
e conhecimento tecnológico estão envolvidos no sucesso cirúrgico. O dr. Kalil, habilmente, lida com
uma série de dificuldades como: contorções, dilatações, lapidações,
sangramentos e estenoses nos procedimentos cirúrgicos e se apóia numa equipe
que, bem coordenada, encontra na Graça toda presteza, generosidade e capacidade
de liderança no bem estar social da equipe; na Andréa a agilização da entrega
dos instrumentos necessários, no Dr. “Zé Carlos” a parceria nos procedimentos
cirúrgicos; no dr. Ernani o controle da anestesia e certeza de que o paciente
tira aquele “soninho” necessário e oportuno e, no “Beto”, toda
técnica na coordenação do coração-pulmão artificial. Aliás, uma máquina
fantástica que tornou possível ao cirurgião abrir e olhar o interior do coração
o que não se podia fazer antes pois, com uma abertura
muito pequena, o sangue turvava a visão, dificultando a cirurgia. Juntos agem
em prol de salvar a vida e oferecer melhores condições ao paciente em sua
existência. João Augusto Pompéia (2), afirma que a ação médica, na verdade,
implica em se adiar a morte e salvar o tempo. “Salvar o tempo não é salvar
horas, dias, anos; é salvar aquela condição em que os homens podem dizer: agora
é tempo de plantar, agora é tempo de colher, agora é tempo de trabalhar, agora
é tempo de descansar; agora é tempo de cuidar, agora é tempo de se entregar; e,
assim, sucessivamente.”
No acompanhamento
com pacientes cardiopatas percebo que o adoecer pode
nos trazer não só a limitação e redução da liberdade de realizar nosso próprio
existir em sua totalidade mas, também, apontar para
uma proximidade com um jeito de ser mais próprio. Medard
Boss, médico psiquiatra, assinala que é necessário
esclarecer duas questões junto com o paciente: qual é a relação com o mundo que
está perturbada e, de que maneira esta relação se
mostra na esfera corporal.
Baseado no
conhecimento das Ciências Naturais, o homem é compreendido segundo a divisão corpo
material-imaterial ou interno-externo ou, ainda, físico-psíquico. Heidegger,
pensador existencialista, inaugura um novo modo de pensar e conhecer o homem.
Neste modo, o homem não é pensado como constituído por partes distintas e
separadas como, por exemplo, o corpo físico e a dimensão psíquica. Ida
Elizabeth Cardinalli (3) diz que, nesta perspectiva,
“as patologias psicossomáticas são compreendidas como a manifestação de
perturbações, limitações ou restrições na dimensão corporal que dizem respeito
à totalidade do existir do paciente e não, especificamente, à alma ou ao
corpo”.
Acrescenta ainda
que ” A doença e a saúde, ao mesmo tempo, estão
orientadas por poder realizar e por ser livre. Na doença ocorre uma privação
mais acentuada de realizar livremente seu existir enquanto, na saúde, este
realizar se mostra por poder dispor mais livremente das possibilidades de
relação que se apresentam na abertura do mundo de uma pessoa específica. Tanto
na doença como na saúde a realização do existir de cada pessoa acontece num
contexto de significação e sentido. No campo médico, há o sentido de priorizar
a formação de especialistas. Essa formação permite que o profissional conheça
profundamente sua área de atuação mas, ao mesmo tempo, dificulta ao médico cuidar do paciente como um todo, quando ele
se atém às disfunções de regiões específicas como o coração, por exemplo. A
posição de Boss constitui um alerta importante para
os médicos no sentido de considerarem, além do tratamento das patologias
específicas, tanto a atitude do paciente em relação à sua doença quanto as
limitações que as diversas patologias acarretam no existir de cada paciente,
para que ocorra um melhor atendimento da pessoa e não apenas da patologia. No
campo psicológico, especialmente no da psicoterapia, podemos observar nos
pacientes que, entre outras dificuldades, apresentam “doenças físicas” como
estas interferem na maneira como podem encaminhar sua vida. Observamos, também,
que o modo como uma pessoa específica se relaciona consigo mesma e com o mundo
está imbricado no seu adoecer e, sobretudo, no modo como ela cuida ou descuida
da sua doença e do seu viver. Assim, percebemos que há uma inter-relação entre
o modo de existir do paciente com a manifestação de patologias consideradas
meramente orgânicas.”
(1) - Drs.: José Carlos Camacho, Elias
Gouvêa, Ernani Filho, técnicos: Graça Fernandes, Andréa Mesquita e Roberto Gomes
(2) – Artigo: Corporeidade – Revista Daseinsanalyse,
2002
(3) – Artigo: Daseinsanalyse: Corpo e corporeidade, Revista Daseisnsanalyse, 2002
*Psicóloga existencial infantil, especialista clínica pelo CRP/RJ
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